terça-feira, 24 de junho de 2014

Atitudes perfeitas!

"Somos suspeitos de um crime perfeito,
Mas crimes perfeitos não deixam suspeitos..."
(Engenheiros do Hawaii)


Todos são inocentes até que provem ao contrário. Mas na vida sempre andaremos em atitudes suspeitas. A nossa escritora Waleska Zibetti tem razão, assim como a Gabriella Lima também.
Mas esqueceram de tocar em um ponto: até que momento somos nós a andar em atitudes suspeitas?
Até que ponto o nosso desconfiômetro  estará ligado em carga máxima?
Até quando vamos ter essa falta de confiança no semelhante?
Já perdi as contas de quantas vezes fui assaltada, inclusive por pessoas bem vestidas, então, não é a aparência que importa, mas, o caráter e personalidade que se formou em nossa sociedade! 
Brancos, Negros, Mulheres, Homens, classe a, b, c... políticos, profissionais liberais... todos os dias em atitudes suspeitas. Mas qual era a atitude suspeita?

As respostas são as mais diversas e até contraditórias.
Até o próximo Post!

quinta-feira, 19 de junho de 2014

TODOS SÃO SUSPEITOS



Por Gabriella Gilmore

Me desculpe Wal, mas até que provem o contrário, para mim, todos são suspeitos.
Vivemos num mundo no qual não ser neurótico é anormal. Sim. Eu sou neurótica e não me tornei uma atoa. Mas a minha paranoia só é suspeita quando estou andando na rua e sempre tem alguém andando colado em mim, ou atravessa a rua logo quando eu acabei de atravessar ou quando estou em alguma fila ou entrando em algum ônibus. Para mim, a sensação de que serei assaltada de novo me vem toda hora.
Antes de eu ser assaltada há uns anos atrás, eu não suspeitava de ninguém. Achava que todo mundo era do bem. Andava falando ao celular, abria a bolsa no meio da rua, ficava em fila sem me preocupar em colocar a mochila na frente do corpo, porque vivia numa bolha em que assaltos só aconteciam com as pessoas lá de fora.
Uma vez, indo para a virada do ano novo, um casal mal arrumado nunca chamaria minha atenção, até aquele dia, quando fui abordada por eles tendo de entregar minha bolsa de colo. Levaram tudo o que eu tinha: dinheiro, celular, maquiagem, cd da Avril Lavigne (que nem era meu), uma garrafa de vinho e um Pack de Trident.
A partir de então, todo casal mal arrumado, de chinelo e boné, passou a ser suspeito.
Anos depois, na fila do ônibus, pronta para subir ao veiculo, algum sujeito, abriu minha mochila sem eu perceber e levou meu celular novinho. Só fui perceber isso quando sentei e vi a mochila aberta. Seis meses depois, com um celular ainda mais caro, o ocorrido passa a se repetir, e dessa vez com o ônibus vazio. Só havia eu, e o meliante atrás de mim, sentado, enquanto eu estava de pé perto à porta esperando o ônibus parar para eu sair.
Novamente abriu a mochila e levou o aparelho. Sim, o raio cai duas vezes no mesmo local.
A partir de então, passei a andar só com a mochila na frente, e todo mundo que cola em mim, seja em filas ou enquanto estou andando na calçada é suspeito, até que o mesmo siga quilômetros a minha frente sem ter me feito nada. “Esse era inocente”.
A sensação de impotência e insegurança é horrorosa, porém não foi algo que eu criei sozinha.
E para resumir o meu pensamento, segue uma frase de um autor leitor corporal que a pouco descobri.

“As nossas expectativas, sem dúvida, nos levam a pensar de formas determinadas. E como acabamos de ver, é difícil abandoná-las. Por isso a primeira impressão nos marca tanto e torna difícil retificar opiniões. (...) A aparência de uma pessoa determina então de maneira inevitável a primeira impressão que esta nos causa.” – Thorsten Havener – em O mentalista.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Atitude, Sim. Suspeita, Talvez.




Sempre me intriga a notícia
de que alguém foi preso
“em atitude suspeita”.
É uma frase cheia de significados. 
(Luis Fernando Veríssimo)

Reparou que quando não andamos na mesma mão da maioria rapidamente ganhamos rótulos no meio em que vivemos? É muito difícil as pessoas entenderem que cada pessoa é um ser único. E que gostos, credos, cores... Não formam caráter. Aliás, o que é mesmo caráter, heim? Caráter, para a psicologia é a individualidade pessoal e social de alguém. Individualidade... Cada ser nesse mundo é um indivíduo ímpar, incomparável e insubstituível.  Logo, não há como pensamentos serem exatamente iguais.

