domingo, 6 de julho de 2014

O Homem Que Desafiou o Diabo



Lançamento
28 de setembro de 2007 
Duração
1h46min
Dirigido por
Moacyr Góes
Com
Marcos Palmeira, Fernanda Paes Leme
Gênero
Comédia
Nacionalidade
Brasil

Sinopse e detalhes
Zé Araújo (Marcos Palmeira) é um homem boêmio, que gosta de freqüentar cabarés e ouvir cantadores de viola. Após tirar a virgindade de uma turca, ele é obrigado pelo pai dela a se casar. Durante anos Zé passa por seguidas humilhações, provocadas por sua esposa. Um dia, ao ouvir uma piada sobre sua situação, ele se revolta, destrói o armazém do sogro e ainda dá uma surra na esposa. Ao terminar ele monta em seu cavalo e parte sem destino, decidido a ter uma vida de aventuras. A partir deste dia Zé Araújo passa a ser conhecido como Ojuara, enfrentando inimigos e vivendo situações inusitadas.

Minha Opinião

Um passeio pelos cenários nordestino brasileiro através da linguagem de cordel é a proposta dessa divertida comédia nacional que assisti nessa última sexta-feira. Um filme sem grandes pretensões aparentes, mas com algumas mensagens subliminares que desconstrói as figuras típicas do interior.

O Zé Araújo é o caixeiro viajante acostumado a estrada que cai na armadilha de uma mocinha e acaba no cabresto. Com o tempo, meio que se acomoda com a situação. Até que decide matar o seu “eu ridicularizado” para dar vida ao seu alter ego  Ojuara – Araújo ao contrário. E a partir daí, Zé vira mesmo o seu inverso. Cria e traça novos rumos para sua vida, sua coragem vai abrindo portas nesse mundo e no mundo dos espíritos. A diversão é garantida numa atuação ímpar de Marcos Palmeira.

Ah, por que falar desse filme? Bom, pense bem em quantas vezes você não quis ser o seu inverso. Eu adoraria deixar nascer a Akselaw e aventurar-me por aí em novas experiência sem o peso das responsabilidades que a Waleska tem, sem tantas poesias e borboletas no pensamento... Uma mulher mais prática e fria. Está chocado? Fica não! Eu queria ter um coração mais pedra que é para pensar um pouco mais em mim. Talvez seja egoísta de minha parte, mas...

Desafiar o diabo, não foi o ato de maior coragem de Ojuara. Penso que o que o torna um personagem especial é o desafio que ele se propõe para si ao longo de seu caminho, a determinação de atingir uma cidade fantasiosa onde paz e as coisas boas reinam. Ojuara é representação da determinação nordestina que não desiste de uma vida simples e justa. E essa determinação de Ojuara é invejável!


Senhores, deixo-lhes agora com o próprio Ojuara, esse anti-herói mais “heroístico” que já conheci que mal comparando podemos chamar de Quixote brasileiro sem Sancho Pança e com uma Dulcinéia prostituta. Hei-o, senhores, Ojuara!

“O meu nome é Ojuara eu vim de longe e vou em frente, e o senhor não é mais feio que certo tipo de gente. Feio é a herança do homem, a herança de Caim. Praga de mão ofendida, tentação do coisa ruim. Feio é aquela sombra escura que vai levando consigo o covarde que traiu a confiança do amigo. A beleza e a feiúra tão junta em toda parte, a beleza inté na morte, e feiúra inté na arte. Olhe seu rosto no espelho e não perca a esperança, porque foi Deus que lhe fez, à sua imagem e semelhança.”


sexta-feira, 4 de julho de 2014

O casamento grego





Titulo original: (My Big Fat Greek Wedding)
Lançamento: 2002 (EUA)
Direção: Joel Zwick
Atores: Nia Vardalos , John Corbett , Michael Constantine , Lainie Kazam , Andrea Martin.
Duração: 95 min
Gênero: Comédia
Produção:Gary Goetzman, Tom Hanks e Rita Wilson

