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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Morangos Mofados – Parte I: O Mofo



Conto 1: Diálogo

Tudo é simples. A tal complexidade das coisas somos nós quem criamos com nossa eterna mania de procurar um porquê para tudo. Nem tudo tem porque e é porque deve ser. E amar alguém é simples como o ato de piscar os olhos. 

É desse “complicar o simples” que Caio fala nesse primeiro conto. E será que um dia chegamos a um ponto que esses porquês desaparecem? Caio também responde essa questão de maneira sábia. Mas eu não contarei como, claro!

Conto 2: Os Sobreviventes

Lembrei-me demais de James Joyce em “Monólogo de Molly Bloom” ao ler esse conto. Ri, chorei, odiei e me identifiquei com a personagem em crise. Mas que fique claro que não é um monólogo. É que ao ler imaginei-me no lugar dela conversando da minha própria vida com um de meus fantasmas. Coisa minha!

O conto é poético e lindo – Falar que Caio Fernando é lindo me parece tão pleonástico -, mesmo dentro dos tons ácidos e irônicos que carrega. Vou deixar-lhes o trechinho do conto que mais gostei. 

“Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia, ela para e pede, preciso tanto tanto tanto, cara, eles não me permitiram ser a coisa boa que eu era...”
(Caio F. Abreu, in “Os Sobreviventes”)

Conto 3: O Dia Em Que Urano Entrou Em Escorpião (Velha História Colorida)

Estranhos personagens compondo outro cenário cotidiano. Tão caótico quanto pode ser o cotidiano moderno. E tão egoísta, também. Quatro indivíduos em uma única sala evitando-se em assuntos desconexos ou tentando fazer com que suas próprias questões sejam tratadas como prioritárias ou pelo menos urgentes necessidades. O clima do terceiro conto inicia-se mais ou menos assim “Farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Mas quando se tem alguém determinado a convencer o outro de uma ideia tudo pode acontecer. Desde nada mudar até uma outra realidade começar, não é mesmo? E no conto de Caio... 

Trechinho...

“...ela lia muito, e quando contava uma história nunca sabia ao certo onde a teria lido, às vezes não sabia sequer se a tinha vivido ou não lido...”
(Caio Fernando Abreu, in “O Dia Em Que Urano Entrou Em Escorpião”)

Conto 4: Pela Passagem de Uma Grande Dor

Sabe aquelas histórias que nos fazem revirar e repensar o profundo de nós, nos fazendo miúdos diante do gigante e vasto universo que há por detrás da porta? Esse conto é dessas histórias. A ausência de nome para os personagens ou qualquer outro tipo de característica nos faz ainda mais íntimos deles. Houve aquele momento em que eu era ela querendo ele e outros onde eu era ele num conflito entre querer ficar só e a querer por perto. Pensei, então, em Nietzche: É difícil viver com as pessoas porque calar é muito difícil. 

Olhem que delicia de trecho:

“Imóvel assim no meio da casa, o som desligado e nenhum outro ruído, era possível ouvir o vento soprando solto pelos telhados”
(Caio F. Abreu, in “Pela Passagem de Uma Grande Dor”)

Conto 5: Além do Ponto

Parei dez minutos para tomar ar. Eu precisava disso depois que li o título do próximo conto. O motivo é que esse fora o primeiro encontro entre Caio e eu. Como se não bastasse, o personagem desse conto “é” alguém que eu amei demais. Confesso que quase pulei a leitura. Mas Caio não merecia isso. “Ele” não merecia isso. Eu também não merecia. Então, parei os dez minutos para tomar coragem e voltei depois quando reencontrei dentro de mim a paz que é preciso para ler. Volte e entrei na chuva indo ao encontro deles (Personagens da ficção e personagens do meu passado).

O conto “Além do Ponto” é o conto mais asfixiante que já li. E essa impressão foi a mesma que tive na época da faculdade. Nada mudou em mais de vinte anos passados desde a primeira leitura. Delirante, sufocante, angustiante e... catártico. É para ser lido com goles de vinho numa noite de frio e chuva; ao som de algo como um blues ou um bolero. “Além do Ponto” é uma travessia e o ponto de chegada é o sentir. 

Desculpem-me, mas não haverá trechos dessa vez.

Conto 6: Os Companheiros

Uma porrada no meio do olho vinda de repente de não se sabe onde deixando tudo desconexo. Li três vezes e a cada vez que relia terminava tão perdida e perplexa quanto a vez anterior. Então, dei-me uns dias. Vinha meio desembalada, faminta... Sei lá! E retornei a leitura do zero. E aí... Nada mudou!A sensação era de cair no caos de braços abertos tentando me agarrar em um fio sensório qualquer que não veio. Acho que esse conto são peças de um jogo de montar. E você vai montá-lo trinta vezes e cada vez será a primeira. Simples assim!

Trecho...