A sociedade criou estereótipos comportamentais tão fortes e tão antigos que esses se impregnaram em nós como se fossem parte do nosso próprio  DNA. Parece tolice, não é? Mas pense em quantas vezes você evitou a manga com leite ou passar embaixo de escada? Ainda acha pouco? Quantas vezes ao perceber o olhar de uma criança de rua vindo em sua direção, você apertou contra si mais forte a bolsa que carregava temendo o roubo? Quantas vezes você se surpreende com um vídeo onde um morador de rua revela algum talento não compatível a sua realidade social? Mas será que toda criança de rua rouba, todo mendigo é burro, todo roqueiro adora o diabo, todo evangélico está salvo, todo anjo é puro? A generalização e banalização dos comportamentos podem acarretar no não entendimento de um todo e por isso mesmo no cometimento de injustiças.

Certa vez um homem que admirava muito por sua inteligência sentenciou em uma conversa: “Não se pode amar uma prostituta. Elas não querem ser de família”. Todo o meu encanto por aquele homem quebrou-se como cristal ao cair no chão. Explico-me. Convivi com prostitutas, conversei com elas várias vezes, e suas histórias são geralmente de muita dor. E a grande maioria adoraria não estar ali e ter o direito a ter um casamento sóbrio, feliz onde elas fossem amadas e respeitadas. São mulheres de posição firmes e aparentemente frias. Contudo, muitas delas escondem nas atitudes distantes corações apaixonantes para poderem continuar vivas naquele meio. Este homem, nordestino, com certa idade, criado para ver até mesmo a própria esposa como procriadora; teve, provavelmente, esse estereótipo implantado nele desde cedo. E hoje se incapacitou para uma visão mais ampla da situação.

Outra situação vivi há pouco tempo quando saí de uma reunião em uma empresa e ao ligar o meu celular um dos supervisores percebeu que eu ouvia Kiss. Ele me perguntou “Você é roqueira?”. E eu com um sorriso amistoso disse que sim. Ele disse como pode uma mulher tão refinada gostar disso. Fui obrigada a gargalhar dentro do elevador. E depois vendo que ele não cederia dentro de sua concepção eu o encarei e disse baixinho: “O pior você nem imagina. Também como morcegos!”.

O que quero com os dois exemplos é mostrar que é preciso que aprendamos um meio de fugir desses conceitos que nos incutem antes mesmo que possamos ter uma consciência crítica do assunto. É preciso que, como pais e educadores, comecemos a construir uma nova geração capaz de entender por si e para si o conceito de certo e errado, bom e ruim, bem e mal... É possível, por incrível que pareça fazer uma criança pensar em ação e reação, atos e consequências, erro e perdão... Sem ter que falar em pecado, sem ter que criar fórmulas para tudo, sem ter que criar modelos... Educar com consciência e respeito, com amor consciente e não cego. É importante que os pais entendam que seus filhos são para o mundo e como tal serão responsáveis pelo o que adicionarem ao mesmo.

Ninguém é suspeito por andar de preto, por ser caladão, por falar com plantas, por ler poesia. Nenhum menino é homossexual só porque usa rosa. Nenhuma menina é lésbica só porque joga bola. Deus não castiga se você xingar um palavrão quando estiver com raiva. Os pais não têm sempre razão porque são humanos. Ninguém tem que agir contra si para se enquadrar em um grupo.  É preciso que nos conheçamos melhor que aos outros. Ainda que isso nos deixe em atitude suspeita. 

Até breve!!!

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O Desembarque



“Então, é isso! 
exclamou de repente em voz alta. - 
Que alegria!”
(Liév Tosltoi, in "A Morte de Ivan Ilitch")

É hora de se despedir de Ivan. Nós desembarcamos aqui, enquanto o trem suavemente deixa a plataforma levado um Ivan mais leve e sem sofrimento. Consciente de que a passagem e todo o ritual de dolorosa expurgação eram necessários. Aceno adeus a um Ivan que ruma para o seu destino tranqüilo depois do reencontro consigo, depois de esgotar todas as suas dúvidas e de realmente enxergar-se.

