sábado, 4 de julho de 2015
Na Madrugada: Arrependimentos.
O telefone toca no meio da madrugada e uma voz conhecida me pergunta:
__ Como você consegue?
Entre o sonho e uma realidade surreal tento entender a pergunta ou, pelo menos encaixa-la numa razão plausível. Mas não há nenhuma justificativa.
__ Consigo o que?
__ Consegue viver como se nada tivesse acontecido.
Sento na cama e esfrego os olhos. Fico pensando no que exatamente aconteceu. Chego a pensar que ainda estou dormindo.
__ Do que você está falando? Você bebeu?
__ Não. Eu acho que me perdi. Estou confuso demais. Não sei o porque de ligar para você. Eu estou ficando louco.
Ignoro tudo dito anteriormente.
__ Está tudo bem aí?
__ Não. Nada está bem. Você não está aqui. Nada está no lugar. Eu achei que eu pudesse, sabe? Achei que era forte. Eu não sou! E agora está doendo! Caralho, está doendo demais. E eu não sei o que fazer ou pensar. Eu queria saber como você conseguiu mudar tudo, como você superou tudo, como você consegue ser feliz. Eu acho que ainda amo você.
As informações saíram de enxorada. Parecia que ele precisava vomitar aquelas emoções que, provavelmente, lhe embrulhavam o estômago. Eu entendia aquilo muito bem e fiquei em silêncio deixando que ele aliviasse aqueles sentimentos. E o silêncio se estendeu mesmo depois do desabafo.
__ Fala algo. Pelo amor de Deus! Me diz qualquer coisa. Você sempre sabe o que falar. Me ajuda!
__ Eu nunca mais estarei aí. Então, reorganize o espaço que deixei. Plante uma samambaia e coloque no meu lugar. Se você não é forte como pensava, não posso fazer nada por você. Eu estou na posição contrária. Eu sou forte, mas não sabia disso. E não sinto nem pena do seu desabafo. Eu não sinto nada. Pense em fazer algo que lhe preencha o tempo e a vida. Outras mulheres como você fazia antes quando eu ficava esperando por você. Eu consegui ir adiante porque fui eu quem apanhei, chorei, esperei... Você foi eficiente em me ensinar a ser só. Aprendi. E quanto ao amor... Bom, eu sei que não te amo mais. Dei a outra pessoa o meu amor.
Houve um silêncio pesado.
__ Quem é ele?
__ Ela?
__ O que?
__ Dei o meu amor a uma mulher, querido.
__ PORRA!
__ Dei o meu amor a mulher que ficou comigo quando você se foi. Dei o meu amor para mim.
Mais um pouco de silêncio.
__ Você é foda! Será que um dia...?
__ Nunca!
__ Tchau!
__ Até.
(Waleska Zibetti, in "Na Madrugada: Arrependimentos")
sexta-feira, 3 de julho de 2015
Na Estação
Ele estava lá como sempre esperando um trem, um trem que nunca passava, se passava não pegava. Ele já era velho, sempre de pernas cruzadas, com roupas pretas, sempre lendo o jornal, sempre consultando seu relógio de bolso.
Um dia chegou um
trem e desse trem saiu um jovem, nessa hora o homem se endireitou. O garoto
sentou no mesmo banco que o velho. Disfarçadamente o velho puxou conversa com o
garoto. O garoto, que já não era tão moço, devia ter uns 29 ou 30 anos, mesmo
assim o velho o chamou.
- Ei rapaz! – o garoto não percebeu que o velho o estava
chamando, se percebeu não deu atenção. O
velho se calou.
Pouco tempo depois o garoto começou a olhar assustado para
todos os lados. Não havia ninguém, não havia relógio e o pior não havia trem.
Espantado o garoto se dirigiu ao velho.
- Ei senhor! - o
velho virou a cabeça calmamente. – O senhor teria horas, para me informar?
- Sim. – pegou seu relógio e olhou. – São 12h45min, por quê?
- Ah, estou preocupado.
- Preocupado? Com sua esposa?
- Não. Estou com medo de ficar atrasado.
- Atrasado? Para que?
- Meu trabalho. - O velho ficou pensativo.
- Então tá indo trabalhar, né? De quê?
- Sou empresário. Não posso me atrasar.
- A única pessoa que não pode se atrasar é a morte.
- Como?
- Por que tanta presa se a vida é bela e o tempo é curto?
- Ora, preciso ganhar dinheiro.
- Somente isso?
- Sim.
- E o resto?
- Que resto?
- A amizade, o amor, a diversão, a felicidade.
- Não preciso, sou feliz com o que tenho.
- Quando você ficar velho e o dinheiro ser uma coisa que já
está sem utilidade, pois já tem tudo, o que você vai fazer?
- Vou descansar. – O garoto parecia orgulhoso.
- Sozinho? Meu filho, já faz três semanas que eu estou
esperando por você aqui. Vim para te dizer que você não vai poder ficar sozinho
tanto tempo. Saia um pouco mais, brinque um pouco mais, ame um pouco mais, viva
mais.
- Mas eu vivo. E vivo bem com meu dinheiro e minha casa.
- Mas não tem ninguém para compartilhar, não tem um amigo
para chamar, não tem uma vida que possa se orgulhar. O mundo é uma grande torre
de relógio. Cada pessoa funciona como uma engrenagem, todas tem que estar
ligadas para que o mundo funcione direito.