“... aquele que muito fora amado e ferira fundo de faca a quem o amou: permanecia mudo parado suspenso entre várias coisas que já não eram e outras tantas que poderiam vir a ser, ou não.”
(Caio F. Abreu, in “Os Companheiros”)

Conto 7: Terça-feira Gorda

Deus quanta tristeza!  Por que? Por que? Quem determinou que isto ou aquilo é o certo? Não perguntem! Leiam! Repensem! Leiam e respondam: Por que? Deus quanta tristeza! 

Trecho...

“A gente queria ficar apertado assim porque nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro. Tão simples, tão clássico”
(Caio F. Abreu, in: “Terça-feira Gorda”)

Conto 8: Eu, Tu, Ele

Encaixei-me nesse conto. Não como uma quarta parte, mas como sendo alguém em cujo essa tríade existe e se confronta tanto quanto. Uma ponta sustentando a outra num quase equilíbrio. Algumas vezes, perguntaram-me quantas sou eu. Nunca soube a resposta. Mas sei que, como Caio, quase todos os meus lados são incompreendidos.

Trecho...

“... vê se me entendes: ele não se agasta, mas é dentro dele que eu me afasto. Dentro dele, eu espio o de fora de nós. E não me atrevo.”
(Caio F. Abreu, in “Eu, Tu, Ele”)

Conto 9: Luz e Sombra

A música ao fundo era “Stand by Me” nessa nova e divina versão de Florence and The Machine; e o calor carioca escaldante de um quarto onde eu me encontrava deitada era o cenário da leitura do último conto dessa primeira parte de “Morangos Mofados”.

A angústia da personagem foi crescendo em mim. Ele – Caio – falava comigo e eu solidária, solicita, dedicada respondia carinhosa e ternamente atenta a cada “Você me entende?”; na tentativa inútil e desesperada de que ele soubesse o quanto eu o entendia e o sentia naquele momento. 

Terminei o conto com lágrimas e apertei o livro contra o peito. Mãe agradecida querendo mimar o filho por ele ter me deixado estar com ele ali naquele quarto dividindo comigo suas angústias, medos, dúvidas e poesia. 

Trecho...

“O dia está muito quente. Quando a tarde avançar, sei que me encontrará sentado no degrau. E depois que o cinza tiver se transformado em rosa e em violeta e em azul profundo e por fim em negro, sei que estarei parado no centro daquele quarto, ouvindo os guinchos estridentes e o bater de asas dos morcegos. Gritarei, então. Muito alto, com todas as minhas forças, durante muito tempo. Não sei se foi esta a ordem, se será assim o depois. Mas sei com certeza que nem você nem ninguém vai me ouvir”
(Caio F. Abreu, in “Luz e Sombra”)

Nota: 

Caio Fernando Abreu escreveu o livro original “Morangos Mofados” em 1982 e o revisou em 1995. Se ficou melhor ou pior que o original, eu não sei. Só sei que o Caio é Caio e eu o amo incondicionalmente!

Até o próximo!

Beijos da Wal. 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Cotovia

— Alô, cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que saudades me deixaste?

— Andei onde deu o vento.
Onde foi meu pensamento
Em sítios, que nunca viste,
De um país que não existe . . .
Voltei, te trouxe a alegria.

— Muito contas, cotovia!
E que outras terras distantes
Visitaste? Dize ao triste.

— Líbia ardente, Cítia fria,
Europa, França, Bahia . . .

— E esqueceste Pernambuco,
Distraída?

— Voei ao Recife, no Cais
Pousei na Rua da Aurora.

— Aurora da minha vida
Que os anos não trazem mais!

— Os anos não, nem os dias,
Que isso cabe às cotovias.
Meu bico é bem pequenino
Para o bem que é deste mundo:
Se enche com uma gota de água.
Mas sei torcer o destino,
Sei no espaço de um segundo
Limpar o pesar mais fundo.
Voei ao Recife, e dos longes
Das distâncias, aonde alcança
Só a asa da cotovia, 

— Do mais remoto e perempto
Dos teus dias de criança
Te trouxe a extinta esperança,
Trouxe a perdida alegria.

Bandeira, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1990.

terça-feira, 14 de julho de 2015

A cartomante não muda o futuro - Correio feminino (Clarice)

