Mostrando postagens com marcador Waleska. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Waleska. Mostrar todas as postagens

domingo, 6 de julho de 2014

O Homem Que Desafiou o Diabo



Lançamento
28 de setembro de 2007 
Duração
1h46min
Dirigido por
Moacyr Góes
Com
Marcos Palmeira, Fernanda Paes Leme
Gênero
Comédia
Nacionalidade
Brasil

Sinopse e detalhes
Zé Araújo (Marcos Palmeira) é um homem boêmio, que gosta de freqüentar cabarés e ouvir cantadores de viola. Após tirar a virgindade de uma turca, ele é obrigado pelo pai dela a se casar. Durante anos Zé passa por seguidas humilhações, provocadas por sua esposa. Um dia, ao ouvir uma piada sobre sua situação, ele se revolta, destrói o armazém do sogro e ainda dá uma surra na esposa. Ao terminar ele monta em seu cavalo e parte sem destino, decidido a ter uma vida de aventuras. A partir deste dia Zé Araújo passa a ser conhecido como Ojuara, enfrentando inimigos e vivendo situações inusitadas.

Minha Opinião

Um passeio pelos cenários nordestino brasileiro através da linguagem de cordel é a proposta dessa divertida comédia nacional que assisti nessa última sexta-feira. Um filme sem grandes pretensões aparentes, mas com algumas mensagens subliminares que desconstrói as figuras típicas do interior.

O Zé Araújo é o caixeiro viajante acostumado a estrada que cai na armadilha de uma mocinha e acaba no cabresto. Com o tempo, meio que se acomoda com a situação. Até que decide matar o seu “eu ridicularizado” para dar vida ao seu alter ego  Ojuara – Araújo ao contrário. E a partir daí, Zé vira mesmo o seu inverso. Cria e traça novos rumos para sua vida, sua coragem vai abrindo portas nesse mundo e no mundo dos espíritos. A diversão é garantida numa atuação ímpar de Marcos Palmeira.

Ah, por que falar desse filme? Bom, pense bem em quantas vezes você não quis ser o seu inverso. Eu adoraria deixar nascer a Akselaw e aventurar-me por aí em novas experiência sem o peso das responsabilidades que a Waleska tem, sem tantas poesias e borboletas no pensamento... Uma mulher mais prática e fria. Está chocado? Fica não! Eu queria ter um coração mais pedra que é para pensar um pouco mais em mim. Talvez seja egoísta de minha parte, mas...

Desafiar o diabo, não foi o ato de maior coragem de Ojuara. Penso que o que o torna um personagem especial é o desafio que ele se propõe para si ao longo de seu caminho, a determinação de atingir uma cidade fantasiosa onde paz e as coisas boas reinam. Ojuara é representação da determinação nordestina que não desiste de uma vida simples e justa. E essa determinação de Ojuara é invejável!


Senhores, deixo-lhes agora com o próprio Ojuara, esse anti-herói mais “heroístico” que já conheci que mal comparando podemos chamar de Quixote brasileiro sem Sancho Pança e com uma Dulcinéia prostituta. Hei-o, senhores, Ojuara!

“O meu nome é Ojuara eu vim de longe e vou em frente, e o senhor não é mais feio que certo tipo de gente. Feio é a herança do homem, a herança de Caim. Praga de mão ofendida, tentação do coisa ruim. Feio é aquela sombra escura que vai levando consigo o covarde que traiu a confiança do amigo. A beleza e a feiúra tão junta em toda parte, a beleza inté na morte, e feiúra inté na arte. Olhe seu rosto no espelho e não perca a esperança, porque foi Deus que lhe fez, à sua imagem e semelhança.”


quarta-feira, 18 de junho de 2014

Atitude, Sim. Suspeita, Talvez.




Sempre me intriga a notícia
de que alguém foi preso
“em atitude suspeita”.
É uma frase cheia de significados. 
(Luis Fernando Veríssimo)

Reparou que quando não andamos na mesma mão da maioria rapidamente ganhamos rótulos no meio em que vivemos? É muito difícil as pessoas entenderem que cada pessoa é um ser único. E que gostos, credos, cores... Não formam caráter. Aliás, o que é mesmo caráter, heim? Caráter, para a psicologia é a individualidade pessoal e social de alguém. Individualidade... Cada ser nesse mundo é um indivíduo ímpar, incomparável e insubstituível.  Logo, não há como pensamentos serem exatamente iguais.