- Não preciso de ninguém. Sou bom do jeito que sou.
- Você precisa se desprender do seu trabalho. Escute a
floresta, veja o mar, cante para o pôr do sol, saia com os amigos, viva para
sua namorada. – Uma moça nova entrou na estação. Usando roupas vermelhas se
sentou em um banco separado. O silencio dominou a estação. A menina toda hora lançava olhares meigos
para o rapaz, que nem dava atenção. O velho perdeu a paciência e cutucou o
rapaz.
-Anda. Você precisa, um dia quando for velho só terá seus
netos.
-Como eu...
- Seja você mesmo. –
O rapaz se aproximou e conversaram. As
horas se passaram e o garoto perdeu o seu trem, queria continuar aquela
conversa. No alto do final da tarde, um beijo saiu. O velho olhou para eles e
depois para a colina de onde o trem vinha. Seu trem chegava à estação.
Quando o trem chegou ele foi até ele, era um trem com
somente um vagão. O trem saiu da estação
e o velho se pendurou no ferro para dar “adeus”.
- Adeus Mario, Adeus Joana. – O garoto e a moça se
assustaram como ele sabia o nome deles?
- Espera se sabe quem nós somos. Quem é você?
- A única pessoa que não pode se atrasar. Eu sou a
Morte. – Sua mão ganhou virou um
esqueleto assim como seu rosto, ele sacudia a mão em um profundo “adeus”. – Au revoir, meu amigo, viva mais essa sua
única vida. Não espere eu voltar para lamentar, faça. O trem sumiu a fazer a primeira curva, dali
em diante Mario aprendeu uma lição.
“...O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído...”
(João V. Zibetti, in “Na Estação”)
quinta-feira, 2 de julho de 2015
Memórias de uma Gueixa
Sinopse: "Memórias de uma Gueixa" é um romance fascinante, para ser lido de várias maneiras: como um mergulho na tradicional cultura japonesa, ou um romance sobre a sexualidade, e ainda, como uma descrição minuciosa da alma de uma mulher já apresentada por um homem. Seu relato tem início numa vila pobre de pescadores, em 1929, onde a menina de nove anos é tirada de casa e vendida como escrava. Pouco a pouco, vamos acompanhar sua transformação pelas artes da dança e da música, do vestuário e da maquilagem; e a educação para detalhes como a maneira de servir saquê revelando apenas um ponto do lado interno do pulso - armas e mais armas para as batalhas pela atenção dos homens. Mas a Segunda Guerra Mundial força o fechamento das casas de gueixas e Sayuri vê-se forçada a se reinventar em outros termos, em outras paisagens.
Este romance que gerou um dos filmes mais enigmáticos e lindos que já assisti. Neste romance, a história de Chiyo Sakamoto é revelada. Nunca antes a vida particular de uma gueixa fora contada, exceto quando Sayuri decidiu já se fazer chegada a hora. Com a mãe doente e o pai idoso o bastante para não dedicar o restante da vida a mais ninguém, a pequena japonesa, juntamente com a irmã mais velha, Satsu, não teria vez de sobreviver à própria mercê.
"O meu pai costumava dizer que a minha irmã era como uma árvore, que se
agarra firmemente à terra com as suas raízes. Eu era como a água, que
percorre o seu caminho sem que nada a detenha. Se encontrar um
obstáculo, desvia-se até poder avançar novamente." (Chiyo Sakamoto)
Em Memórias de uma Gueixa, o autor, apresenta-nos a beleza da cultura japonesa em uma trama de sensualidade e audácia. A pequena menina torna-se uma grande mulher, e neste enredo nos perdemos entre intrigas e desafios, reencontrando-nos apenas na força de Chiyo, que, após ser vendida ao Okiya Nitta, teve de sufocar-se por inteiro para, aos poucos, fazer nascer seu novo eu: a gueixa Sayuri Nitta.
"A dor é uma coisa muito esquisita; ficamos desamparados diante dela. É
como uma janela que simplesmente se abre conforme seu próprio capricho. O
aposento fica frio, e nada podemos fazer senão tremer. Mas abre-se
menos cada vez, e menos ainda. E um dia nos espantamos porque ela se
foi." (Chiyo Sakamoto)
A palavra “gueixa” significa “artista”, logo, o treinamento árduo de uma aprendiz é composto desde a dança até o doce ato de servir chá. Ao ouvir que gueixas divertem homens, pode pecar quem as imagine como prostitutas. A bem da verdade, uma gueixa só vem a ter relação sexual com o seu Danna, que é o homem que se dispõe a sustentá-la pelo resto da vida. Para os demais homens, elas não passam de musas de inspiração, beldades sedutoras, companhias para casas de chá e festas.
É um dos filmes e livros que vale a pena descobrir pela maneira com que foi posto e a veracidade de todas as ações e momentos retratados pelos ares misteriosos do oriente.
Segue trailer
Até o Proximo texto
Au Revoir
quarta-feira, 1 de julho de 2015
Discrição - Correio feminino (Clarice)
por Gabriella Gilmore
Neste mês vamos estrear com alguns textos de Clarice Lispector na época em que ela escrevia para jornais.
Teremos várias dicas de beleza interior, pensamentos, humor, vindo de uma grande pessoa no qual nós do #CLV admiramos muito.
Fique ligado!!
E o convite ainda está no facebook para escritores que desejam ter seus textos publicados no Clube.
