domingo, 12 de julho de 2015

A uma senhora que me pediu versos

 

Pensa em ti mesma, acharás
Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
Doçura e paz.

Se já dei flores um dia,
Quando rapaz,
As que ora dou têm assaz
Melancolia.

Uma só das horas tuas
Valem um mês
Das almas já ressequidas.

Os sóis e as luas
Creio bem que Deus os fez
Para outras vidas.

Assis, Machado. Poesias Completas, Rio de Janeiro: Garnier, 1901.

sábado, 11 de julho de 2015

Minha Machadinha



Esse texto se refere a música portuguesa Minha Machadinha. Não há nada de real nele, é simplesmente obra da minha imaginação louca.

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Numa estranha tarde cheia de nuvens no céu, algumas crianças estavam sentadas na calçada conversando, quando de repente um casal saiu correndo de um prédio e gritos encheram a rua. Seguindo o casal, veio um homem com uma machadinha na mão. Ele a erguia e a balançava no ar, atrás dele vinha uma pequena multidão que corria para tentar impedi-lo de chegar à rua, de chegar ao casal. 
  O casal estava assustadíssimo. O homem com a machadinha na mão louco e enfurecido. A multidão atordoada com a velocidade de fatos. E as crianças assistiam com certo interesse. O homem com a machadinha na mão começou a gritar:
- Por que você fez isso comigo? Por que você me traiu?
- Calma, não é o que você pensou... – a mulher respondeu - Vamos conversar...
- Não quero calma, quero o motivo...
- Pense um pouco, não vai resol... – o rapaz ao lado da mulher tentou argumentar, mas o outro ameaçou. 
- Fica fora disso, desgraçado... FICA FORA DISSO! – mais uma vez ele sacudiu a arma no ar fazendo medo em todos.
- Amor, calma... Vamos conversar...
- Por quê? Por quê? Por que ele te pôs a mão. – O homem com a machadinha começou a chorar. 
- Calma, pois eu sou sua...
- Eu também sou teu... 
- Solta essa arma... – O homem largou a machadinha, quase no mesmo instante dois rapazes da multidão pularam nele. O rapaz ao lado da mulher segurou-a e saiu correndo. Ou pelo menos tentou.
O marido se soltou dos dois rapazes, pegou a machadinha no chão e a arremessou contra o rapaz que fugia com sua esposa. A machadinha pegou no meio das costas dele. O homem foi até eles correndo e, antes que pudessem impedi-lo, decapitou a mulher. Todos com medo se afastaram um passo. O homem, perdido na sua loucura, pegou a arma e atingiu a própria cabeça. 
A multidão foi se desfazendo, a polícia chegou e levou os corpos e as crianças cantavam sombriamente no canto da rua:

“Ha ha ha puxa a machadinha
Ha ha ha puxa a machadinha
Quem te pôs a mão, sabendo que és minha? 
Quem te pôs a mão, sabendo que és minha?
Ha ha ha sabendo que és minha
Ha ha ha eu também sou tua
Puxa a machadinha no meio da rua
Puxa a machadinha no meio da rua”

(João V. Zibetti, in "Minha Machadinha") 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Amanhecer em Marrocos




"... A Cada instante de nossas vidas 

temos um pé no conto de fadas 
e o outro no abismo"
(Paulo Coelho)

Mais uma vez visitante de mim no dia que já quase amanhecia notei, há alguns quarteirões de certo passado, um sonho esquecido. Ao ver-me passear por ali, apesar de fraco e empoeirado me acenou. Aproximei-me mais para poder sonhar melhor e o sonho-menino abriu-me um sorriso de covinhas. Estava sentindo-se revigorado. Levantou-se do canto, estendeu suas mãos para mim e convidou-me a passear pelas ruas de céu alaranjado. 

Caminhamos lado a lado e eu pensava em como somos capazes de esquecer sonhos sem ao menos tentarmos traze-los a realidade. Ele estava tão orgulhoso de se sentir lembrado que apertava minha mão com suas mãos gordinhas e suspirava.  E me dei conta de que ele falava. 