A sociedade criou estereótipos comportamentais tão fortes e tão antigos que esses se impregnaram em nós como se fossem parte do nosso próprio  DNA. Parece tolice, não é? Mas pense em quantas vezes você evitou a manga com leite ou passar embaixo de escada? Ainda acha pouco? Quantas vezes ao perceber o olhar de uma criança de rua vindo em sua direção, você apertou contra si mais forte a bolsa que carregava temendo o roubo? Quantas vezes você se surpreende com um vídeo onde um morador de rua revela algum talento não compatível a sua realidade social? Mas será que toda criança de rua rouba, todo mendigo é burro, todo roqueiro adora o diabo, todo evangélico está salvo, todo anjo é puro? A generalização e banalização dos comportamentos podem acarretar no não entendimento de um todo e por isso mesmo no cometimento de injustiças.

Certa vez um homem que admirava muito por sua inteligência sentenciou em uma conversa: “Não se pode amar uma prostituta. Elas não querem ser de família”. Todo o meu encanto por aquele homem quebrou-se como cristal ao cair no chão. Explico-me. Convivi com prostitutas, conversei com elas várias vezes, e suas histórias são geralmente de muita dor. E a grande maioria adoraria não estar ali e ter o direito a ter um casamento sóbrio, feliz onde elas fossem amadas e respeitadas. São mulheres de posição firmes e aparentemente frias. Contudo, muitas delas escondem nas atitudes distantes corações apaixonantes para poderem continuar vivas naquele meio. Este homem, nordestino, com certa idade, criado para ver até mesmo a própria esposa como procriadora; teve, provavelmente, esse estereótipo implantado nele desde cedo. E hoje se incapacitou para uma visão mais ampla da situação.

Outra situação vivi há pouco tempo quando saí de uma reunião em uma empresa e ao ligar o meu celular um dos supervisores percebeu que eu ouvia Kiss. Ele me perguntou “Você é roqueira?”. E eu com um sorriso amistoso disse que sim. Ele disse como pode uma mulher tão refinada gostar disso. Fui obrigada a gargalhar dentro do elevador. E depois vendo que ele não cederia dentro de sua concepção eu o encarei e disse baixinho: “O pior você nem imagina. Também como morcegos!”.

O que quero com os dois exemplos é mostrar que é preciso que aprendamos um meio de fugir desses conceitos que nos incutem antes mesmo que possamos ter uma consciência crítica do assunto. É preciso que, como pais e educadores, comecemos a construir uma nova geração capaz de entender por si e para si o conceito de certo e errado, bom e ruim, bem e mal... É possível, por incrível que pareça fazer uma criança pensar em ação e reação, atos e consequências, erro e perdão... Sem ter que falar em pecado, sem ter que criar fórmulas para tudo, sem ter que criar modelos... Educar com consciência e respeito, com amor consciente e não cego. É importante que os pais entendam que seus filhos são para o mundo e como tal serão responsáveis pelo o que adicionarem ao mesmo.

Ninguém é suspeito por andar de preto, por ser caladão, por falar com plantas, por ler poesia. Nenhum menino é homossexual só porque usa rosa. Nenhuma menina é lésbica só porque joga bola. Deus não castiga se você xingar um palavrão quando estiver com raiva. Os pais não têm sempre razão porque são humanos. Ninguém tem que agir contra si para se enquadrar em um grupo.  É preciso que nos conheçamos melhor que aos outros. Ainda que isso nos deixe em atitude suspeita. 

Até breve!!!

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O Desembarque



“Então, é isso! 
exclamou de repente em voz alta. - 
Que alegria!”
(Liév Tosltoi, in "A Morte de Ivan Ilitch")

É hora de se despedir de Ivan. Nós desembarcamos aqui, enquanto o trem suavemente deixa a plataforma levado um Ivan mais leve e sem sofrimento. Consciente de que a passagem e todo o ritual de dolorosa expurgação eram necessários. Aceno adeus a um Ivan que ruma para o seu destino tranqüilo depois do reencontro consigo, depois de esgotar todas as suas dúvidas e de realmente enxergar-se.