Estamos te esperando.
DISCRIÇÃO
Você naturalmente sabe que chamar a atenção não é de bom-tom e dá sempre uma impressão muito má da mulher. Seja pela roupa escandalosa, pelo penteado exótico, pelo andar, pelos modos, pela risada grosseira, seja, enfim, de que maneira for a mulher que chama a atenção sobre a sua pessoa o único troféu que merece é o da vulgaridade. A mulher elegante é discreta. Sua superioridade está nos detalhes cuidados na harmonia das cores, no bom gosto dos acessórios. Se ela é também bonita, a beleza é por si um ponto de atração para os olhos, sem precisar ser ostentada.
Os homens, geralmente muito discretos, detestam as mulheres que se destacam demais, onde quer que apareçam. Não apenas pela sua própria maneira de ser, mas também por uma questão de vaidade masculina, já que não lhes é agradável ficar ofuscados ou relegados a um plano inferior.
A mulher inteligente procura, portanto, a discrição como regra básica de toda a sua vida. Discrição no vestir-se, no maquilar-se, nos gestos, na voz e até mesmo nas opiniões.
Seja discreta, e veja como os que a cercam tomarão a iniciativa de colocá-la em lugar de destaque, desde que você possua qualidades para isso.
terça-feira, 30 de junho de 2015
A boa vista
Era uma tarde triste, mas límpida e suave...
Eu — pálido poeta — seguia triste e grave
A estrada, que conduz ao campo solitário,
Como um filho, que volta ao paternal sacrário,
E ao longe abandonando o múrmur da cidade
— Som vago, que gagueja em meio à imensidade,—
No drama do crepúsculo eu escutava atento
A surdina da tarde ao sol, que morre lento.
A poeira da estrada meu passo levantava,
Porém minh'alma ardente no céu azul marchava
E os astros sacudia no vôo violento
— Poeira, que dormia no chão do firmamento.
A pávida andorinha, que o vendaval fustiga,
Procura os coruchéus da catedral antiga.
Eu — andorinha entregue aos vendavais do inverno,
Ia seguindo triste p'ra o velho lar paterno.
Como a águia, que do ninho talhado no rochedo
Ergue o pescoço calvo por cima do fraguedo,
— (Pra ver no céu a nuvem, que espuma o firmamento,
E o mar, — corcel que espuma ao látego do vento... )
Eu — pálido poeta — seguia triste e grave
A estrada, que conduz ao campo solitário,
Como um filho, que volta ao paternal sacrário,
E ao longe abandonando o múrmur da cidade
— Som vago, que gagueja em meio à imensidade,—
No drama do crepúsculo eu escutava atento
A surdina da tarde ao sol, que morre lento.
A poeira da estrada meu passo levantava,
Porém minh'alma ardente no céu azul marchava
E os astros sacudia no vôo violento
— Poeira, que dormia no chão do firmamento.
A pávida andorinha, que o vendaval fustiga,
Procura os coruchéus da catedral antiga.
Eu — andorinha entregue aos vendavais do inverno,
Ia seguindo triste p'ra o velho lar paterno.
Como a águia, que do ninho talhado no rochedo
Ergue o pescoço calvo por cima do fraguedo,
— (Pra ver no céu a nuvem, que espuma o firmamento,
E o mar, — corcel que espuma ao látego do vento... )
Longe o feudal castelo levanta a
antiga torre,
Que aos raios do poente brilhante sol escorre!
Ei-lo soberbo e calmo o abutre de granito
Mergulhando o pescoço no seio do infinito,
E lá de cima olhando com seus clarões vermelhos
Os tetos, que a seus pés parecem de joelhos! ...
Não! Minha velha torre! Oh! atalaia antiga,
Tu olhas esperando alguma face amiga,
E perguntas talvez ao vento, que em ti chora:
"Por que não volta mais o meu senhor d'outrora?
Por que não vem sentar-se no banco do terreiro
Ouvir das criancinhas o riso feiticeiro,
E pensando no lar, na ciência, nos pobres
Abrigar nesta sombra seus pensamentos nobres?
......................................................................
Onde estão as crianças — grupo alegre e risonho
— Que escondiam-se atrás do cipreste tristonho ...
Ou que enforcaram rindo um feio Pulchinello,
Enquanto a doce Mãe, que é toda amor, desvelo
Ralha com um rir divino o grupo folgazão,
Que vem correndo alegre beijar-lhe a branca mão?..."
......................................................................
É nisto que tu cismas, ó torre abandonada,
Vendo deserto o parque e solitária a estrada.
No entanto eu — estrangeiro, que tu já não conheces —
No limiar de joelhos só tenho pranto e preces.
Oh! deixem-me chorar!...Meu lar... meu doce ninho!
Abre a vetusta grade ao filho teu mesquinho!
Passado — mar imenso!... inunda-me em fragrância!
Eu não quero lauréis, quero as rosas da infância.
Ai! Minha triste fronte, aonde as multidões
Lançaram misturadas glórias e maldições...
Acalenta em teu seio, ó solidão sagrada!
Deixa est'alma chorar em teu ombro encostada!
Meu lar está deserto... Um velho cão de guarda
Veio saltando a custo roçar-me a testa parda,
Que aos raios do poente brilhante sol escorre!
