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sábado, 12 de setembro de 2015

O Mágico de OZ




“We are off to see the wizard, the wonderful wizard of Oz…”, essa é a primeira coisa que me vem a cabeça quando penso em Mágico de Oz. Você se lembra?

Bom, depois de uma leitura mais cabeça, sempre corro para algo na linha infantil ou infanto-juvenil como forma de equilibrar as ideias. Sendo assim, saí de James Joyce e seus mortos e fui para a Cidade das Esmeraldas a procura de Oz junto com Dorothy, menininha de onze anos e moradora oriunda do Kansas, o Homem de Lata – em minha opinião, o personagem mais chato; o Espantalho e o Leão – personagem que mais curti.

“O Mágico de Oz” é um dos livros da série de livros “O Maravilhoso Mundo de Oz” que teve quatorze livros escrito pelo seu autor original L. Frank Baum e mais vinte e seis escrito por outros autores.

O enredo de “O Mágico de Oz” é fofo e simples. Para aquela leitura prazerosa e suave. Não traz muito além dos ensinamentos, tais como: “O bem vence o mal” e a “A amizade acima de tudo”.  O que me deixou um pouco decepcionada porque imaginei de tirar pelo menos uma meia dúzia de boas citações, mas não deu nem para isso.
Lembro-me bem do filme estrelado por: Judy Garland (Dorothy), Jack Haley (Homem de Lata). Bert Lahr (Leão) e Ray Bolger (Espantalho). O filme é de 1939, produção da MGM originalmente em preto e branco e mais tarde remasterizado; costumava ser passado nas Sessões da Tarde com grande frequência.

O principal tema do filme foi a música “Somewhere Over The Rainbow” que foi regravada depois em vários momentos e pelos mais diferentes interpretes. Aposto que ela ainda está na cabeça da todos os cinéfilos até hoje.

Enfim, “O Mágico de Oz” é um filme ou um livro para a garotada curtir sem grandes pretensões. Por exemplo, animar uma aborrecida tarde de férias de inverno. Aventura não falta no enredo e crianças menores curtirão, com toda certeza.


Já eu, jamais pensei em dizer isso, mas... Sou muito mais o filme. De qualquer forma fica a dica e até a próxima! 
Beijos da Wal.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O Mundo de Todos Nós



“O mundo pode ser um palco.
 Mas o elenco é um horror.”
 (Jostein Gaarder, in “O Mundo de Sofia”)


Há alguém olhando por nós ou estamos sozinhos? O que acontece quando tudo acaba? Qual é o seu papel no mundo? Penso que Jostein Gaarder quis bem mais que falar de filosofia em sua obra. Penso que ele quis nos tirar de um lugar cômodo e seguro onde pensamos estar, para fazer com que nós nos movimentemos em dúvidas inquietantes. Quem ousaria pensar e ir até a ponta do pêlo do coelho branco anteriormente? Poucos!

Li  “O Mundo de Sofia” aos trinta anos. Um momento de despertar em minha vida. Tinha recém tido meu segundo filho e meses que eu morava numa nova cidade onde não conhecia ninguém. Foi fácil manter-me mergulhada nesse universo de pensamentos insanos proposto pelo escritor. E a medida que eu mergulhava nele, eu me trazia a tona.

Não é fácil a leitura desse livro. E se você tiver preguiça de pensar, ele pode tornar-se enfadonho. São muitas informações sobre linhas filosóficas misturadas a trajetória de uma adolescente curiosa. A escolha de uma heroína não torna o livro mais leve. Em minha opinião, o autor foi inteligentíssimo na escolha adolescente. Adolescentes são curiosos e não temem experimentar-se e ousar. E é através desses olhos adolescentes e curiosos que ultrapassamos o portal para dentro de nós e algumas de nossas dúvidas primordiais.

Há alguém olhando por nós ou estamos sozinhos? Quando posso olhar as estrelas a noite, me pego a perguntar em qual delas Deus mora. E rio sozinha pensando de onde tiro essas bobagens.  Talvez Deus não exista. Talvez nenhum desses avatares supremos exista. Mas me conforta imaginar que há além do limites que minha compreensão alcança alguém que me cuide, que me protege do mundo, que me orienta nos momentos de dúvida e que vibra nos meus momentos de chegada. Se Ele não existe, ao menos, Ele me conforta na ideia de que está lá em alguma estrela me amando incondicionalmente e torcendo por mim.