Mas será que precisamos realmente passar por essa tortura física e psicológica para só no fim nos encararmos dentro de nossas reais condições humana? Acho que não! Se nos propusermos a passar um tempo dentro de nós a cada dia nos avaliando, creio que nós nos reorganizamos por não permitindo que nosso “eu” caia no caos de emoções tão normal diante das atribulações diárias.

Certa vez fui a uma exposição de Salvador Dalí e fiquei muito impressionada com uma estátua de um homem formado por gavetas. Se nós pensarmos em nós da mesma maneira que Dalí provavelmente pensou, veremos que somos mesmo “engavetados”. Feche um olho por um minuto e imagine se você não organiza os sentimentos assim “em gavetas”. Uma gaveta de obrigações, outra de prazeres, pessoas inesquecíveis, pessoas que não queremos mais ver, natais, invernos...

Às vezes, essas gavetas ficam meio reviradas porque na correria do dia-a-dia não temos tempo para organizá-las. Vamos só jogando tudo lá dentro e pensando “Eu ajeito tudo depois”. E esse é nosso grande erro! Não teremos tempo para isso depois. E aí vai tudo ficando desequilibrado, amontoado de decisões não tomadas; sentimentos amarrotados que não se ajustam quando precisamos deles; desejos rotos por ficarem jogados e esquecidos no fundo de nós e que depois de embolorados não podem se realizar mais.

Ivan acumulou tanto em suas gavetinhas que levou de um longo caminho de dor para organizá-las e encontrar o que precisava para seguir sua viagem. Não faça o mesmo com você. Comece hoje mesmo a se organizar. Quem sabe há um número esperando que você ligue e diga “Me perdoa!”?  Ou alguém precisando de seu abraço para poder sorrir? Ou um rosto amarelado de algum retrato que espera a sua chegada? Sempre há alguma inesperada surpresa nessas arrumações.

Não estou dizendo que será fácil. Nem que tudo voltará ao lugar num único dia. Só estou alertando que tudo ficará melhor, mais limpo, mais suave. E uma vida suave se abre para nós com mais possibilidades de se ser feliz. E foi para ser feliz que chegamos aqui a essa estação chamada Vida.

Até a próxima viagem!


quinta-feira, 29 de maio de 2014

Os Dois Lados da Solidão




Pois é, Gabizinha! Há dois tipos de solidão: aquela que queremos porque é necessário um reencontro conosco, uma busca por respostas interiores, resoluções de conflitos particulares; e outra que provocamos quando afastamos de nós quem nos ama, quando nos isolamos nas imbecilidades do mundo, quando nos esquecemos de olhar para o mundo com olhos humanos.

Acredito que no primeiro tipo de solidão, Deus nos acolha com seus braços seguros e nos sussurre palavras de fé, esperança e força. Acredito que anjos façam roda em volta de nós e nos cantem deliciosas canções enoquianas para nos trazer paz e nos inspirar a tal luz interior. Creio seriamente que é nesse momento que todos nós voltamos a um ventre mágico para renascermos mais consciente de nossa importância no plano astral. Essa solidão é abençoada e, portanto benigna.

A segunda solidão é dolorida e doentia. Ela começa por adoecer a alma. Esgotando a luz de nossas auras. Afastando-nos dos seres iluminados que nos protegem. Quando isso acontece, eu acredito que os espíritos inferiores se aproximam e aos poucos vão dominando o nosso redor. Eles atingem as nossas vidas inicialmente com coisas bobas como mau humor sem razão, depois em explosões de choro, até que se transforme em males físicos como gastrite ou, em casos mais graves, até o câncer. Destruído o corpo, resta a mente. Eu vejo a loucura como total dominação desses espíritos ruins. Eles nos cobrem com sua escuridão e começa a ficar difícil ver o caminho de volta a luz, a fé a esperança, a uma vida saudável na presença dos protetores, dos mentores espirituais. 