O casamento grego – Resenha - Por Gabriella Gilmore


“Não deixe que o passado mude o que você é, mas deixe-o fazer parte do que você será.”
Posso dizer que é com uma grande responsabilidade que sento ao computador para escrever uma resenha sobre o filme Casamento grego.
Já escrevi inúmeras, tenho uma que até considero ‘premiada’ pelo número de acessos que há na internet, mas esta em especial, será uma tarefa delicada e te digo, leitor, o porquê.
Assim que você termina de assistir o filme, logo você procura os extras do DVD, e assiste uma, duas, três vezes se necessário. Depois você procura informações na internet, curiosidades, comentários. Aposto que gostaria até de ter o e-mail pessoal da protagonista para trocar-lhe algumas palavras. Agora te pergunto: Por que dessa melação toda? O que esse filme tem de tão especial que te deixa sem palavras? Ou faminta em indicá-lo aos amigos? A resposta acaba sendo simples: Histórias de amor, famílias que amam seus filhos a ponto de sufocá-los, casamento entre pessoas que não pertence ao mesmo ‘mundo’, existe.
Nia Vardalos (Toula) escreveu seu próprio conto de fadas para uma peça de teatro. Em silêncio, fez uma adaptação também para o cinema.
Em uma de suas apresentações, Rita Wilson, esposa do ator e produtor Tom Hanks, assistiu a adorável peça e depois foi parabenizá-la pelo sucesso e em seu íntimo sabia que ao comentar sobre o trabalho dela para seu esposo, seria quase certo dele querer adaptar o trabalho para a TV. Foi dito e feito.
A história conta a vida de Toula Portokalos, nascida nos USA, porém, com raízes 100% grega. Sua família E-NOR-ME tinham uma percepção diferente sobre os indivíduos, de que existiam apenas dois tipos de pessoas: as gregas e não-gregas. Família muito conservadora, os filhos só poderiam se casar com alguém da mesma etnia onde as mulheres fariam o papel da boa esposa, dona de casa, procriando e preparando pratos fabulosos na cozinha.
Toula, que já estava com 30 anos e trabalhava no restaurante grego da família, estava cansada de uma existência vazia, sem cor e sentido, gostaria muito de fazer algo útil na vida.
Uma vez ela pegou um folheto onde falava sobre cursos de informática, e foi ai que ela pensou em mudar sua rotina. O pai relutou contra, dizendo que ela já era inteligente o suficiente para ir estudar e que a coisa que mais o deixaria feliz seria se ela se casasse e procriasse, como toda mulher normal.
Apesar do drama hilário do chefe daquela família, ela consegue ir para a faculdade. Ali começa uma nova etapa da sua história, onde ela encontra uma beleza que estava guardada dentro de si e de gancho, o homem da sua vida.
Te convido a dar boas gargalhadas com essa doçura de filme e aposto que no final, você sentirá orgulho de ser brasileiro, pois temos muito daquele calor excessivo dos gregos, onde tudo é motivo de festa, fuxico, e OPA!

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Um Ponto Além



E bati, e bati outra vez, e tornei a bater,
e continuei batendo sem me importar
que as pessoas na rua parassem para olhar,
eu quis chamá-lo, mas tinha esquecido seu nome...
(Caio Fernando Abreu, in “Além do Ponto”)


Estamos sempre indo ao encontro de alguém ou de algo. Uma busca incessante pelo que nos completa e amplia como lemos nos livros, como nos contam pelas estradas, como nos falam as músicas, como vemos nos filmes. Somos seres lacunares. Almas despedaçadas. Qual parte lhe falta?

Alguns de nós são corajosos se lançam no encontro sem proteção, sem medo. Ou será a inocência que nos leva a caminhar assim tão impulsivamente por aí permitindo que o outro entre em nossas vidas e depois se vá de nós nos mutilando mais uma vez? A maior parte de nós são cicatrizes. Qual a cicatriz que mais lhe dói?

Quando realmente se quer algo não medimos esforços para conquistar. A desculpa brota de algum tipo de desinteresse. E na multidão os solitários são os olhos de caçadores ávidos atrás de uma nova presa. E na vida todos são presas e caçadores. Qual papel você está desempenhando hoje?

Contudo, é importante que sigamos... Olhe para fora de si! Há um mundo muito maior que esse que você vê. Até onde podemos ir para atingir o que idealizamos? Mas aproveite as curvas do caminho para experimentar-se. Nos atalhos moram os perigos que fazem a diferença. O proibido é o vinho dos sábios. Somos criaturas imorais. Qual pecado você esconde?

