domingo, 14 de junho de 2015

Confissões de Uma Rosa


Ontem eu era o pedaço do caos que ele queria ter.
Mas ele era racional demais.
Eu tinha que devorar-lhe a razão.
Bebe-la com uma taça de vinho, talvez.
Levei-o a minha cama de desejos delirantes.
Propus que ele velejasse em meus mares tempestuosos
de fantasias e sonhos quase palpáveis.
Ele navegou meio tímido, meio temeroso...
Era quase um menino a zingrar mares em navios de papel.
E eu o amei ainda mais.
No fim ele chegou ao porto aninhado em meu corpo ainda quente.
Seu coração pulsava meu nome e eu sorri íntima com ele.
Ele estranhou a calmaria depois da tempestade.
Mas é assim que é: a tempestade se arma
para assustar os velejadores covardes.
Ele foi meu ontem...
Ele venceu a tempestade.
Dominou o meu desejo.
Dormi em paz em mares de calmaria.
Hoje amanheci meio rosa meio raposa.
Apesar de ostentar orgulhosa minhas pétalas
que trazem em si ainda o cheiro dele;
como a raposa, eu o espero no trigal.
Destoa-se minhas pétalas vermelhas do dourado do trigo.
É um quadro triste de uma rosa solitária e teimosa.
Contudo, não sinto nem uma coisa nem outra.
Ele está em mim e eu posso senti-lo pulsando ainda
em seu prazer dado só para mim na madrugada.
E minha teimosia é uma só: não vou esquecê-lo nunca.
E não me queixo dela.
Amá-lo me acalma.
(Waleska Zibetti)

sábado, 13 de junho de 2015

A leveza do ser - Penas ou Humanos?

por Gabriella Gilmore







Bom dia pessoal!
Tenho o hábito de acessar o yahoo para ver rapidamente as notícias.
Hoje eu me deparei com uma obra de arte maravilhosa que me trouxe muitos pensamentos.
Logo pensei em dividir este achado com vocês.

“Eu chamo de ‘Paradoxo da Leveza’ porque existe esse poder e força que vem da comunidade de milhares de corpos entrelaçados, porém é só uma pena. Ironicamente, parece ser esforço e elegante, mas é o resultado de um processo coordenado e meticuloso de muito tempo. Os modelos não se conhecem, apenas se juntam e trabalham duro para se transformar nesta mágica coreografia”, afirma Angelo Musco sobre o vídeo.

Isso me fez lembrar também de um livro antigo chamado A insustentável leveza do ser, deixo a dica.


O que o ser humano tem de frágil, ele tem de forte, quando unidos.
A solidão algumas vezes é necessária, porém em excesso ela nos causa câncer na alma.
Se hoje você está se sentindo o último dos seres vivos, injustiçado, de mãos atadas, isolado, chateado, eu deixo também um verso de Paulo: "Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco, é que sou forte".

Agora vá e divirta-se neste sábado maravilhoso!!!

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Os Sete Segundos


Lambe languida a pele e fere a tua compostura
Louva o céu vermelho da tua boca
É febre dócil da loucura
Une a carne branca a minha escura
Laços. Pernas. Beijo ácido
Olha a lua reluzente. Uiva ao céu em noite quente
Fecunda a terra em tesão
Grita e deixa marca no colchão
Obscenos espectros na madrugada
Pesadelo da solidão
Conhaque no fundo do copo
Gemido na borda do corpo
Lascivo o corpo sua
A casa do pecado transborda
Inunda o chão
Escorre pela face
Renasce impura.
(Waleska Zibetti)

quinta-feira, 11 de junho de 2015

À SOLIDÃO



  
Solidão coroada de rosas, quem pudera
aprisionar teu corpo de sol e de harmonia;
estar dentro de ti toda esta primavera
de sangue, e folhas secas e de melancolia!

Que palpitasse, em sonho, teu coração sonoro
sobre o meu coração sequioso de ideais;
minha palavra fosse uma palavra de ouro
de teus inesgotáveis e puros mananciais!

Ai! Quem, iluminando a sombra alucinada
que de espinhos coroa minha pálida tristeza,
pudesse ser teu amor, oh deusa coroada
de rosas, solidão, — tu que és mãe da beleza!