Ei-lo soberbo e calmo o abutre de granito
Mergulhando o pescoço no seio do infinito,
E lá de cima olhando com seus clarões vermelhos
Os tetos, que a seus pés parecem de joelhos! ...
Não! Minha velha torre! Oh! atalaia antiga,
Tu olhas esperando alguma face amiga,
E perguntas talvez ao vento, que em ti chora:
"Por que não volta mais o meu senhor d'outrora?
Por que não vem sentar-se no banco do terreiro
Ouvir das criancinhas o riso feiticeiro,
E pensando no lar, na ciência, nos pobres
Abrigar nesta sombra seus pensamentos nobres?
......................................................................
Onde estão as crianças — grupo alegre e risonho
— Que escondiam-se atrás do cipreste tristonho ...
Ou que enforcaram rindo um feio Pulchinello,
Enquanto a doce Mãe, que é toda amor, desvelo
Ralha com um rir divino o grupo folgazão,
Que vem correndo alegre beijar-lhe a branca mão?..."
......................................................................
É nisto que tu cismas, ó torre abandonada,
Vendo deserto o parque e solitária a estrada.
No entanto eu — estrangeiro, que tu já não conheces —
No limiar de joelhos só tenho pranto e preces.
Oh! deixem-me chorar!...Meu lar... meu doce ninho!
Abre a vetusta grade ao filho teu mesquinho!
Passado — mar imenso!... inunda-me em fragrância!
Eu não quero lauréis, quero as rosas da infância.
Ai! Minha triste fronte, aonde as multidões
Lançaram misturadas glórias e maldições...
Acalenta em teu seio, ó solidão sagrada!
Deixa est'alma chorar em teu ombro encostada!
Meu lar está deserto... Um velho cão de guarda
Veio saltando a custo roçar-me a testa parda,
Lamber-me após os dedos, porém a sós
consigo
Rusgando com o direito, que tem um velho amigo...
Como tudo mudou-se! ... O jardim 'stá inculto
As roseiras morreram do vento ao rijo insulto...
A erva inunda a terra; o musgo trepa os muros
A urtiga silvestre enrola em nós impuros
Uma estátua caída, em cuja mão nevada
A aranha estende ao sol a teia delicada! ...
Mergulho os pés nas plantas selvagens, espalmadas,
As borboletas fogem-me em lúcidas manadas ...
E ouvindo-me as passadas tristonhas, taciturnas,
Os grilos, que cantavam, calaram-se nas furnas ...
Oh! jardim solitário! Relíquia do passado!
Minh'alma, como tu, é um parque arruinado!
Morreram-me no seio as rosas em fragrância,
Veste o pesar os muros dos meus vergéis da infância,
A estátua do talento, que pura em mim s'erguia,
Jaz hoje — e nela a turba enlaça uma ironia!...
Ao menos como tu, lá d'alma num recanto
Da casta poesia ainda escuto o canto,
— Voz do céu, que consola, se o mundo nos insulta,
E na gruta do seio murmura um tremo oculta.
Entremos! ... Quantos ecos na vasta escadaria,
Nos longos corredores respondem-me à porfia! ...
Oh! casa de meus pais! ... A um crânio já vazio,
Que o hóspede largando deixou calado e frio,
Compara-te o estrangeiro — caminhando indiscreto
Nestes salões imensos, que abriga o vasto teto.
Mas eu no teu vazio — vejo uma multidão
Fala-me o teu silêncio — ouço-te a solidão! ...
Povoam-se estas salas...
E eu vejo lentamente
No solo resvalarem falando tenuemente
Dest'alma e deste seio as sombras venerandas
Fantasmas adorados — visões sutis e brandas...
Aqui... além... mais longe... por onde eu movo o passo,
Como aves, que espantadas arrojam-se ao espaço,
Saudades e lembranças s'erguendo — bando alado —
Roçam por mim as asas voando pra o passado.
Rusgando com o direito, que tem um velho amigo...
Como tudo mudou-se! ... O jardim 'stá inculto
As roseiras morreram do vento ao rijo insulto...
A erva inunda a terra; o musgo trepa os muros
A urtiga silvestre enrola em nós impuros
Uma estátua caída, em cuja mão nevada
A aranha estende ao sol a teia delicada! ...
Mergulho os pés nas plantas selvagens, espalmadas,
As borboletas fogem-me em lúcidas manadas ...
E ouvindo-me as passadas tristonhas, taciturnas,
Os grilos, que cantavam, calaram-se nas furnas ...
Oh! jardim solitário! Relíquia do passado!
Minh'alma, como tu, é um parque arruinado!
Morreram-me no seio as rosas em fragrância,
Veste o pesar os muros dos meus vergéis da infância,
A estátua do talento, que pura em mim s'erguia,
Jaz hoje — e nela a turba enlaça uma ironia!...
Ao menos como tu, lá d'alma num recanto
Da casta poesia ainda escuto o canto,
— Voz do céu, que consola, se o mundo nos insulta,
E na gruta do seio murmura um tremo oculta.
Entremos! ... Quantos ecos na vasta escadaria,
Nos longos corredores respondem-me à porfia! ...
Oh! casa de meus pais! ... A um crânio já vazio,
Que o hóspede largando deixou calado e frio,
Compara-te o estrangeiro — caminhando indiscreto
Nestes salões imensos, que abriga o vasto teto.
Mas eu no teu vazio — vejo uma multidão
Fala-me o teu silêncio — ouço-te a solidão! ...
