sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Mea Culpa





Há sete pecados capitais,
sete vícios que foram usados
para me educar.
Sete tentativas de controlar
os meus instintos básicos.
E sete vezes fui condenada.
Sete vezes doente.
Sete vezes sem perdão.
A boca é o mal do homem...

Minha boca tem sede

E a saliva da outra boca é minha fonte
Minha boca tem fome
E o sal do suor da outra carne é meu alimento
Minha boca tem desejo
E o gemido do outro é o caminho
A boca é o mal do homem...
E o que não digo é o meu castigo.



Eu quero ter... Eu terei!
Porque são meus os seus pensamentos
São meus os seus desejos
São para mim os seus gemidos
São meus os teus conflitos
Eu quero ter... Eu terei!
Porque é minha essa vontade exagerada

De te possuir.


Olhe para a sombra
E poderá ver a serpente observadora
Não acenda a luz!

Não tema!
Sinta a serpente entre os lençóis
Ouça seu sussurrar

Deixe que ela se enrosque em suas pernas
Sinta sua língua bifurcada

A lhe provocar arrepios
O prazer é uma serpente fria
Enroscando-se em seu corpo quente
Olhe para a sombra

Eu sou uma serpente entre tuas pernas.

Que o mundo sinta a fúria
Dos ventos, do mar, do amor
Que um corpo se choque no outro
Até que se descontrolem os dois
Até que não se separem mais
Até que não faça sentido
Até que se perca o juízo
Que o mundo sinta a fúria
Dos corpos, dos homens, do gozo.

Quero ser o que brota de ti
Quero teu melhor para mim
Quero teu cavalgar
E os teus delírios

Quero a tua fome para matar a minha
Quero o que brota de ti
O teu leite para fecundar a minha vida

Respire fundo e relaxe
Não é preciso pressa para nada
Tudo é na hora de Deus
Para que tanta vontade de ir então.
Se entregue a cama
Aos sonhos
Tudo é como Ele quiser que seja
Não adianta ir contra as vontades dEle.
Respire fundo e relaxe
Deixe o corpo para mim
Já que a alma é de Deus.

E a noite enfim se silencia
A lua impera  solitária

O diabo anda nu pela casa
Lilith caminha entre véus
Exalam orgulho de serem diferentes
A maioria os condena
E a noite enfim se silencia
E os amantes exibem orgulho
De se pertencerem.

Há sete pecados capitais,
sete vícios que foram usados
para me educar.
Sete tentativas de controlar
os meus instintos básicos.
E sete vezes fui perdoada!
(Waleska Zibetti)

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

VICKY CRISTINA BARCELONA (FILME)



Vicky Cristina Barcelona - Resenha
Por Gabriella Gilmore

"A vida é curta, entediante, cheia de sofrimentos.
E isso é uma chance de algo especial..."

Isto seria um convite da "Ilusão" nomeada Juan, para você, amigo cinéfilo.

Achei esse filme interessante porque ele me trouxe tais arquétipos para emoções que nos faz a todo tempo questionarmos: Amor e paixão.

Ás vezes nos deparamos com um sentimento, você se entrega, faz compromissos e jura que aquilo é amor.
A cada dia que passa, fica mais difícil para nós definirmos realmenteo tão sonhado amor romântico.
Muito das vezes o confundimos com a paixão, que geralmente vem intensa, cheia de doçuras, aventuras e você pensa que "agora fechará um contrato eterno", afinal, aquilo foi mágico.
Imagino que dentro de nós, existem duas partes que pensam diferentes sobre essa relação amor/paixão. Um lado nosso procura algo calmo, constante, puro, e no outro, já preferimos algo que nos tire da rotina, algo quente e cheio de sensacionalismos.
Poderíamos nomear estas duas partes distintas de Vicky e Christina.
Neste filme fabuloso de Woody Allen, ele mescla essa fusão de sentimentos e ainda inclui a "ilusão" encarnada em um charmoso artista plástico.

Duas amigas saem de férias para Barcelona. Vicky está terminando seu mestrado sobre Identidade Catalã, e Christina, uma artista e escritora frustrada, após ter terminado um namoro, achou interessante mudar de ares e ir com a amiga para Europa.
Lá, elas deparam com um pintor super interessante e um pouco atrevido, que as convidam para uma pequena viagem a uma cidadezinha  chamada Oviedo. 
Christina em busca de emoções, de cara aceita o convite.
Já a amiga, não achou muita graça no jeito descarado do rapaz e também pelo fato de estar noiva e respeitar demais o futuro marido que ficou na América.
Mal sabem elas o que este artista da vida fará com seus conceitos pré-fabricados sobre amor, paixão e ilusão.
Um prato cheio para você tirar suas conclusões e saber que a vida por mais curta que seja, é um palco gigante. E terminando, responda esta questão levantada pela personagem de Penélope Cruz: - Apenas um amor incompleto pode ser romântico?
Bom, viva para ver este filme e responda a si mesmo.
Enjoy!!!

Elenco:Rebecca Hall, Scarlett Johansson, Javier Bardem e Penélope Cruz.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Eu, eu mesma e todos os meus medos...