Me contava sobre lugares mágicos e cores brilhantes combinadas sem frescuras. Falou-me de tardes com chá e de músicas inspiradas nos som das coisas. Relatou-me de construções românticas e paisagens místicas. Homens escondidos em véus e mulheres de olhares marcantes e de repente eu estava caminhando com meu sonho pelas ruas de Marrocos. 

O menino apressava-se entre as lojas escolhendo sedas e tapetes, cheirando e experimentando especiarias, barganhando jóias e artigos decorativos. E o céu já era azul e o mar movia suave suas águas aos nossos pés quando novamente me dei conta de que minha realidade é centenas de quilômetros dos homens sérios de Marrocos.

O menino estava vibrante porque eu me lembrara e me disponibilizara por ele. E me abraçou docemente agradecido por estar ali, apesar da hora, do tempo, da realidade, do risco... E sorrindo em covinhas correu para mar dizendo que voltaria para Marrocos. E que esperaria lá que num outro amanhecer eu o encontrasse nas ruas do mercado, vestida de sedas coloridas que relembrassem um céu de amanhecer alaranjado, cheirando a pimenta-rosa e falando de mistérios escondidos na fumaça de narguilé. Da areia acenei as gargalhadas para o sonho-menino vendo-o sumir no mar, enquanto um sol de amarelo-lúcido me abraçou convidando-me a mais um dia entre o sonho e a realidade.
(Waleska Zibetti, in "Amanhecer em Marrocos")


quinta-feira, 9 de julho de 2015

XXX

 
Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.
Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.
E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;
E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.

Bilac, Olavo. Antologia Poética - Porto Alegre, RS: L&PM, 2012. p. 45

quarta-feira, 8 de julho de 2015

O Chato e o Quadro




Na casa do Chato havia um Quadro antigo, um rosto de uma pessoa. Um dia o Chato, ao chegar à casa, disse ao Quadro:


- Eu sou a pessoa mais inteligente de todas, sei sobre tudo e todos. – O Quadro não respondeu nada. 


No dia seguinte disse a mesma coisa: 


- Eu sou a pessoa mais inteligente de todas, sei sobre tudo e todos. – O Quadro não disse nada outra vez. 


No terceiro dia o Chato repetiu a frase e o Quadro, para não perder o hábito, não disse nada. Após uma semana com essa rotina o Chato convenceu-se de que era a pessoa mais inteligente de todas. 

No fim de semana foi convidado para ir a um bar com um colega, o Chato aceitou e foi ao encontro. Começaram então a conversar sobre política, o colega possuía uma ideia um pouco diferente da ideia do Chato, este ficou irritadíssimo, pois não entendia como alguém poderia discordar dele, logo ele que era o ser mais inteligente de todos. O colega vendo uma possível briga mudou de assunto, começaram a falar sobre futebol. O Chato mais uma vez se mostrou superior e se frustrou ao ver que o colega não compartilhava da mesma opinião. 

Numa ultima tentativa de manter a amizade o colega sugeriu que falassem de música. No meio da conversa o Chato disse uma coisa errada e o colega, sem maldade, o corrigiu. O Chato não conseguiu aceitar a derrota e começou a gritar, a tentar humilhar o colega, mas nada adiantava. O colega, por fim, o alertou:


- Quando gritamos para convencer alguém, o convencemos, apenas, de que somos idiotas. – O Chato enlouquecido de fúria virou a mesa e foi embora. 


Chegando à casa, gritou com o Quadro:


- Você! A culpa é sua! Por que não me avisou que eu não sou tão sábio? – O Quadro ignorou a pergunta assim como ignorou tudo durante uma semana inteira. Enfurecido pela loucura pegou o Quadro e o arremessou numa outra parede. Havia se convencido de que estava certo, mas nunca correu atrás de algo para realmente estar certo. 


Às vezes nos convencemos de que somos algo, mas não tentamos de fato ser algo. Às vezes acreditamos que chegamos a um estado de perfeição e que não precisamos melhorar em nada. 

Há muitas pessoas que acreditam que são melhores porque conversam com quadros, mas esquecem que nem sempre quem cala consente, às vezes é preguiça de arrumar confusão.  
(João V. Zibetti, in "O Chato e Quadro")

terça-feira, 7 de julho de 2015

Para Woo Foo!