por Gabriella Gilmore


Também gosto de astrologia, cartomancia, ciências ocultas. Mas ainda não vi nada disso mudar meu futuro. Parece que só a gente mesmo é que pode fazer o dia de amanhã.
Mas antes a pergunta que se impõe é esta: que é mesmo que você quer? Saber a resposta é indispensável.
Talvez você descubra que há duas ou três coisas que você põe acima de tudo no mundo. Saber disso é um passo importante que você terá dado. E o que precisaria você fazer para conseguir o que quer? Algum sacrifício, isso é quase certo.
E é quase certo que, se você quer mesmo o que quer, o sacrifício vale a pena. Tudo isso tem que se passar entre você - e você mesma. A cartomante não ajuda.
Porém, se você pegou o hábito de pessimismo, é ruim. Atrapalha muito, atrapalha de fato. O dia de amanhã fica logo com ar de chuva que vem. E seu raciocínio de pessimista funciona mais ou menos assim: se não houve nuvem de chuva no céu, você ai mesmo é que se preocupa - pois que coisa estranha é essa, amanhã vai chover e hoje nem tem nuvem no céu? Mau sinal, mau sinal.
Estou brincando, é claro, mas o que quero dizer é que o pessimista está sempre arranjando um jeito de acomodar as coisas ao seu pessimismo.
O ideal é ser como uma senhora que conheço. Ela me disse - e não dizia apenas por dizer, pensava mesmo assim, sentia mesmo assim -  ela me disse: quem já sofreu realmente não sofre mais por bobagens.
Bem sei que certas dores ficam doendo, a pessoa se torna toda "nevrálgica", e o que nem devia incomodar passa a perturbar. Mas é ai que entra uma conversa entre você - e você mesma. Ou entre você e uma pessoa que entenda das coisas do mundo. A conversa terá como finalidade descobrir o que é que ainda está doendo. Conversa para pôr os pontos nos "iii". Nem sempre é fácil. Às veze, a gente não sabe onde estão os "iii", às vezes não sabe que pontos colocar em qual "i". Mas também nisso a cartomante não resolve. É uma pena, você mesma terá que tomar conta do assunto. Com minha ajuda, se quiser.

(Quem me dera se Clarice ainda estivesse viva, não é mesmo?)

domingo, 5 de julho de 2015

O que os homens não gostam - Correio feminino (Clarice)

por Gabriella Gilmore
Recebi esses dias um vídeo com um depoimento de um pastor no qual falava sobre como a sociedade anda desmasculinizando os homens. Eles estão perdendo a virilidade, a macheza, a voz ativa. Grandes sábios do passado diziam: Seja homem! Porque você vai ser pai, vai ser rei, porque você vai ter um ofício, um papel a desempenhar. Porém, nos dias de hoje, as pessoas acham tudo muito normal.
"Homens" preferem mulheres vulgares. Gostam de namorar duas, três pessoas ao mesmo tempo. Acham babaquice abrir porta do carro, carregar sacolas da feira para elas ou pagar algum jantar romântico.
Lendo Clarice esses dias para a maratona #CorreioFeminino, uma mulher com crença sem nome, sábia, e a frente de seu tempo, escreveu um texto que será o tema de hoje.
Espero que isso possa plantar um desejo de resgate dos bons valores tanto para nós mulheres como para nossos homens.

O que os homens não gostam

Uma coisa é certa: nós, mulheres, desejamos e temos o dever de agradar aos homens. Ou, pelo menos, ao homem que amamos, não é verdade?
Se um homem elogia um penteado nosso, um vestido, um tom de esmalte, é porque esse detalhe realmente nos embelezou, pois, de uma coisa podemos ter certeza: nesse assunto, o homem é sincero, não há despeito nem "veneno" em elogio seu.
Assim sendo, a preferência masculina deve ser levada em consideração sempre que nos vestirmos e enfeitarmos. A título de curiosidade e também de orientação para algumas inexperientes, dou aqui uma pequena lista de coisas, que muitas de nós usamos ou fazemos, e que um inquérito revelou ser "aquilo que os homens detestam":
1º - vestido muito justo; 2° - pintura excessiva, principalmente nos olhos; 3° - modas sofisticadas e complicadas; 4° - saltos muito altos; 5° - batom exagerado desenhando nova boca e exótica; 6° - meias com costura torta; 7° - excesso de jóias; 8° - decote exagerado; 9° - moça desembaraçada demais; 10° - mulher sabichona.
Se vocês duvidaram dessas conclusões, façam com seus noivos, maridos e irmãos uma investigação particular. Ficarão admiradas como, nesses casos, estão de acordo todos os homens.
Vejamos: será que alguma de nós incorre em qualquer dessas "ojerizas" masculinas? Então, é tempo de corrigir-nos. Chamar a atenção não é a finalidade de uma mulher elegante e inteligente. Mas sim ser atraente e agradar aos homens. Estou certa?

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Discrição - Correio feminino (Clarice)


por Gabriella Gilmore
Neste mês vamos estrear com alguns textos de Clarice Lispector na época em que ela escrevia para jornais.
Teremos várias dicas de beleza interior, pensamentos, humor, vindo de uma grande pessoa no qual nós do #CLV admiramos muito.
Fique ligado!!
E o convite ainda está no facebook para escritores que desejam ter seus textos publicados no Clube.
Estamos te esperando.


