terça-feira, 5 de agosto de 2014

E Foi Assim Que Aprendi!




Eu tinha uns treze ou quatorze anos quando liguei a TV numa madrugada de insônia e conheci Maude & Harold – nome original do filme “Ensina-me a Viver” de Colin Higgins, 1971. Anos mais tarde encontrei por acaso o livro em um sebo. Imagine como fiquei feliz. E muito mais tempo depois vi a encenação no teatro com Glória Menezes como Maude e Arlindo Lopes como Harold. Tradução de Millôr Fernande e direção de João Falcão.

A história fala do inusitado encontro do jovem Harold de vinte anos com a apaixonada pela vida Maude de setenta e nove anos. O encontro dos dois muda a vida de Harold e com certeza a nossa também, porque mais que uma comédia de humor negro; o filme trata de posicionamento e questionamento diante da morte e da vida.

“Preferi enterros mais modestos, concluiu.
Com pouca gente à volta da sepultura
a emoção tornava-se mais intensa”
                                                          (Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

Harold tinha mania de ir aos funerais todos os dias. Fica muito claro, logo no começo do  que sua vida era vazia e sem propósito. E num desses funerais ele a percebe em um canto. Figura estranhamente risonha e a vontade comendo melancias. Maude Cardin ou condessa Mathilda que também freqüentava funerais diariamente mais sem nenhum porquê filosófico ou, para mim, para encontrar todas as filosofias. Veja essa fala dela no primeiro diálogo entre os dois.

“__ Olhe para eles
– num cochicho bastante audível. -
Nunca entendi essa mania de preto.
Ninguém manda flores escuras, não é?
Flores escuras são flores mortas,
E quem mandaria flores mortas para um funeral?”
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

Nunca mais usei preto como luto. Seria um desrespeito a Maude. E de certo modo entendi que também seria ao morto. Eu por exemplo, amo o azul. Então, amigos, quando eu me for vistam-se de azul. O tom não importa, mas que todos estejam de azul no meu enterro. E se alguém questionar diga que é para combinar com o tom dos lugares por onde meu espírito estará certamente passando naquela hora. Ah, sim continuemos a acompanhar Harrold e Maude.

“Nós não possuímos coisa alguma.
O mundo é transitório.
Chegamos ao mundo sem coisa alguma
E partimos sem nada.
Não acha que propriedade
É uma coisa meio absurda?”
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

É verdade! E desde então abdiquei do “TER” em nome do “SER”. Não tenho nada além de vinte quatro horas para ser o melhor possível. Tenho convivido muito com pessoas presas ao sentimento de posse, domínio, controle... E me divirto com eles. Acho engraçado o modo pesado como eles arrastam pela vida seus malões de desejo e acumulam dores de cabeça e de coluna gastando fortuna em RPG, fisioterapia, psicoterapia... Louca? Eu? Não sei! Só sei que tenho mais de cem quilos e ando longas distâncias sem nem perder o fôlego, porque tudo que possuo são asas imaginárias que não preciso arrastar. Bom, vamos que a viagem é longa!!!

“Até os melhores planos fracassam
Quando a tática se torna
Demasiado familiar ao inimigo. ”
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

Já notou quantas vezes travamos batalhas imaginárias conosco ou com alguém que supostamente não gosta de nós? As vezes, ficamos em guerras particulares e perdemos um longo tempo de nossas vidas. Eu fiz muito isso quando não queria assumir que sou gorducha. Bebi remédios milagrosos, me esforcei além de mim nos esportes, eu queria seguir o padrão... Mas um dia, um homem lindo, me descobriu e disse: “Olhe para você! É linda nas suas imperfeições. E única entre as padronizadas. Ame-se”. Saí daquele quarto e assumi meu peso sem culpas. Às vezes, precisamos de empurrõezinhos para entender, não é?

“A terra é o meu corpo.
Minha cabeça está nas estrelas. ”
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)


Desde nova sempre tive insônia. E me sentava na varanda nas madrugadas para olhar a rua vazia. Era monótono. Um dia reparei na lua e nas estrelas e nos tons que o amanhecer tingia o céu.  Fui me apaixonando pelo infinito. Queria estar ali entre as nuvens me tingindo de tons rosados ou laranja. Nenhum amanhecer é igual ao outro. São milhares de formações que vi no céu desde então. Acho que nunca mais vi a rua. Olhar o céu me parece mais sensato e amplo.