O que acontece quando tudo acaba? Imagino que um dia eu amanhecerei a esquina de uma rua longa onde casinhas simples de cores claras e sem cercas estarão começando seu dia. Cheiros bons de café e bolo quente estarão cobrindo a rua onde eu caminharei levando apenas uma mochila nas costas carregada de pequenas coisas como sonhos, sentimentos bons, pensamentos... Até que em uma das casas da varanda meu pai me sorrirá e me abraçará dizendo “Bem vinda!”. E haverá tanto amor e carinho nessa recepção que pouco me importará porque estou ali. E tudo que se passou de tristeza e dor, morrerá naquele abraço. E eu terei renascido para uma nova história num mundo aonde só vão os que não tiverem medo desse aqui.

Qual é o seu papel no mundo? Meu papel é o de aprendiz. Esse mundo que estamos é o mundo do servir, da doação, da superação. E aprendemos ao servir sobre a humildade e sobre a ingratidão, sobre o desprezo e sobre a gratidão. Doando-se aprendemos sobre o amor e ódio, sobre o ter e a falta, sobre humilhação e engrandecimento. E nos momentos de superação aprendemos sobre força, união, coragem, amor e fé. Foi servindo que aprendi o valor de um “obrigado” e foi sendo servida que aprendi como é bom poder contar com alguém. Vou me doando que aprendi a não me queixar da vida e foi recebendo que aprendi o real valor de um abraço na hora da dor. Foi erguendo alguém da queda que entendi porque Deus me fez essa fortaleza que aparentemente sou e onde muitos se apoiam. E foi caindo que aprendi que Deus está lá nas estrelas, mas quando preciso, Ele vem correndo me aparar aqui na terra. E o meu papel no mundo é aprender como me humanizar todos os dias para continuar a ser merecedora desse acolhimento divino. 

Quem ousaria pensar e ir até a ponta do pêlo do coelho branco anteriormente? Não eu! Mas graças a esse livro e tantos outros, eu cheguei lá. E de lá não quero mais sair. Hoje caminho pelas pontas dos pêlos em busca de algo ainda além. Porque sei que há alguém além. Sempre há para quem se dispões a ir além.


Até a próxima leitura. 


terça-feira, 5 de agosto de 2014

E Foi Assim Que Aprendi!




Eu tinha uns treze ou quatorze anos quando liguei a TV numa madrugada de insônia e conheci Maude & Harold – nome original do filme “Ensina-me a Viver” de Colin Higgins, 1971. Anos mais tarde encontrei por acaso o livro em um sebo. Imagine como fiquei feliz. E muito mais tempo depois vi a encenação no teatro com Glória Menezes como Maude e Arlindo Lopes como Harold. Tradução de Millôr Fernande e direção de João Falcão.

A história fala do inusitado encontro do jovem Harold de vinte anos com a apaixonada pela vida Maude de setenta e nove anos. O encontro dos dois muda a vida de Harold e com certeza a nossa também, porque mais que uma comédia de humor negro; o filme trata de posicionamento e questionamento diante da morte e da vida.

“Preferi enterros mais modestos, concluiu.
Com pouca gente à volta da sepultura
a emoção tornava-se mais intensa”
                                                          (Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

Harold tinha mania de ir aos funerais todos os dias. Fica muito claro, logo no começo do  que sua vida era vazia e sem propósito. E num desses funerais ele a percebe em um canto. Figura estranhamente risonha e a vontade comendo melancias. Maude Cardin ou condessa Mathilda que também freqüentava funerais diariamente mais sem nenhum porquê filosófico ou, para mim, para encontrar todas as filosofias. Veja essa fala dela no primeiro diálogo entre os dois.

“__ Olhe para eles
– num cochicho bastante audível. -
Nunca entendi essa mania de preto.
Ninguém manda flores escuras, não é?
Flores escuras são flores mortas,
E quem mandaria flores mortas para um funeral?”
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

Nunca mais usei preto como luto. Seria um desrespeito a Maude. E de certo modo entendi que também seria ao morto. Eu por exemplo, amo o azul. Então, amigos, quando eu me for vistam-se de azul. O tom não importa, mas que todos estejam de azul no meu enterro. E se alguém questionar diga que é para combinar com o tom dos lugares por onde meu espírito estará certamente passando naquela hora. Ah, sim continuemos a acompanhar Harrold e Maude.