Contudo, Gabizinha, Deus não desiste de nós. E haverá sempre alguém que nos ama. Alguém emanando orações. Para o Ivan foi o empregado. Para você tem seus amigos – estou no meio deles. Para mim tem meus filhos – e você é um deles.

É claro que a morte chegará para todos. Porém, para uns será só uma transição, um momento de libertação desse casulo corpóreo, um momento de reencontro com os que já se foram. Para outros será um momento de aprisionamento porque ou não entenderão que se foram ou simplesmente não aceitarão a ida. De tudo isso, o importante é que não nos esqueçamos de viver, de sermos felizes e de fazermos felizes quem está ao nosso lado.

Fé e luz para ti, anjinho ranzinza! 


terça-feira, 27 de maio de 2014

Vida de Adulto

                                       

“Só se é jovem uma vez...”, já ouviu isso, Gabizinha? Pois, então, saiba que isso é muito verdadeiro. A juventude é um perfume bom que vem em vidro pequeno. E a gente nem se dá conta do quanto é bom até que ele não exale mais do nosso próprio corpo. Contudo, pequena, posso lhe afirmar que o cheirinho especial da vida adulta é do seu modo muito atraente. Tão atraente que por vezes, anula o tal perfume jovial para destacar-se entre os outros. O que quero que você entenda é que cada fase da vida é uma com suas virtudes e seus defeitos.

Agora lá vai o puxão de orelha. Segura aí! Você não está engrenando na leitura porque encasquetou de ser Ivan que nada tem de Gabi. Você é dessas, sabia? Desfaz o bico! Estou te olhando. Senta aí e cale a boca.

Todos nós estamos morrendo. A cada segundo a vida nos rouba um suspiro de vida. Mas não é por isso que vamos chafundar no canto do mundo questionando a que horas será a partida. Você Gabi – Você também leitor! – está VIVA. Então, levanta o buzanfão daí e vá viver! Viver para fora de si. Tira o olho do umbigo e olhe o sol, a lua, a chuva... a vida!

A morte só seduz porque usa vestido longo preto elegantíssimo. Eu tenho certeza que a morte veste Gucci e calça Louise Vuitton. O que seduz na morte é a ideia de um beijo que abre o portal para o desconhecido, o inimaginável, o próximo passo... Somos criaturas curiosas e o slogan “O que vem depois?” vendido pelas crenças de uma existência post mortem faz os lobos jurarem-se de cordeiros no fim da vida na esperança vã de uma “salvação”.

Cansaço faz parte do viver. Tem hora que tudo fica igual. Fica cinza. Fica um saco. Mas sabe o que se tem que fazer? Mudar! Já viu o filme “Curtindo a vida a doidado”? Aquele filme é a chave do viver bem. Aí você me dirá “Fácil dizer, Wal!”. Pois vou lhe confessar que há dias que digo a todos que saí e tranco tudo, desligo o celular e fico quietinha comigo me curtindo o dia inteiro de camiseta e calcinha, comendo porcaria, sem pentear cabelo, sem sapatos... Como já teve dia de eu sair para trabalhar linda no salto e simplesmente descer no meio do caminho e passar o dia olhando loja, andando a toa, curtindo um dia diferente... Descontaram meu dia, mas e daí? Foda-se! Naquele dia eu precisava ser livre!!!

Está aí! O que falta para vocês é o “foda-se” ligado. Essa teclazinha embutida em todos nós, mas que raramente conseguimos acionar porque temos inconscientemente uma origem masoquista. Deixamos as coisas nos atingirem, permitimos que o mundo nos escravize. Não estou aqui apregoando que devamos viver numa realidade cômoda. O que estou dizendo é que de nada também nos adianta tentar atingir coisas que estão muito além do alcance se isso custar nossa saúde, humor, felicidade... Vale a pena lutar tanto pelo “ter” se o fim disso for igual ao de Ivan? Velho, solitário, frustrado, mal-amado... um estorvo. Não teria sido melhor se ele tivesse plantado alguns sorrisos em seu caminho? Alguns abraços sinceros? Se tivesse se entregado de corpo e alma a sua família de vez em quando?