Ah, essa seqüência de diálogo é um primor. Vou transcrevê-lo todo!

“__ Bem, a maioria das pessoas não é como você. Vivem fechadas em si mesmas. Moram sozinhas nos seus castelos. São como eu...
__ Bem, cada qual vive no seu castelo – replicou Maude – Mas isso não é razão para não baixar a ponte levadiça e fazer visitas.
Harold sorriu.
__ Então, você concorda que vivemos sozinhos. E morremos sós. Cada qual na sua cela.
Maude olhou a floresta.
__ Suponho que de certo modo. É por isso que precisamos tornar essas celas o mais agradáveis possível... Cheias de bons livros, lareiras aquecidas e recordações. Mas, noutro sentido, pode-se sempre saltar o muro e dormir à luz das estrelas.
__ Talvez. Mas é preciso coragem...
__ Por quê?
__ Você não tem medo?
__ De quê? O conhecido eu conheço, e o desconhecido gostaria de conhecer. ”
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

Deus é tão simples! Por que não vimos antes? Por que a maioria não vê? Você vê, não é? Sei que sim! A essa altura já consegue ver. Está tudo além de nós. É preciso parar de pensar que somos o centro. É preciso nos ampliar. Tocar o outro bem no fundo. Principalmente aqueles que têm medo de serem tocados. Ah, como eu queria que certo principezinho ranzinza me lesse!!! Como queria que ele tivesse entendido. – ha ha ha ha... Não fiquei maluca de vez. Só lembrei-me de alguém que como a maioria não via o lato, o amplo, a extensão do mundo, dos outros... Porque precisava viver trancado em si, em sua inteligência, seus medos. Não se permita ser como ele. Era tão jovem e a coisa mais ousada que tinha feito na vida fora pegar um bicho geográfico. Não seja assim! Não faça isso com você! Pule o muro, desça os portões, visite o mundo, o universo que é o seu próximo. Corra o risco de chorar, de sentir a ingratidão... Isso é aprendizado! É evolução! Como disse Maude: “O mundo não precisa de mais paredes. Precisa é de construir mais pontes”. Então, amigo, seja ponte! Veja eu sou ponte. Estou te ligando a mim nesse momento e você nem percebeu, não é? Não doeu em mim. Acredite: não doerá em você.

“Vícios? Virtudes?
O melhor é não ser exageradamente moral.
A pessoa acaba perdendo muita coisa da vida.
Coloque seu objetivo acima da moralidade. “
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

Certo ou errado? Qual caminho tomar? Você sabe qual é a melhor via para tocar a vida? Eu nunca soube. Tudo que posso dizer é que sempre escolhi as mais longas. Só para ter mais tempo de olhar as coisas, reparar as pessoas, e quando valia a pena eu diminuía o passo. Diminuir o passo dá uma sensação de que podemos alongar as horas. Eu nunca mudei meu jeito de ser mesmo sabendo o preço a pagar. E acumulei rótulos por aí: teimosa, carente, louca, diva... São selos de minha passagem pela vida. Como quando viajamos e colam aqueles papeizinhos em nossas malas e quanto mais marca de papelzinho e cola há na mala, mais lugares visitamos. Na vida, quanto mais te rotulam, mais você viveu. A moral é um asilo para doentes. E os moralistas se afundam em calmantes para conseguir suportar suas esquisitices sem dar pinta.

