domingo, 2 de novembro de 2014

Paris é uma Festa - Ernest Hemingway

"Quando a primavera chegava, mesmo que se tratasse de uma falsa primavera, nossos problemas desapareciam, exceto o de saber onde se poderia ser mais feliz. A única coisa capaz de nos estragar um dia eram pessoas, mas, se se pudesse evitar encontros, os dias não tinham limites. As pessoas eram sempre limitadoras da felicidade, exceto aquelas que eram tão boas quanto a própria primavera."
(Ernest Hemingway)
 
"Entregar-se inteiramente à arte, pagando um preço por isso, e passar a fome que fosse, contanto que em Paris, eram, sem dúvida , ideias, modelos e valores daqueles tempos. Em que mais acreditar senão na arte, que era o que explodia de mais humano e exuberante nas telas dos pintores, nas formas das esculturas e nas ousadas páginas dos escritores da moda."
 
Paris, 1930, refúgio dos mais diversos artistas do mundo, lar e local de inspiração para as mentes mais brilhantes do século XX. É esta Paris que o escritor Ernest Hemingway vem morar junto de sua esposa, Hadley. E é neste ambiente mágico, circundando pelos milhares de café e livros, que se passaram os melhores anos da vida do ganhador do Prêmio Nobel. A época em que eram pobres, contudo, absolutamente felizes.
Os capítulos muitas vezes não estão em ordem cronológica e vão e voltam no tempo, exatamente como um fluxo de pensamento. Diferente de suas outras obras, onde o estilo do autor é expresso brilhantemente, Paris é uma festa tem uma linguagem mais informal e memorial, afinal é basicamente uma autobiografia.
A maioria parte dos núcleos históricos que envolvem personagens marcantes, tanto para o próprio Hemingway, quanto para o leitor, que conforme a narrativa, passa a conhecê-los melhor. Temos figuras como o generoso poeta Ezra Pound, a escritora e artista Gertrude Stein, muito amiga de Ernest em seus primeiros anos em Paris, mas que possui uma personalidade um tanto quanto forte, Ford Maddox Ford, Sylvia Beach da livraria Shakespeare and Company, hoje, um ponto turístico da cidade, James Joyce, F. Scott Fitzgerald e claro, o próprio Hemingway.
De certa forma, a personagem que teve mais ênfase na história foi Fitzgerald, talvez pelo fato de Ernest ter sido amigo dele por muito tempo e se interessar por sua vida, sentir admiração pelo autor de "O grande Gatsby", ou simplesmente a vida tumultada de Scott.
Conhecemos um Fitzgerald abalado e com problemas com álcool, não em relação ao alcoolismo, mas, sim, a seu metabolismo fraco que se desgastava com o consumo deste. Muitas vezes, o próprio Hemingway, assim com o leitor, se perguntam como um homem como Scott poderia ter escrito uma série de contos ótimos e o Gatsby.
O leitor é apresentado também à Hadley, esposa de Ernest, uma mulher graciosa e companheira, sempre disposta a acompanhar o marido - e olha que não são todas as mulheres que são feitas para serem esposas de um escritor, o caso da própria Zelda Fitzgerald, cujo ciúme pelo trabalho do marido a fazia ficar amarga e descontar arrogâncias nele.
O que mais me interessou em Paris é uma festa, além da cidade cenário, a qual tenho paixão, é a humanização dos escritores. Hemingway mostra o defeito de cada um de seus amigos e suas sucetividades, nos relatando que não passam de apenas seres-humanos, ou seres-humanos "brilhantes", devo dizer. Um exemplo perfeito é Gertrude Stein, que por mais agradável que sua companhia e conversa fossem a Hemingway, ela era arrogante em certos pontos, egocêntrica e fuxiqueira. F. Scott Fitzgerald podia ser um escritor revolucionário, mas não passava de um homem com suas inseguranças e problemas no casamento.
É este lado humanizado que me atrai. Saber que antes de serem artistas, essas pessoas era comuns e compartilhavam dos mesmos problemas que muitos de nós.
Paris é uma festa, por mais que não seja a obra mais fantástica de Hemingway e voltada um pouco para a fofoca, ainda mantém o leitor envolto na sua narrativa e personagens.

Uma alusão interessante desse estilo de vida retratado nas telonas, pode ser visto em um clássico de Wood Allen em Midnight in Paris em que os personagens ganham vida e parecem ter saído deste clássico.

Mas sobre esse filme é um assunto para um próximo post.

Au Revoir
Até o próximo Texto

Seu emprego é melhor que o meu?

Seu emprego é melhor que o meu?
Uma crônica de Gabriella Gilmore

Personagens:
Vanessa, brasileira, residente nos USA, secretária em um pequeno centro odontológico em Washington – DC

Camila, nordestina, residente em Brasília, recepcionista em um hotel 5 estrelas.

Conversa pelo Skype, 21:30 da segunda-feira do dia 29 de abril de 2013

- Amiga, queria te perguntar uma coisa. Escreveu Vanessa.
- Desembucha.
- Você me perguntou esses dias para te arrumar emprego aqui nos States e tals... não sei quanto você ganha ou se passa dificuldade ai, mas me conta. Você trabalha em hotel por quê? Uma amiga minha mora em SP e disse que tem um excelente emprego graças ao inglês. Não te entendo.
- Bom, na verdade essa coisa de ter inglês é de certa forma ilusória. Em Brasília, por exemplo, há três limitados campos de trabalho: Rede hoteleira, shopping centers (ou lojas no centro) ou passar em concursos. Há empresas aqui, mas são bem poucas e nem te preciso falar da concorrência.
- Mas não sei quem me disse, que estaria ganhando uns R$ 3.000 reais em shoppings se tivesse o inglês que você tem...
- Me apresenta essa pessoa. (Zombou Camila). Papo furado Vanessa. Não conheço ninguém que trabalha em lojas que precisou de inglês para conseguir emprego ou subir de cargo. Claro que há exceções, mas não é simples assim não. Agora é minha vez de levantar uma coisa.
- Pode falar.
- Sei que somos amigas há anos, e que você parece se preocupar comigo. Mas você está tão americanizada, fria e mecânica, que quando você toca em assuntos sobre empregos e salários, você passa a impressão de que só porque mora fora do país está abalando o bambu. Quer ouvir uma real?
- Fale.
- O que te faz melhor do que eu? Você saiu do Brasil para estar secretária em um país que nem é seu. O seu emprego nem é lá glamoroso. Já eu, sai do interior do meu país para ir para um grande centro trabalhar para ricos nojentos que se hospedam só em 5 estrelas, e aproveito para estudar outro idioma para futuramente ganhar melhor. Eu vejo o meu caso como progresso, e o seu?  Me fale depois. Outro exemplo tirando nós duas do caso. Tenho colegas de quarto que são concursadas e me olham com desdém feito você, às vezes. Uma delas é auxiliar de dentista. Limpa sujeiras dos utensílios dentários de pessoas de baixa renda (ela trabalha para o SUS). Precisa ser um CDF para trabalhar em um lugar desses? É outra coisa no Brasil que me revolta. Ralar para passar num concurso para fazer trabalho “sujo”. Eu, francamente, ainda prefiro meu trabalho explorador de domingo a domingo, onde fico em meio de artistas, gente bonita, rica e de bons contatos, nunca se sabe... Você entende o que quero dizer?
- ...
- Agora me diga você: Por que seu emprego é melhor do que o meu?