Povoam-se estas salas...
E eu vejo lentamente
No solo resvalarem falando tenuemente
Dest'alma e deste seio as sombras venerandas
Fantasmas adorados — visões sutis e brandas...
Aqui... além... mais longe... por onde eu movo o passo,
Como aves, que espantadas arrojam-se ao espaço,
Saudades e lembranças s'erguendo — bando alado —
Roçam por mim as asas voando pra o passado.
Alves, Castro. Espumas Flutuantes. L&PM Pocket. 1997, 144p.
segunda-feira, 29 de junho de 2015
Para Todos
(Waleska Zibetti, in "Para Todos")
domingo, 28 de junho de 2015
Informativo - Escola da Inteligência de Augusto Cury
Uma novidade que todo pai e educador, (professor não, porque o que mais temos por ai são "professores"), devia conhecer.
O Projeto Escola de Inteligência, criado pelo renomado psiquiatra, pesquisador e escritor Dr. Augusto Cury, faz parte do Instituto Academia de Inteligência. É formado por uma equipe multidisciplinar altamente especializada no processo do funcionamento multifocal da mente e, tem como principais metas: a formação de pensadores, o desenvolvimento da inteligência, a formação da personalidade e a melhoria da qualidade de vida.
As escolas de ensino tradicional, fundamental básico II e médio integrarão o projeto em suas grades curriculares, a ser desenvolvido dentro de 1 (uma) hora/aula semanal, podendo ser inserido na carga horária de uma disciplina já existente, como, Religião, Filosofia, Ética, Sociologia, temas transversais, etc.
Objetiva:
• Desenvolver as funções mais importantes da inteligência como; pensar antes de reagir, colocar-se no lugar dos outros, trabalhar perdas e frustrações, libertar a criatividade, formar pensadores, proteger a emoção, gerenciar pensamentos, consolidar a auto-estima, desenvolver a consciência crítica, Formar pensadores, elaborar sonhos e projetos de vida e adquirir resiliência às intempéries sociais
• Estimular o treinamento do caráter: perseverança, honestidade, espírito empreendedor, debate de idéias, disciplina, tolerância, liderança, solidariedade, capacidade de recomeçar, educação para o trânsito e educação para o consumo.
• Fornecer ferramentas para prevenir transtornos psíquicos: insegurança, fobias, ansiedade, agressividade, sentimento de culpa, falta de transparência e uso de drogas.
• Enriquecer as relações interpessoais através do diálogo, do debate de idéias, da educação para a paz e do trabalho em equipe.
É pioneiro na promoção da saúde emocional e da prevenção de doenças psíquicas,com programa de capacitação dos professores, acompanhamento pedagógico durante a aplicação, e material de apoio pedagógico apostilado ricamente ilustrado, contendo histórias com vertentes psicológicas, sociológicas, filosóficas, idéias de múltiplos pensadores, informações relevantes sobre temas do cotidiano, apresentando uma dinâmica que estimulará a arte da interiorização, da observação, da consciência crítica e do debate de idéias.
Nossa preocupação
O cenário do mundo pós-moderno apresenta um progresso surpreendente na comunicação, no entretenimento, na democratização do conhecimento, na liberdade de expressão e nunca se ouviu falar tanto em qualidade de vida. Mas qual é o espetáculo que estamos assistindo?
Infelizmente, ainda com todos os avanços no cenário social e tecnológico, a peça é decepcionante. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), nos próximos 20 anos, a depressão deve se tornar a doença mais comum em todo o mundo. Ainda, atualmente, 20% dos adolescentes sofrem de depressão, e ainda mais, Institute for Social Research, da Universidade de Michigan afirma que 50% da população mundial teve ou vai desenvolver algum tipo de transtorno psicológico durante a vida como; fobias, estresses, ansiedades, anorexia nervosa, transtornos de conduta, entre outros. Como reflexo deste quadro, em um importante Congresso na Califórnia com o tema “Como preparar a juventude para o século XXI", constatou-se por meio de pesquisas, que aproximadamente 30% dos jovens americanos não se tornam cidadãos produtivos porque não se sentem bem consigo mesmos . Esse número é ainda maior em países subdesenvolvidos como o Brasil.
Os teatros escolares são grandes responsáveis pela formação da personalidade, pelo desenvolvimento da inteligência e pela construção de pensadores, preparando-nos não apenas para conhecer o mundo em que vivemos, mas também o mundo que “somos”. Devem ser o ambiente onde aprendemos a conviver e a respeitar as diferenças de pensamentos, cor, religião, posição social. Mas o atual quadro é decepcionante: mais de 45% dos estudantes brasileiros já sofreram algum tipo de violência dentro da escola, seja ela verbal ou física, segundo estimativa do Centro Multidisciplinar de Estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar (Cemeobes).
Os dias atuais e o caminho que estamos traçando são de fato preocupantes. Estamos diante de uma massa de jovens agitados, desmotivados a conhecer, a questionar, a formar suas próprias opiniões e debaterem ideias. Vivendo cada vez mais voltados ao mundo virtual, os jovens assistem, em média, 4 horas, 50 minutos e 11 segundos por dia de programação televisiva, tornam-se os principais alvos das propagandas de consumo. Segundo pesquisa elaborada pelo Instituto Akatu, com base em estudo realizado pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) com jovens de 24 países dos cinco continentes, os jovens brasileiros estão no topo dos mais consumistas, à frente de jovens franceses, japoneses, argentinos e americanos, mas nem de longe são mais felizes, como mostram os dados sobre a depressão.