“Eu entendo. As vezes as pessoas gostam de estar mortas.
Mas não estão na verdade.  Só fogem da vida. São jogadoras,
Mas pensam que a vida é um treino
e que precisam poupar energia para mais tarde.
Assim, instalam-se num banco,
E o único campeonato a que vão assistir na vida
Se desenrola diante dos olhos.”
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

O que você pretende ser no fim das contas? Espectador ou autor de sua própria história? Houve uma época que me contentei em ficar nos bastidores preparando o show para alguém brilhar. Chamei meu ofício de amor e nunca fui tão infeliz. Quando passou o tempo, fui tomando coragem de aparecer, de subir ao palco e recitar minhas próprias falas. Foi assustador ver a platéia me olhando. Com o tempo nós nos acostumamos. Acostumei-me! Nunca mais voltei a coxia. Quero fazer parte da cena!!! E desde então, sou tão felizzzzzzzzz... Porque sou dona de meus passos e também das conseqüências. Mas fui eu, sabe? Essa sensação de “mea culpa” não é algo tão ruim afinal, porque me mostra que eu tentei e tentar é tão absurdamente prazeroso quase tanto quanto conseguir. Ah, mas nem que me paguem eu troco o palco pelos bastidores. Quando os holofotes se apagarem, as cortinas se fecharem, sairei de cena na certeza de que desempenhei maravilhosamente o papel de ser Waleska. E você? Como você se olha na sua peça? Você está atuando direitinho ou só fazendo figuração na sua própria história?

“Há um pequeno Deus em nosso interior,
Para mostrar onde estivemos,
E um pequeno Deus do lado de fora,
Para indicar o nosso caminho. ”
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

Deus está comigo o tempo todo. Eu me encontrei com Ele num desses momentos de queda e Ele nunca mais saiu de perto. Eu gosto dEle. A gente tem altos papos. Um dia, eu disse que Deus e eu tomávamos cerveja juntos e as pessoas me chamaram de herege. Acho que pensam que Ele só toma vinho. Só pode! Deus é o cara mais maneiro que conheço. Ele é o mais amplo de todos os seres. Ele sou eu e você. Ele é cada partícula do que vemos e sentimos. E nem se incomoda se você acredita ou não. Ele quer que tudo se exploda desde que você seja feliz. Porque Ele entende que a felicidade é mais que certo ou errado, amarelo ou azul, matar ou viver... Felicidade é Ele, é a amplidão que vem dEle. E cara eu piro nesse conceito louco de ser tudo, o alfa e o ômega, e se Ele é uma extensão de mim isso também me faz eterna. E é louco demais ser o cosmo, o infinito, o para sempre.

Outra seqüência que vale a pena ser transcrita na íntegra:

“__Ah, meu Deus!- murmurou Maude, de costas na relva. -
Estou com a sensação de que poderia evaporar.
Estendido ao seu lado, Harold falou:
__ Você se transformaria numa daquelas nuvens.
Acho que seria uma nuvem simpática.
Flutuaria pelo céu o dia inteiro.
__ Não, eu não – replicou Maude – Seria uma péssima nuvem.
Estaria sempre querendo me dissolver em chuva. ”
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

Quando vejo o céu cinzento, prenunciando a tempestade, algo em mim se estreita, o peito fica miúdo com vontade de chorar. Me levando de volta para mim. E logo começa o vento e eu gosto de ouvir o vento, sentir o vento em meus cabelos, no tecido da roupa, de fechar os olhos e ir com ele. E depois vem os pingos caindo frio na pele quente. Quando posso fico ali quieta sentindo a água bater na pele até que todo o corpo esteja completamente molhado. A chuva é o rebatismo de Deus. É Ele levando embora o acumulo das energias ruins. É o mar voltando para seu lugar. É tudo voltando ao começo. É a água sendo borboleta por alguns instantes. É o choro do éter por nós, para nós. Eu adoro chuva!

“Dizem que trabalho realizado
sem interesses egoístas purifica a mente.
Parece que faz a gente abandonar o nosso eu isolado
E mergulhar no eu universal.
Por outro lado,
Trabalho sem sentido é um insulto,
Um aborrecimento,
E deve ser escrupulosamente evitado. “
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

São seis e vinte da manhã. Estou desde as quatro escrevendo. Ouvindo a trilha sonora no filme “Ensina-me a Viver”. Foi escrita por Cat Stivens. Eu esqueci de dizer! De qualquer forma daqui a pouco é hora de ir para o trabalho. O dia começa a agitar-se nas calçadas e aqui na sala. Eu gosto do que faço, sabe? Sou professora! Então, o dia todo, a semana inteira, lido com universos diferentes. Não existe preferido, não existe melhor. Só existe um novo universo que entra em minha sala e leva um pouco de mim e me deixa um pouco dele. A vida é essa troca e só essa troca a faz ter sentido. Só o que eu deixar para você de bom fará ter valido a pena o tempo que você passou aqui me lendo, me interpretando, me absorvendo. Doação. Esse é o caminho para ser feliz. Uma doação sem submissão. Uma doação consciente de qualquer coisa boa que possa ser compartilhada com o outro. Entende?

