terça-feira, 21 de julho de 2015

O Poder do Estado: A Democracia



O pensamento democrático é, talvez, o maior pensamento de igualdade social que exista. A democracia é uma crescente constante no mundo moderno, sendo aprimorada cada vez que é posta em prática. Contudo, o pensamento total democrático é falho.

O Primeiro problema da Democracia é a forma. Não há maneiras de se perpetuar uma Democracia sem uma representação (partidária ou não). Quando escolhemos alguém para nos representar este continuará, querendo nós ou não, sendo outra pessoa. O problema todo está no fato de que ele fará escolhas em nosso nome, podendo elas nos agradar ou não. Quando temos um representante de uma turma de escola é fácil submetê-lo às nossas vontades, mas em âmbito nacional torna-se uma tarefa muito mais difícil.

Quando falamos de representação partidária a figura muda. Paulo Bonavides em seu livro Ciência Política diz o seguinte:

Das definições expostas, deduz-se sumariamente que vários dados entram de maneira indispensável na composição dos ordenamentos partidários: (...)
d) um interesse básico em vista: a tomada do poder
e) um sentimento de conservação desse mesmo poder ou de domínio do aparelho governativo quando este lhes chega às mãos.”
(Paulo Bonavides, in “Ciência Política”)

Ou seja, os partidos políticos (que dizem representar o povo) farão de tudo para subir ao poder, contudo não terão o mesmo interesse de largar o osso. E isso resultará numa guerra ideológica onde o partido jogará com seu povo, dividirá o mesmo, pisará em quem for necessário, etc. E mais um problema surge nesse modo, um partido é montado por diversas pessoas, na hora de tomar decisões para o Estado, antes de expô-las para o publico, o partido se reunirá e tomará a decisão que vá de acordo com o que os membros do partido pensam e não com o que o povo pensa. 

O Segundo problema da Democracia são as opiniões. O povo moderno ainda não entendeu que todos nós temos um tipo de gosto e pensamento diferente e também não aprendeu a respeitar isso. Mas qual seria a ligação da subjetividade humana com a Democracia? Simples: a Isagoria, o fato de que todos nós temos o direito a voz e direito de dizer o que pensamos, seja para o bem, seja para o mal. A Democracia parte do seguinte principio “Não concordo com o que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de o dizeres” (Frase atribuída a Voltaire).

Ora, (direis) isso é coisa de liberdade de expressão. E eu vos direi, no entanto, a liberdade de expressão é um pensamento democrático. Pensemos que um monarca ou tirano não poderá dar ao seu povo a liberdade de expressão, pois acabarão atacando-o. Os aristocratas também não poderão fazer o mesmo, pois seu povo não seria classificado como “digno” ou “sábio” para poder se expressar. Contudo, se tirares da Democracia a liberdade, matarás a Democracia, pois ela é o governo do povo, a representação da voz do povo.

Eis que o problema se agrava, pois algumas pessoas, infelizes e ignorantes em seus ideais, possuem pensamentos que ferem as outras pessoas (racistas, homofóbicos etc.). Para conter a raiva geral e amenizar os estragos feitos criam-se leis que proíbem os praticantes de cometerem tais atos abomináveis, mas a partir do momento que se corta a liberdade do povo, fere-se um dos princípios da Democracia. Liberdade Moderada.

Mas o que é Liberdade? Liberdade para Noberto Bobbio é “um conceito interpessoal ou social referente às relações de interação entre pessoas ou grupos, ou seja, ao fato de que um ator deixa outro ator livre para agir de determinada maneira.”

O problema é que o Estado Democrata interfere na interação pessoal de um determinado ator, cujo sua opinião contraria a opinião de outrem ou da maioria.  O grande problema é: Como resolver tal problema, sem ferir a liberdade das pessoas? Não há maneira alguma de se fazer isso. O máximo que se pode fazer é a separação de “certo e errado” e deixar por conta do Direito.