Em tempos onde intolerância parece ser a palavra do momento, um filme que fala de aceitação. "Para Woo Foo! Obrigada por tudo Julie Newmar", é uma produção Norte Americana de 1995 que conta a história de três Drag Queens que atravessam de Nova York à Hollywood em Cadillac conversível. A história poderia ser só mais uma trama gay se eles não tivessem um pequeno problema no motor que o fizeram parar numa cidadela de interior chamada Snyderville onde a trama ganha corpo.

Uma atuação incrível de três grandes nomes do cinema: John Leguizamo de filmes como "Efeito Colateral" e "Assalto à 13ª DP"; Wesley Snipes de "Blade" e "Os Mercenários 3" e o inesquecível Patrick Swayze e "Dirty Dance" e "Ghost".

A história é gostosa, A trama é envolvente e encantadora. Um cidade inteira se rende a elegância de três extravagantes visitantes em uma hora e meia de risos e torcidas.

Para quem curte curiosidades cinematográficas, ficam essas a respeito de "Para Woo Foo!". 


1- O autógrafo de Julie


O título do filme vem de uma foto autografada por Julie Newmar vista pelo roteirista Douglas Carter Beane em um restaurante chinês localizado na Time Square, em Nova York, em meados dos anos 80.

2- Atores cotados


Mel Gibson chegou a considerar a possibilidade de interpretar Vida, personagem que ficou com Patrick Swayze.

Gary Oldman recebeu uma proposta para interpretar um dos personagens principais, mas abriu mão do papel por não querer interpretar outro personagem que usava uma pesada maquiagem, após a experiência que teve com "Drácula de Bram Stocker".

3- Prêmios


GLOBO DE OURO
1996
Indicações
Melhor Ator - Comédia/Musical - Patrick Swayze
Melhor Ator Coadjuvante - John Leguizamo


segunda-feira, 6 de julho de 2015

Valsa Para Uma Menininha


Menininha do meu coração
Eu só quero você a três palmos do chão.
Menininha não cresça mais não,
Fique pequenininha na minha canção.
Senhorinha levada, batendo palminha,
Fingindo assustada do bicho-papão.

Menininha, que graça é você,
Uma coisinha assim, começando a viver.
Fique assim, meu amor, sem crescer,
Porque o mundo é ruim, é ruim, e você
Vai sofrer de repente uma desilusão
Porque a vida somente é seu bicho-papão.

Fique assim, fique assim, sempre assim
E se lembre de mim pelas coisas que eu dei.
E também não se esqueça de mim
Quando você souber, enfim,
De tudo que eu guardei.

(Toquinho / Vinícius de Moraes)

domingo, 5 de julho de 2015

O que os homens não gostam - Correio feminino (Clarice)

por Gabriella Gilmore
Recebi esses dias um vídeo com um depoimento de um pastor no qual falava sobre como a sociedade anda desmasculinizando os homens. Eles estão perdendo a virilidade, a macheza, a voz ativa. Grandes sábios do passado diziam: Seja homem! Porque você vai ser pai, vai ser rei, porque você vai ter um ofício, um papel a desempenhar. Porém, nos dias de hoje, as pessoas acham tudo muito normal.
"Homens" preferem mulheres vulgares. Gostam de namorar duas, três pessoas ao mesmo tempo. Acham babaquice abrir porta do carro, carregar sacolas da feira para elas ou pagar algum jantar romântico.
Lendo Clarice esses dias para a maratona #CorreioFeminino, uma mulher com crença sem nome, sábia, e a frente de seu tempo, escreveu um texto que será o tema de hoje.
Espero que isso possa plantar um desejo de resgate dos bons valores tanto para nós mulheres como para nossos homens.