“Nós não possuímos coisa alguma.
O mundo é transitório.
Chegamos ao mundo sem coisa alguma
E partimos sem nada.
Não acha que propriedade
É uma coisa meio absurda?”
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

É verdade! E desde então abdiquei do “TER” em nome do “SER”. Não tenho nada além de vinte quatro horas para ser o melhor possível. Tenho convivido muito com pessoas presas ao sentimento de posse, domínio, controle... E me divirto com eles. Acho engraçado o modo pesado como eles arrastam pela vida seus malões de desejo e acumulam dores de cabeça e de coluna gastando fortuna em RPG, fisioterapia, psicoterapia... Louca? Eu? Não sei! Só sei que tenho mais de cem quilos e ando longas distâncias sem nem perder o fôlego, porque tudo que possuo são asas imaginárias que não preciso arrastar. Bom, vamos que a viagem é longa!!!

“Até os melhores planos fracassam
Quando a tática se torna
Demasiado familiar ao inimigo. ”
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

Já notou quantas vezes travamos batalhas imaginárias conosco ou com alguém que supostamente não gosta de nós? As vezes, ficamos em guerras particulares e perdemos um longo tempo de nossas vidas. Eu fiz muito isso quando não queria assumir que sou gorducha. Bebi remédios milagrosos, me esforcei além de mim nos esportes, eu queria seguir o padrão... Mas um dia, um homem lindo, me descobriu e disse: “Olhe para você! É linda nas suas imperfeições. E única entre as padronizadas. Ame-se”. Saí daquele quarto e assumi meu peso sem culpas. Às vezes, precisamos de empurrõezinhos para entender, não é?

“A terra é o meu corpo.
Minha cabeça está nas estrelas. ”
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)


Desde nova sempre tive insônia. E me sentava na varanda nas madrugadas para olhar a rua vazia. Era monótono. Um dia reparei na lua e nas estrelas e nos tons que o amanhecer tingia o céu.  Fui me apaixonando pelo infinito. Queria estar ali entre as nuvens me tingindo de tons rosados ou laranja. Nenhum amanhecer é igual ao outro. São milhares de formações que vi no céu desde então. Acho que nunca mais vi a rua. Olhar o céu me parece mais sensato e amplo.

Ah, essa seqüência de diálogo é um primor. Vou transcrevê-lo todo!

“__ Bem, a maioria das pessoas não é como você. Vivem fechadas em si mesmas. Moram sozinhas nos seus castelos. São como eu...
__ Bem, cada qual vive no seu castelo – replicou Maude – Mas isso não é razão para não baixar a ponte levadiça e fazer visitas.
Harold sorriu.
__ Então, você concorda que vivemos sozinhos. E morremos sós. Cada qual na sua cela.
Maude olhou a floresta.
__ Suponho que de certo modo. É por isso que precisamos tornar essas celas o mais agradáveis possível... Cheias de bons livros, lareiras aquecidas e recordações. Mas, noutro sentido, pode-se sempre saltar o muro e dormir à luz das estrelas.
__ Talvez. Mas é preciso coragem...
__ Por quê?
__ Você não tem medo?
__ De quê? O conhecido eu conheço, e o desconhecido gostaria de conhecer. ”
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

Deus é tão simples! Por que não vimos antes? Por que a maioria não vê? Você vê, não é? Sei que sim! A essa altura já consegue ver. Está tudo além de nós. É preciso parar de pensar que somos o centro. É preciso nos ampliar. Tocar o outro bem no fundo. Principalmente aqueles que têm medo de serem tocados. Ah, como eu queria que certo principezinho ranzinza me lesse!!! Como queria que ele tivesse entendido. – ha ha ha ha... Não fiquei maluca de vez. Só lembrei-me de alguém que como a maioria não via o lato, o amplo, a extensão do mundo, dos outros... Porque precisava viver trancado em si, em sua inteligência, seus medos. Não se permita ser como ele. Era tão jovem e a coisa mais ousada que tinha feito na vida fora pegar um bicho geográfico. Não seja assim! Não faça isso com você! Pule o muro, desça os portões, visite o mundo, o universo que é o seu próximo. Corra o risco de chorar, de sentir a ingratidão... Isso é aprendizado! É evolução! Como disse Maude: “O mundo não precisa de mais paredes. Precisa é de construir mais pontes”. Então, amigo, seja ponte! Veja eu sou ponte. Estou te ligando a mim nesse momento e você nem percebeu, não é? Não doeu em mim. Acredite: não doerá em você.