Eis que chegamos a Terceira e última falha da Democracia. Qual seria, então, o mais grave erro da Democracia? A resposta é simples: Todos. Democracia é, em teoria, o governo do povo para o povo. Ou seja, qualquer ser humano tem o direito de participar das decisões políticas (inclusive os loucos retardados como eu), não há nada que impeça que determinado grupo de pessoas participe de funções sociais importantes. Podem dizer que “só pode votar quem tem título de eleitor”, contudo se pensarmos bem o voto é uma OBRIGAÇÃO de todos, logo você é OBRIGADO a votar, sendo assim TODOS têm que participar. Muitos me dirão também: “Mas João, falas do Brasil e quanto aos outros países?”. Nos países onde a votação é livre e não-obrigatória, acontece um fenômeno “pior”, o povo se vê no dever de votar, logo todos vão votar.

Talvez não vejam o problema, mas logo lhes direi. O problema de ter algo que envolva todos é que sempre deve vencer a MAIORIA e, nem sempre, ela está certa. Contudo, quando há uma votação e a maioria escolhe algo “errado”, ficará o “errado” num lugar avantajado. O fato é que: O povo inteiro não está preparado para certas posições ou escolhas.

Entretanto, se começarmos a escolher quem deve ou não dominar o Governo, nós teríamos uma Aristocracia (o governo de poucos), mas na prática seria o governo dos melhores. Se houver empecilhos para o povo votante (não podem votar os analfabetos, os loucos, os pobres etc) não haverá povo no governo e isto faria do mundo um inferno sem igual, pois os aristocratas trariam vantagens apenas para si. A Aristocracia não precisaria de um povo a não ser para seu trabalho manual, pois os aristocratas não poriam a mão na sujeira.

Contudo, após tudo o que eu disse aqui, eu defendo a Democracia, porque é a única forma de governo que preza por seus componentes por inteiro. Do gari ao médico, do ambulante ao jurista, do vendedor de praia ao filosofo. A Democracia é a forma de governo mais humano que existe e, enquanto não viramos “deuses”, é o melhor que temos para hoje. 

segunda-feira, 20 de julho de 2015

O poema da volta


Voltar é uma forma de renascer. Ninguém se perde na volta. 
(José Américo de Almeida, Antes que me esqueça, A Bagaceira)

No caminho da volta,
o amado pródigo
não se perde: renasce.
As flores da estrada
ganham viço
e uma fragrância nova,
um cheiro macio de perdão,
que se torna espera,
e de espera,
que vira celebração,
um perfume antigo
e fresco,
que lembra limão.
Em Ítaca, Penélope cose
toalhas para o banquete,
fronhas para o bom sono
e os lençóis da conciliação.
Não há ressentimentos
nem orgulho vão
na fidelidade discreta
desse gesto familiar.
Um xale lhe cobre os ombros
e os dedos macios
puxam a corda da lira
fazendo-a vibrar
em canções de amor
e gestas de esperança,
de paciência nada vã.
Volta bem
quem viajou leve:
cabelos à brisa do mar
e as mãos na cintura,
com braços por enlaçar
algum torso feito tronco,
um barco a navegar,
um berço de ninar,
um bote pra salvar.
Volta ainda melhor
quem sempre o faz
por um bule de café,
um parco naco de pão
e uma sutil ilusão
de quem só navega
para o eterno retorno,
sempre em busca
da paixão imóvel,
que não muda nem cala,
despedaçado o coração,
só pra depois o colar
caco a caco,
taco a taco,
toco a toco.
Assim são
os caminhos da volta:
sem medo e sem peso,
sem mágoa e sem rota.
Pois na volta
ninguém se perde.
Na volta
ninguém só pede.
E na volta
só se abre mão
da solidão. 