O que os homens não gostam

Uma coisa é certa: nós, mulheres, desejamos e temos o dever de agradar aos homens. Ou, pelo menos, ao homem que amamos, não é verdade?
Se um homem elogia um penteado nosso, um vestido, um tom de esmalte, é porque esse detalhe realmente nos embelezou, pois, de uma coisa podemos ter certeza: nesse assunto, o homem é sincero, não há despeito nem "veneno" em elogio seu.
Assim sendo, a preferência masculina deve ser levada em consideração sempre que nos vestirmos e enfeitarmos. A título de curiosidade e também de orientação para algumas inexperientes, dou aqui uma pequena lista de coisas, que muitas de nós usamos ou fazemos, e que um inquérito revelou ser "aquilo que os homens detestam":
1º - vestido muito justo; 2° - pintura excessiva, principalmente nos olhos; 3° - modas sofisticadas e complicadas; 4° - saltos muito altos; 5° - batom exagerado desenhando nova boca e exótica; 6° - meias com costura torta; 7° - excesso de jóias; 8° - decote exagerado; 9° - moça desembaraçada demais; 10° - mulher sabichona.
Se vocês duvidaram dessas conclusões, façam com seus noivos, maridos e irmãos uma investigação particular. Ficarão admiradas como, nesses casos, estão de acordo todos os homens.
Vejamos: será que alguma de nós incorre em qualquer dessas "ojerizas" masculinas? Então, é tempo de corrigir-nos. Chamar a atenção não é a finalidade de uma mulher elegante e inteligente. Mas sim ser atraente e agradar aos homens. Estou certa?

sábado, 4 de julho de 2015

Na Madrugada: Arrependimentos.



O telefone toca no meio da madrugada e uma voz conhecida me pergunta:


__ Como você consegue?

Entre o sonho e uma realidade surreal tento entender a pergunta ou, pelo menos encaixa-la numa razão plausível. Mas não há nenhuma justificativa.

__ Consigo o que?
__ Consegue viver como se nada tivesse acontecido. 

Sento na cama e esfrego os olhos. Fico pensando no que exatamente aconteceu. Chego a pensar que ainda estou dormindo. 

__ Do que você está falando? Você bebeu?
__ Não. Eu acho que me perdi. Estou confuso demais. Não sei o porque de ligar para você. Eu estou ficando louco. 

Ignoro tudo dito anteriormente. 

__ Está tudo bem aí?
__ Não. Nada está bem. Você não está aqui. Nada está no lugar. Eu achei que eu pudesse, sabe? Achei que era forte. Eu não sou! E agora está doendo! Caralho, está doendo demais. E eu não sei o que fazer ou pensar. Eu queria saber como você conseguiu mudar tudo, como você superou tudo, como você consegue ser feliz. Eu acho que ainda amo você.

As informações saíram de enxorada. Parecia que ele precisava vomitar aquelas emoções  que, provavelmente, lhe embrulhavam o estômago.  Eu entendia aquilo muito bem e fiquei em silêncio deixando que ele aliviasse aqueles sentimentos. E o silêncio se estendeu mesmo depois do desabafo.

__ Fala algo. Pelo amor de Deus! Me diz qualquer coisa. Você sempre sabe o que falar. Me ajuda!
__ Eu nunca mais estarei aí. Então, reorganize o espaço que deixei. Plante uma samambaia e coloque no meu lugar. Se você não é forte como pensava, não posso fazer nada por você. Eu estou na posição contrária. Eu sou forte, mas não sabia disso. E não sinto nem pena do seu desabafo. Eu não sinto nada. Pense em fazer algo que lhe preencha o tempo e a vida. Outras mulheres como você fazia antes quando eu ficava esperando por você. Eu consegui ir adiante porque fui eu quem apanhei, chorei, esperei... Você foi eficiente em me ensinar a ser só. Aprendi. E quanto ao amor... Bom, eu sei que não te amo mais. Dei a outra pessoa o meu amor. 

Houve um silêncio pesado.

__ Quem é ele?
__ Ela?
__ O que?
__ Dei o meu amor a uma mulher, querido.
__ PORRA!
__ Dei o meu amor a mulher que ficou comigo quando você se foi. Dei o meu amor para mim. 

Mais um pouco de silêncio. 

__ Você é foda! Será que um dia...?
__ Nunca!
__ Tchau!
__ Até. 
(Waleska Zibetti, in "Na Madrugada: Arrependimentos")

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Na Estação



Ele estava lá como sempre esperando um trem, um trem que nunca passava, se passava não pegava.  Ele já era velho, sempre de pernas cruzadas, com roupas pretas, sempre lendo o jornal, sempre consultando seu relógio de bolso.