Jiménez, Juan Ramon. Antologia Poética. Editora La Galeria. Espanha,2006.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Em Suas Costas


Suas costas nuas, meu papel em branco.
Seu sono tranquilo, meu conforto.
Seus sinais, a minha constelação inspiradora.
Sua pele sorve a tinta como que devorando
uma a uma as letras do meu desejo.
Invejo a pele.
Invejo o cheiro.
Dorme ainda indiferente a caneta que corre.
Mais um verso escrito
(ou outra desculpa para estar aqui
sobre suas costas nuas)
Não se mova, amor!
Deixe que eu escreva suas costas inteira
ou até que minha vontade se acalme.
Não desperte, amor!
A ressonância do seu sono move a caneta.
Não quero nexo.
Quero juntar coisas
na tentativa vaga de um poema.
Qualquer coisa.
Escrevendo aqui sou mais cúmplice de ti.
Minha caneta deslisa
nos movimentos suaves de sua respiração.
E eu sobre suas costas,
umedeço os lábios aquietando meu tesão.
Um verso atrás do outro.
Uma vontade atrás da outra.
Sua pele, minha folha agora maculada de erotismo
camuflado em versos.
Seu sono, meu delírio.
Com fúria sinto o fim tão perto.
Não dos versos...
Não da tara...
Não da libido...
Mas das costas onde despejo
os meus versos de amor.

terça-feira, 9 de junho de 2015

D.E.L.I.R.I.O



D entre tantas maneiras de se curar
E steve próxima ao
L ítio se afogar
I nvestigando seu obscuro passado
R etirando teias do baú
I nventando crises de baixo escalão
O xigenando uma fria e lenta ilusão

Gabriella Gilmore

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Eu Decidi Mudar



Decidi que quero ser a falta e não o que a preenche. Cansei de estar sempre de mãos estendidas, de braços abertos, com as palavras certas para dizer. Quem quiser que busque outro ombro para encostar.

Decidi que quero ser o dedo na ferida, o veneno que trava na garganta antes de descer, o ferro que fere... Cansei de ser aquela que cura as feridas, a que entende, a que acolhe. Quem quiser que busque consolo em si como eu faço sempre quando sou eu quem precisa.

Decidi que não estarei mais aqui quando a solidão assolar você. Porque cansei de esperar sozinha a sua solidão chegar. Eu sei que amar e ser companheiro faz parte da vida. Então decidi amar-me e fazer companhia a mim, porque sem mim não vivo.

Decidi não ser mais a que entende, quero eu, agora, ser entendida. Quero eu, agora, ser admirada e querida. Quero eu as palavras de conforto, o colo, o abrigo. Quero eu, agora, um pouco de mim.

Se me disser que com isso só conseguirei desprezo, rirei de você. Porque desprezo não é muito diferente do sentimento de indiferença que até ontem eu recebi. A diferença só está em uma coisa: antes a indiferença doía e hoje, o desprezo é só mais um sentimento que vai me acompanhar.

Arranquei de mim a vontade de amar o outro. Para ofertar a mim o sentimento de dignidade, de amor próprio. Saí da condição de amante para a de objeto amado. E, ainda que ninguém mais me ame, não me fará diferença, eu aprendi a amar-me quando não tive ninguém para fazê-lo.
(Waleska Zibetti)

domingo, 7 de junho de 2015

BRASÍLIA, ME DESCUBRA!