(JOSÉ NÊUMANNE PINTO)

domingo, 19 de julho de 2015

O Roubo



Roubaram-me a noite passada
Ele entrou pela janela da sala
Arrebentou a corrente do meu medo
Embrenhou-se em minha camisola
Levou-me uns sussurros
Dois ou três arranhões
Falou-me de seus perigos
Marcou-me a boca com palavrões
Prendeu meu corpo sob o seu
Entre beijos minha força se perdeu
Devia ter reagido
O normal seria ter fugido
Mas me rendi entre gemidos
Até que o dia amanheceu
(Waleska Zibetti, in "O Roubo")

sábado, 18 de julho de 2015

Elas mandam - Correio feminino (Clarice)

por Gabriella Gilmore

Que tolas são certas mulheres que ignoram serem elas as que mandam e governam!
À primeira vista, parece que o homem manda, mas é sempre a mulher quem decide. É também ela a que conquista.
Quando ela quer esconder alguma coisa, esconde com tranquilidade, consciente de seu poder e ascendência. Quando o homem faz algo de secreto, seja o que for, logo pensa: "Se minha mulher soubesse." Isto revela que a mulher manda... e que o homem teme.
Por isto digo: Tola, não lutes por impor tua vontade, pois, ao final, tudo dará na mesma, e "ele" pensará como tu pensas.
Napoleão era um gênio, ninguém ousava falar em sua presença; porém na presença de Josefina, Napoleão se punha de joelhos.
Não grites para impor tuas ideias: atingirás o seu objeto com bondade e ternura... Guerreando, jamais a mulher ganhou uma batalha...

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Última Carta de Um Vilão




“Talvez até a morte tenha seu lado bom, um lado simpático... Mas eu não.

Desde que me entendo por gente, sonho em ter o mundo em minhas mãos. Em mandar e desmandar. Em criar e destruir todos os que se opõem a mim. Desde pequeno sonho com a glória de ser chamado de tirano, de monstro, de cruel. Tudo isso porque sempre me vi melhor que os outros seres humanos. Todos são idiotas demais, nada mais justo que eu os governe. Mas eles não sabem escolher o que é melhor para eles. 

Desde que me entendo por ser vivo, que não temo a morte. Gosto dela a acho divertida, sarcástica e irônica. Talvez porque eu nunca tenha morrido. Mas não entendo porque as pessoas temem tanto ela. Acostumei-me a ela desde o momento que jurei guerra contra todos os prepotentes imbecis que se auto proclamam “heróis”, mandei vários de presente para ela. 

De tanto viver ao lado dela não percebi que ela se aproximara demais, agora estou aqui de frente para esse espelho, preso em meu próprio quarto, e atrás da porta me espera um maldito moleque... Um maldito herói. Como odeio “heroizinhos”. Seres patéticos. Odeio heróis. Odeio com todas as minhas forças... Que já não são muitas...

No espelho vejo meu sorriso, que na minha infância era considerado um sorriso de loucura, mas eu sempre o achei tão atraente. Como meus olhos. Enquanto eu amo meus olhos, as pessoas o temem. O temem como temem a Morte. Vêem uma crueldade insana nos meus olhos e sorriso. Acho que é por isso que os amo tanto.

Ouvi um barulho na porta. Quero ter certeza de que tudo que fiz foi certo. Foi... Pelo menos para mim. Consegui tudo o que sempre quis: poder, estátuas em minha honra, o temor de todos, mandei para os anjos algumas pessoas mais cedo. Não me arrependo de nada. 

Mas depois de um tempo fica tudo muito chato. Nem matar nem torturar me trazem a alegria de antes. Acho que esse deve ser o problema da imortalidade. Veria tudo acontecer milhares de vezes e sempre saberia onde acertar. Seria um inferno. 

De novo o “herói” tenta abrir a porta. Meu sorriso está ainda mais louco. Acho que sei o porquê... Minha velha amiga, a Morte está se aproximando e eu sei quem ela vem buscar. No espelho o meu rosto já está cansado, eu já estou velho demais para essas brincadeirinhas de criança. 

Durante anos cacei esses infelizes que se dizem heróis, agora eu já não aguento nem lutar contra um. Devo estar louco, devo estar problemático, devo matá-lo agora... Ou morrer tentando. 

Ouço meu ultimo trovão, a magnífica obra da natureza. 
Quero que se lembrem que eu não me arrependo de nada. Quero que saibam que odeio heróis. Quero morrer e ser lembrado como um louco tirano que foi recebido com um trono no inferno. 