"- Augustus, talvez você queira falar de seus medos para o grupo.
- Meus medos?
- É
- Eu tenho medo de ser esquecido - disse de bate pronto. - Tenho medo disso como um cego tem medo de escuro."
(A culpa é das estrelas - John Green)


Não tenho medo de altura, não tenho medo de voar, não tenho medo de barata, não tenho medo de cara feia, não tenho medo de partir. 

Mas se hoje você me perguntar:
- Você tem medo de quê?
Eu te respondo na lata:
- Tenho medo da completa solidão e de ser pisada pelas pessoas que mais tenho sentimento, e, tenho pesadelos horríveis com isso!

"Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeira companhia."
(Friedrich Nietzsche YALOM, I. When Nietzsche Wept: A Novel of Obsession. New York: Basic Books, 1992.)

Talvez eu me jogue de cabeça e tente ser o máximo de mim mesma em qualquer seguimento da minha vida. Mas, tenho dúvidas se sou o suficiente pra tudo ou pra todos, se realmente inundo suas vidas com alguma forma de poesia. E nesse tempo criamos aquele medo de tudo dar errado e por consequência o medo de perder é o que torna os dias uma incógnita.
A primeira frase desse texto "Eu tenho medo de ser esquecido" talvez reflita as sucessões de fracassos que muitos 
(inclusive e principalmente os meus) tem durante essa maluca existência.
Mas de onde vem o medo? E porque é que ele grita nas nossas cabeças e contamina nossos corações como um vírus?

"Quando você chorou, eu enxuguei todas as suas lágrimas
Quando você gritou, eu lutei contra todos os seus medos
E eu segurei sua mão por todos estes anos
Mas você ainda tem tudo de mim"
(Amy Lee / Ben Moody / David Hodges; My Immortal, Álbum Fallen (2003))

Medos que derivam do ritmo nervoso, devorador, que imprimimos à nossa rotina. Quais são eles? Tantos! 
Se eu fosse enumerá-los talvez você tivesse duas reações: A do riso por achar que são meras bobagens ou das lágrimas compartilhadas por identificar ao menos um medo meu que fosse igual ao seu.

Tenho medo de deixar que a vida me faça esquecer quem eu realmente sou, de que minha verdade existencial assim assuste. Tenho medo de ter tanto medo e sentir tanta culpa por coisas que às vezes nem eram pra ser. Ou que deram errado por conta de outras coisas.

"Joguei sobre você tantos medos, tanta coisa travada, tanto medo de rejeição, tanta dor. Difícil explicar. Muitas coisas duras por dentro."
(Caio Fernando Abreu, Morangos Mofados, 1985) 

Não, eu não quero mais ser tomada e dominada pelos meus medos, pelos meus receios, não! 
Não quero ser apenas uma observadora da vida. Quero ser a protagonista dela, com todos os por menores e detalhes.
Descobri que a gente tem que vivê-la como se fosse um filme ou como os sonhos que sempre temos com as gotas de felicidade diária. Tudo pode dar errado sim, e no máximo, vira um texto cheio de catarse ou um poema repleto de ferocidade!

"Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
Que me lembro ter dado na infância
Pois metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade não sei

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o seu silêncio me fale cada vez mais
Pois metade de mim é abrigo
A outra metade é cansaço"

Nós temos que experimentar, tocar, sentir, cheirar, amar e conhecer o mundo, não ter medo dele. Todos nós temos tanto o que aprender sobre os nossos medos e não nos deixar dominar por eles, e ao mesmo tempo, tanta coisa que podemos compartilhar sobre nós mesmos com as pessoas que nos são caras. 
Acredite: é muito melhor arriscar tudo, do que viver para sempre se arrependendo de não ter ao menos tentado.
Mas aí a vida vem, e ensina que tudo isso faz parte e você começa tudo outra vez. 
Carpe Diem!

Au Revoir
Até o próximo texto

A Grande Descoberta



O quadro era um tanto quanto incomodo. Uma sala quase vazia e cheirando a mofo. Ela estava sentada na poltrona próxima a janela e a luz da lua agravava ainda mais a sua palidez. Estava tão quieta que parecia não ter notado minha presença. Nem mesmo o gato que estava deitado em seu colo, se mexerá quando eu cheguei à porta. Pensei em sair dali antes de ser notado pelos dois, mas...

__ Por que sair se sua curiosidade implora para que fique?

A voz dela tinha um arrastar que causava arrepios. Eu vacilei, mas entrei lentamente. Ela continuava a olhar pela janela de sua poltrona. Tinha as pernas cobertas por uma manta e a mão fazia movimentos pelo dorso do gato como se aquilo fosse completamente involuntário a vontade dela. O bicho me encarou pela primeira vez. Seus olhos faiscavam em um tom de amarelo que inexplicavelmente me dava à sensação de que filmavam a alma. 

__ Boa noite!
__ Deve ser boa, não é?

Eu fiquei parado sem jeito e sem coragem de continuar a me aproximar. O gato ainda me observava e ela ainda não me olhara nos olhos. A situação era incomoda e eu me arrependia em silêncio de ter me aproximado daquela casa.

__ Não se sinta assim. Puxe aquele banco e sente-se. – enquanto eu me encaminhava para o banco, ela completou. – A curiosidade cobra um preço alto aos seus adeptos. O pior é que sempre pagamos. Todos nós! Até mesmo eles.