Os relacionamentos entre pais e filhos, professores e alunos, e entre amigos estão cada vez mais superficiais. Os jovens encontram dificuldade para dividirem suas histórias e lágrimas. Estão presencialmente ligados, porém emocionalmente mais distantes. É necessário que nos adaptemos aos avanços tecnológicos sem perder de vista a sensibilidade humana.
Pesquisa realizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em dezesseis cidades brasileiras mostrou que 58% dos garotos e garotas de 12 a 14 anos fizeram uso de drogas pelo menos uma vez na vida. Segundo estudos do Instituto Nacional de Políticas do Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo, a dependência do álcool aumentou 30% entre homens e 50% entre as mulheres no Brasil em relação a dez anos atrás. E outros estudos mostram que em quatro anos o consumo de drogas anorexígenas cresceu 100% .
Estatísticas como essas são realmente alarmantes. A peça que estamos encenando e as próximas que assistiremos devem ser o incentivo para que nos tornemos ativos na mudança desse roteiro, colaborando para que nossos jovens transformem-se em líderes e atores principais no teatro social, com saúde emocional e projetos de vida. Sabemos que as escolas e os educadores almejam a mudança dessa realidade, mas têm dificuldades de encontrar meios eficazes para que isto aconteça.
Queremos estar juntos com as instituições de ensino para ajudar a escrever um novo roteiro no teatro da educação, pois é nele que desenvolvemos as características mais importantes para o desempenho do nosso papel no teatro da vida. Hoje são nossos alunos e filhos, amanhã serão eles os responsáveis pelos principais papéis que decidirão o futuro da nossa sociedade, do nosso planeta.
Vantagens
• Capacitação dos professores que aplicarão o projeto, com profissionais altamente capacitados nas áreas de psicologia, psicopedagogia, psiquiatria, entre outros, debatendo temas que envolvem o funcionamento básico do teatro da mente humana, a construção das ferramentas fundamentais para a formação de pensadores e o método de aplicação do projeto.
• Cada aluno receberá juntamente com o professor, material pedagógico apostilado ricamente ilustrado, contendo histórias com vertentes psicológicas, sociológicas, filosóficas, abrangendo idéias de múltiplos pensadores e informações relevantes sobre temas do cotidiano. Tudo isso com uma dinâmica que estimulará a arte da interiorização, da observação, da consciência crítica e do debate de idéias.
• Assistência pedagógica durante a aplicação, de modo a favorecer a aproximação da equipe do projeto com a instituição educacional, tornando-se parceiros na educação para vida e na formação de pensadores.
• Assistência permanente através de Call Center e via e-mail, dando suporte para a instituição de ensino.
Conheça o site http://www.escoladainteligencia.com.br/ e veja que isso não é sonho, é realidade. Nos ajude a mudar o futuro da educação no Brasil!
DIVULGUE a E.I.
Artigo em formato de vídeo
Assista ao video
O Projeto Escola de Inteligência, criado pelo renomado psiquiatra, pesquisador e escritor Dr. Augusto Cury, faz parte do Instituto Academia de Inteligência. É formado por uma equipe multidisciplinar altamente especializada no processo do funcionamento multifocal da mente e, tem como principais metas: a formação de pensadores, o desenvolvimento da inteligência, a formação da personalidade e a melhoria da qualidade de vida.
As escolas de ensino tradicional, fundamental básico II e médio integrarão o projeto em suas grades curriculares, a ser desenvolvido dentro de 1 (uma) hora/aula semanal, podendo ser inserido na carga horária de uma disciplina já existente, como, Religião, Filosofia, Ética, Sociologia, temas transversais, etc.
Objetiva:
• Desenvolver as funções mais importantes da inteligência como; pensar antes de reagir, colocar-se no lugar dos outros, trabalhar perdas e frustrações, libertar a criatividade, formar pensadores, proteger a emoção, gerenciar pensamentos, consolidar a auto-estima, desenvolver a consciência crítica, Formar pensadores, elaborar sonhos e projetos de vida e adquirir resiliência às intempéries sociais
• Estimular o treinamento do caráter: perseverança, honestidade, espírito empreendedor, debate de idéias, disciplina, tolerância, liderança, solidariedade, capacidade de recomeçar, educação para o trânsito e educação para o consumo.
• Fornecer ferramentas para prevenir transtornos psíquicos: insegurança, fobias, ansiedade, agressividade, sentimento de culpa, falta de transparência e uso de drogas.
• Enriquecer as relações interpessoais através do diálogo, do debate de idéias, da educação para a paz e do trabalho em equipe.
É pioneiro na promoção da saúde emocional e da prevenção de doenças psíquicas,com programa de capacitação dos professores, acompanhamento pedagógico durante a aplicação, e material de apoio pedagógico apostilado ricamente ilustrado, contendo histórias com vertentes psicológicas, sociológicas, filosóficas, idéias de múltiplos pensadores, informações relevantes sobre temas do cotidiano, apresentando uma dinâmica que estimulará a arte da interiorização, da observação, da consciência crítica e do debate de idéias.
Nossa preocupação
O cenário do mundo pós-moderno apresenta um progresso surpreendente na comunicação, no entretenimento, na democratização do conhecimento, na liberdade de expressão e nunca se ouviu falar tanto em qualidade de vida. Mas qual é o espetáculo que estamos assistindo?