Até a morte tem seu lado piedoso, um lado humano... Mas eu nunca.”

Ele pegou a espada no canto e com os pés abriu a porta do quarto pulando em seu inimigo com a espada em punho. Ele não esperava a cavalaria que vinha atrás do herói. Foi derrotado antes de conseguir o triunfo de seu ultimo ato. Os soldados depois da batalha olharam para a cidade em chamas. 

O “monstro” podia ter morrido, mas seu sorriso e seus olhos refletiam o orgulho do dever cumprido.
(João V. Zibetti, in "Última Carta de Um Vilão")


Sorteio do livro O diário idiota de Rafaela.



Dia 25 de julho é o dia nacional do escritor.

O Dia do Escritor surgiu após a realização do I Festival do Escritor Brasileiro, iniciativa da UBE. O grande sucesso do evento foi primordial para que, por intermédio de um decreto governamental, a data fosse instituída com a finalidade de celebrar a importância do profissional das letras, profissão que, infelizmente, nem sempre tem sua relevância reconhecida.
O diário idiota de Rafaela, de Gabriella Lima, foi publicado em 2011 pelo Clube de Autores.

“Numa tentativa de se salvar, Rafaela Drummond começa a narrar em seu diário, suas crises emocionais ao se encontrar totalmente apaixonada pelo cara mais lindo, romântico, calmo e virtual.
Ela chega ao limiar da razão e da loucura por causa deste romance destruidor, e começa a buscar por si mesma, ou pelo que já foi um dia, as respostas para suas ansiedades”.


O escritor é uma das criaturas mais neuróticas que existem: ele não sabe viver ao vivo, ele vive através de reflexos, espelhos, imagens, palavras. O não-real, o não-palpável. Você me dizia “que diferença entre você e um livro seu”. Eu não sou o que escrevo ou sim, mas de muitos jeitos. Alguns estranhos.”

Se você quiser participar, basta seguir as etapas abaixo abaixo:
 1.       Compartilhe o nosso Clube no G+.
 2.       Curta a página do Clube no facebook.
 3.       Marque três amigos compartilhando a página do CLV.
 4.       Escreva em breve palavras... “Escritor é aquele que...”
Após ter seguido os passos automaticamente você estará participando do sorteio no dia 26 de julho de 2015, no domingo.
Mas não deixe se marcar neste link a opção "quero participar".

Boa sorte!!!

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Cotovia

— Alô, cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que saudades me deixaste?

— Andei onde deu o vento.
Onde foi meu pensamento
Em sítios, que nunca viste,
De um país que não existe . . .
Voltei, te trouxe a alegria.

— Muito contas, cotovia!
E que outras terras distantes
Visitaste? Dize ao triste.

— Líbia ardente, Cítia fria,
Europa, França, Bahia . . .

— E esqueceste Pernambuco,
Distraída?

— Voei ao Recife, no Cais
Pousei na Rua da Aurora.

— Aurora da minha vida
Que os anos não trazem mais!

— Os anos não, nem os dias,
Que isso cabe às cotovias.
Meu bico é bem pequenino
Para o bem que é deste mundo:
Se enche com uma gota de água.
Mas sei torcer o destino,
Sei no espaço de um segundo
Limpar o pesar mais fundo.
Voei ao Recife, e dos longes
Das distâncias, aonde alcança
Só a asa da cotovia, 

— Do mais remoto e perempto
Dos teus dias de criança
Te trouxe a extinta esperança,
Trouxe a perdida alegria.

Bandeira, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1990.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

O Vento Na Ilha- Releitura



Esticou os braços para fora e brincou com o vento. O carro corria a mais de cem. O céu estava azul e o mar brilhante. Mas ela pensava no vento. Sorria com a pressão que ele fazia na sua mão. "O vento é um cavalo...", recitou baixinho. Neruda entendia o vento. Ela é vento. Neruda a entenderia.

