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domingo, 25 de maio de 2014

O Embarque...

                                              

“E quanto mais longe da infância,
quanto mais perto do presente,
tanto mais insignificantes
e duvidosas eram as alegrias”
(Liev Tolstoi, in “A Morte de Ivan Ilitch”)

A cena se abre com nós dois sentados no fundo de nossas consciências. Somente você, eu e as nossas lembranças que sempre insistimos em manter presas num suposto esquecimento. Lá onde repousam nossos sonhos frustrados e nossos medos nos recebem com seus sorrisos amarelados e podres. É de lá, desse mesmo calabouço psicológico que vieram os fantasmas que atormentaram Ivan Ilitch em seus últimos dias. 

O velho moribundo estava condenado a enfrentar o pior inimigo do homem: a visão do próprio passado. Talvez fosse melhor a loucura, a perda total de contato com qualquer coisa que um dia foi real; a encarar as farsas em que viveu. Um homem vazio quando longe da toga que dava prestígio, uma criatura medíocre longe do título que lhe poder. Um velho estorvo condenado no fim de tudo.

"O que mais atormentava Ivan Ilitch era que ninguém tivesse pena dele como ele queria que tivessem..."
(Liev Tolstoi, in “A Morte de Ivan Ilitch”)

E o velho grita... Resmunga... Reclama... Contesta... Ensandece na dor. Mas qual dor era mais cruel? A física ou a da alma? Quantas vezes o quarto onde perecia, Ivan não tentou abafar no grito a decepção de descobrir-se um não-amado, um não-desejado, um não-querido?

Ah, amigo, acredite não há pior inferno que nossas próprias dúvidas, nossos próprios erros, nossas próprias culpas nos acordando no meio da madrugada para nos fazer contorcer em doloridos pensamentos. Os arrependimentos são os chicotes que a memória usa para nos açoitar no peito. Somos escravos, amigo! E o passado é o nosso capataz voraz.

Ivan achava que merecia mais daqueles com quem conviveu. E não somos todos assim, meu amigo? Não estamos sempre esperando que os outros vejam nossa infinita bondade, solicitude, altruísmo... Criaturas impecáveis, inteligentes, elegantes, perfeitas... Temos que ter o melhor desses que têm o privilégio de estar ao nosso lado. Não é assim que pensamos? No fundo somos todos criaturas mesquinhas e egoístas. Temos em nosso íntimo pedacinhos de Ivan que fervilha vez ou outra.

“Chorou pelo seu desamparo, pela sua horrível solidão, pela crueldade dos homens, pela crueldade de Deus, pela ausência de Deus."
(Liev Tolstoi, in “A Morte de Ivan Ilitch”)

Mas e no fim?  E quando formos nós no leito? Quem terá pena de nós? Quem não se queixará por vir tão longe para as visitas? Quem terá lembranças boas de nós ao redor da nossa urna? Será que Deus se apiedará e reconhecerá o que há de bom em nós? Deu medo? Não tenha! Mude!!! Declare morte a Ivan! Morte aos Ivans! Morte a tudo que nos adoece!

Tome coragem de fazer mudança. Olhe-se no espelho e busque seus monstros. Cace-os, aprisione-os, vença-os e reescreva suas rotas, seus objetivos, seus modos. Liberte-se dos vícios de ser melhor para aceitar a possibilidade de ser eterno aprendiz. Esvazie-se da soberba do “eu sei” para preencher-se da doce necessidade da busca.  É esse o caminho: observar, absorver, aprender, compartilhar... Plante mais amor nos seus dias. Humanize-se. O mundo não precisa de mais sábios fechados em seus conceitos e certezas. O mundo precisa de humildes humanos que ensinam.

E a cena vai se fechando. Vou deixar você aí para pensar. Sozinho como Ivan. Ele estava doente e sabia que iria morrer. Não é o seu caso. Ele nada podia fazer para mudar seu destino. Você pode. A grande pergunta é: Você quer?

Até breve!

domingo, 4 de maio de 2014

Um Dia...



"Algumas vezes,muito ocasionalmente,
digamos às quatro horas da tarde 
de um domingo chuvoso, Emma se sente em pânico 
e quase não consegue respirar com a solidão"
(David Nicholls, in "Um dia")

Ao invés de uma crônica, resolvi levar você comigo numa viagem. Por favor,  sente-se confortavelmente e entre comigo nesse sonhos que eu nem sei onde vai dar.