“Vícios? Virtudes?
O melhor é não ser exageradamente moral.
A pessoa acaba perdendo muita coisa da vida.
Coloque seu objetivo acima da moralidade. “
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

Certo ou errado? Qual caminho tomar? Você sabe qual é a melhor via para tocar a vida? Eu nunca soube. Tudo que posso dizer é que sempre escolhi as mais longas. Só para ter mais tempo de olhar as coisas, reparar as pessoas, e quando valia a pena eu diminuía o passo. Diminuir o passo dá uma sensação de que podemos alongar as horas. Eu nunca mudei meu jeito de ser mesmo sabendo o preço a pagar. E acumulei rótulos por aí: teimosa, carente, louca, diva... São selos de minha passagem pela vida. Como quando viajamos e colam aqueles papeizinhos em nossas malas e quanto mais marca de papelzinho e cola há na mala, mais lugares visitamos. Na vida, quanto mais te rotulam, mais você viveu. A moral é um asilo para doentes. E os moralistas se afundam em calmantes para conseguir suportar suas esquisitices sem dar pinta.

“Eu entendo. As vezes as pessoas gostam de estar mortas.
Mas não estão na verdade.  Só fogem da vida. São jogadoras,
Mas pensam que a vida é um treino
e que precisam poupar energia para mais tarde.
Assim, instalam-se num banco,
E o único campeonato a que vão assistir na vida
Se desenrola diante dos olhos.”
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

O que você pretende ser no fim das contas? Espectador ou autor de sua própria história? Houve uma época que me contentei em ficar nos bastidores preparando o show para alguém brilhar. Chamei meu ofício de amor e nunca fui tão infeliz. Quando passou o tempo, fui tomando coragem de aparecer, de subir ao palco e recitar minhas próprias falas. Foi assustador ver a platéia me olhando. Com o tempo nós nos acostumamos. Acostumei-me! Nunca mais voltei a coxia. Quero fazer parte da cena!!! E desde então, sou tão felizzzzzzzzz... Porque sou dona de meus passos e também das conseqüências. Mas fui eu, sabe? Essa sensação de “mea culpa” não é algo tão ruim afinal, porque me mostra que eu tentei e tentar é tão absurdamente prazeroso quase tanto quanto conseguir. Ah, mas nem que me paguem eu troco o palco pelos bastidores. Quando os holofotes se apagarem, as cortinas se fecharem, sairei de cena na certeza de que desempenhei maravilhosamente o papel de ser Waleska. E você? Como você se olha na sua peça? Você está atuando direitinho ou só fazendo figuração na sua própria história?

“Há um pequeno Deus em nosso interior,
Para mostrar onde estivemos,
E um pequeno Deus do lado de fora,
Para indicar o nosso caminho. ”
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

Deus está comigo o tempo todo. Eu me encontrei com Ele num desses momentos de queda e Ele nunca mais saiu de perto. Eu gosto dEle. A gente tem altos papos. Um dia, eu disse que Deus e eu tomávamos cerveja juntos e as pessoas me chamaram de herege. Acho que pensam que Ele só toma vinho. Só pode! Deus é o cara mais maneiro que conheço. Ele é o mais amplo de todos os seres. Ele sou eu e você. Ele é cada partícula do que vemos e sentimos. E nem se incomoda se você acredita ou não. Ele quer que tudo se exploda desde que você seja feliz. Porque Ele entende que a felicidade é mais que certo ou errado, amarelo ou azul, matar ou viver... Felicidade é Ele, é a amplidão que vem dEle. E cara eu piro nesse conceito louco de ser tudo, o alfa e o ômega, e se Ele é uma extensão de mim isso também me faz eterna. E é louco demais ser o cosmo, o infinito, o para sempre.

Outra seqüência que vale a pena ser transcrita na íntegra:

“__Ah, meu Deus!- murmurou Maude, de costas na relva. -
Estou com a sensação de que poderia evaporar.
Estendido ao seu lado, Harold falou:
__ Você se transformaria numa daquelas nuvens.
Acho que seria uma nuvem simpática.
Flutuaria pelo céu o dia inteiro.
__ Não, eu não – replicou Maude – Seria uma péssima nuvem.
Estaria sempre querendo me dissolver em chuva. ”
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

Quando vejo o céu cinzento, prenunciando a tempestade, algo em mim se estreita, o peito fica miúdo com vontade de chorar. Me levando de volta para mim. E logo começa o vento e eu gosto de ouvir o vento, sentir o vento em meus cabelos, no tecido da roupa, de fechar os olhos e ir com ele. E depois vem os pingos caindo frio na pele quente. Quando posso fico ali quieta sentindo a água bater na pele até que todo o corpo esteja completamente molhado. A chuva é o rebatismo de Deus. É Ele levando embora o acumulo das energias ruins. É o mar voltando para seu lugar. É tudo voltando ao começo. É a água sendo borboleta por alguns instantes. É o choro do éter por nós, para nós. Eu adoro chuva!