Esticou os braços para fora e ria-se toda tentando prender o vento. Sabia que era impossível. E riu de quem tentava detê-la. Sempre há frestas na parede e ela pode passar por elas. "...Ouça como ele corre", entoou sussurrante. Será que o vento está voltando para ilha, Neruda? Ela já quis ser uma ilha. Donne não deixou. Ela hoje gosta mais de Neruda que de Donne.

Esticou os braços para fora com a ponta dos dedos tocava o vento como quem fazia cachos nos cabelos do homem amado. E o vento passava a mais de cem. O mar estava calmo brincando com o céu azul. "Quer me levar: escuta", pensou. O vento é um mensageiro impaciente, não é Neruda? Ele traz mensagens de além mar, além ilha, além vida... Nem sempre é possível entendê-lo. Ainda bem! O vento traz cheiro de saudade e sempre que ela o entende acaba triste e com alguma canção de Billie Holiday na cabeça.

Enfim, colocou os braços para dentro. E notou como o braço estava gelado e o corpo todo se arrepiou. "Me esconde em teus braços", lembrou. O vento está morando nos braços dela. Escondido para se livrar da obrigação de levar saudades por aí. E ela acaricia o braço acalmando o vento. Recosta a cabeça e olha o mar passando a mais de cem.

É sempre tarde quando tudo acontece... E já era tarde. E já acontecia. "com tua boca em minha boca", falou alto causando espanto. Sorriu. "...debaixo teus grandes olhos", continuou. Ela não estava tão ali. E ria. "por somente esta noite", respirou. Porque tudo que ela sabe que tem é uma noite. Ela o beijou e sussurrou ao seu ouvido: "descansarei, amor meu".
(Waleska Zibetti, in "O Vento Na Ilha- Releitura")

terça-feira, 14 de julho de 2015

A cartomante não muda o futuro - Correio feminino (Clarice)

por Gabriella Gilmore


Também gosto de astrologia, cartomancia, ciências ocultas. Mas ainda não vi nada disso mudar meu futuro. Parece que só a gente mesmo é que pode fazer o dia de amanhã.
Mas antes a pergunta que se impõe é esta: que é mesmo que você quer? Saber a resposta é indispensável.
Talvez você descubra que há duas ou três coisas que você põe acima de tudo no mundo. Saber disso é um passo importante que você terá dado. E o que precisaria você fazer para conseguir o que quer? Algum sacrifício, isso é quase certo.
E é quase certo que, se você quer mesmo o que quer, o sacrifício vale a pena. Tudo isso tem que se passar entre você - e você mesma. A cartomante não ajuda.
Porém, se você pegou o hábito de pessimismo, é ruim. Atrapalha muito, atrapalha de fato. O dia de amanhã fica logo com ar de chuva que vem. E seu raciocínio de pessimista funciona mais ou menos assim: se não houve nuvem de chuva no céu, você ai mesmo é que se preocupa - pois que coisa estranha é essa, amanhã vai chover e hoje nem tem nuvem no céu? Mau sinal, mau sinal.
Estou brincando, é claro, mas o que quero dizer é que o pessimista está sempre arranjando um jeito de acomodar as coisas ao seu pessimismo.
O ideal é ser como uma senhora que conheço. Ela me disse - e não dizia apenas por dizer, pensava mesmo assim, sentia mesmo assim -  ela me disse: quem já sofreu realmente não sofre mais por bobagens.
Bem sei que certas dores ficam doendo, a pessoa se torna toda "nevrálgica", e o que nem devia incomodar passa a perturbar. Mas é ai que entra uma conversa entre você - e você mesma. Ou entre você e uma pessoa que entenda das coisas do mundo. A conversa terá como finalidade descobrir o que é que ainda está doendo. Conversa para pôr os pontos nos "iii". Nem sempre é fácil. Às veze, a gente não sabe onde estão os "iii", às vezes não sabe que pontos colocar em qual "i". Mas também nisso a cartomante não resolve. É uma pena, você mesma terá que tomar conta do assunto. Com minha ajuda, se quiser.