Olhei ao redor da sala a procura das outras pessoas. Não vi ninguém. Só móveis pesados e aparentemente mal cuidados dividiam a sala conosco. Notei que alguns estavam cobertos como que esperando mudança ou um fim qualquer. Finalmente sentei-me nem tão perto da mulher, mas também não tão distante. Ela continuava expectadora da rua e o gato também parecia ter se familiarizado comigo, uma vez que cochilava tranquilo no colo de sua dona.

__ Eles nos observam. Então, por favor, seja discreto e indireto. E principalmente, aja de modo natural. 

“Louca!”, pensei ao ouvi-la dizer aquilo. 

__ Não! Eu não sou louca. Só estou aqui há tanto tempo que já consigo pressenti-los. – e finalmente o rosto dela se vira para mim. Uma sensação de frio percorreu todo meu corpo e eu estremeci. Os olhos dela estavam nos meus eu poderia jurar que eram azuis. Mas não tenho ideia de como cheguei a essa conclusão com toda aquela escuridão. – Você já foi um deles. Mas deve estar por aí há muito tempo. Por isso, perdeu-se de si. Agora ficará por aqui, também. E vai caminhar pelas ruas até achar um lugar onde repousar, como eu. E verá que nada faz sentido fora daqui. Mas aqui, nesse mundo, as coisas são cada dia de um jeito e nunca sabemos como irão terminar.  – e um sorriso enigmático surgiu no canto de seus lábios no mesmo momento em que ela moveu seu corpo para frente ficando numa posição onde podia ver-me melhor. 

Era velha. Sim! Muito velha. Magra. Frágil. Pálida. Seus olhos eram claros, mas eu não posso mais afirmar se eram azuis. E a voz era marcante. Não sei defini-la exatamente. Porém, ela prendia-me na cadeira e calava minha própria voz. 

Devemos ter ficado em silêncio alguns minutos. Eu a observando e ela a mim. Ora ela sorria. Ora ficava quieta numa expressão firme. O gato parece ter se aborrecido com a situação e sentou-se a janela onde pude notar o negrume de sua pelagem. 

__ É um belo animal, não é? Veio para mim numa noite de lua cheia e ficou. Os gatos podem caminhar por entre os mundos. São almas tomadas de liberdade. E isso revolta o cão tão submisso ao seu dono. Claro que há os que não gostam do gato. Contudo, o que eles não gostam é da ideia de pertencer a um animal. Sim! Os gatos é que possuem. – e olhando-me tão profundamente ela me põe em xeque. – Importa-se de ser possuído, meu jovem?

__ Dependendo da situação...

Uma gargalhada alta e sonora ecoou na sala. Não condizia com a fragilidade aparente daquela senhora. O pior é que posso jurar que o gato participara daquela gargalhada em uníssono com ela. 

__ Você é fruto da possessão, querido. É por isso que está aqui. Junto com todos os outros. Você só existe por isso! Não se sinta menor. Também só existo por isso. E assim também é o nosso amiguinho Wade ali. Todos nós estamos aqui porque alguém lá foi possuído ou de raiva ou de amor ou de tristeza ou de alegria ou de dor... O sentimento não importa! O que importa é que nascemos desse momento. E ficamos aqui. Alguns ficam sem passado, outros sem presente. Futuro? Ah, nunca vi nenhum ter futuro. 

Ela parecia transtornada e confusa. Eu não via nexo no que ela falava. Parecia que ela delirava. Ou era eu que achava tudo aquilo ali completamente confuso. E foi aí que me dei conta de uma coisa... 

__ Como vim parar aqui? – disse em voz alta. 

E ela não me disse nada. Só continuou a olhar-me com seus olhos frios e seu sorriso misterioso. Levantei-me. Ela se recostou. Wade pulou no colo da sua dona como que para defendê-la. Passei a mão na cabeça. Percebi que não havia nada antes da minha imagem parada na porta a observar essa velha que agora me deixara tão louco quanto ela. 

__ Você não está louco! Acalme-se. 

Eu caminhava pela sala. Queria sair dali. Eu deveria ir embora. Voltar... Voltar para onde? Eu não sabia de onde tinha vindo. “O que está acontecendo?”, pensei. E meu peito apertou-se ao mesmo tempo em que meu coração acelerou. Sentia enjoo. A cabeça rodopiava. E ela paciente esperava que eu me acalmasse. 

__ A sensação do despertar é sempre essa. Mas com o tempo você se acostumará e verá as inúmeras possibilidades que há aqui. Acredite em mim. Nós estamos melhores aqui que eles do lado de lá. Aqui somos livres. 

As palavras dela chegavam aos meus ouvidos de modo profundo e complexo. Finalmente, sentei-me. Não que eu estivesse me acalmando, e sim porque as pernas fraquejaram. Tentava fixar meu pensamento em alguma lembrança anterior a minha aparição naquela porta, todavia minha cabeça era um nada absoluto. Só as últimas revelações da velha ecoavam dentro dela.