Mas será que precisamos realmente passar por essa tortura física e psicológica para só no fim nos encararmos dentro de nossas reais condições humana? Acho que não! Se nos propusermos a passar um tempo dentro de nós a cada dia nos avaliando, creio que nós nos reorganizamos por não permitindo que nosso “eu” caia no caos de emoções tão normal diante das atribulações diárias.

Certa vez fui a uma exposição de Salvador Dalí e fiquei muito impressionada com uma estátua de um homem formado por gavetas. Se nós pensarmos em nós da mesma maneira que Dalí provavelmente pensou, veremos que somos mesmo “engavetados”. Feche um olho por um minuto e imagine se você não organiza os sentimentos assim “em gavetas”. Uma gaveta de obrigações, outra de prazeres, pessoas inesquecíveis, pessoas que não queremos mais ver, natais, invernos...

Às vezes, essas gavetas ficam meio reviradas porque na correria do dia-a-dia não temos tempo para organizá-las. Vamos só jogando tudo lá dentro e pensando “Eu ajeito tudo depois”. E esse é nosso grande erro! Não teremos tempo para isso depois. E aí vai tudo ficando desequilibrado, amontoado de decisões não tomadas; sentimentos amarrotados que não se ajustam quando precisamos deles; desejos rotos por ficarem jogados e esquecidos no fundo de nós e que depois de embolorados não podem se realizar mais.

Ivan acumulou tanto em suas gavetinhas que levou de um longo caminho de dor para organizá-las e encontrar o que precisava para seguir sua viagem. Não faça o mesmo com você. Comece hoje mesmo a se organizar. Quem sabe há um número esperando que você ligue e diga “Me perdoa!”?  Ou alguém precisando de seu abraço para poder sorrir? Ou um rosto amarelado de algum retrato que espera a sua chegada? Sempre há alguma inesperada surpresa nessas arrumações.

Não estou dizendo que será fácil. Nem que tudo voltará ao lugar num único dia. Só estou alertando que tudo ficará melhor, mais limpo, mais suave. E uma vida suave se abre para nós com mais possibilidades de se ser feliz. E foi para ser feliz que chegamos aqui a essa estação chamada Vida.

Até a próxima viagem!


terça-feira, 3 de junho de 2014

VIVO-MORTO




Por Gabriella Gilmore


"...A transformação  gradual de um homem vivo como todos nós em cadáver."
A dor é veículo de consciência, disse um grande pensador uma vez.
Ivan chegou naquele estágio no qual a dor já não fazia mais sentido e que a morte seria o alívio, mesmo sendo algo que ele não queria para si. Quem suportaria se ver morrer?
A imortalidade chega a ser um sonho inconsciente de cada ser humano.
O doutor dizia que os sofrimentos físicos dele eram terríveis, mas que os seus sofrimentos morais eram mais terríveis que os carnais, e nisso consistia a sua tortura maior.
Ivan não agüentava mais a culpa que nele existia por ter chegado ao estado em que chegou. Mesmo ele negando qualquer coisa que seja, no fundo, ele merecia a morte que estava passando.
Relutando contra o orgulho ferido, só encontra paz ao receber a comunhão do padre, e finalmente ele se dar por vencido, dizendo: "Acabou. A morte acabou. Não existe mais".
Essa catarse que o autor faz de Ivan e sua morte é muito real. Nos passa como se a morte fosse algo vivenciado aqui no plano terrestre, e depois que se vai, ai sim, você "vive".
Ivan pode vivenciar de perto e por meses uma morte literalmente lenta e dolorosa, e faz com que o leitor possa refletir sobre suas ações em vida e também numa "pré-morte".

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Os Dois Lados da Solidão




Pois é, Gabizinha! Há dois tipos de solidão: aquela que queremos porque é necessário um reencontro conosco, uma busca por respostas interiores, resoluções de conflitos particulares; e outra que provocamos quando afastamos de nós quem nos ama, quando nos isolamos nas imbecilidades do mundo, quando nos esquecemos de olhar para o mundo com olhos humanos.