Estamos sempre a procura. Não importa o quanto tenhamos encontrado. A vida é ir e ir e ir... A limitação do ponto é o desconhecimento do poder do espírito. Estamos em busca do inatingível. E na impossibilidade alguns se desesperam, se angustiam e se debatem. Somos criaturas conflitantes. Onde mora a sua dualidade?

Colecionamos rosto que esquecemos e que nos esqueceram. Imaginamos onde estão e o que fazem nos dias de chuva quando a rotina e o tédio são a corda para enforcamento da razão. Na solidão de uma casa alguém se questiona como teria sido. No cansaço do casamento eles se perguntam o porquê. O menino pensa no homem. A mulher pensa no menino. Somos criaturas curiosas. Qual parte de você, você ainda desconhece?

Mas é preciso ir além. Percorrer as vias do medo. Ultrapassar o limite da dúvida. É preciso não parar no porto. É importante que se lance para o horizonte. É fundamental que não desista. Apesar da pedra, do ponto, da porta... Somos criaturas errantes. Qual caminho você tomará hoje?

terça-feira, 24 de junho de 2014

Atitudes perfeitas!

"Somos suspeitos de um crime perfeito,
Mas crimes perfeitos não deixam suspeitos..."
(Engenheiros do Hawaii)


Todos são inocentes até que provem ao contrário. Mas na vida sempre andaremos em atitudes suspeitas. A nossa escritora Waleska Zibetti tem razão, assim como a Gabriella Lima também.
Mas esqueceram de tocar em um ponto: até que momento somos nós a andar em atitudes suspeitas?
Até que ponto o nosso desconfiômetro  estará ligado em carga máxima?
Até quando vamos ter essa falta de confiança no semelhante?
Já perdi as contas de quantas vezes fui assaltada, inclusive por pessoas bem vestidas, então, não é a aparência que importa, mas, o caráter e personalidade que se formou em nossa sociedade! 
Brancos, Negros, Mulheres, Homens, classe a, b, c... políticos, profissionais liberais... todos os dias em atitudes suspeitas. Mas qual era a atitude suspeita?

As respostas são as mais diversas e até contraditórias.
Até o próximo Post!

quinta-feira, 19 de junho de 2014

TODOS SÃO SUSPEITOS



Por Gabriella Gilmore

Me desculpe Wal, mas até que provem o contrário, para mim, todos são suspeitos.
Vivemos num mundo no qual não ser neurótico é anormal. Sim. Eu sou neurótica e não me tornei uma atoa. Mas a minha paranoia só é suspeita quando estou andando na rua e sempre tem alguém andando colado em mim, ou atravessa a rua logo quando eu acabei de atravessar ou quando estou em alguma fila ou entrando em algum ônibus. Para mim, a sensação de que serei assaltada de novo me vem toda hora.
Antes de eu ser assaltada há uns anos atrás, eu não suspeitava de ninguém. Achava que todo mundo era do bem. Andava falando ao celular, abria a bolsa no meio da rua, ficava em fila sem me preocupar em colocar a mochila na frente do corpo, porque vivia numa bolha em que assaltos só aconteciam com as pessoas lá de fora.
Uma vez, indo para a virada do ano novo, um casal mal arrumado nunca chamaria minha atenção, até aquele dia, quando fui abordada por eles tendo de entregar minha bolsa de colo. Levaram tudo o que eu tinha: dinheiro, celular, maquiagem, cd da Avril Lavigne (que nem era meu), uma garrafa de vinho e um Pack de Trident.
A partir de então, todo casal mal arrumado, de chinelo e boné, passou a ser suspeito.
Anos depois, na fila do ônibus, pronta para subir ao veiculo, algum sujeito, abriu minha mochila sem eu perceber e levou meu celular novinho. Só fui perceber isso quando sentei e vi a mochila aberta. Seis meses depois, com um celular ainda mais caro, o ocorrido passa a se repetir, e dessa vez com o ônibus vazio. Só havia eu, e o meliante atrás de mim, sentado, enquanto eu estava de pé perto à porta esperando o ônibus parar para eu sair.
Novamente abriu a mochila e levou o aparelho. Sim, o raio cai duas vezes no mesmo local.
A partir de então, passei a andar só com a mochila na frente, e todo mundo que cola em mim, seja em filas ou enquanto estou andando na calçada é suspeito, até que o mesmo siga quilômetros a minha frente sem ter me feito nada. “Esse era inocente”.
A sensação de impotência e insegurança é horrorosa, porém não foi algo que eu criei sozinha.
E para resumir o meu pensamento, segue uma frase de um autor leitor corporal que a pouco descobri.