DISCRIÇÃO

Você naturalmente sabe que chamar a atenção não é de bom-tom e dá sempre uma impressão muito má da mulher. Seja pela roupa escandalosa, pelo penteado exótico, pelo andar, pelos modos, pela risada grosseira, seja, enfim, de que maneira for a mulher que chama a atenção sobre a sua pessoa o único troféu que merece é o da vulgaridade. A mulher elegante é discreta. Sua superioridade está nos detalhes cuidados na harmonia das cores, no bom gosto dos acessórios. Se ela é também bonita, a beleza é por si um ponto de atração para os olhos, sem precisar ser ostentada.
Os homens, geralmente muito discretos, detestam as mulheres que se destacam demais, onde quer que apareçam. Não apenas pela sua própria maneira de ser, mas também por uma questão de vaidade masculina, já que não lhes é agradável ficar ofuscados ou relegados a um plano inferior.
A mulher inteligente procura, portanto, a discrição como regra básica de toda a sua vida. Discrição no vestir-se, no maquilar-se, nos gestos, na voz e até mesmo nas opiniões.
Seja discreta, e veja como os que a cercam tomarão a iniciativa de colocá-la em lugar de destaque, desde que você possua qualidades para isso.

sábado, 20 de junho de 2015

VERONIKA DECIDE MORRER



Resenha por Gabriella Gilmore



Como seria você acordar um dia decidida a tirar sua vida? 
Você teria motivos suficientes para tal ato?
Será que existe mesmo uma razão aceitável para isso? Sem que sua morte não seja vista como loucura ou até mesmo o culpar aos pais ou pessoas próximas que em nada tem haver com sua decisão de deixar um mundo que não mais lhe fazia sentido?
Bom, no dia 11 de novembro de 1997, Veronika decidiu que já era o seu momento.
Mas como faze-lo sem que seus entes queridos não se sentissem culpados? Isso já era um motivo para preocupação.
Só de pensar que sua vida virou uma rotina, que depois que a juventude passa tudo tende à decadência, velhice chegando, amigos partindo, continuar vivendo não era lá grandes coisas. Na verdade, o risco para sofrimentos eram maiores.
E viver num mundo que cada vez que passa se torna mais incorrigível, era totalmente frustrante.
Já que não podemos escolher nascer, pelo menos dar cabo a vida quando assim sentimos que já "fizemos" o que deveríamos fazer na terra, não seria lá um pecado mortal, seria? Se temos o "livre arbítrio", isso significa que podemos sair de cena quando acharmos melhor e pronto.
Nossa amiga simplesmente pega suas quatro caixas de remédios para dormir e calmamente vai tomando um a um.
Ela acorda em Villete, um asilo de loucos.
Nossa personagem nos faz pensar sobre questões religiosas que às vezes nos permeia, como se realmente Deus existe, sobre o tabu do suicídio, sobre a luta do homem para sobreviver e não se entregar e ela até ousa em voltar lá no paraíso de Adão e Eva.
Você ri com sua ousadia em enfrentar certos temas com uma fúria doce e no decorrer da história você só quer entender a fundo os reais motivos que leva o ser humano a tais atos.
No hospício você depara com depoimentos de Mari, uma paciente de síndrome de pânico e Edward, o artista esquizofrênico.
No final você percebe que todos nós somos loucos, e mais loucos ainda em não assumir nossa loucura e o amor é o maior delas.

Livro disponível também em filme, tendo como protagonista a atriz americana Sarah Michelle Geller.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Eu, Clarice Lispector.



Seria destino, o nome disso?

Um dia desses, postei no meu blog em inglês um texto sobre Clarice.
O número de visitas foi tão interessante que resolvi postá-lo em português no meu Introspectors.
Lá, eu comentava sobre meu livro que estava lançando, e como conheci Lispector. Realmente ela é famosa lá fora e suas frases passam de “mãos em mãos”.
Uma vez twittei uma de suas frases para a Jéssica Origliasso da banda The Verônicas e ela retwittou.
Sim, Clarice toca no coração de todas as raças, em pessoas com diversos gostos e afins. Clarice fala a língua do 'P'. P de perfeito. Clarice fala do simples, do despercebido, do momento que deixamos passar. Ela pega tudo isso e faz poesia. Quem consegue fazer isso? Quem é ela? Que coisa, não? Ela é ou não é? Ela sempre será!
Minha relação com Lispector é curiosa porque só fui parar para ler seus trabalhos depois de ter lido um comentário lá no Recanto das Letras na qual dizia que a minha forma de escrever lembrava Clarice.
“Clarice quem? Ah, aquela escritora falecida brasileira. Sim, eu ouvi falar dela na época da escola.”
Corri na biblioteca mais próxima e peguei o livro “Perto do coração selvagem”. Me perdi. É, eu me perdi. Mas depois me encontrei e se hoje sei quem sou, eu agradeço a Clarice Lispector.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Do Estranho e do Esquisito



Era uma vez uma menina estranha que certa vez conheceu um homem esquisito. Ela tinha alma azul e ele coração de pedra. O vento soprava pela fresta da janela previsões de mudança. E choveu no fim da semana. 

Era uma vez um homem estranho vestido de vento que conheceu certa vez uma menina esquisita que nunca mudava. E o coração soprava na alma previsões de chuva.  E na janela de pedra azul passava o fim de semana. 

Era uma vez uma chuva que certa vez conheceu o vento. E o coração de uma menina passava o fim de semana nas pedras. Estranha alma! E um homem soprava pela fresta azul previsões esquisitas.
 