A vida adulta só é chata para quem foi criança chata, adolescente chato e o pior é que esse chato vai se tornar um velhinho chato também. Eu fui uma criança feliz. O pouco que vivi com meu pai, ele aproveitou para semear em mim jardins inteiros de esperança, ilusões, sonhos... E era lá, que na ausência dele, eu me escondia para continuar a conviver com a gente ruim que me cercava sem me permitir ser contaminada por eles. Hoje sou adulta, posso ou não conviver com essa gente, eu escolho. No caso do inevitável, quando o social me obriga estar perto deles, eu me refugio nos mesmos canteiros para não perder o contato com minha luz interior.

Se eles me fazem chorar? Fazem sim! Magoam-me sim! Machucam-me sim! Mas não conseguem me perfurar tanto a ponto de eu dizer que a vida é ruim, que ser adulto é ruim. Porque eles optaram a viver nesse mundo adulto pesado e escuro. Eu não. Eles optaram a se envenenar na ambição, no preconceito, na frivolidade. Eu não. Eles me vampirizam sim. Mas ainda há em mim luz suficiente para me curar deles e desse mundo adulto chato que você diz aí. Sinto muito, Gabi. Sei que você vai ficar triste com o que vou dizer: ser adulto só é chato para quem não soube crescer.

Contudo, ao som de Pitty lhe digo: “Guarde os pulsos pro final... Exercita a consciência...”. Você ainda é jovem. Você ainda tem tanto para fazer. Você só precisa querer. Mude! Liberte-se! Não tenha medo dos sofrimentos que fatalmente você passará. Não se pode fazer uma revolução com luvas de seda, já nos disse tão sabiamente Stalin. Examine-se. Enxergue-se árvore e pode seus galhos ruins para que cresça outros fortes que lhe renderão bons frutos. Depois... Depois... Depois será como tem que ser. Não é isso que chamam de destino. Então, deixe o destino tomar o seu rumo.

Bom, vou nessa de Titãs... “Devia ter arriscado mais e até errado mais, ter feito o que eu queria fazer... O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído...”.


Até!!!


domingo, 25 de maio de 2014

O Embarque...

                                              

“E quanto mais longe da infância,
quanto mais perto do presente,
tanto mais insignificantes
e duvidosas eram as alegrias”
(Liev Tolstoi, in “A Morte de Ivan Ilitch”)

A cena se abre com nós dois sentados no fundo de nossas consciências. Somente você, eu e as nossas lembranças que sempre insistimos em manter presas num suposto esquecimento. Lá onde repousam nossos sonhos frustrados e nossos medos nos recebem com seus sorrisos amarelados e podres. É de lá, desse mesmo calabouço psicológico que vieram os fantasmas que atormentaram Ivan Ilitch em seus últimos dias. 

O velho moribundo estava condenado a enfrentar o pior inimigo do homem: a visão do próprio passado. Talvez fosse melhor a loucura, a perda total de contato com qualquer coisa que um dia foi real; a encarar as farsas em que viveu. Um homem vazio quando longe da toga que dava prestígio, uma criatura medíocre longe do título que lhe poder. Um velho estorvo condenado no fim de tudo.

"O que mais atormentava Ivan Ilitch era que ninguém tivesse pena dele como ele queria que tivessem..."
(Liev Tolstoi, in “A Morte de Ivan Ilitch”)

E o velho grita... Resmunga... Reclama... Contesta... Ensandece na dor. Mas qual dor era mais cruel? A física ou a da alma? Quantas vezes o quarto onde perecia, Ivan não tentou abafar no grito a decepção de descobrir-se um não-amado, um não-desejado, um não-querido?

Ah, amigo, acredite não há pior inferno que nossas próprias dúvidas, nossos próprios erros, nossas próprias culpas nos acordando no meio da madrugada para nos fazer contorcer em doloridos pensamentos. Os arrependimentos são os chicotes que a memória usa para nos açoitar no peito. Somos escravos, amigo! E o passado é o nosso capataz voraz.

