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quinta-feira, 26 de março de 2015

Modus operandis poético


Estou começando a gostar desse lance de luta.
Quando mais porradas, mais vontade tenho de reagir.
Ondas, pedras, mar em fúria, cansaço, lágrimas escorrem do rosto do Poeta.
A fome é mais digna do que alimentar-se de migalhas e meias-coisas.
Aos poucos, descortina-se o mistério, o propósito e o sonho.
Grandes são os desertos, Pessoa, muito embora a vontade de chegar seja mais profunda do que o vermelho que tinge meus sangue e minhas vestes.
Cor que atiça minha Utopia faminta.
Tenho medo das coisas que desejo ou penso: quando a elas agarro-me, vencer, talvez seja, o caminho inevitável.
Teus braços unem-se aos meus numa corrente.
Podemos desatar, eu andaria mais ligeiro, tu chegarias depressa a teu destino, contudo solitária minha vida seria, a tua, menos barulhenta.
O teu ombro alivia as saudades e reverbera desejos de regresso.
Agora, pois, tenho para onde voltar depois da guerra de máquinas, engenhos de camisa branca e Pietros Pietras que alimentam-se da energia vital dos operários.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Os males da convivência


Exupéry nos traz uma lição que volta e meia compartilhamos: "aqueles que passam não passam sozinhos: deixam um pouco de si e levam um pouco de nós". Esta premissa persegue minha "primeira pessoa" desde a gênese. 
Com a família, aprendi que as diferenças podem amar-se e conviver harmonicamente, desde que entendamos que o outro existe tem autonomia. 
E nós também.
Na escola, espaço de treinamento para a vida social, compreendi que os amigos são irmãos que moram em casas diferentes, e esta irmandade é construída entre uma implicância, uma borracha emprestada ou um lanche partilhado. 
Crescemos, construímos uma identidade a partir de um "mosaico", formado por coisas que gostamos, experiências vivenciadas, e pessoas que passam por nosso caminho. Na adolescência, encontrei campo para a expansão da minha rebeldia. 
Skate, hip-hop, amigos, goles de filosofia e poesia pareciam dizer tudo que meu coração sentia e não encontrava tradução. Veio a idade adulta e a menina rebelde não desgruda do corpo voluptuoso. Textos, reuniões, conversas e mais imersões. 
Dessa maneira nunca estaremos completos, e é bom que seja assim. Caso contrário, perdemos a vontade de conviver, continuar a caminhar, e a beleza de ver o outro "enfeitado" com nossos trejeitos, palavras do nosso vocabulário, menções e lembranças depois de ver / ler /ouvir algo que faça lembrar de gente. 
É gostoso e quando isso acontece, espontaneamente é claro, percebemos que deixamos no outro um pouquinho de nós.

domingo, 15 de março de 2015

O desafio do (re)começo


Na minha humilde opinião, o mais difícil não é começar, e sim o recomeçar. A sensação de criar algo novo, a partir do que já existe (ou sobrou de) assusta e apavora, contudo não intimida. É preciso um desprendimento sobrenatural para refazer, balizar, avaliar as tais perdas e danos, e pensar se é mais proveitoso desfazer-se e buscar algo novo ou recuperar o que ainda persiste.
Se o "velho" não tivesse importância, não existiriam restauradores que, meticulosamente, detêm-se ao menor detalhe de uma obra de arte ou peça histórica. E o que seria da Memória? Certamente não existiria.
Se o que é imaterial (sentimentos, paixões, pensamentos e tudo que é produzido pela mente) não tivesse valor, os poetas, compositores, que tanto se alimentam e fazem de tudo isto matéria-prima, viveriam no ostracismo e relegados à loucura de uma existência volúvel, num mundo eminentemente material.
E assim vamos pela vida. Seguindo nesta missão ora conferida pela Vida: apagar o ponto final, aplicar uma pausa e dar o primeiro passo. Como diria Chico Science : "Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar". Ou como diz o Poeta cantador Siba : "Toda vez que eu dou um passo, o mundo sai do lugar".
E desce mais uma.