Os domingo são dias contraditório. A grande maioria não gosta dele. É o dia onde famílias se reúnem para juntos suportarem-se. Mas em um canto da cidade, vamos encontrar nossa personagem esperando sobreviver ao domingo. Completamente sozinha de sentimentos e pessoas, ela se esconde atrás de janelas e cortinas fechadas pedindo intimamente que ninguém sobre hipótese alguma a procure. Com a vida, ela foi aprendendo a ter medo das pessoas. 

Uma música suave toca dentro do apartamento vazio. Tão baixinho que mais parece a lembrança de conversas do passado. E ela se senta no sofá de pijamas a olhar os movimentos lentos da cortina e talvez acabar de se esvaziar do mínimo que ainda a torna humana. Olhando a mulher afundando-se assim no sofá, com braços cruzados, olhos vidrados, boca entreaberta e respiração tão suave; pode parecer aos outros um quadro quase poético. Então, vamos nos aproximar mais e olhar bem em seus olhos?

Os olhos espelhos da alma... Os dela são tão tristes! Quem os vê assim não pode imaginar que um dia eles eram repletos de sonhos brilhantes. E ela suspira. Onde foram parar seus sonhos, mulher? E da boca entre aberta um sussurro quase imperceptível e inaudível diz um nome. Como se falando aquele nome ela fosse preencher um cantinho da sala com algum momento bom. E ela aperta o próprio braço na necessidade de um abraço.

Quanto amor pode uma mulher suportar em seu peito? E os olhos marejam. Prenunciam uma tempestade de lágrimas. Por que será que ela chora? Ah, são tantos motivos! Ela chora os domingos que não existem mais e os domingos que nunca se realizarão. Ela chora uma voz que não ouve mais. Chora as juras que não se cumpriram. Chora os arrependimentos que não confessa. Chora as injustiças que sofreu e as que cometeu. É sozinha e essa é a parte do seu destino que se cumpriu e ela chora por não ter tido outra escolha.


Não! Não desista dela agora você, também. Sei que é inquietante olhar alguém assim tentando resistir ao domingo, resistir a si mesmo, alguém tão vazio... Mas pense em quantas vezes você também esteve assim. As vezes, não numa sala tão vazia quanto essa. Pense quantas vezes você se questionou do porquê de cada coisa que o aconteceu. Pense um pouco se você também, em algum dia de domingo, não foi como essa mulher. Eu já fui tantas e tantas vezes assim como ela...

Vamos lá, querida! Respire fundo. Limpe o rosto.  Levante. Só mais essa vez! A solidão é um estado de espírito e como tal, daqui a pouco muda. Você consegue! É forte! Sobreviveu a tantas coisas, não foi? A solidão é só mais um obstáculo. E você pode superar. Vai dar tudo certo, querida! Você só precisa acreditar mais uma vez. Tentar mais uma vez. Sorrir mais uma vez. E acreditar que algum dia tudo será diferente. Tudo será possível de novo, querida. Um dia... Um dia... 

terça-feira, 29 de abril de 2014

Para Cada Tempo Uma Viagem



Você vai ser sempre bem vinda
para ficar um tempo,
ou para sempre se quiser.
 (David Nicholls, in “Um Dia...”)

Gabriella, minha linda, nada que envolva viver é fácil de classificar como isso ou aquilo. E cada um se protege da maneira que dá. Uns mergulham de cabeça em serviço, em estudo, em  relações perigosas, em poesias... Cada um tem seu modo de lidar com as dores e perdas, risos e sucessos. E ninguém deve ser condenado por isso.

Eu tenho medo de esperar uma vida toda por alguém que idealizei. Então, vou experimentando pessoas. [Gargalhada] Não caia da cadeira! Não estou pregando promiscuidade. A promiscuidade é burra, sem qualidade e fria. Estou falando de correr o risco de ser feliz, mesmo que por alguns dias. Acho chato essa coisa de pensar que será “para sempre”, sabe? Já fui assim e não foi “para sempre”. Quer dizer, foi. Mas não esse para sempre de cabeça branquinha dividindo copo de dentadura. [Agora estou em crise de riso visualizando a cena] Foi o “para sempre” de Vinicius, aquele do “enquanto dure”. Durou... E acabou para começar o “Era uma vez” de novo.

Uma vez escutei alguém dizer que as pessoas só fazem conosco o que permitimos que elas façam. Se você se permite parar na vida por alguém é porque quer. E pensando dessa maneira é que não me queixo da minha dedicação ao meu ex-marido. Fiz o que tinha que fazer. Só não faço de novo porque hoje sou outra mulher. Tenho uma visão mais ampla do mundo que a menina patética que casou naquela época. É isso! Eu era uma menina, hoje sou mulher.