Ivan achava que merecia mais daqueles com quem conviveu. E não somos todos assim, meu amigo? Não estamos sempre esperando que os outros vejam nossa infinita bondade, solicitude, altruísmo... Criaturas impecáveis, inteligentes, elegantes, perfeitas... Temos que ter o melhor desses que têm o privilégio de estar ao nosso lado. Não é assim que pensamos? No fundo somos todos criaturas mesquinhas e egoístas. Temos em nosso íntimo pedacinhos de Ivan que fervilha vez ou outra.

“Chorou pelo seu desamparo, pela sua horrível solidão, pela crueldade dos homens, pela crueldade de Deus, pela ausência de Deus."
(Liev Tolstoi, in “A Morte de Ivan Ilitch”)

Mas e no fim?  E quando formos nós no leito? Quem terá pena de nós? Quem não se queixará por vir tão longe para as visitas? Quem terá lembranças boas de nós ao redor da nossa urna? Será que Deus se apiedará e reconhecerá o que há de bom em nós? Deu medo? Não tenha! Mude!!! Declare morte a Ivan! Morte aos Ivans! Morte a tudo que nos adoece!

Tome coragem de fazer mudança. Olhe-se no espelho e busque seus monstros. Cace-os, aprisione-os, vença-os e reescreva suas rotas, seus objetivos, seus modos. Liberte-se dos vícios de ser melhor para aceitar a possibilidade de ser eterno aprendiz. Esvazie-se da soberba do “eu sei” para preencher-se da doce necessidade da busca.  É esse o caminho: observar, absorver, aprender, compartilhar... Plante mais amor nos seus dias. Humanize-se. O mundo não precisa de mais sábios fechados em seus conceitos e certezas. O mundo precisa de humildes humanos que ensinam.

E a cena vai se fechando. Vou deixar você aí para pensar. Sozinho como Ivan. Ele estava doente e sabia que iria morrer. Não é o seu caso. Ele nada podia fazer para mudar seu destino. Você pode. A grande pergunta é: Você quer?

Até breve!

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Na Estação...



“__ Meus senhores, morreu Ivan Ilitch!”

(Liev Tostói, in “A Morte de Ivan Ilitch")


E depois do anúncio do óbito, oitenta e cinco páginas de reflexão sobre a maior das certezas nos leva a questionamentos profundos sobre a divina miséria humana.

Ivan Ilitch, irrefutável juiz nos últimos dias de vida analisou-se, questionou-se e deu por si, tarde demais, que sua vida fora um grande teatro de conveniência; uma vida de falsidades adequadas a sua necessidade de prestígios fúteis. Quadro triste, não é?

Conheço centena de Ivans que caminham por aí indiferentes aos reais valores do bem viver, enquanto esnobam seu dinheiro e poder entre os menos favorecidos. Ivans que pagam pelo sorriso, pela mulher, pelo respeito... Quando se fala na morte a grande maioria se acovarda, se encolhe, se benze... Por que será? Que tanto medo causa essa viagem nos tão corajosos Ivans que circulam por aí? Acho que a consciência de um possível julgamento divino incomoda os nossos Ivans do cotidiano. “Será que terei direito ao tal Paraíso?”, intimamente eles se perguntam nas madrugadas onde podem ocultar seus rostos assustados na escuridão.

Ivan Ilitch acamado por uma doença pensou e repensou tudo que preconizou uma vida inteira. De que valeu? Não foi querido entre os amigos e nem entre a família. Sua mulher achava um capricho a sua doença e a filha o chamava de estorvo. E nenhum de seus médicos o enxergaram como homem a ser cuidado, e sim como uma doença a ser extirpada. Então, lembrou-se dele mesmo que nunca viu o homem e seus porquês antes julgar e sim o problema que deveria eliminar. “Se eu pudesse voltar no tempo...”, algo me diz que foi isso que ele pensou. Você não pensaria assim? Não pensa assim?

A morte é o momento mais justo na linha da vida. O momento em que todos, Ivan ou não, embarcamos em um trem rumo ao desconhecido, a um possível julgamento divino, a imaginário conforto de um paraíso ou a condenação de um inferno. E o que fazer? Outra prece? Ave Maria? Ah, se tivesse como mudar o passado, não é? Ou adiar o futuro? Já desejou a imortalidade vampiresca? Dizem que é uma maldição ser imortal.