__ A liberdade que experimentamos do lado de cá é a nossa recompensa. Sinta-a. Absorva essa prazerosa sensação. – A voz rouca da velha foi ganhando força sobrenatural. O tom era quase hipnótico. - Deixe que ela entre pelos seus poros. Que percorra suas veias. Que alcance sua razão. Que envolva sua alma. – Ela fechou os punhos com tamanha força que eu pude notar suas veias da mão ressaltarem e gritou. – Liberte-se!

Algum tipo de trovão percorreu a sala. E eu notei que tudo escurecia ao meu redor. A última lembrança que tenho daquele momento era dos olhos amarelos de Wade dentro dos meus. Não sei se dormi ou desmaiei. Mas tenho certeza que foi por um longo tempo. 

                                              ...

Era tanta claridade que eu não conseguia abrir os olhos. Esforcei-me até que finalmente consegui. Fiquei um tempo ali deitado no chão sem entender onde estava. “Foi tudo um sonho!”, respirei fundo e fechei os olhos novamente. Lentamente e de olhos fechados me virei de lado. “Tudo aquilo foi um terrível pesadelo.”, conclui e sorri.

__ Seria reconfortante se fosse, não é mesmo? 

Levantei-me rapidamente e me deparei com o sorriso amarelado da velha. Agora podia vê-la nitidamente. Cabelos em coque no alto da cabeça. Pele sardenta. A mão tocou meus cabelos carinhosamente. 

__Venha comigo! – e ela passou seu braço pelo meu. E nos levou até a porta onde tudo isso começou. Eu só a acompanhava. Não tinha outra opção. Na varanda, notei um dia maravilhosamente ensolarado. Um jardim florido e muito bem cuidado era tudo o que separava a casa da rua que tinha outras casinhas simples exatamente como aquela. Em um banco, Wade espreguiçava-se gordo e lindo. 

__Vamos nos sentar ali.
__ Sim, senhora.
__ Está mais calmo? 
__ Não sei se essa é a sensação. 
__ Vai ficar em alguns minutos. Eles é que não ficarão. Mas eu os entendo. A inveja da nossa liberdade do lado de cá, os consome. Nunca terão o que temos. E mesmo que não se conformem com isso, sempre nos vigiam. Precisam alimentar-se de nós! Não nos afetam depois que chegamos aqui. Servimos de alimento para eles, de esperança, de mola de impulsão para suas vidinhas limitadas... Eles precisam de nós, mas nós independemos deles. 

__ Eu não estou entendendo nada. Me desculpe! Eu não sei nem mesmo como tudo isso começou. Estou confuso. Afinal, senhora, quem é você e quem sou eu?

Wade aproximou-se e pulou no meu colo. Assustei-me, mas acariciei o bicho que ronronou em agradecimento. 

__ Você é um de nós. – disse enfim... Wade. Sim! Wade disse-me isso. Wade, o gato negro da velha misteriosa. E uma sensação de desespero tomou-me de vez. Os dois riram e em coro disseram: vai começar tudo outra vez. 
__ O gato falou! Meu Deus! Eu morri! É isso! Estou no mundo dos mortos. Meu Deus! Como morri?
__ Você se sente morto?
__ Não!
__ Então...
__ Então, estou louco. É isso?
__ Se sente louco?
__ Não sei. Por favor, me responda.

Ela suspirou. Desses suspiros que se dá quando vamos pegar uma longa e cansativa jornada. 

__ Você nem morreu nem está louco. Pelo contrário, ontem você nasceu. Está com menos de 24 horas de vida. 
__ Como assim?
__ Ontem a noite alguém de lá foi possuído de uma vontade incontrolável de parir um ser novo. Alguém precisava expurgar alguma ideia e você nasceu dessa necessidade, dessa possessão. Você é fruto de uma ideia. Todos aqui somos. Meu nome é Amélia. Esse é o gato que nasceu de uma noite insone dela. Eu dei o nome de Wade porque significa “Andarilho”. Somos todos personagens dela. 
__ Personagens?
__ Sim! Fomos criados porque ela adora escrever. E vivemos aqui no mundo da Ficção em liberdade que nem ela nem eles têm. 
__ Quem são eles? Quem é ela?
__ Eles? Eles são os que nos imortalizam. Eles são os prisioneiros de nossa liberdade. Eles estão aqui até agora presos a nós por curiosidade de saber quem somos nós. E só se deram conta agora de que eles são os alvos dessa história. – risadas – Alguns ficarão muito bravos com ela. Mas ela é assim mesmo. Inusitada. Louca, dizem alguns. Contudo, eles voltarão de vez em quando para se alimentar de nós ou de outros. Nós os chamamos simplesmente de “Leitores”. São muitos não dá para lembrar todos os nomes. Nem mesmo ela que é do mundo de lá conhece seus nomes.
__ E afinal, quem é ela?
__ Waleska. Uma criatura taxada de louca desde menina. E no fundo, até acho que ela é. Todavia, é da loucura dela que nascemos. Esse mundo que você vê foi todo criado por ela. Esse jardim, essa rua, cada um dos moradores que aqui vivem somos todos filhos do mesmo cérebro, da mesma mente, mas não da mesma ideia. 
__ Então, eu sou só um personagem?
__ Não! Só uma personagem, não. Você é O personagem dessa viagem. E agora poderá ser o que quiser e morar onde quiser nesse nosso mundo. Eles irão embora e só ela sabe o que acontece aqui. 
__ Eu quero é comer algo porque estou com muita fome.
__ Concordo com ele, Amélia. Também, estou com fome.
__ Wade, você está sempre com fome. Vamos entrar e comer bolinhos de chuva com café. 