“O exército teve a sua utilidade. Como a Igreja.
Juntos, eles nos protegeram de um lado, da gente má,
E do outro do demônio. Mas o inimigo mudou como tudo mais.
Conhecemos o inimigo: nós mesmos.
Agora precisamos nos sentar e buscar melhores soluções
E não defesas com armas e dogmas. “
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

Deus não é o cara quadradão das igrejas e tenho certeza que ele abomina as armas. Até mesmo as que são erguidas em nome dEle. Deus é mais! Deus também não quer templo nem cidades santas. Deus quer mente limpa, peito aberto, amor, caridade. Precisamos nos reorganizar dentro dos conceitos divinos, sabe? Estão revirando tudo, misturando o sentido, apropriando-se das idéias para justificar uma causa podre, ignorando o principal dos conceitos para explorar a inocência. Eu não creio em arma, eu não creio no dízimo, não creio nas cerimônias... Não creio no pecado. A igreja dá o pecado e vende a fé. E eu não gosto disso! Deus não condena, Ele te deixou livre. Eu não gosto do deus da igreja. Gosto do Deus que me habita e que habita você e o meu vizinho e o meu cão e as estrelas e a lua e a chuva e o infinito... Esse é o Deus que está comigo todo momento de minha vida. O Deus que se alonga de mim até onde eu não entendo.

“Na minha opinião,
Estamos agora num casulo.
O tempo da lagarta acabou
e o da borboleta está se aproximando”
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

Conversando com um amigo estudante de filosofia, falávamos que a humanidade caminha para o mundo mais humanitário. Apesar das barbáries que andamos vendo por aí, o mundo está mais voltado para a doação. Está mais consciente de que o caminho é o socorro. Que um "pelo outro" faz mais sentido que o "eu por mim mesmo". O mundo se reúne na fome, na enchente, na paz... E isso solidifica o conceito de caridade. O ser humano vem se envolvendo no processo evolutivo, buscado mais o espírito, o equilíbrio. E isso é muito bom! Acredito mesmo que chegaremos lá. Talvez eu não veja. E nem você. Mas creio que está vindo o momento da paz entre os homens. E talvez haja um processo bem doloroso até que esse mundo pacífico exista. É preciso o casulo estreito para a borboleta surja ampla, né?  Somos a lagarta espremida no casulo para que nossos netos possam ser borboletas amanhã. Um amanhã onde Deus não cobre dízimo, mas que a décima parte de tudo que temos seja naturalmente do outro que precisa. E que por fim não haja mais precisão no mundo.

“Choro por você. Choro por isto. Choro pela beleza,
Por um pôr do sol e uma gaivota.
Choro quando um homem tortura seu irmão...
Quando se arrepende e pede perdão...
Quando o perdão é recusado...
E quando é concedido.
A gente ri. A gente chora.
Dois traços exclusivamente humanos.
E o principal da vida, meu caro Harold,
É não ter medo de ser humano. “
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

Maude e Harold me ensinaram a viver quando eu nem tinha noção da amplitude que era isso. Ensinaram-me que a vida é mais do que os olhos vêem e os conceitos limitam. Que estar vivo é muito mais do que executar tarefas, acumular fortunas, viajar o mundo... Estar vivo é visitar o outro, é visitar-se, é ser ponte, é ser extensão de terra para o mar do outro deslanchar em nós. Viver é entender que cada um é único, uma divindade na terra, uma extensão do próprio Deus criador. Viver é entender que amar é mais que junção da carne e sim o compartilhamento do espírito. E enfim, aprender a viver e não ter medo de amanhã deixar de existir.


Até a próxima! 

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