“Dizem que trabalho realizado
sem interesses egoístas purifica a mente.
Parece que faz a gente abandonar o nosso eu isolado
E mergulhar no eu universal.
Por outro lado,
Trabalho sem sentido é um insulto,
Um aborrecimento,
E deve ser escrupulosamente evitado. “
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

São seis e vinte da manhã. Estou desde as quatro escrevendo. Ouvindo a trilha sonora no filme “Ensina-me a Viver”. Foi escrita por Cat Stivens. Eu esqueci de dizer! De qualquer forma daqui a pouco é hora de ir para o trabalho. O dia começa a agitar-se nas calçadas e aqui na sala. Eu gosto do que faço, sabe? Sou professora! Então, o dia todo, a semana inteira, lido com universos diferentes. Não existe preferido, não existe melhor. Só existe um novo universo que entra em minha sala e leva um pouco de mim e me deixa um pouco dele. A vida é essa troca e só essa troca a faz ter sentido. Só o que eu deixar para você de bom fará ter valido a pena o tempo que você passou aqui me lendo, me interpretando, me absorvendo. Doação. Esse é o caminho para ser feliz. Uma doação sem submissão. Uma doação consciente de qualquer coisa boa que possa ser compartilhada com o outro. Entende?

“O exército teve a sua utilidade. Como a Igreja.
Juntos, eles nos protegeram de um lado, da gente má,
E do outro do demônio. Mas o inimigo mudou como tudo mais.
Conhecemos o inimigo: nós mesmos.
Agora precisamos nos sentar e buscar melhores soluções
E não defesas com armas e dogmas. “
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

Deus não é o cara quadradão das igrejas e tenho certeza que ele abomina as armas. Até mesmo as que são erguidas em nome dEle. Deus é mais! Deus também não quer templo nem cidades santas. Deus quer mente limpa, peito aberto, amor, caridade. Precisamos nos reorganizar dentro dos conceitos divinos, sabe? Estão revirando tudo, misturando o sentido, apropriando-se das idéias para justificar uma causa podre, ignorando o principal dos conceitos para explorar a inocência. Eu não creio em arma, eu não creio no dízimo, não creio nas cerimônias... Não creio no pecado. A igreja dá o pecado e vende a fé. E eu não gosto disso! Deus não condena, Ele te deixou livre. Eu não gosto do deus da igreja. Gosto do Deus que me habita e que habita você e o meu vizinho e o meu cão e as estrelas e a lua e a chuva e o infinito... Esse é o Deus que está comigo todo momento de minha vida. O Deus que se alonga de mim até onde eu não entendo.

“Na minha opinião,
Estamos agora num casulo.
O tempo da lagarta acabou
e o da borboleta está se aproximando”
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

Conversando com um amigo estudante de filosofia, falávamos que a humanidade caminha para o mundo mais humanitário. Apesar das barbáries que andamos vendo por aí, o mundo está mais voltado para a doação. Está mais consciente de que o caminho é o socorro. Que um "pelo outro" faz mais sentido que o "eu por mim mesmo". O mundo se reúne na fome, na enchente, na paz... E isso solidifica o conceito de caridade. O ser humano vem se envolvendo no processo evolutivo, buscado mais o espírito, o equilíbrio. E isso é muito bom! Acredito mesmo que chegaremos lá. Talvez eu não veja. E nem você. Mas creio que está vindo o momento da paz entre os homens. E talvez haja um processo bem doloroso até que esse mundo pacífico exista. É preciso o casulo estreito para a borboleta surja ampla, né?  Somos a lagarta espremida no casulo para que nossos netos possam ser borboletas amanhã. Um amanhã onde Deus não cobre dízimo, mas que a décima parte de tudo que temos seja naturalmente do outro que precisa. E que por fim não haja mais precisão no mundo.

“Choro por você. Choro por isto. Choro pela beleza,
Por um pôr do sol e uma gaivota.
Choro quando um homem tortura seu irmão...
Quando se arrepende e pede perdão...
Quando o perdão é recusado...
E quando é concedido.
A gente ri. A gente chora.
Dois traços exclusivamente humanos.
E o principal da vida, meu caro Harold,
É não ter medo de ser humano. “
(Colin Higgins, in “Ensina-me a viver!”)

Maude e Harold me ensinaram a viver quando eu nem tinha noção da amplitude que era isso. Ensinaram-me que a vida é mais do que os olhos vêem e os conceitos limitam. Que estar vivo é muito mais do que executar tarefas, acumular fortunas, viajar o mundo... Estar vivo é visitar o outro, é visitar-se, é ser ponte, é ser extensão de terra para o mar do outro deslanchar em nós. Viver é entender que cada um é único, uma divindade na terra, uma extensão do próprio Deus criador. Viver é entender que amar é mais que junção da carne e sim o compartilhamento do espírito. E enfim, aprender a viver e não ter medo de amanhã deixar de existir.