Eles se levantam e suas vozes vão sumindo junto com eles para dentro da casa. E quanto a você leitor, até a próxima vez. Tchau!
(Waleska Zibetti)

Sobre Produção Literária:
Deixe-me falar um pouco sobre a arte de escrever. Nunca me olhei como escritora e nem pretendo fazê-lo um dia. Olho meus escritos como uma necessidade na minha vida. E o meu processo criativo é viver, ler, pensar, ruminar e escrever.

Saio pelas ruas com olhos atentos ao detalhes, ao imperceptível a grande maioria. Permito-me atrasos se for uma prosa ou uma paisagem. Já corri muito até entender que Deus me deu pernas curtas para que andasse miúdo. Hoje, passeio pela vida. E passeando por ela vivo melhor.


Leio centenas de coisas e poucas me prendem. Os grandes autores me deixam frases soltas. Geralmente um livro inteiro desses caras me faz perder o tesão por eles porque são chatos. Leio os grandes como quem toma doses homeopáticas de um remédio qualquer. Sou feita de remendos literários. Um Frankenstein poético.


Depois de ingerida minha dose literária, penso, repenso, analiso, critico, discuto... Tudo comigo mesmo! "Coisa de gente aluada!", sentencia minha mãe. Eu sou aluada porque vivo por ali na lua, em Shangrilá, Oz, Xanadu, País das Maravilhas, Mundo de Sofia, Asteróide B612... Eu estou em universos longínquos e por isso mesmo tão consciente de minhas responsabilidades com esse mundo ao qual pertenço.


Então, é hora de pôr no papel tudo aquilo que ficou inquietando, tomando forma, revirando meus íntimo. A coisa volta na madrugada. Sou ruminante de ideias, de pensares. E despejo no papel minhas impressões de cenas cotidianas. Dou um título e jogo para o próximo que lerá, que pensará, que ruminará e explodirá em um ponto além do meu.

Escrever para mim é expandir-me. É o meu alongamento diário. E resumo essa arte, esse dom, da seguinte maneira: se aos lusos o navegar é preciso, aos loucos é necessário escrever.

Beijos literários a todos.

Eu, modo de usar

Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir. Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar. Acordo pela manhã com ótimo humor mas… permita que eu escove os dentes primeiro. Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza.
Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas e nem seja preconceituoso, não perca tempo, cultivando este tipo de herança de seus pais. Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude. Eu saio em conta, você não gastará muito comigo. Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa. Respeite meu choro, me deixe sozinha, só volte quando eu chamar e, não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada. (Então fique comigo quando eu chorar, combinado?).
Seja mais forte que eu e menos altruísta! Não se vista tão bem… gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço. Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado, você tem que se esfolar às vezes, mesmo na sua idade. Leia, escolha seus próprios livros, releia-os. Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos. Seja um pouco caseiro e um pouco da vida, não de boate que isto é coisa de gente triste. Não seja escravo da televisão, nem xiita contra. Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.
Me enlouqueça uma vez por mês mas, me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca… Goste de música e de sexo. Goste de um esporte não muito banal. Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa, apresentar sua família… isso a gente vê depois… se calhar… deixa eu dirigir o seu carro, que você adora. Quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulheres, tenha amigos e digam muitas bobagens juntos. Não me conte seus segredos… me faça massagem nas costas. Não fume, beba, chore, eleja algumas contravenções. Me rapte! Se nada disso funcionar… experimente me amar!

Martha Medeiros

Au Revoir
Até o Próximo Texto

domingo, 19 de outubro de 2014

Com você... Meu mundo ficaria completo

"Eu só queria te contar
Que eu fui lá fora
E vi dois sóis num dia
E a vida que ardia sem explicação..."
(O Segundo Sol, Comp.: Nando Reis)


Se hoje fosse traduzir minha semana, meu momento num álbum seria esse: Com você... Meu mundo ficaria completo.
Até a sonoridade de pronunciar o nome do CD é poética e pra quem escuta faixa a faixa entende o que significa cada canção.

Esse sem dúvida é o melhor disco de Cássia Eller e de quebra um dos mais belos da MPB.
Com Você...Meu Mundo Ficaria Completo,é o auge do sucesso da cantora no fim da década de 90 (Este álbum é de 1999). Como grande intérprete que foi, Cássia traz no disco composições de diversos gêneros e de autoria de vários grandes nomes da música brasileira como Arnaldo Antunes, Pepeu Gomes, Marisa Monte, Carlinhos Brown, Nando Reis entre tantos outros. O disco já começa com seu maior sucesso, Segundo Sol, que segundo a própria cantora, ela roubou de Nando Reis.
O disco inteiro é um convite para uma conversa bem intimista e uma passagem para a fase mais feminina deste que  é o melhor álbum da carreira brilhante, porém curta, de uma das maiores vozes que este Brasil pôde conhecer.