Brasília é uma cidade para se conhecer em um passeio turístico e com um guia que saiba com detalhes cada monumento que ela possui. Nem mesmo os nascidos ou criados lá sabem o tesouro cultural e de inteligência que ela possui. Depois disso, tire mais ou menos um mês de férias para você continuar a entender suas quadras, superquadras, tesourinhas e vias de acesso como W3 sul/norte, L2 sul/norte. Quem? Pois é.
Quando me mudei para lá, nos primeiros meses eu fiquei de cabeça doendo.
O clima seco, juntamente com suas ruas sem nome incrivelmente iguais uma das outras, me deixavam louca. Depois fui percebendo que aquela culta cidade é matemática lógica pura. Me apaixonei.
Em seis meses eu já conseguia me deslocar por lá com mais facilidade e até comecei a sentir saudade de como era se perder.
Uma vez, tive crise de pânico dentro de casa no Cruzeiro. Precisei sair para a rua para descarregar a explosão de energia que brotava de dentro de mim. Peguei Matilda (minha Caloi) e fui correr dentro do bairro. Em uma hora eu rodei três bairros.
Não me perdi.
As quadras por terem sequência numérica facilita a vida dos brasilienses/candangos/aventureiros.
A única coisa que me fez perder por lá foi o seu céu.
Quase sempre limpo e muito azul, você consegue nadar nele sem ficar com os olhos vermelhos e de cabelo duro.
O nascer do sol é estupendo. O céu começa num laranja clarinho até ficar azul bebê. A grama verde que tem por toda a cidade, monta perfeitamente a bandeira do Brasil.
Para quem nunca viu um céu lilás escondido no rosa, é só esperar o por do sol para você entender o que estou falando. Não. Eu não uso drogas.
Na noite, você estica as mãos e rouba uma estrela. E a lua com toda sua sedução te engole num piscar.
Cidade da natureza.
Às vezes acho que há uma cidade dentro de um parque, e não ao contrário.
Comecei a fazer coleção de árvores por lá. São tantas, tantas! Nunca consegui fotografar todas, e nem vou.
Brasília é tão astuta que às vezes fico com vergonha de mim.
Eu andava em algum lugar e me deparava com um concreto aparentemente sem explicação, mas eu sabia que se eu tivesse escutado melhor o guia turístico lá no início desse texto, eu entenderia. Porém acho que o mistério daquela cidade estava naquilo, em te deixar absorta.
BSB tem uma coisa de que não acho graça. O povo e a comida.
“Ow, me vê um prato típico de Brasília?” Ixxi, não tem. “Qual é o sotaque do brasiliense?” Abafa que também não tem.
Lá você vê muito nordestino, goiano, mineiro, e outros. Brasiliense que é bão, nada.
Você só consegue ter contato com eles no trabalho. Fora isso todo mundo some. Nunca consegui pegar uma caneca de açúcar com minha vizinha do prédio. Será que vivia mesmo alguém lá?
As pessoas devem ter medo de gente. Só pode.
Entretanto Brasília é moderna e ousada, apesar de ter essa população fechada e individualista. É quadrada, às vezes oval, de concreto e cimentada. É Nova Orleans, Paris e Saturno. É um museu de arte contemporânea em área aberta. É lógica, e nos ensina a caminhar um pouquinho, justificando aqui seus “quarteirões” enormes e distantes um dos outros. Foi inspiração de vários artistas e ainda tem mexido com muita gente, perpetuando-se. É Brasília sua irreverente! Sua linda!!!

sábado, 6 de junho de 2015

E-mail...



E-mails não são como cartas. Não posso simplesmente largá-lo ali a mesa para pensar se abro ou não, enquanto tomo uma xícara de café ou de veneno. Muito menos guardá-lo numa caixinha para ler numa madrugada em que o cheiro de saudade invade o quarto e me lembre estou só. Não posso pegar um e-mail e guardar no bolso para ler na beira da praia aonde vou todos os dias, antes para caminhar; hoje para pensar.

Não vou ler! Vou excluir. E viver a vida inteira imaginando o que ela escreveu. E nunca mais vou pensar nela, mas para o resto da vida vou me lembrar do maldito e-mail. Então, é melhor ler! Melhor pensar nela que no e-mail.

Se fosse uma carta, eu guardaria e quando estivesse bem velhinha eu leria com olhos cheios de lágrimas de saudade, lágrimas de despedida da vida, dela e da carta. Mas é um maldito e-mail. Tenho que abrir ou guarda-lo em alguma pasta e ler um dia de uma maneira não tão romântica, não em um lugar particularmente nosso...

E-mails são frios. Não tem a letra, o toque, o cheiro, a energia de uma carta. Ela podia ter escrito uma carta... Maldita tecnologia.
(Waleska Zibetti)

sexta-feira, 5 de junho de 2015

A COR DA TUA ALMA


Enquanto eu te beijo, o seu rumor
nos dá a árvore, que se agita ao sol de ouro
que o sol lhe dá ao fugir, fugaz tesouro
da árvore que é a árvore de meu amor.

Não é fulgor, não é ardor, não é primor
o que me dá de ti o que te adoro,
com a luz que se afasta; é o ouro, o ouro,
é o ouro feito sombra: a tua cor.

A cor de tua alma; pois teus olhos
vão-se tornando nela, e à medida
que o sol troca por seus rubros seus ouros,
e tu te fazes pálida e fundida,
sai o ouro feito tu de teus dois olhos
que me são paz, fé, sol: a minha vida!

Jiménez, Juan Ramon. Antologia Poética. Editora La Galeria. Espanha,2006.