Estamos começando essa leitura. Estamos na estação a minutos do embarque. Ainda haverá mais questionamentos por certo. E será que chegaremos a alguma resposta? Bom, o que posso fazer, é convidá-lo a ler, a acompanhar o cortejo de Ivan Ilitch e a pensar sobre tudo isso conosco.


Até a próxima! 

quarta-feira, 14 de maio de 2014

O Menino Tempo



Ah, lá vai ele! Veja ali! Correndo louco sem se importará com o que acontecerá depois. E como é lindo vê-lo livre, independente, criança brincando solta por aí. Você sabe quem é ele? Ao menos imagina? Ele é conhecido como Tempo. O Tempo é uma criança que nem consegue educar para passar da maneira correta pela vida da gente. E tudo que podemos é tentar aprender com os amigos que ele traz com ele.

Quando se é criança, o Tempo nos traz a Curiosidade. Menina “mexedeira”. Vai dali para lá perguntando o porquê de tudo. Revirando e experimentando. Corre riscos o tempo todo porque tem memória curta. Só aprende com a repetição. Só aprende com a experiência. Não adianta dizer a ela simplesmente “não”, ela não está pronta para entender. Quer o risco porque não sabe o que é perder.

Quando se é adolescente, o Tempo nos visita de braços dados com a Ilusão. Ah, como é linda essa garota! Ela usa uma veste dourada de estampa floreada de sonhos e  é muito elegante e charmosa por  trás de suas máscaras. Não vamos culpá-la pelo hipnotismo que nos causa. Ela é meio mágica e adivinha nossas necessidades. E, sendo assim, tira de suas vestes alguns sonhos para pôr aos nossos pés. Mas ainda somos jovens para perceber as oportunidades, ainda idealizamos um mundo diferente daquele que nossos pais nos mostram; ainda não temos espinhos fortes para nos proteger somos somente botão cheio de vontade de se abrir e ser diferentes no meio de jardim de mesmice; ainda não diferenciamos as armadilhas da paixão do terno envolvimento do amor.  A Ilusão se diverte, então, com nosso desespero ao cair de volta no mundo real. Perversa essa menina! A maioria do que nos dá, ela nos tira quando se vai.

Mas o Tempo é bondoso. Depois que a Ilusão se vai, o Tempo cuida de nós, zela por nós. Vai dizendo baixinho que tudo vai passar. Vai soprando ensinamentos e nos modelando enquanto nos leva por aí em pequenos passeios com ele pelas ruas da Vida. E quando nos damos conta, não somos mais um botão. Somos rosa e temos perfumes que atraem e espinhos fortes que repelem.


Então, o Tempo chega com o Discernimento, a Maturidade, a Ponderação... As vezes, traz o Amor com ele. E o Carinho, também. Eu gosto mais do Carinho que do Amor. É que o Carinho gosta de se sentar conosco na varanda para conversar, repara no nosso olhar, sorri cativante, abraça sem pressa. Já o Amor é cego, coitado, chega esbarrando em tudo. É preciso que se cuide bem dele ou ele faz um estrago enorme por onde ele passa. É difícil quem conhece o Amor sem perder algo. Nem que seja um pouco de Juízo que tenha plantado em algum canto do jardim. Mas vou lhe dizer uma coisa que já aprendi há muito tempo: não adianta tentar detê-lo no portão. Ele pula o muro quando estamos distraídos e quando nos atentamos... PIMBA! Ele já entrou, já bagunçou tudo e só nos resta curtir sua estadia.


Sabe? O Tempo, apesar de menino, é muito sábio. Quem se dispõe a observá-lo e pensá-lo, aprende muito. Aprende-se que é preciso doar-se sem esperar doação em troca. Que amor-Éros é bom, mas o que muda tudo a nossa volta é o amor-ágape. Que o nosso tempo é Chronos, mas é no tempo divino, Kairós, que as coisas acontecem. Aprende, por exemplo, que a vida é feita de antíteses: perder e ganhar, esperar e prosseguir, sonhar e realizar, chorar e sorrir, amar e odiar, querer e conseguir... Chegar e partir.

Waleska Zibetti