Até a próxima! 

domingo, 27 de julho de 2014

Meu Fim de Semana Com Marilyn

Aqui registrarei os meus pensamentos sobre as partes que mais me tocaram no romance "Minha Semana Com Marilyn" de Colin Clark. 

Introdução:

"Eu acredito em mágica. A minha vida, como a da maioria das pessoas, é feita de uma sucessão de pequenos milagres - estranhas coincidências que resultam de impulsos incontroláveis e dão origem a sonhos incompreensíveis. Passamos grande parte da vida fingindo que somos normais, mas por baixo da superfície todos nós sabemos que somos únicos".
(Colin Clark, in "Minha Semana Com Marilyn")

E assim começo minha viagem nesse novo mundo. Colin está certíssimos, ainda que neguemos em todos nós paira uma aura louca. A minha tem asas multicoloridas gigantescas e habita um reino completamente mágico e alucinógeno. Não espero que me entendam. Não espero que o visitem. Em meu mundo de sonhos mágicos, a normalidade não sobrevive porque lá respiramos liberdade.

Parte 1

"Marilyn era uma verdadeira deusa e deveria se tratada como tal"
(Colin Clark, in "Minha Semana com Marilyn")

O que faz alguém ser marcante é a essência. E a essência transcende o físico. Ninguém se torna uma diva. Ou se nasce diva ou não. A essência iluminada atrairá atenções naturalmente, sem esforços. É que a maioria vive escondida num manto de trevas da ignorância e ausência de pureza de ação. As pessoas de essência iluminada atraem esse lado escuro do outro para sua luz. Desesperados os "não-iluminados", motivados pela inveja, tentam roubar dos "iluminados" algo que lhes garantam um pouco de grandeza, leveza ou paz. Chego a conclusão que pessoas como Marilyn Monroe, Raul Seixas, Virginia Woolf e outros; nascem com uma estigma especial de Deus para transformar sua luz em arte, sentimentos em algo visível, legível, tocável... E acabam vitimados pelo mundo que não os entendem. Ou, se preferir, acabam engolidos pela maioria não-iluminada que habita o mundo.

Parte 2

"Ela está envolta numa espécie de mando de glória que tanto protege quanto atrai. Sua aura é incrivelmente forte - forte o suficiente para ser diluída em milhares de telas de cinema de todo o mundo e ainda assim sobreviver. Em carne e osso, sua quantidade estelar vai quase além do que se consegue suportar. Quando estou com ela, meus olhos não querem deixá-la. Por mais que eu olhe para ela, eles simplesmente nunca se cansam e talvez isso ocorra porque eu não consiga realmente vê-la"
(Colin Clark, in "Minha Semana Com Marilyn")

As vezes imagino as emoções como a pele coberta por uma tecido tão fino quanto um véu. Fácil de serem tocadas e percebidas, mas poucos prestam atenção e, por isso mesmo, atravessam o tecido fino com palavras de aço ou gestos de navalha. As criaturas de sentimentos expostos - chama-los-ei de "Iluminados" - se entregam a arte porque nela eles podem criar labirintos onde se escondem dos seres mais comuns ou dos que escondem suas emoções por trás de cortinas de ferro - que chamarei de "insensíveis". 

Acho também, que com o tempo os "Insensíveis" caem no vazio e perdem suas referências. É quando os "iluminados" passam a ser suas vítimas. Pois os "Insensíveis" os perseguem para vampirizá-los até que, depois de totalmente esgotados pelo sofrimento, os "iluminados" se percam de si nas vielas da loucura.

Parte 3

"Por que as pessoas não podem entender que, quer elas gostem ou não, essa é a maneira de Marilyn funcionar e que elas já deveriam estar acostumadas a isso?"
(Colin Clark, in "Minha Semana Com Marilyn")

Cada um é como é. Não há como negar isso. A a palavra de ordem é "repeito". É tão fácil e cômodo julgar. Mas porque não se por no lugar do outro? Por que não tentar entender o que leva o outro a ser tão diferente de nós? Colocar-se no lugar do outro, sentir seus medos, ouvir seus choros, levar seus tombos... Cada um de nós tem seus porquês particulares que se não nos justifica ao menos nos explica. É preciso baixar o dedo que acusa e abrir os braços que acolhem.