Infelizmente, Gabi, algumas mulheres não querem crescer. Envelhecem, mas se mantém Cinderelas a janela sem notar que o sapato de cristal está rachado e não cola mais. Eu não quero mais ser Cinderela! Eu gosto de ser loba má porque me divirto muito com caçadas e posso alternar a presa entre um bonezinho vermelho e um vovô. [Hahahaha...] Experimentar gente é experimentar vida. Experimentar vida é me experimentar. Me experimentar é sempre prazeroso.

A vida tem prazeres para quem não se esconde em alegorias de uma vida perfeita. Todo casal peida a noite, sabia? Ninguém dorme a noite toda de mão dada e conchinha. Ninguém dorme a vida inteira em trajes sensuais.  Então, eu opto hoje por não ouvir ou sentir o peido de ninguém. E ter quatro travesseiros na minha cama que sempre estão dispostos a sentir minha perna por cima dele e meus braços a apertá-los. E a melhor coisa do mundo é dormir nua ou de camisola larga e furada. Quando quero uma noite diferente ligo para aqueles números especiais da agenda. Me preparo para uma noite de degustação.

Aí você virá com o papo de afeto, amor, carinho... Quem disse que não tenho? Quem disse que eles não têm por mim? Temos! Eu os respeito e eles a mim. Por isso alguns estão na minha agenda por anos. Eu sei da vida deles e eles da minha. Somos amigos antes de amantes. Conversamos por e-mail, Facebook, Whatsapp, Celular... O que não temos é o compromisso que cansa, que vira rotina, que aprisiona. Eu sou um pássaro que viveu vinte e um anos na gaiola. Hoje eu quero voar! E voar cada vez mais alto.  Quero ser águia!

Talvez eu sinta necessidade de ter um pouso certo novamente. E dividir copo de dentadura. Mas isso, já uma outra viagem, outra história, para um outro tempo, para uma Waleska que ainda não chegou.


Beijinhos!!! 

sábado, 26 de abril de 2014

Viver: Uma Estrada Sem Fim



Era hora de dar um sentido à vida.
Hora de começar de novo.
(David Nicholls, in “Um dia”)

Há de aprender com a vida aquele que descobre que ela vai além dos limites que os olhos alcançam. Há vida acontecendo nos micro-cantos do jardim nesse instante em que meus pensamentos se esbarram uns nos outros no desespero de sair sem ficarem esquecidos em mim.

O livro da vida foi escrito em várias línguas e poucos homens conseguirão ler. Não há faculdade no mundo capaz de fazer o homem mensurar a dimensão desse livro de capa velha escrita em páginas a partir dos sonhos de uma energia boa que convencionalmente eu chamo de Deus.

Há de aprender a viver aqueles que se deixarem ampliar através de suas dores, de seus amores, dos cheiros que o vento trás... Porque a vida está além do que as mãos tocam. A vida está no olhar. E é ele que precisa alcançar a essência no olhar do outro. É do encontro das duas essências que nasce o tal amor que as pessoas procuram tanto em curvas e perfeições.

Para viver é preciso espalhar-se pela vida como hibisco. Sempre que possível pontuando-a com flores e perfumes. Para viver é preciso não ter medo de ser tocado e é preciso correr o risco da lágrima ou do riso. Porque viver é atravessar dias de felicidade e noites de angústia sem perder a fé no caminho.

Permitir a si mesmo ser vinte e quatro horas fiel a si sem esquecer que ser fiel a si, é pertencer-se sem ignorar o outro. Viver é olhar a diferença dos que nos rodeiam sem julgamentos. É olhar os passos dos outros e entender as atitudes através das pedras que seus pés tocaram no caminho. É entender que ainda que não possa chamar todos de amigo e acolher, posso ao menos olhá-los com humanidade e desejar que eles caminhem em paz.

A universidade nos profissionaliza, mas é no ser humano que se aprende sobre a vida. Um homem do campo entende mais da terra que eu sei tanto das letras, e assim sendo ele me merece meu respeito no seu falar errado. A prostituta entende da noite, o vigia entende do silêncio, o pescador entender do mar, a freira entende mistérios, o doente entende do medo, o médico conhece da morte... Há sempre alguém que entende melhor de algo da vida que nós não alcançamos. E o fazem porque percorreram caminhos que desconhecemos.

Ninguém pode percorrer todos os caminhos e beber de todos os vinhos da vida. O que podemos é ouvir do outro e tentar entender. E entender nunca será o mesmo que viver. Contudo, é o mais perto que podemos chegar da experiência do outro. E quando a fome do outro nos deixa faminto, quando a solidão do outro nos invade, quando a loucura do outro nos alucina... Quando de alguma maneira, por instantes que sejam, nos esvaziamos de nós e de nossas certezas para sermos preenchidos pelo outro; então, estaremos começando a viver.