Acredito que no primeiro tipo de solidão, Deus nos acolha com seus braços seguros e nos sussurre palavras de fé, esperança e força. Acredito que anjos façam roda em volta de nós e nos cantem deliciosas canções enoquianas para nos trazer paz e nos inspirar a tal luz interior. Creio seriamente que é nesse momento que todos nós voltamos a um ventre mágico para renascermos mais consciente de nossa importância no plano astral. Essa solidão é abençoada e, portanto benigna.

A segunda solidão é dolorida e doentia. Ela começa por adoecer a alma. Esgotando a luz de nossas auras. Afastando-nos dos seres iluminados que nos protegem. Quando isso acontece, eu acredito que os espíritos inferiores se aproximam e aos poucos vão dominando o nosso redor. Eles atingem as nossas vidas inicialmente com coisas bobas como mau humor sem razão, depois em explosões de choro, até que se transforme em males físicos como gastrite ou, em casos mais graves, até o câncer. Destruído o corpo, resta a mente. Eu vejo a loucura como total dominação desses espíritos ruins. Eles nos cobrem com sua escuridão e começa a ficar difícil ver o caminho de volta a luz, a fé a esperança, a uma vida saudável na presença dos protetores, dos mentores espirituais. 

Contudo, Gabizinha, Deus não desiste de nós. E haverá sempre alguém que nos ama. Alguém emanando orações. Para o Ivan foi o empregado. Para você tem seus amigos – estou no meio deles. Para mim tem meus filhos – e você é um deles.

É claro que a morte chegará para todos. Porém, para uns será só uma transição, um momento de libertação desse casulo corpóreo, um momento de reencontro com os que já se foram. Para outros será um momento de aprisionamento porque ou não entenderão que se foram ou simplesmente não aceitarão a ida. De tudo isso, o importante é que não nos esqueçamos de viver, de sermos felizes e de fazermos felizes quem está ao nosso lado.

Fé e luz para ti, anjinho ranzinza! 


PRELÚDIO MORTAL


Por Gabriella Gilmore

"O caso não está no ceco, nem no rim, mas na vida e... na morte. Sim, a vida existiu, mas eis que está indo embora, embora, e eu não posso detê-la. Sim. Para quê me enganar? Não é evidente para todos, com exceção de mim, que estou morrendo, e a questão reside apenas no número de semanas, de dias, talvez seja agora mesmo? Existiu luz, e agora é a treva. Eu estive aqui, e agora vou para lá! Para onde?"

"Eu não existirei mais, o que existirá então? Não existirá nada. Onde estarei então, quando não existir mais? Será realmente a morte? Não, não quero. "

"Para quê? Tanto faz . A morte. Sim, a morte. E nenhum deles sabe nem quer saber, e nem lamenta isso. Ocupam-se de música. Para eles, tanto faz, mas também eles hão de morrer. Bobalhões. Eu vou primeiro, eles depois; hão de passar pelo mesmo que eu. E no entanto, estão alegres. Animais!"

Essas são as palavras de Ivan dialogando consigo mesmo, quando a realidade finalmente começou a escancarar-se para ele.
Mesmo "merecendo" todo o desprezo familiar e social, ele sentia conforto em saber que a qualquer momento, as pessoas ao seu redor também teriam o mesmo destino.
Obviamente cada um terá a morte que merece, e como disse Wal em uma de nossas conversas, o leito de morte passa a ser menos doloroso quando temos ao redor pessoas que nos amam, que nos apoiam e que farão de tudo para aliviar nosso sofrimento.
Ainda não conclui a leitura, mas creio que voltarei com algum desfecho sobre o que aprendi com a morte de Ivan Ilitch.


Até breve.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Dona Clô



Nunca segui os conselhos de minha mãe que me dizia: “não converse com estranhos”. Gosto de conhecer pessoas! Em todo lugar que vou, sempre puxo assunto com alguém estranho. Em especial as pessoas mais simples: pescadores, idosos em banco de praça, vadios, prostitutas, bêbados... Essas pessoas são como eu de certa forma. São viscerais e com histórias que mudam as nossas histórias. Numa dessas conversas conheci a dona Clô.

Ela era uma senhora muito bonita apesar da idade, e elegantemente vestida que encontrei por acaso na fila do banco. Cabelos bem cuidados e pintados, unhas muito bem feitas e perfumada. Falamos sobre o tempo lá fora. Uma chuva assolava a cidade há dias e pessoas já perdiam casas e todas as suas coisas. Dona Clô contava-me do seu medo de chuva. “Tenho trauma!” - resumiu ela e em seu trauma se calou. Fiquei imaginando qual seria o trauma, mas não quis perguntar. Só sorri como se sorrindo eu ficasse cúmplice de seu trauma. Então, ela pagou suas contas e se foi carregando seu trauma pelas calçadas molhadas. E eu, também.