Era uma vez uma história estranha de um homem que nunca conheceu a menina. Onde o vento soprava a chuva na janela azul. Onde uma alma buscava um coração num fim de semana. E a previsão era de que tudo seria esquisito. E foi!

(Waleska Zibetti, in "Do Estranho e do Esquisito")

sábado, 23 de maio de 2015

Ponto Final


Era só um espectro de si mesmo. Esconde-se na penumbra. A ponta de seu vestido era a única coisa que alcança a luz vinda da lua que invade a fresta da janela.

__ Olá!

A voz é como um acorde frio que retumba no cômodo cheirando a passado. É difícil imaginar-lhe os traços porque seus cabelos cobrem-lhe o rosto.

__ Entre. Eu o esperava.

É impossível não obedecer a essa voz. Uma banqueta do outro lado, provavelmente de veludo e que em outro tempo fora vermelho, está quase em frente a ela. E diante dela é difícil controlar a respiração, o corpo, a voz, o olhar.

__ Há quanto tempo sinto você se esgueirando por aí a me rondar.

Ela respira pesadamente e sua voz sai como um silvo. Uma mão pálida e cadavérica segura o braço da poltrona acariciando o tecido também aveludado.

__ O que você procura? Melhor... O que você não procura é o que lhe traz aqui.

Seu cabelo é longo e seu cheiro lembra velhas bibliotecas. Não é possível ver mais do que a ponta do vestido e os contornos magérrimos de uma mulher.

__ Eu não sou o caminho, mas vocês insistem em vir sempre por aqui. Vocês insistem em visitar-me pela comodidade que causo em vocês. Gentinha miúda e nojenta. É isso que são! Todos vocês!

A voz agora demonstra desprezo e um cheiro ruim invade o cômodo. Talvez seja a hora de ir. Mas não se consegue. Tem que ter um porquê.

__ E tem!  - sentencia pela primeira vez forte essa coisa sentada adiante – O porquê é o seu medo. O seu medo de não assumir o que quer, de não se lançar nos seus desejos. Fica arrumando pequenas desculpas para tudo: falta de tempo, falta de dinheiro, depressão, loucura, Deus... Até quando será isso em sua vida? Esse vaguear em mentiras, em ilusões, em desculpas...

A respiração acelera. É possível ouvi-la ainda mais nítida.

__ Foram criados para serem superiores e na maioria do tempo agem como vermes. Depois ficam aí... pelas madrugadas... ratos pelos meus corredores. Misericórdia... misericórdia...

Aperta o braço do sofá.  Unhas pontiagudas quase rasgam o tecido roto.

__ Infelizes! Haverá sol amanhã, sabia? E tudo que terá a fazer é ter coragem de admitir seus pesadelos para que ele o cubra inteiro. Se despir dessa sua pele fantasiosa de segurança e admitir o medo, a falha, a culpa. Mas... É mais fácil não chorar, não é? É mais fácil arrumar outra desculpa para enfiar o dedo na garganta e jorrar sua frustração no vaso do banheiro. Dizer sinceramente para si que você é o resto de merda nenhuma e então, sair pela vida para provar a delicia de ser totalmente livre.

Pela primeira vez ela movimenta o corpo para frente. Partes dos cabelos alcançam a luz. São grisalhos e mal cuidados.

__ Ouça um pouco... Há vida lá fora. Gente. Gente de verdade. Gente querendo e sendo gente. E você aí... Rondando-me. Perdendo tempo. Querendo um amanhã perfeito. Ele não virá! Ele não existe! Mas você entenderá isso tarde demais.

Ela se levanta. É completamente possível se sentir o olhar dela pousado em nós.

__ É a sua última chance. VÁ!

A mão cadavérica aponta a porta, a rua iluminada...


__ VÁ AGORA E VIVA!

E agora, amigo? O que você escolhe: continuar aqui ou ir? É você quem decide. Tudo agora é com você. 

(WAleska Zibetti, in "Ponto Final")

quinta-feira, 21 de maio de 2015

A Borboleta e A Águia


Era uma vez uma borboleta que avistou um dia uma águia. Ela  a observou por dias e de tanto observá-la quis conhecê-la. Aproximou-se lentamente num dia que viu a águia pousada. E as duas conversaram por horas. A borboleta ingênua pensou que as duas poderiam ser amigas. E quando a águia voou a borboleta tentou acompanhar-lhe no voo. Inocente borboleta ignorou o poder de suas asas pequenas. 
 
As águias são criaturas altivas e desconhecem os seres menores e mais simples. A borboleta ainda tentou fazer com  que a águia a notasse. Mostrou-lhe as suas cores, suas flores, mas a águia era um ser sozinho e acostumado com os céus altos, amplos, grande. Nada naqueles universos miúdos de borboleta  atraíram a águia. 
 