Quer baixar este cd?
Clique Aqui


Até o próximo Post
Au Revoir

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

MORRO DOS VENTOS UIVANTES

RESENHA
Por Gabriella Gilmore



Morro dos ventos uivantes

Considerado um dos clássicos da literatura inglesa, Wuthering Heights (Morro dos ventos uivantes), de Emily Brontë, faz jus ao título.
Este romance é narrado por duas pessoas, o Sr. Lockwood, o futuro inquilino de Heathcliff e a ama Ellen Dean, que assume a narrativa no decorrer da trama, ao relatar ao locatário todo o drama vivido naquelas terras.
Tudo começa quando Sr. Earnshaw traz um menino de rua como “presente” para sua filha Catherine, ao voltar de sua viagem a Liverpool.
Como o senhor estava se afeiçoando mais ao seu filho adotivo do que ao seu legítimo, Hindley, isso gera um ciúme e revolta excessiva no adolescente, descontando tudo depois do falecimento dos pais.
Heathcliff e Catherine cresceram juntos, amando-se e até mesmo respeitando o temperamento difícil de ambos, afinal, Catherine era muito ativa, espontânea e dual, algo que, mais adiante, foi motivo para prejudicar a relação entre eles. Porém, Heathcliff, era mais calado, sombrio e vingativo. Aproveitou muito da confiança de seu pai, para assim fazer chantagens a Hindley. Prova disso foi o ódio que ele cultivou do irmão emprestado.
Em uma de suas andanças pelos arredores de Wuthering Heights, o casal resolve chegar próximo à casa dos Lintons. Na fuga de volta para casa, Catherine se machuca e logo é resgatada pelos empregados dos Lintons que, levando-a para casa, resolvem tratar de seu ferimento. 
Heathcliff retorna ao Morro e avisa do acontecido. 
Passam-se umas semanas, ela retorna mais polida e educada. Ali encontra seu amigo sujo e ainda mais amargurado, afinal, ela o abandonou sem mandar um recado.
Com o decorrer dos dias, Catherine foi ficando mais íntima dos irmãos Isabela e Edgar Linton e acaba aceitando o pedido de casamento do refinado rapaz.
Ao contar a novidade para sua ama, Ellen Dean, Catherine confessa seu amor eterno por Heathcliff, falando que ele é mais ela do que ela mesma, e não sabe do que é feito as almas, porém tem a convicção de que ambas são iguais. Ela se casando com Heathcliff, seria o mesmo que degradar-se, contudo se casando com Linton, esta poderia de alguma forma ajudar o pobre rapaz.
Mal sabia Catherine o caos que estava fazendo em enganar o próprio coração.
Em algumas partes da trama, você quer sufocar Catherine por não ter escutado a voz interna do coração e por ter se casado com Edgar por vaidade.
Outras vezes, você quer estrangular Heathcliff por ser tão amargo e vingativo, e por levar adiante uma vingança lenta e fria, sacrificando até mesmo a segunda geração de ambas famílias..
O interessantíssimo da história é que é quase impossível você julgar ou tentar achar um culpado por toda aquela desgraça amorosa. E ainda acredito que essa foi a grande chave para todo o sucesso da autora Emily, afinal, seus primeiros escritos foram recusados por várias editoras.
Eu ficaria aqui horas relatando os pontos marcantes, não só da história, mas também da trajetória de vida da autora, que morreu aos 30 anos, sem mesmo ter se casado, mas que conseguiu relatar um amor tão bonito, tão profundo, mesmo que reprimido.
E a mensagem que ela quer nos deixar é para que não silenciemos nossos corações, porque amor é como um sopro de vida, e só acontece uma vez. Se você finge não escutá-lo, desfalece-se aos poucos, e as conseqüências são lentas, porém, dolorosas demais.


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O Mundo de Todos Nós



“O mundo pode ser um palco.
 Mas o elenco é um horror.”
 (Jostein Gaarder, in “O Mundo de Sofia”)


Há alguém olhando por nós ou estamos sozinhos? O que acontece quando tudo acaba? Qual é o seu papel no mundo? Penso que Jostein Gaarder quis bem mais que falar de filosofia em sua obra. Penso que ele quis nos tirar de um lugar cômodo e seguro onde pensamos estar, para fazer com que nós nos movimentemos em dúvidas inquietantes. Quem ousaria pensar e ir até a ponta do pêlo do coelho branco anteriormente? Poucos!

Li  “O Mundo de Sofia” aos trinta anos. Um momento de despertar em minha vida. Tinha recém tido meu segundo filho e meses que eu morava numa nova cidade onde não conhecia ninguém. Foi fácil manter-me mergulhada nesse universo de pensamentos insanos proposto pelo escritor. E a medida que eu mergulhava nele, eu me trazia a tona.

Não é fácil a leitura desse livro. E se você tiver preguiça de pensar, ele pode tornar-se enfadonho. São muitas informações sobre linhas filosóficas misturadas a trajetória de uma adolescente curiosa. A escolha de uma heroína não torna o livro mais leve. Em minha opinião, o autor foi inteligentíssimo na escolha adolescente. Adolescentes são curiosos e não temem experimentar-se e ousar. E é através desses olhos adolescentes e curiosos que ultrapassamos o portal para dentro de nós e algumas de nossas dúvidas primordiais.