Passado uns dias, eu caminhava de manhã pela rua e reparei em uma pessoa que me pareceu conhecida. Que surpresa! Era dona Clô. Apressei o passo – com sorte ela me reconheceria. Ela estava tão simples naquele dia. Tão diferente da senhora que conheci no banco: usava calça legging, camiseta, boné e tênis. Contudo, sustentava ainda seu ar elegante e um olhar firme que os óculos de sol não escondiam.

__ Bom dia! – disse com um sorriso.

Dona Clô, olhou-me um pouco e sorriu. E no seu sorriso havia acolhimento.

__ Bom dia, mocinha do banco. Como vai?

E começamos a conversar novamente. Hoje sobre o sol escaldante que levava risos à praia. Paramos em um quiosque fomos tomar uma água de coco. E então, conheci mais de uma dona Clô sem traumas. Rimos e combinamos de caminhar por ali na manhã seguinte.

E por algum tempo essa foi a nossa rotina: encontrarmo-nos no calçadão para uma conversa a toa enquanto caminhávamos. Dona Clô contava coisas do seu tempo e dizia sempre que o tempo passado era o melhor de viver. Afirmava que um dia eu entenderia. Um dia em que ela não estaria mais ali, mas que eu me lembraria das palavras dela e diria “bem que aquela matusquela me avisou!” e demos gargalhadas do “matusquela” que ela complementou com “palavra de velho”.

Um dia dona Clô convidou-me para ir a sua casa jogar buraco e eu fui. Conheci lá outras senhorinhas sorridentes como dona Clô. E logo fui adotada como a netinha da turma. Elas eram muito animadas e simpáticas. Cada uma delas com seus traumas, com suas histórias e seus mistérios, mas todas tão cheia de vida e esperança que me deixavam como elas, vibrante.

Passávamos a tarde a jogar buraco, bingo, 21 a valer bombons, dançávamos, cantávamos ao som do piano de dona Clô, o violão de dona Cláudia e a voz vacilante pela idade de dona Leda – a mais velha do grupo. Elas me diziam que eu saía dali cheirando a naftalina e formol. Mal sabiam elas que o cheiro delas era tão mais vivo que o meu em alguns dias. No fim da tarde eu ia embora renovada, remoçada na experiência delas.

Um dia dona Clô pediu que eu ficasse um pouco mais para tomarmos um cálice de vinho do porto. E eu fiquei.

Depois que todas elas se foram, sentamos na varanda com nossos vinhos. Dona Clô então segurou a minha mão e disse que naquele dia ela estava se sentindo muito só. Que o passado estava doendo dentro dela. Um passado de plumas e brilhos, mas que agora pairava cinza de tristeza dentro dela. Eu só apertei a mão dela, não sabia o que dizer. De repente, toda a idade de dona Clô pesava-lhe a face e eu me dei conta de que ela já tinha mais de setenta.

Ela apanhou um baú antigo cheio de fotos amareladas e algumas até desfocadas, cartas, cartões, pétalas de flores secas, papéis de bala enroladinhos, cachinho de cabelo, uma pluma que devia ter sido azul em uma época qualquer, mas que agora era tão velha quanto dona Clô... Disse-me, então, depois de um silêncio pesado: “Veja o meu passado! Ele cabe todo em uma caixinha.” E sorriu.

Na caixinha uma dona Clô sem rugas e vestida de vedete com poses, me sorria. Olhei cuidadosamente cada uma das centenas de fotos e ouvi algumas das histórias que elas continham. Histórias alegres e tristes. Reconheci ali outros sorrisos joviais: o de dona Leda e de dona Cláudia. “Mais que amigas... minhas irmãs.” – dizia dona Clô com olhos cheios de lágrimas e mãos trêmulas.