(Quem me dera se Clarice ainda estivesse viva, não é mesmo?)

segunda-feira, 13 de julho de 2015

O Show Tem Que Continuar




O ator estava sozinho no palco, sentado com suas longas pernas penduradas para fora do palco. Pensava seriamente, há muito tempo que as luzes se apagaram. Pensava que depois de tanto tempo longe da platéia, longe dos textos, longe da loucura, como iria voltar assim do nada.

Na porta de entrada outro homem entrou e se se encostou à porta, usava uma roupa cinza e negra. Tinha o rosto magro e com ar sacana. Não disse nada e ficou encarando o ator. O ator fez uma leve referencia e a pessoa se aproximou, com um sorriso sarcástico no rosto. O ator se levantou e se lembrou de seus velhos tempos.

- Muito bem. Ainda esta em forma. – O homem tinha a voz calma e perversa. – Você quer voltar, né? Por quê?

- Por nada mais que o gosto de estar no palco. – Disse o ator e sozinho começo a dançar. De tango a valsa. O homem deu de ombros. O ator parou e observou todo o teatro, grandes momentos ali. Morou quase a vida inteira ali dentro e agora, estava tanto tempo afastado, não conhecia mais nada, uma lágrima de tristeza caiu de seus olhos. O homem sorriu piedosamente e se retirou, agora era só ator e teatro.

Ele desceu do palco e andou entre as cadeiras, lembrando cada momento que passara ali sentado. Algo gritava dentro dele: “Esta chegando a hora”. Ele queria voltar a atuar, mas também queria, nem ele sabia o porquê, morrer. Já estava tanto tempo afastado. Subiu de novo ao palco, olhou para as cadeiras, fez uma breve reverencia e interpretou seu ultimo ato, uma cena entre ele e ele mesmo. Lutas, canções e amores perdidos, no final se jogou no chão. “É o fim” pensou e fechou os olhos.

De repente reabriu os olhos, o homem de roupa cinza e negra estava lá se aproximando.

- Pode voltar! Já decidi. – Disse o ator para o homem.

- Como? Por quê? – Retrucou o homem um pouco confuso.

- Não foi dessa vez que me levou.

- Vamos logo, afinal ninguém te verá, de certo terei de te buscar mais tarde...

- Ai! Me buscará mais tarde. Não agora, não hoje. – O ator olhou para as cadeiras de novo, agora com um ar soberano e triunfante.

- Sim, sim, belo discurso. Agora vamos, afinal para que continuar vivo? – O homem estendeu a mão esquelética e sorriu.

- É verdade, meu querido e adorável Ceifador Sinistro. – Olhou uma ultima vez para o homem, que agora segurava um cajado, suas roupas se transformaram em um capuz negro e depois voltou a olhar para as cadeiras vazias, recitando e interpretando um magistral texto.

“Espaços vazios, pelo o que estamos vivendo?
Lugares abandonados;
Eu acho que já sabemos o resultado;
De novo e de novo, alguém sabe o que nós estamos procurando?
Outro herói, outro crime impensável;
Atrás da cortina, na pantomima;
Segure a linha, alguém quer segurar um pouco mais?
O show deve continuar...”

- Bravo. Acaba de me convencer, primeira vez que, em todos esses anos de trabalho, eu vejo Queen ser recitado como poema. – O Ceifado colocou as mãos nas costas do homem e completou. – Boa sorte, meu caro. – O ator assentiu e o Ceifador sumiu andando em direção à porta. Com um leve sorriso o próprio ator comentou.

- Eu só posso estar ficando doido.

Alguns meses se passaram e o ator olhou de novo paras as cadeiras, agora infinitamente cheias todos o aplaudiam, muitos de pé, outros gritando e assoviando e um de roupa cinza e negra com um sorriso sarcástico. Nos últimos segundos, chegou à frente do palco e com toda a força do pulmão terminou sua mais notável peça:

- O show tem que continuar! – E todo o teatro o seguiu formando um coro estupendo e brilhante. – O Show Tem Que Continuar!

(João V. Zibetti, in “O Show Tem Que Continuar”)