Infelizmente, ainda com todos os avanços no cenário social e tecnológico, a peça é decepcionante. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), nos próximos 20 anos, a depressão deve se tornar a doença mais comum em todo o mundo. Ainda, atualmente, 20% dos adolescentes sofrem de depressão, e ainda mais, Institute for Social Research, da Universidade de Michigan afirma que 50% da população mundial teve ou vai desenvolver algum tipo de transtorno psicológico durante a vida como; fobias, estresses, ansiedades, anorexia nervosa, transtornos de conduta, entre outros. Como reflexo deste quadro, em um importante Congresso na Califórnia com o tema “Como preparar a juventude para o século XXI", constatou-se por meio de pesquisas, que aproximadamente 30% dos jovens americanos não se tornam cidadãos produtivos porque não se sentem bem consigo mesmos . Esse número é ainda maior em países subdesenvolvidos como o Brasil.
Os teatros escolares são grandes responsáveis pela formação da personalidade, pelo desenvolvimento da inteligência e pela construção de pensadores, preparando-nos não apenas para conhecer o mundo em que vivemos, mas também o mundo que “somos”. Devem ser o ambiente onde aprendemos a conviver e a respeitar as diferenças de pensamentos, cor, religião, posição social. Mas o atual quadro é decepcionante: mais de 45% dos estudantes brasileiros já sofreram algum tipo de violência dentro da escola, seja ela verbal ou física, segundo estimativa do Centro Multidisciplinar de Estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar (Cemeobes).
Os dias atuais e o caminho que estamos traçando são de fato preocupantes. Estamos diante de uma massa de jovens agitados, desmotivados a conhecer, a questionar, a formar suas próprias opiniões e debaterem ideias. Vivendo cada vez mais voltados ao mundo virtual, os jovens assistem, em média, 4 horas, 50 minutos e 11 segundos por dia de programação televisiva, tornam-se os principais alvos das propagandas de consumo. Segundo pesquisa elaborada pelo Instituto Akatu, com base em estudo realizado pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) com jovens de 24 países dos cinco continentes, os jovens brasileiros estão no topo dos mais consumistas, à frente de jovens franceses, japoneses, argentinos e americanos, mas nem de longe são mais felizes, como mostram os dados sobre a depressão.
Os relacionamentos entre pais e filhos, professores e alunos, e entre amigos estão cada vez mais superficiais. Os jovens encontram dificuldade para dividirem suas histórias e lágrimas. Estão presencialmente ligados, porém emocionalmente mais distantes. É necessário que nos adaptemos aos avanços tecnológicos sem perder de vista a sensibilidade humana.
Pesquisa realizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em dezesseis cidades brasileiras mostrou que 58% dos garotos e garotas de 12 a 14 anos fizeram uso de drogas pelo menos uma vez na vida. Segundo estudos do Instituto Nacional de Políticas do Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo, a dependência do álcool aumentou 30% entre homens e 50% entre as mulheres no Brasil em relação a dez anos atrás. E outros estudos mostram que em quatro anos o consumo de drogas anorexígenas cresceu 100% .
Estatísticas como essas são realmente alarmantes. A peça que estamos encenando e as próximas que assistiremos devem ser o incentivo para que nos tornemos ativos na mudança desse roteiro, colaborando para que nossos jovens transformem-se em líderes e atores principais no teatro social, com saúde emocional e projetos de vida. Sabemos que as escolas e os educadores almejam a mudança dessa realidade, mas têm dificuldades de encontrar meios eficazes para que isto aconteça.
Queremos estar juntos com as instituições de ensino para ajudar a escrever um novo roteiro no teatro da educação, pois é nele que desenvolvemos as características mais importantes para o desempenho do nosso papel no teatro da vida. Hoje são nossos alunos e filhos, amanhã serão eles os responsáveis pelos principais papéis que decidirão o futuro da nossa sociedade, do nosso planeta.
Vantagens
• Capacitação dos professores que aplicarão o projeto, com profissionais altamente capacitados nas áreas de psicologia, psicopedagogia, psiquiatria, entre outros, debatendo temas que envolvem o funcionamento básico do teatro da mente humana, a construção das ferramentas fundamentais para a formação de pensadores e o método de aplicação do projeto.
• Cada aluno receberá juntamente com o professor, material pedagógico apostilado ricamente ilustrado, contendo histórias com vertentes psicológicas, sociológicas, filosóficas, abrangendo idéias de múltiplos pensadores e informações relevantes sobre temas do cotidiano. Tudo isso com uma dinâmica que estimulará a arte da interiorização, da observação, da consciência crítica e do debate de idéias.
• Assistência pedagógica durante a aplicação, de modo a favorecer a aproximação da equipe do projeto com a instituição educacional, tornando-se parceiros na educação para vida e na formação de pensadores.
• Assistência permanente através de Call Center e via e-mail, dando suporte para a instituição de ensino.
Conheça o site http://www.escoladainteligencia.com.br/ e veja que isso não é sonho, é realidade. Nos ajude a mudar o futuro da educação no Brasil!