Dona Clô me contou que ela era vedete e dançava em um antigo cassino. Foi lá que ela conheceu certo militar de alta patente que lhe deu tudo o eu tinha, menos um filho. Ele não queria e nem podia arriscar a ter um filho fora do casamento porque seria um escândalo e ela respeitou. Só que, segundo ela, ela não imaginava que na velhice ela sentiria tanta falta de um filho. Ela disse que quando se é jovem, às vezes, esquecemos que vamos envelhecer e que na velhice a solidão é contada em segundos, pois o tempo fica caduco como os velhos. Quanto mais dona Clô falava mais eu bebia as suas palavras com o vinho do porto. Foi uma tarde incrível! Mágica!

Minha amizade com dona Clô era assim, mágica. Era cercada de coisas glamorosas e de sentimentos que se revelavam como a lua que víamos brotar do céu enquanto bebíamos vinho do porto na varanda. Eram tardes com tardes dentro. Tardes de um passado lindo e cheio de vida de uma pessoa que exalava vida em tudo que fazia e dizia.

Hoje, eu vi dona Clô ser sepultada sobre o choro contido de dona Leda e dona Cláudia. Elas, depois que todos se foram, ficaram ali cantando a canção que elas diziam ser o hino da amizade eterna entre elas. E eu as abracei com muito carinho para engrossar o canto:

“... Amigos para sempre é o que nós iremos ser
Na primavera ou em qualquer das estações
Nas horas tristes nos momentos de prazer
amigos para sempre...”

Dona Clô se foi. Tenho certeza que virou estrela. Uma estrela brilhante e cheia de vida que vai iluminar as minhas noites ao lado de dona Leda e dona Cláudia. E que um dia formará uma nova constelação quando essas duas estrelinhas se forem também. E nem assim ficarei triste. Elas que me guiarão para sempre nas palavras que me disseram, em canções que me ensinaram, em meu coração onde elas serão eternas vedetes sorridentes.

Amigos são para sempre!

(Waleska Zibetti)

terça-feira, 27 de maio de 2014

Reações

" Aí está, morreu; e eu não — pensou ou sentiu cada um."

Tratar de morte é sempre delicado, de um lado porque já perdemos ou ainda perderemos pessoas queridas e de outro porque no fundo, todos nós temos um desejo de imortalidade, até mesmo os suicidas que enxergam a morte como solução de uma vida que parece pouco agradável aos sentidos.
Quando penso no clássico de Tolstói, a primeira coisa que vem à minha mente são as reações que as pessoas ao seu redor tiveram com a notícia de sua morte. Colegas de trabalho pensaram em ocupar seu cargo, e ufa, que bom que foi ele e não nós. A família se livrava de um estorvo e em seu velório a esposa apenas pensava em como ganhar dinheiro com o infortúnio do marido.
Jeito triste de partir, deixando um legado de colegas que apenas se acostumam a nossa presença e familiares que nos aturam por obrigação.
Tenho certeza que muitos já morreram e ainda morrem nesta situação por viver uma vida mal vivida, colecionando amarguras e decepções ao invés de ver com olhos de bondade e humanidade cada um que passa por seu caminho.
A vida pode e deve ser maravilhosa, mas só nós mesmos podemos torná-la dessa forma e assim, quando finalmente a morte bater em nossa porta, podemos ir com a sensação de uma jornada completa e com verdadeiros amigos ao nosso redor. Pense bem nas reações que você gostaria que as pessoas tivessem ao saber de sua morte, e faça em vida algo para que sintam sua falta.

Até os próximos capítulos!

Vida de Adulto

                                       

“Só se é jovem uma vez...”, já ouviu isso, Gabizinha? Pois, então, saiba que isso é muito verdadeiro. A juventude é um perfume bom que vem em vidro pequeno. E a gente nem se dá conta do quanto é bom até que ele não exale mais do nosso próprio corpo. Contudo, pequena, posso lhe afirmar que o cheirinho especial da vida adulta é do seu modo muito atraente. Tão atraente que por vezes, anula o tal perfume jovial para destacar-se entre os outros. O que quero que você entenda é que cada fase da vida é uma com suas virtudes e seus defeitos.

Agora lá vai o puxão de orelha. Segura aí! Você não está engrenando na leitura porque encasquetou de ser Ivan que nada tem de Gabi. Você é dessas, sabia? Desfaz o bico! Estou te olhando. Senta aí e cale a boca.

Todos nós estamos morrendo. A cada segundo a vida nos rouba um suspiro de vida. Mas não é por isso que vamos chafundar no canto do mundo questionando a que horas será a partida. Você Gabi – Você também leitor! – está VIVA. Então, levanta o buzanfão daí e vá viver! Viver para fora de si. Tira o olho do umbigo e olhe o sol, a lua, a chuva... a vida!