Há alguém olhando por nós ou estamos sozinhos? Quando posso olhar as estrelas a noite, me pego a perguntar em qual delas Deus mora. E rio sozinha pensando de onde tiro essas bobagens.  Talvez Deus não exista. Talvez nenhum desses avatares supremos exista. Mas me conforta imaginar que há além do limites que minha compreensão alcança alguém que me cuide, que me protege do mundo, que me orienta nos momentos de dúvida e que vibra nos meus momentos de chegada. Se Ele não existe, ao menos, Ele me conforta na ideia de que está lá em alguma estrela me amando incondicionalmente e torcendo por mim.

O que acontece quando tudo acaba? Imagino que um dia eu amanhecerei a esquina de uma rua longa onde casinhas simples de cores claras e sem cercas estarão começando seu dia. Cheiros bons de café e bolo quente estarão cobrindo a rua onde eu caminharei levando apenas uma mochila nas costas carregada de pequenas coisas como sonhos, sentimentos bons, pensamentos... Até que em uma das casas da varanda meu pai me sorrirá e me abraçará dizendo “Bem vinda!”. E haverá tanto amor e carinho nessa recepção que pouco me importará porque estou ali. E tudo que se passou de tristeza e dor, morrerá naquele abraço. E eu terei renascido para uma nova história num mundo aonde só vão os que não tiverem medo desse aqui.

Qual é o seu papel no mundo? Meu papel é o de aprendiz. Esse mundo que estamos é o mundo do servir, da doação, da superação. E aprendemos ao servir sobre a humildade e sobre a ingratidão, sobre o desprezo e sobre a gratidão. Doando-se aprendemos sobre o amor e ódio, sobre o ter e a falta, sobre humilhação e engrandecimento. E nos momentos de superação aprendemos sobre força, união, coragem, amor e fé. Foi servindo que aprendi o valor de um “obrigado” e foi sendo servida que aprendi como é bom poder contar com alguém. Vou me doando que aprendi a não me queixar da vida e foi recebendo que aprendi o real valor de um abraço na hora da dor. Foi erguendo alguém da queda que entendi porque Deus me fez essa fortaleza que aparentemente sou e onde muitos se apoiam. E foi caindo que aprendi que Deus está lá nas estrelas, mas quando preciso, Ele vem correndo me aparar aqui na terra. E o meu papel no mundo é aprender como me humanizar todos os dias para continuar a ser merecedora desse acolhimento divino. 

Quem ousaria pensar e ir até a ponta do pêlo do coelho branco anteriormente? Não eu! Mas graças a esse livro e tantos outros, eu cheguei lá. E de lá não quero mais sair. Hoje caminho pelas pontas dos pêlos em busca de algo ainda além. Porque sei que há alguém além. Sempre há para quem se dispões a ir além.


Até a próxima leitura. 


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Eu tenho medo de fracassar...

Já tive medo também. Medo do encontro comigo, receio do encontro com o outro. Um pavor de perder o que conquistei - e o que deixei a vida me ensinar. Um medo, forte, de não me reconhecer, de pedaços meus fugirem (para nunca mais voltarem). Bate uma aflição: e o meu espaço, e eu, e nós, e o que eu queria para a minha vida?
(Clarissa Corrêa)



O homem nunca pode parar de sonhar; o sonho é o alimento da alma, como a comida é o alimento do corpo. Muitas vezes, em nossa existência, vemos nossos sonhos desfeitos e nossos desejos frustrados, mas é preciso continuar sonhando, senão nossa alma morre.
O Bom Combate é aquele que é travado porque o nosso coração pede.
O Bom Combate é aquele que é travado em nome de nossos sonhos. Quando eles explodem em nós com todo o seu vigor - na juventude - nós temos muita coragem, mas ainda não aprendemos a lutar.
Depois de muito esforço, terminamos aprendendo a lutar, e então já não temos a mesma coragem para combater. Por causa disto, nos voltamos contra nós e combatemos a nós mesmos, e passamos a ser nosso pior inimigo. Dizemos que nossos sonhos eram infantis, difíceis de realizar, ou fruto de nosso desconhecimento das realidades da vida. Matamos nossos sonhos porque temos medo de combater o Bom Combate.
O primeiro sintoma de que estamos matando nossos sonhos é a falta de tempo.
As pessoas mais ocupadas que conheci na minha vida sempre tinham tempo para tudo. As que nada faziam estavam sempre cansadas, não davam conta do pouco trabalho que precisavam realizar, e se queixavam de que o dia era curto demais: na verdade, elas tinham medo de combater o Bom Combate.
O segundo sintoma da morte de nossos sonhos são nossas certezas.
Porque não queremos aceitar a vida como uma grande aventura a ser vivida, passamos a nos julgar sábios, justos e corretos no pouco que pedimos da existência.
Finalmente, o terceiro sintoma da morte de nossos sonhos é a Paz. 
A vida passa a ser uma tarde de Domingo, sem nos pedir grandes coisas, e sem exigir mais do que queremos dar. Achamos então que estamos maduros, deixamos de lado as fantasias da infância, e conseguimos nossa realização pessoal e profissional. Mas na verdade, no íntimo de nosso coração, sabemos que o que aconteceu foi que renunciamos à luta por nossos sonhos, a combater o Bom Combate.
Quando renunciamos aos nossos sonhos e encontramos a paz, temos um pequeno período de tranquilidade. Mas os sonhos mortos começam a apodrecer dentro de nós, e infestar todo o ambiente em que vivemos.
Começamos a nos tornar cruéis com aqueles que nos cercam, e finalmente passamos a dirigir esta crueldade contra nós mesmos. Surgem as doenças e as psicoses. O que queríamos evitar no combate - a decepção e a derrota - passa a ser o único legado de nossa covardia. E um belo dia, os sonhos mortos e apodrecidos tornam o ar difícil de respirar e passamos a desejar a morte, que nos livra de nossas certezas, de nossas ocupações, e daquela terrível paz das tardes de domingo.”