Pior foi que a águia pensou que a borboleta fosse como ela. Forte, implacável, altiva, orgulhosa... “Acho que as águias enxergam o mundo só de cima”, pensou triste a borboleta. A consciência de sua inferioridade e o medo da insensibilidade da águia foi fazendo a borboleta temê-la, mas a águia a atraia e curiosa ela ainda se mantinha por perto esperando que numa distração a águia notasse que pousar numa flor de jardim poderia ser bom também.

Infelizmente para a borboleta algumas coisas não podem mudar. Águias e borboletas não voam no mesmo plano. E num momento de fragilidade da borboleta, seguindo seu instinto natural de sobrevivência solitária a águia atacou com suas garras afiadas a borboleta insistente.

Com as asas feridas a borboleta recuou. A águia rindo-se disse: “Você é covarde diante da vida?”. A borboleta ferida, machucada, chorou baixo e disse-lhe: “Sim, eu sou. Sou uma covarde e quem quiser que me aceite!”. Foi embora e águia ainda continuou bradando suas ilusões altivas, conclusões infundadas de um ser tão cheio de si que em momento algum conseguiu realmente ver ou sentir o que havia naquela borboleta.

De volta ao jardim, sentindo-se menor ainda, mais fragilizada ainda, mais triste ainda, escondida por baixo de suas folhas, a borboleta chorou vendo a águia sumir de sua vida para sempre pelos céus onde tolamente ela borboleta pequenina um dia pensara que poderia desfrutar. 

(Waleska Zibetti, in "A Borboleta e A Águia")

segunda-feira, 18 de maio de 2015

A Rosa e o Girassol



Gira teu sol-coração
e nos ilumina,
sempre

(Aline Mariz)

Ela abriu a janela para ver o mundo como faz todos os dias. Ainda despenteada e meio preguiçosa. Da janela ela o viu. Ficou curiosa, mas como tem medo se escondeu na cortina para observar.

A primeira coisa era sempre mostrar que ali não era lugar para gente comum. Todos ali sabem que ela é meio bicho. Borboleta! Assustada, frágil e morre fácil e ele teria que saber disso para poder ficar. Mas ele não riu dela como os outros. Não teve medo dela. Doou-se, também. E não quis que ela fosse para ele o que era para todos. Para ele, ela não era borboleta. Era rosa. 


E ela se lembrou de um principezinho que certa vez conheceu e que também a fizera rosa. E ela gostou de ser a rosa dele. Mesmo tendo medo de ter as pétalas tocadas. Porém, ele também era flor. E flor não machuca flor, ela pensou. Melhor, ela apostou. Fez-se rosa. E foi então, para o jardim.

Por fim começou a se acostumar com o novo amigo. Foi chegando de passinho leve, mas como não é de se acanhar logo estava rindo inteira ao lado dele. Divertindo-se como se já se conhecessem há muito tempo. 


Era bom para rosa frágil sentir de perto o girassol cortês. E a poesia dela entrou nele como perfume de primavera. E transbordou suave em versos de carinho. Os versos de carinho tomaram força e se espalharam por aí.  De ciúmes uma nuvenzinha quase estraga o quadro, mas não foi forte o suficiente. Era amizade ciumenta e tudo ficou no lugar antes mesmo que a rosa lembrasse que era borboleta e tentasse fugir para longe. 

E o dia termina melhor do que começou. Ela fecha a janela para o mundo. Volta para seu mundinho normal. Mas hoje ela dorme contente porque dentro de seu coração a rosa se aninha feliz no abraço de um girassol. 

(Waleska Zibetti, in "A Rosa e o Girassol")

sábado, 16 de maio de 2015

Estela, Estrela


Ele olhou-se no espelho analisando-se, avaliando-se, encorajando-se. Ajeitou a roupa mais uma vez. Colocou seu melhor perfume. Tirou a máscara e saiu no meio do bloco sendo ela mesma. 
(Waleska Zibetti, in "Estela, Estrela")

quinta-feira, 14 de maio de 2015

A Espera



Era uma flor que esperou por muito tempo. E o dia se fez noite. E a noite virou dia. E a flor esperou e esperou no jardim. No final do terceiro dia, quando ninguém ressuscitou, sozinha a pobre flor no meio do jardim chorou. 

(Waleska Zibetti, in "A Espera")

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Coragem



Era tanto olhar para baixo... Tanto medo da chuva... Mas ela nunca foi como as outras. Encarou o céu do meio do mar de guarda-chuvas e se sentiu feliz com os beijos molhados de vida.
(Waleska Zibetti, in "Coragem")

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Dos Porquês



À noite...

__ Vamos conversar?
__ Não venha me atormentar com suas bobagens que já é tarde. Deite e durma, mulher! 

Pela manhã...

__ A esta hora e já com essa cara azeda? Deus do céu!
__ É que ontem dormi engolindo palavras amargas.

Envergonhado ele afunda os olhos no jornal. 
(Waleska Zibetti, in "Dos Porquês")

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Reencontros E Despedidas




"Ainda mais bizarra era sua dupla vida mental:
Uma parte dela vivia no presente;
a outra parte respondia
emocionalmente a eventos ocorridos"
(Yrvin D. Yalom,in "Quando Nietzsche Chorou")

__ Poderia ser você? – disse ele mostrando-lhe a aliança recém conquistada – Mas você não me escolheu. Preferiu ficar aí levando a vida desse jeito.