Parte 4

"Marilyn estava sozinha. Ela precisava de alguém com quem conversar, alguém que não fizesse nenhuma exigência"
(Colin Clark, in "Minha Semana Com Marilyn")

Sempre me pergunto sobre o que é solidão. Sinto que tenho uma alma solitária. Isso não é ruim até o momento que as pessoas insistem em invadir a minha solidão com seus sentimentos de superfície ou psicologia de mesa de jantar. Sou sozinha por natureza. É como me sinto bem. Fico melhor quando não tenho que me explicar em conversas. Não sou triste. Penso que sou observadora da vida e de mim mesma. E faço isso melhor quando estou em silêncio e sozinha em meus pensamentos. As pessoas precisam cobrar e falar. E acabam falando demais por conta dessa necessidade. Eu acho que muitas vezes um sorriso faz mais que um discurso inteiro.

Parte 5

"Você é uma estrela. Uma grande estrela... Você não pode fugir disso. Você tem que atuar" 
(Colin Clark, in "Minha Semana Com Marilyn")

Quantas vezes pensamos em desistir? Fugir de nossos problemas pode parecer uma solução imediata para todos. Mas nunca é! Assumir o nosso papel diante da vida, encarar as dificuldades, os medos, as tempestades; é o que nos faz grandes. Desistir é a solução dos fracos. Ninguém se espelha num covarde. O próprio covarde se envergonha de si em justificativas vazias. Muitas foram as vezes que eu fiquei na hesitação entre sair de cena ou ir até o fim do ato. No fim, sempre optei por me manter no palco e até hoje nunca me arrependi do resultado no final. 

Parte 6

"Ninguém bateu em mim como fizeram com você. Simplesmente parece que não havia ninguém por perto a maior parte do tempo. Você entende o que estou querendo dizer?"
(Colin Clark, in "Minha Semana Com Marilyn")

Sempre estou só. Mesmo numa multidão, eu tenho a sensação de ser sozinha. Não tenho amigos. O mundo sempre me assustou. Tenho sempre a ideia de que estou a margem do resto deles. De tanto ser assim, as vezes, tenho medo da loucura. Estou sempre pensando nela. É confuso de entender. Acho que até nisso sou só. Só eu me compreendo realmente.

Parte 7

"Mas, Colin, eu não quero ser inatingível. Eu quero ser tocada. Quero ser abraçada. Quero me sentir envolvida por braços fortes. Quero ser amada como uma garota comum, numa cama comum. O que há de errado nisso?"
(Colin Clark, in "Minha Semana Com Marilyn")

E por que as coias chegam a esse ponto de isolamento? Eu não sei! O fato é que a cada dia as pessoas se isolam mais do mundo. Por medo trocam o mundo exterior por universos introspectivos. E não ser atingido pelo mundo exterior fica algo completamente aceitável e compreensível. Isso pode parecer assustador, nas de fato não é. Tornamo-nos mais observadores de si e dos outros e talvez por isso mesmo, ainda que os outros não penetrem em nossos "abismos", nós os compreendemos e percebemos nas suas pontes. Contraditório, não é? Mas acho que viver nunca foi um caminho coerente e reto. 

Parte 8

"Quer dizer que você é um dos seres mais especiais de todo o mundo e, independente do que dizem todos aqueles odiosos professores e psicanalistas, você conquistou isso tudo por si mesma. Você deveria se sentir muito orgulhosa"
(Colin Clark, in "Minha Semana Com Marilyn")

Somo criaturas lapidadas. Uns se permitem mais outros menos, mas todos somos obras de arte da vida. Alguns com arestas, rascunhos de si. Outros obras perfeitas. Qual vale a pena ser? Ora, tanto faz! O importante é que sejamos conscientes de que somos únicos, com importância e relevância. Até os rascunhos e esboços podem mudar a visão de alguém. Cada indivíduo tem seu lugar de importância na vida. Somos uma viga que sustenta algo no mundo. Parte da construção. Isso é que não podemos nunca perder de vista. 

Parte 9

"Você não está perdida no meio de uma tempestade, Marilyn. Você é a tempestade!"
(Colin Clark, in "Minha Semana Com Marilyn")

Já me disseram isso. E que assustador foi quando me encarei assim. Eu sou mesmo tempestuosa e não passo nunca despercebida. Mesmo quando quero. É algo além de mim. Juro que queria ser só um chuviscar, as vezes. Mais há intensidade demais em mim e eu não sei passar pela vida se não for assim intensamente. Há os que fecham e as portas e janela ao me verem passar e eu me debato contra os vidros sem entender porque eles me rejeitam. Porém, para me consolar, ainda há os que gentilmente vem até mim para dançarem em minhas águas.