“As nossas expectativas, sem dúvida, nos levam a pensar de formas determinadas. E como acabamos de ver, é difícil abandoná-las. Por isso a primeira impressão nos marca tanto e torna difícil retificar opiniões. (...) A aparência de uma pessoa determina então de maneira inevitável a primeira impressão que esta nos causa.” – Thorsten Havener – em O mentalista.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Atitude, Sim. Suspeita, Talvez.




Sempre me intriga a notícia
de que alguém foi preso
“em atitude suspeita”.
É uma frase cheia de significados. 
(Luis Fernando Veríssimo)

Reparou que quando não andamos na mesma mão da maioria rapidamente ganhamos rótulos no meio em que vivemos? É muito difícil as pessoas entenderem que cada pessoa é um ser único. E que gostos, credos, cores... Não formam caráter. Aliás, o que é mesmo caráter, heim? Caráter, para a psicologia é a individualidade pessoal e social de alguém. Individualidade... Cada ser nesse mundo é um indivíduo ímpar, incomparável e insubstituível.  Logo, não há como pensamentos serem exatamente iguais.

A sociedade criou estereótipos comportamentais tão fortes e tão antigos que esses se impregnaram em nós como se fossem parte do nosso próprio  DNA. Parece tolice, não é? Mas pense em quantas vezes você evitou a manga com leite ou passar embaixo de escada? Ainda acha pouco? Quantas vezes ao perceber o olhar de uma criança de rua vindo em sua direção, você apertou contra si mais forte a bolsa que carregava temendo o roubo? Quantas vezes você se surpreende com um vídeo onde um morador de rua revela algum talento não compatível a sua realidade social? Mas será que toda criança de rua rouba, todo mendigo é burro, todo roqueiro adora o diabo, todo evangélico está salvo, todo anjo é puro? A generalização e banalização dos comportamentos podem acarretar no não entendimento de um todo e por isso mesmo no cometimento de injustiças.

Certa vez um homem que admirava muito por sua inteligência sentenciou em uma conversa: “Não se pode amar uma prostituta. Elas não querem ser de família”. Todo o meu encanto por aquele homem quebrou-se como cristal ao cair no chão. Explico-me. Convivi com prostitutas, conversei com elas várias vezes, e suas histórias são geralmente de muita dor. E a grande maioria adoraria não estar ali e ter o direito a ter um casamento sóbrio, feliz onde elas fossem amadas e respeitadas. São mulheres de posição firmes e aparentemente frias. Contudo, muitas delas escondem nas atitudes distantes corações apaixonantes para poderem continuar vivas naquele meio. Este homem, nordestino, com certa idade, criado para ver até mesmo a própria esposa como procriadora; teve, provavelmente, esse estereótipo implantado nele desde cedo. E hoje se incapacitou para uma visão mais ampla da situação.

Outra situação vivi há pouco tempo quando saí de uma reunião em uma empresa e ao ligar o meu celular um dos supervisores percebeu que eu ouvia Kiss. Ele me perguntou “Você é roqueira?”. E eu com um sorriso amistoso disse que sim. Ele disse como pode uma mulher tão refinada gostar disso. Fui obrigada a gargalhar dentro do elevador. E depois vendo que ele não cederia dentro de sua concepção eu o encarei e disse baixinho: “O pior você nem imagina. Também como morcegos!”.

O que quero com os dois exemplos é mostrar que é preciso que aprendamos um meio de fugir desses conceitos que nos incutem antes mesmo que possamos ter uma consciência crítica do assunto. É preciso que, como pais e educadores, comecemos a construir uma nova geração capaz de entender por si e para si o conceito de certo e errado, bom e ruim, bem e mal... É possível, por incrível que pareça fazer uma criança pensar em ação e reação, atos e consequências, erro e perdão... Sem ter que falar em pecado, sem ter que criar fórmulas para tudo, sem ter que criar modelos... Educar com consciência e respeito, com amor consciente e não cego. É importante que os pais entendam que seus filhos são para o mundo e como tal serão responsáveis pelo o que adicionarem ao mesmo.