Ela o olhava paciente e compreendia bem o porquê daquilo. Ele guardava mágoas do passado. Ela podia sentir isso sendo despejado em seu colo letra a letra. E manteve-se em silêncio esperando que ele se esvaziasse por completo de seus sentimentos.

__ Ela acreditou em mim. Estou muito feliz! Ela é especial, sabe? Deus foi muito bom para mim. Vou começar uma família. Estou me sentindo realizado.

Ela escutou o discurso e de repente se deu conta do quanto ele se ressentia dela. Ficar quieta e em silêncio era o seu pedido de desculpas por não tê-lo desejado como ele esperava ou imaginara. Essas coisas não acontecem quando e como queremos. Acontecem e pronto. No caso deles, não aconteceu. Simplesmente não aconteceu.

__ Tenho projetos com ela. Você precisava saber disso para não deixar escapar mais ninguém. Poderia ser você agora, entende isso? Mas você simplesmente ficou inerte a tudo que lhe ofereci. Esqueceu-me. Deixou de lado. E, quer saber, foi bom para mim. Eu... Eu agora a tenho. Alguém que me quis. Que me deu valor e me levou a sério. Estou feliz! Nossa! Como estou feliz!

Ela só sorria e olhava para ele complacente e paciente. Então, ele se levantou. Procurou algo nos bolsos. Sorriu e concluiu.

__Bom, é isso! Eu queria que você soubesse que estou bem e feliz. Agora vou embora. Obrigado por tudo! Não vou mais incomodar você. Espero que você também seja feliz e que da próxima vez que alguém quiser lhe fazer feliz, você aceite.

Ela abriu um pouco mais o sorriso e assentiu com um meneio de cabeça e levantou-se para levá-lo até a porta. Ele parecia aliviado e uma vez à porta, respirou fundo.

__ Adeus!
__ Adeus! E felicidades.

Havia sinceridade nas palavras dela. Toda a sinceridade do mundo. E ternura também. Sentia-se em paz por tê-lo ajudado a acreditar que ele dera o troco nela e que agora ela estaria triste e pesarosa de não ser a esposa dele. Ela sentiu-se caridosa em ajudá-lo a vestir a fantasia de que era feliz mesmo sabendo que de vez em quando a realidade cairia nos ombros dele, levando-o a pensar nela, em como teria sido se fosse ela. Havia uma falsa sensação de coisas realizadas e ajustadas naquela tarde. E o mundo parecia perfeito.

Ele desceu a rua com mãos no bolso e pensamentos desconhecidos. Ela entrou, ligou o rádio, serviu-se de vinho e sentou-se feliz para ler Nietzsche.

“... Falei de amor! Trago uma dádiva aos homens”.

(Waleska Zibetti, in "Reencontros e Despedidas")

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Para Sempre



__ Interessante! - Assim ele me definiu no fim da noite quando eu e a taça de vinho repousávamos em silêncio do lado oposto da mesa e dos pensamentos dele.  Eu o observava talvez buscando algum tipo de definição para ele, também. E de repente notei que tinha olhar reticente. - Está tentando entender o "interessante"? 

__ Não! Estou tentando uma palavra para você. 

__ Achou alguma?

__ Austero. - E ele franziu a testa, não sei se ele buscava uma explicação ou se não achou pertinente a definição dada. Depois recostou-se na parede com olhar perdido. E houve alguns minutos silenciosos. Depois ele olhou-me tão diretamente nos olhos que eu não pude desviá-los. Eu deveria dizer algo ou talvez ele. 

__ Austero igual a chato? 

__ Austero igual diferente de mim.

__ Fala porque sorrio pouco?

__ Falo pela loucura. 

__ Você sabe que de louca, você nada tem. É a pessoa mais coerente e consciente que conheço. Só que sem carregar o peso dessa coerência nos ombros. E isso a deixa leve e ainda mais interessante. Mas por que "sóbrio"?

__ Porque você, em todo o tempo manteve-se centrado quando seus gestos indicavam descompasso. Porque você não perdeu a linha em nenhum momento, mesmo quando seus olhos faiscaram de ódio. Você vai ao extremo e antes que o ultrapasse, volta uma espécie de equilíbrio confortável. - E novamente ele recostou a cabeça e perdeu-se em pensamentos. 

__ Você passou esse tempo todo me analisando, enquanto eu achava que você nem me ouvia. Você é realmente muito interessante. - E voltando novamente seus olhos para os meus. - Você será para sempre minha. 

__ Para sempre não existe! E eu não sou de ninguém!

__ Para sempre existe sim. Você só não precisa estar fisicamente nele. E você é minha. Porque sou dono de meus pensamentos e eu vou levar você dentro deles. - Ele havia me silenciado. Eu que sempre tenho resposta para tudo, nada pude dizer. Então, ele se levantou sorrindo. Estendeu a mão para mim. De pé diante um do outro sem nada dizer. Eu não conseguia pensar em nada coerente. Ele me sorri. E eu nem sei se sorri de volta. - Vem comigo!