      Um dia chegou um trem e desse trem saiu um jovem, nessa hora o homem se endireitou. O garoto sentou no mesmo banco que o velho. Disfarçadamente o velho puxou conversa com o garoto. O garoto, que já não era tão moço, devia ter uns 29 ou 30 anos, mesmo assim o velho o chamou.

- Ei rapaz! – o garoto não percebeu que o velho o estava chamando, se percebeu não deu atenção.  O velho se calou.

Pouco tempo depois o garoto começou a olhar assustado para todos os lados. Não havia ninguém, não havia relógio e o pior não havia trem. Espantado o garoto se dirigiu ao velho.

- Ei senhor!  - o velho virou a cabeça calmamente. – O senhor teria horas, para me informar?

- Sim. – pegou seu relógio e olhou. – São 12h45min, por quê?
- Ah, estou preocupado.

- Preocupado? Com sua esposa?

- Não. Estou com medo de ficar atrasado.

- Atrasado? Para que?

- Meu trabalho. - O velho ficou pensativo.

- Então tá indo trabalhar, né? De quê?

- Sou empresário. Não posso me atrasar.

- A única pessoa que não pode se atrasar é a morte.

- Como?

- Por que tanta presa se a vida é bela e o tempo é curto?

- Ora, preciso ganhar dinheiro.

- Somente isso?

- Sim.

- E o resto?

- Que resto?

- A amizade, o amor, a diversão, a felicidade.

- Não preciso, sou feliz com o que tenho.

- Quando você ficar velho e o dinheiro ser uma coisa que já está sem utilidade, pois já tem tudo, o que você vai fazer?

- Vou descansar. – O garoto parecia orgulhoso.

- Sozinho? Meu filho, já faz três semanas que eu estou esperando por você aqui. Vim para te dizer que você não vai poder ficar sozinho tanto tempo. Saia um pouco mais, brinque um pouco mais, ame um pouco mais, viva mais.

- Mas eu vivo. E vivo bem com meu dinheiro e minha casa.

- Mas não tem ninguém para compartilhar, não tem um amigo para chamar, não tem uma vida que possa se orgulhar. O mundo é uma grande torre de relógio. Cada pessoa funciona como uma engrenagem, todas tem que estar ligadas para que o mundo funcione direito.

- Não preciso de ninguém. Sou bom do jeito que sou.

- Você precisa se desprender do seu trabalho. Escute a floresta, veja o mar, cante para o pôr do sol, saia com os amigos, viva para sua namorada. – Uma moça nova entrou na estação. Usando roupas vermelhas se sentou em um banco separado. O silencio dominou a estação.  A menina toda hora lançava olhares meigos para o rapaz, que nem dava atenção. O velho perdeu a paciência e cutucou o rapaz.

-Anda. Você precisa, um dia quando for velho só terá seus netos.

-Como eu...

- Seja você mesmo.  – O rapaz se aproximou e conversaram.  As horas se passaram e o garoto perdeu o seu trem, queria continuar aquela conversa. No alto do final da tarde, um beijo saiu. O velho olhou para eles e depois para a colina de onde o trem vinha. Seu trem chegava à estação.

Quando o trem chegou ele foi até ele, era um trem com somente um vagão.  O trem saiu da estação e o velho se pendurou no ferro para dar “adeus”.
- Adeus Mario, Adeus Joana. – O garoto e a moça se assustaram como ele sabia o nome deles?

- Espera se sabe quem nós somos. Quem é você?

- A única pessoa que não pode se atrasar. Eu sou a Morte.   – Sua mão ganhou virou um esqueleto assim como seu rosto, ele sacudia a mão em um profundo “adeus”.  – Au revoir, meu amigo, viva mais essa sua única vida. Não espere eu voltar para lamentar, faça.  O trem sumiu a fazer a primeira curva, dali em diante Mario aprendeu uma lição.

“...O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído...”
(João V. Zibetti, in “Na Estação”)