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sábado, 27 de junho de 2015
Amanhã Tudo Muda
E de repente tudo vira um silêncio só. Não há lua e a rua adormece de tal maneira que nem os gatos ousam passar por ela. O vento entra pela fresta da janela e arrepia levemente o corpo. Não há paz real, mas uma calmaria que anuncia sinistramente a próxima tempestade. E é preciso passar por ela para chegar ao próximo ponto. E já não sei mais se é o vento mesmo que estremece o corpo ou se é o medo. E em silêncio entôo o mantra: "Amanhã tudo muda... Amanhã tudo muda...". É preciso crer que vai passar apesar da noite, do vento, do silêncio atormentado da rua, da ausência da lua... É preciso crer apesar de. O corpo já mostra cansaço, mas a cabeça insiste em pensar. Mas é só mais uma noite que eu devo vencer e amanhã tudo muda. Eu hoje precisava não anoitecer. Mas a noite chega sempre independente da lua. E hoje ela trouxe um silêncio pesado, incomodo... Em algum lugar alguém morre e no ponto oposto um outro nasce. Nem tudo é noite além dessa janela. Em algum lugar é dia claro com crianças rindo na calçada. E eu aperto forte o travesseiro. Dorme em paz porque amanhã tudo muda.
(Waleska Zibetti, in "Amanhã Tudo Muda")
sexta-feira, 26 de junho de 2015
Loucura
Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exactamente na cabeça.
Meu coração estoirou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...
Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
Como a serapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!
Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução.
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!
Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto resolvido em vários —
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho nem fim nem vida...
s.d.
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
- 116.
- 116.
quinta-feira, 25 de junho de 2015
Sob a Luz do Luar
“Ninguém está na calçada porque quer”, disse-lhe certa vez uma velha cafetina.
E ela em silêncio sorriu pensando que nunca aquela velha enfrentaria um serviço
pesado mesmo quando jovem. Porque ela tinha certeza de que a rua era um vício.
A lua rompe a janela do quarto ditadora e ordena aos seus filhos que invadam a
rua espalhando luxúria por onde passarem. Toda puta é filha da lua, concluía.
Ela observava aqueles personagens analisando-os como um
microuniverso independente do macro universo que crescia ao seu redor. As
pessoas podiam olhá-los como parasitas da sociedade, mas ela era capaz de jurar
que ali havia muito mais a oferecer que nas senhoras distintas que se sentam no
fim da tarde diante de sua TV para ver as novelas com olhos inocentes. Olhos
inocentes e cabeça perversa. Mulheres como aquelas se masturbavam secretamente
pelo vizinho nas suas tardes solitárias. Imaginavam os corpos dos adolescentes
sobre os seus enquanto inocentemente liam revistas Marie Claire em suas
cadeirinhas de varanda.
A maioria não assume sua perversão vivendo um conflito
doentio com seus desejos reprimidos. Nas calçadas, todo desejo é permitido e
todo sonho real. Nas calçadas o medo é só mais uma via para o prazer. E o
prazer, a morada de toda razão. E ela caminha a observar as frestas das portas,
movimentos por trás de cortinas, silhuetas embaçadas nos carros, vultos na
escuridão. De vez em quando encara o céu e algumas estrelas piscam seus olhos
para ela incentivando a sua caminhada.
Toda noite tem seus sons ainda que tudo esteja calmo. E
na praia, o mar lambe a areia. Os serenos se amam nas pedras ao som suave das
ondas. A noite tem seus mistérios e ela também. A lua engole os mistérios da
noite até encher. Os dela ela guarda por baixo das unhas vermelhas. Todo mistério
seduz.
Ela sempre foi meio caminho perigoso e nunca temeu bicho
ou a madrugada. Tinha olhos de viela e atraía curiosos personagens que se
fascinavam com suas histórias com movimentos pseudo-dramáticos. Andava pelos becos pouco se importando com os
gatos, cachorros, bêbados, mendigos, prostitutas, travestis...
“Ninguém envelhece porque quer”, disse certa vez a uma
jovem. E uma cafetina em silêncio sorriu porque tinha certeza de que a rua era
um vício. E ela rompia a janela do quarto e invadia a rua espalhando luxúria
por onde passasse. A rua é um serviço pesado, concluía. E todo filho da puta
deveria ir para lua.
Ela é um daqueles microuniversos parasita que observa a
sociedade independente crescendo ao seu redor. As pessoas a analisam no fim da
tarde. E ela vira uma espécie de macro universo capaz de oferecer segredos as
salas das senhoras distintas. Seus olhos perversos povoam as tardes solitárias
dos vizinhos. E o corpo dela é coberto pela imaginação dos adolescentes que
inocentemente se masturbam nas cadeirinhas da varanda. Personagem pervertida
das novelas de revista.
A maioria dos seus desejos são perversos e conflitantes.
Mas a calçada é real. Não permite sonhos e não assume doenças. A calçada troca
medo por prazer. É a morada de toda razão. De vez em quando há estrelas nas
frestas das portas, e se vai ao céu nos movimentos por trás de cortinas,
silhuetas embaçadas nos carros piscam para ela, vultos na escuridão o observam.
Ela encara o céu e segue sua caminhada.
Toda noite está calma e tem seus sons vindos da praia. Os
serenos lambem a areia. O mar ama nas pedras. A noite tem mistérios vindos das
ondas. E ela também engole os mistérios da noite. A lua guarda os dela até
encher. Os dela seduzem por baixo das unhas vermelhas. À noite tudo é mistério.
(Waleska Zibetti, in "Sob a Luz do Luar")
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