__ Para onde? - E de repente senti-me tão pequena e débil por ter dito aquilo.

__ Ser para sempre num momento de nós dois. 

Sorri. E entendi. E em algum momento de uma noite. Um para sempre se repete numa cama de motel.  
(Waleska Zibetti, in "Para Sempre")

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Em Vermelho



Ela pintou a boca de vermelho e ficou quase imóvel esperando ele chegar e buscar. As horas passaram e ela ainda esperava por ele. A noite chegou e ela cansou de esperar. Fez um envelope de guardanapo branco e guardou dentro o beijo vermelho que ele não veio buscar. Dobrou com cuidado, lacrou com uma lágrima e foi dormir.
(Waleska Zibetti,  in "Em Vermelho")

domingo, 26 de abril de 2015

A Face da Morte - Texto Resposta a Gabriela Gilmore



Todos os dias menos um dia
Uma linha em direção ao inevitável
Milhões de células mortas maculam meu chão
Sou eu me despedindo
A morte chegará um dia no portão
Beijará minha boca apaixonada
Espero que seja numa tarde de verão
Quem vai chorar?

Todos os dias mais um dia
Uma ida para o desconhecido
Milhões de horas se passando
Enquanto gravo alguns instantes
A morte se sentará um dia em minha sala
E se servirá de meu pavor numa taça de cristal
Espero estar ouvindo blues
Quem vai se importar?

Todo o dia um dia final
Uma despedida das certezas e das vontades
Milhões de planos pelo chão
E pouca vontade de realizá-los
A morte me aninhará em seus braços
Conforto para meu desespero
Espero estar distraída
Quem notará a ausência?

Todo dia é inevitável o desconhecido
Uma despedida de milhões de células
Enquanto gravo meus planos no chão
Sou eu em alguns instantes
E a morte no portão
Minha boca apaixonada em minha sala
Conforto de tarde de verão
Ouvindo blues distraída

Quem se comoverá?
(Waleska Zibetti)

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Homem Passarinho



Ele era um homem que não gostava de pessoas. Isolava-se dentro de sua casa, de seu jardim, tudo solitariamente cinza. Observava os movimentos da rua, mas não tinha a menor vontade de juntar-se a ele. Preferia o silêncio de sua sala sem televisão e com centenas de livros. Todos antigos, cheirando a bolor, amarelo-cansaço como ele próprio diante da vida.

A única coisa que o fazia sorrir era observar os pássaros que passavam sobre sua casa, que pousavam nos fios da rua ou temporariamente no chão do quintal. Ao notar a aproximação ele colocava-se tão imóvel que parecia não respirar. Era preciso que os pássaros não se assustassem, não o percebessem, não fugissem dele... Enquanto estavam por perto seus anos voavam para longe e ele era menino a jogar milhos aos pombos ao lado de seu pai. Menino correndo em piruetas no meio dos pombos a sorrir em liberdade. Menino-pombo, menino-voador, menino-passarinho...

Certo dia ele amanheceu em sua escrivaninha de madeira escura-pensamentos e decidiu sair para passear. Vestiu-se de preto-seriedade e perfumou-se de almíscar. Andou pelas ruas que ainda dormia olhando as casas de sua vizinhança. Nas árvores pardais comentavam o estranho passeio do velho. E ele olhava para as copas das árvores esforçando-se para sorrir. “Eu posso me mover, amiguinhos, mas não lhes farei mal algum”, assoviava. 

Caminhou até chegar a pracinha que amanhecia dourada de felicidade. E sentou-se no banco para observar os primeiros pombos chegarem ao local. Enfiou a mão no bolso e tirou um saco de saudade e começou a atirar aos pombos. Os grãos escorregavam em volta dele e ele observava seus amigos se aproximarem arrulhando “obrigados”. Ele sorria feliz. 

Encostou-se no banco de braços abertos olhando o céu. Revoadas de andorinhas passaram em arruaça tremenda. Nuvens brancas começaram a tomar forma do rosto do velho pai. E o pai sorriu para ele como fazia ao vê-lo no meio dos pombos quando ele ainda era um menino. E ele gargalhou sonhos que ecoaram na praça dos pombos. O sol atingiu-lhe o rosto envelhecido turvando a visão. 

Pássaros de todas as cores e tamanhos se aproximaram dele fazendo gracinhas a sua frente. Queriam agradar-lhe. Queriam fazê-lo sorrir. Eram pássaros de todas as espécies vindos não se sabe de onde a brincar com o menino passarinho na manhã de paz. Até que ele se levantou correndo entre os pássaros, rodopiando-passarinho, menino de asas... E os pássaros iam lado a lado acompanhando o amigo em seu voo despedida pelo céu azul-liberdade. 
(Waleska Zibetti, in "Homem Passarinho")