A morte só seduz porque usa vestido longo preto elegantíssimo. Eu tenho certeza que a morte veste Gucci e calça Louise Vuitton. O que seduz na morte é a ideia de um beijo que abre o portal para o desconhecido, o inimaginável, o próximo passo... Somos criaturas curiosas e o slogan “O que vem depois?” vendido pelas crenças de uma existência post mortem faz os lobos jurarem-se de cordeiros no fim da vida na esperança vã de uma “salvação”.

Cansaço faz parte do viver. Tem hora que tudo fica igual. Fica cinza. Fica um saco. Mas sabe o que se tem que fazer? Mudar! Já viu o filme “Curtindo a vida a doidado”? Aquele filme é a chave do viver bem. Aí você me dirá “Fácil dizer, Wal!”. Pois vou lhe confessar que há dias que digo a todos que saí e tranco tudo, desligo o celular e fico quietinha comigo me curtindo o dia inteiro de camiseta e calcinha, comendo porcaria, sem pentear cabelo, sem sapatos... Como já teve dia de eu sair para trabalhar linda no salto e simplesmente descer no meio do caminho e passar o dia olhando loja, andando a toa, curtindo um dia diferente... Descontaram meu dia, mas e daí? Foda-se! Naquele dia eu precisava ser livre!!!

Está aí! O que falta para vocês é o “foda-se” ligado. Essa teclazinha embutida em todos nós, mas que raramente conseguimos acionar porque temos inconscientemente uma origem masoquista. Deixamos as coisas nos atingirem, permitimos que o mundo nos escravize. Não estou aqui apregoando que devamos viver numa realidade cômoda. O que estou dizendo é que de nada também nos adianta tentar atingir coisas que estão muito além do alcance se isso custar nossa saúde, humor, felicidade... Vale a pena lutar tanto pelo “ter” se o fim disso for igual ao de Ivan? Velho, solitário, frustrado, mal-amado... um estorvo. Não teria sido melhor se ele tivesse plantado alguns sorrisos em seu caminho? Alguns abraços sinceros? Se tivesse se entregado de corpo e alma a sua família de vez em quando?

A vida adulta só é chata para quem foi criança chata, adolescente chato e o pior é que esse chato vai se tornar um velhinho chato também. Eu fui uma criança feliz. O pouco que vivi com meu pai, ele aproveitou para semear em mim jardins inteiros de esperança, ilusões, sonhos... E era lá, que na ausência dele, eu me escondia para continuar a conviver com a gente ruim que me cercava sem me permitir ser contaminada por eles. Hoje sou adulta, posso ou não conviver com essa gente, eu escolho. No caso do inevitável, quando o social me obriga estar perto deles, eu me refugio nos mesmos canteiros para não perder o contato com minha luz interior.

Se eles me fazem chorar? Fazem sim! Magoam-me sim! Machucam-me sim! Mas não conseguem me perfurar tanto a ponto de eu dizer que a vida é ruim, que ser adulto é ruim. Porque eles optaram a viver nesse mundo adulto pesado e escuro. Eu não. Eles optaram a se envenenar na ambição, no preconceito, na frivolidade. Eu não. Eles me vampirizam sim. Mas ainda há em mim luz suficiente para me curar deles e desse mundo adulto chato que você diz aí. Sinto muito, Gabi. Sei que você vai ficar triste com o que vou dizer: ser adulto só é chato para quem não soube crescer.

Contudo, ao som de Pitty lhe digo: “Guarde os pulsos pro final... Exercita a consciência...”. Você ainda é jovem. Você ainda tem tanto para fazer. Você só precisa querer. Mude! Liberte-se! Não tenha medo dos sofrimentos que fatalmente você passará. Não se pode fazer uma revolução com luvas de seda, já nos disse tão sabiamente Stalin. Examine-se. Enxergue-se árvore e pode seus galhos ruins para que cresça outros fortes que lhe renderão bons frutos. Depois... Depois... Depois será como tem que ser. Não é isso que chamam de destino. Então, deixe o destino tomar o seu rumo.

Bom, vou nessa de Titãs... “Devia ter arriscado mais e até errado mais, ter feito o que eu queria fazer... O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído...”.


Até!!!