Ninguém é suspeito por andar de preto, por ser caladão, por falar com plantas, por ler poesia. Nenhum menino é homossexual só porque usa rosa. Nenhuma menina é lésbica só porque joga bola. Deus não castiga se você xingar um palavrão quando estiver com raiva. Os pais não têm sempre razão porque são humanos. Ninguém tem que agir contra si para se enquadrar em um grupo.  É preciso que nos conheçamos melhor que aos outros. Ainda que isso nos deixe em atitude suspeita. 

Até breve!!!

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O Desembarque



“Então, é isso! 
exclamou de repente em voz alta. - 
Que alegria!”
(Liév Tosltoi, in "A Morte de Ivan Ilitch")

É hora de se despedir de Ivan. Nós desembarcamos aqui, enquanto o trem suavemente deixa a plataforma levado um Ivan mais leve e sem sofrimento. Consciente de que a passagem e todo o ritual de dolorosa expurgação eram necessários. Aceno adeus a um Ivan que ruma para o seu destino tranqüilo depois do reencontro consigo, depois de esgotar todas as suas dúvidas e de realmente enxergar-se.

Mas será que precisamos realmente passar por essa tortura física e psicológica para só no fim nos encararmos dentro de nossas reais condições humana? Acho que não! Se nos propusermos a passar um tempo dentro de nós a cada dia nos avaliando, creio que nós nos reorganizamos por não permitindo que nosso “eu” caia no caos de emoções tão normal diante das atribulações diárias.

Certa vez fui a uma exposição de Salvador Dalí e fiquei muito impressionada com uma estátua de um homem formado por gavetas. Se nós pensarmos em nós da mesma maneira que Dalí provavelmente pensou, veremos que somos mesmo “engavetados”. Feche um olho por um minuto e imagine se você não organiza os sentimentos assim “em gavetas”. Uma gaveta de obrigações, outra de prazeres, pessoas inesquecíveis, pessoas que não queremos mais ver, natais, invernos...

Às vezes, essas gavetas ficam meio reviradas porque na correria do dia-a-dia não temos tempo para organizá-las. Vamos só jogando tudo lá dentro e pensando “Eu ajeito tudo depois”. E esse é nosso grande erro! Não teremos tempo para isso depois. E aí vai tudo ficando desequilibrado, amontoado de decisões não tomadas; sentimentos amarrotados que não se ajustam quando precisamos deles; desejos rotos por ficarem jogados e esquecidos no fundo de nós e que depois de embolorados não podem se realizar mais.

Ivan acumulou tanto em suas gavetinhas que levou de um longo caminho de dor para organizá-las e encontrar o que precisava para seguir sua viagem. Não faça o mesmo com você. Comece hoje mesmo a se organizar. Quem sabe há um número esperando que você ligue e diga “Me perdoa!”?  Ou alguém precisando de seu abraço para poder sorrir? Ou um rosto amarelado de algum retrato que espera a sua chegada? Sempre há alguma inesperada surpresa nessas arrumações.

Não estou dizendo que será fácil. Nem que tudo voltará ao lugar num único dia. Só estou alertando que tudo ficará melhor, mais limpo, mais suave. E uma vida suave se abre para nós com mais possibilidades de se ser feliz. E foi para ser feliz que chegamos aqui a essa estação chamada Vida.

Até a próxima viagem!


terça-feira, 3 de junho de 2014

VIVO-MORTO




Por Gabriella Gilmore


"...A transformação  gradual de um homem vivo como todos nós em cadáver."
A dor é veículo de consciência, disse um grande pensador uma vez.
Ivan chegou naquele estágio no qual a dor já não fazia mais sentido e que a morte seria o alívio, mesmo sendo algo que ele não queria para si. Quem suportaria se ver morrer?
A imortalidade chega a ser um sonho inconsciente de cada ser humano.
O doutor dizia que os sofrimentos físicos dele eram terríveis, mas que os seus sofrimentos morais eram mais terríveis que os carnais, e nisso consistia a sua tortura maior.
Ivan não agüentava mais a culpa que nele existia por ter chegado ao estado em que chegou. Mesmo ele negando qualquer coisa que seja, no fundo, ele merecia a morte que estava passando.
Relutando contra o orgulho ferido, só encontra paz ao receber a comunhão do padre, e finalmente ele se dar por vencido, dizendo: "Acabou. A morte acabou. Não existe mais".
Essa catarse que o autor faz de Ivan e sua morte é muito real. Nos passa como se a morte fosse algo vivenciado aqui no plano terrestre, e depois que se vai, ai sim, você "vive".
Ivan pode vivenciar de perto e por meses uma morte literalmente lenta e dolorosa, e faz com que o leitor possa refletir sobre suas ações em vida e também numa "pré-morte".