Só uma coisa torna um sonho impossível: o medo de fracassar.


Até o próximo texto
Au Revoir

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Somos, Seríamos e Seremos todas Sofias!

O homem deveria aceitar o seu destino. Nada acontece por acaso, diziam os estóicos. Tudo acontece porque tem de acontecer e de nada adianta alguém lamentar a sorte quando o destino bate à sua porta.
Também as coisas felizes da vida devem ser aceitas pelo homem com grande tranquilidade.
Ainda hoje falamos de uma 'tranquilidade estóica' quando queremos nos referir a uma pessoa que não se deixa inflamar por seus sentimentos.
(Jostein Gaarder - O mundo de Sofia)
Quem é você? De onde vem o mundo? 
Quem em algum momento da vida não se fez essas perguntas?
Este livro para mim chegou em um momento oportuno: 15 anos. Talvez uma das fases da vida em que mais nos questionamos e a mente pulsa por respostas. Este ainda conseguiu me auxiliar na disciplina de filosofia da Escola e conseguiu introduzir um pouco dos pensadores e filósofos pré-socráticos aos contemporâneos desde Aristóteles, Santo Agostinho, Descartes, Kant, Marx e até Darwin! 
O livro começa quando Sofia Amundsen, em vias de completar 15 anos, recebe pelo correio cartas endereçadas a ela com perguntas muito estranhas, mas, que são comuns nesta tenra idade. "Sua Felicidade" então começa quando ela recebe através de cartas anônimas um misterioso curso de filosofia. Junto com isso, ela também recebe cartões postais destinados a uma menina chamada Hilde Knag, que Sofia não tem a mínima ideia de quem seja.

Se o cérebro humano fosse tão simples ao ponto de podermos entendê-lo, nós seríamos tão idiotas que não conseguiríamos entendê-lo.

Afinal de contas o que seria a filosofia? É uma pergunta interessante. Não observamos quase ninguém perguntar, por exemplo, o que é matemática ou física? Mas se acha natural perguntar: o que é Filosofia?
A grande sacada do livro O Mundo de Sofia foi ter percebido que não se pode introduzir e divulgar a filosofia através dos textos especializados dos próprios filósofos: seria o mesmo do que tentar ensinar geometria através dos textos de Euclides, música através das partituras de Beethoven, ou física através dos textos de Copérnico. Os filósofos, assim como os músicos ou os cientistas, produzem obras cujo destinatário são os outros profissionais e não aos adolescentes.

"Duas coisas me enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e frequentemente o pensamento delas se ocupa: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim".

O autor conseguiu introduzir didaticamente para cabecinhas compreendidas entre 15 e 20 anos de idade uma leitura e estudos filosóficos e é aconselhável também para todos aqueles que querem conhecer um pouco mais desse universo incrível.Quem sabe, um dia Gaarder não lance seu romance da contra-história da filosofia e fale dos Utilitaristas, Materialistas, Libertinos, Nietzschianos, entre outros.

“[...] um coelho branco é tirado de dentro de uma cartola. E porque se trata de um coelho muito grande, este truque leva bilhões de anos para acontecer. Todas as crianças nascem bem na ponta dos finos pelos do coelho. Por isso, elas conseguem se encantar com a impossibilidade do número de mágica a que assistem. Mas conforme vão envelhecendo, elas vã se arrastando cada vez mais para o interior da pelagem do coelho. E ficam por lá. Lá embaixo é tão confortável que não ousam mais subir até a ponta dos finos pelos lá em cima. Só os filósofos têm ousadia para se lançar nessa jornada rumo aos limites da linguagem e da existência. Alguns deles não chegam a concluí-la, mas outros se agarram com força aos pelos do coelho e berram para as pessoas que estão lá embaixo, no conforto da pelagem, enchendo a barriga de comida e bebida.
– Senhoras e senhores – gritam eles -, estamos flutuando no espaço
Mas nenhuma das pessoas lá debaixo se interessa pela gritaria dos filósofos
– Deus do céu! Que caras mais barulhentos! – elas dizem.
E continuam a conversar: será que você poderia me passar a manteiga? Qual a cotação das ações de hoje? Qual o preço do tomate? Você ouviu dizer que a Lady Di está grávida de novo?” p. 31

Até o próximo texto
Au Revoir