Parte 10

"Mas eu também sou uma pessoa"
(Colin Clark, in "Minha Semana Com Marilyn")

Ah, Marilyn! Como eu a entendo! Como sei que o quanto tudo isso devia doer em você. Eu não tenho nem a metade do seu brilho, talento ou fama. Mas sei que toda tempestade quer, no fundo, um lugar seguro para cair. 

Parte 11

"Eu quero encontrar alguém que me ame - com todas as coisas bonitas e feias"
(Colin Clark, in "Minha Semana Com Marilyn")

Somos como a lua e ocultamos o nosso lado feio num véu de mistério. Ninguém quer ter defeitos. Mas quando entendemos que nossos defeitos são parte do que somos começamos a olhar o mundo com outra perspectiva. Percebemos que somos falhos e aceitamos que outro também seja. Aceitar, entender, tolerar e se possível, ajudar o outro com suas falhas é o passo primordial para bons relacionamentos. Somos bilaterais. O bem e o mal formam as duas partes que nos compõe. Não dá para passar pela vida sem se encarar no espelho e decidir quem fica livre: o anjo ou o demônio.

Parte 12

"Arthur diz que eu não penso suficientemente, mas parece que eu sou feliz apenas quando não penso."
(Colin Clark, in "Minha Semana Com Marilyn")

__Me desliguem! - eu já falei tantas vezes depois de ver o dia amanhecer na varanda. Eu penso muito e adoraria parar de pensar, as vezes. Me desligar de tudo. Mas pessoas inquietas estão eternamente trancafiadas no universo filosófico ou criativo. Criando e recriando questões sobre si e sobre a vida. Viver para os inquietos é um mover-se constante dentro de si. É o farfalhar incensante das asas da borboleta que nunca se cansa de experimentar as cores e formas do jardim que não se margeia.

Parte 13

"Achei que se me casasse seria alguém."
(Colin Clark, in "Minha Semana Com Marilyn")

Ah, a juventude e suas soluções fáceis! Com a maturidade uma coisa tive certeza: nada é fácil. E uma decisão mal tomada na juventude nos condena a uma maturidade de arrependimentos. Quando se está triste e sozinho e alguém nos oferece abrigo e carinho, tendemos a pôr nesse alguém toda a esperança de um futuro bom. E aí erramos. Temos que aprender a pôr em nós esse lugar seguro para onde voltar quando a vida pesa. Temos que ser o nosso próprio porto. Afinal, só nós conhecemos a fundo nossas razões e dores. Para evitar sofrimentos maiores precisamos aprender a nos abrigar.

Parte 14

"Um motivo que a impedia de levar as pessoas consigo era ela própria não fazer a mínima ideia de para onde estava indo. No entanto, ela chegou lá. Ninguém pode negar isso, e basicamente, ela conseguiu isso sozinha."
(Colin Clark, in "Minha Semana Com Marilyn")

Estou acostumado a ver pessoas se aproximarem de mim por razões que vão desde a curiosidade até a mera casualidade mesmo. E como chegam, se vão. Eu não sei lidar com a despedida. E sinceramente raras foram as vezes que entendi o adeus. Contudo, a porta de saída de minha vida é de livre acesso aos que precisam usá-la. A única advertência é a de que não há caminho de volta. Nunca aprendi a perdoar. De tanto assistir as pessoas saírem e entrarem em meu mundo, escolhi ser solitária. E de um tempo para cá, todos os dias me sinto mais esvaziada do mundo e de suas relações. Tenho dificuldades em confiar hoje em dia. Sinto muito medo das pessoas. Tenho construído ao meu redor uma muralha de loucura e poesia. 


Assim terminou meu fim de semana com Marilyn Moroe. Descobri tanto de mim nela que chorei e ri de suas emoções como se fossem minhas também. Não! Não estou comparando a ela. Eu não seria tão ridícula. Tudo que estou dizendo é que sou tão solitária e carente quanto ela, tão aparentemente forte e tão realmente frágil quanto sua alma. Norma Jean foi uma mulher que poucos viram como também poucos me viram até hoje. Marilyn foi a capa que essa mulher usou para sobreviver. Eu tenho entrelinhas para sobreviver. Para ela funcionou até os 36. Eu já estou quase com 43. Quanto tempo as letras me protegeram do suicídio? Ou será que morro a cada texto que crio?

(Texto publicado originalmente na minha escrivaninha no site Recanto das Letras. Aos que não quiserem ler o livro, deixo o filme na íntegra. Tenho certeza que é uma grande dica para esse domingo. Boa diversão!)