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Os Dois Lados da Solidão




Pois é, Gabizinha! Há dois tipos de solidão: aquela que queremos porque é necessário um reencontro conosco, uma busca por respostas interiores, resoluções de conflitos particulares; e outra que provocamos quando afastamos de nós quem nos ama, quando nos isolamos nas imbecilidades do mundo, quando nos esquecemos de olhar para o mundo com olhos humanos.

Acredito que no primeiro tipo de solidão, Deus nos acolha com seus braços seguros e nos sussurre palavras de fé, esperança e força. Acredito que anjos façam roda em volta de nós e nos cantem deliciosas canções enoquianas para nos trazer paz e nos inspirar a tal luz interior. Creio seriamente que é nesse momento que todos nós voltamos a um ventre mágico para renascermos mais consciente de nossa importância no plano astral. Essa solidão é abençoada e, portanto benigna.

A segunda solidão é dolorida e doentia. Ela começa por adoecer a alma. Esgotando a luz de nossas auras. Afastando-nos dos seres iluminados que nos protegem. Quando isso acontece, eu acredito que os espíritos inferiores se aproximam e aos poucos vão dominando o nosso redor. Eles atingem as nossas vidas inicialmente com coisas bobas como mau humor sem razão, depois em explosões de choro, até que se transforme em males físicos como gastrite ou, em casos mais graves, até o câncer. Destruído o corpo, resta a mente. Eu vejo a loucura como total dominação desses espíritos ruins. Eles nos cobrem com sua escuridão e começa a ficar difícil ver o caminho de volta a luz, a fé a esperança, a uma vida saudável na presença dos protetores, dos mentores espirituais. 

Contudo, Gabizinha, Deus não desiste de nós. E haverá sempre alguém que nos ama. Alguém emanando orações. Para o Ivan foi o empregado. Para você tem seus amigos – estou no meio deles. Para mim tem meus filhos – e você é um deles.

É claro que a morte chegará para todos. Porém, para uns será só uma transição, um momento de libertação desse casulo corpóreo, um momento de reencontro com os que já se foram. Para outros será um momento de aprisionamento porque ou não entenderão que se foram ou simplesmente não aceitarão a ida. De tudo isso, o importante é que não nos esqueçamos de viver, de sermos felizes e de fazermos felizes quem está ao nosso lado.

Fé e luz para ti, anjinho ranzinza! 


PRELÚDIO MORTAL


Por Gabriella Gilmore

"O caso não está no ceco, nem no rim, mas na vida e... na morte. Sim, a vida existiu, mas eis que está indo embora, embora, e eu não posso detê-la. Sim. Para quê me enganar? Não é evidente para todos, com exceção de mim, que estou morrendo, e a questão reside apenas no número de semanas, de dias, talvez seja agora mesmo? Existiu luz, e agora é a treva. Eu estive aqui, e agora vou para lá! Para onde?"

"Eu não existirei mais, o que existirá então? Não existirá nada. Onde estarei então, quando não existir mais? Será realmente a morte? Não, não quero. "

"Para quê? Tanto faz . A morte. Sim, a morte. E nenhum deles sabe nem quer saber, e nem lamenta isso. Ocupam-se de música. Para eles, tanto faz, mas também eles hão de morrer. Bobalhões. Eu vou primeiro, eles depois; hão de passar pelo mesmo que eu. E no entanto, estão alegres. Animais!"

Essas são as palavras de Ivan dialogando consigo mesmo, quando a realidade finalmente começou a escancarar-se para ele.
Mesmo "merecendo" todo o desprezo familiar e social, ele sentia conforto em saber que a qualquer momento, as pessoas ao seu redor também teriam o mesmo destino.
Obviamente cada um terá a morte que merece, e como disse Wal em uma de nossas conversas, o leito de morte passa a ser menos doloroso quando temos ao redor pessoas que nos amam, que nos apoiam e que farão de tudo para aliviar nosso sofrimento.
Ainda não conclui a leitura, mas creio que voltarei com algum desfecho sobre o que aprendi com a morte de Ivan Ilitch.


Até breve.