Ampliar-se ao invés de isolar-se, encaixar-se ao invés de adaptar-se, lapidar-se ao invés de emoldurar-se... Ser o vento na ventania e o remo na calmaria. Ser o raio da tempestade e o mormaço dos dias de calor. Ser a pétala da rosa na primavera e a semente esperançosa no inverno. Ser João e ser Maria. Experimentar. Ousar. “Ser” além de tudo. Crer, apesar de tudo. E amar acima de tudo. Isso é viver! 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Escolha De Um Futuro Inteiro




Eu confesso que ler Gabriela Lima me leva as gargalhadas. E esse jeito “bruto” de que ela fala é divertidíssimo! Deus estava de muito bom humor quando criou o mau humor de Gabi. [Risada] Mas vamos pensar, não é Gabi?

Enquanto penso lembro-me de uma adolescente dançando tão estranha quando Renato Russo em seu quarto entulhado de livros e dúvidas. “Somos tão jovens! Tão jovens! Tão jovens...”, ela se agita e sonha.

Quando se é jovem achamos que o tempo está ao nosso favor e tudo nós iremos fazer diferente. Porque temos em nós uma chama de esperança inocente. A universidade é uma fogueira mágica centelha possibilidades douradas a nossa frente. “Eu serei diferente e farei história”. E com o passar do tempo o bacharelado começa a frustrar essas chances de mudança. E vem a vontade da pós, do mestrado, do doutorado... Mas junto com essas graduações, vem também a maturidade e senso de percepção de que nada mudará de seu status quo porque um dia um jovem sonhou.

E aí a menina começa a pensar que “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Mais Belchior e menos Renato, o foco de mudança passa a ser outro. Um mais viável e coerente. Não posso mudar o mundo, mas posso me mudar para o mundo ou mudar o mundo a que pertenço.  Saímos de um estado de desejo “lato-impossível” para um “strictu-real”.

Mas é preciso que o jovem continue a ver tudo com soluções fáceis, com seu jeito sonhador, com sua maneira de achar que o mundo com ele a frente ou do modo dele será diferente. É preciso para nos lembrar – e quando falo “nos”, falo da geração com menos pés no ar – o quanto é bom crer, esperar, ir a luta... Porque isso motiva. E desmotivação não é bom para ninguém. O olhar juvenil suaviza as olheiras maturidade.


Para finalizar me deixe confessar um segredo: eu fiz algo diferente exatamente como prometi na minha juventude. Eu não interfiro nas decisões letivas de meus filhos. O meu mais velho me disse “Não quero fazer faculdade. Não agora! Tudo bem?”. E eu concordei. Ele tem dezessete e está se formando em Segurança do Trabalho, quer descobrir o que é trabalhar e tentar se descobrir a partir daí. Eu na idade dele tive que fazer faculdade. Não fazia a menor ideia do que queria. Já tinha feito inglês sem gostar – sete anos de Cultura Inglesa sem suportar a língua fora uma tortura tremenda; e ainda me impunham a tal faculdade. Fiz letras. Porque foi mais cômodo para mim. Mas meus pais "se formaram" na Faculdade e ficaram felizes com isso, eu acho que ainda vagueio em espírito por lá. 

As únicas coisas que realmente guardo com amor da faculdade foram as palestras e aulas com os grandes medalhões das áreas que gostava. Gente como Evanildo Bechara, Sílvio Elia, Leonardo Boff, João Gilberto Noll, Nelson Rodrigues Filho, Junito Brandão, Nélida Piñon, Flora Sussekind e outros que mudaram meu pensar. Descobri a filosofia, sociologia, mitologia, política... Fiz cursinhos nessas áreas e também de contadora de histórias, coral, neurolinguística... Tudo que não foi curricular valeu a pena e compensava a tortura de estar no lugar privilegiado que eu não queria para mim.  

Meu filho, que tem nome de santo que é mais bonito, se formará no que quiser quando quiser porque ele é hoje como a adolescente sonhadora que descrevi no início “Tão jovem... Tão jovem... Tão jovem...” como vocês. E não precisa de um diploma para me dar porque eu já tenho. E se a sociedade exige que ele tenha um, sei que como a mãe ele vai saber olhar e dizer "Faça você o vestibular e seja feliz", e vai sai por aí sem lenço e sem documento. E eu vou com ele! Por que não? 


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Para Toda Promessa Uma Resposta



“Os sonhos da juventude,
São os pesadelos da maturidade”
(William Hjortsberg, in “A Lenda”)

Eu fiz promessas que não cumpri, Bruna! Penso que na mesma proporção que também fizeram a mim. Promessas de amar para sempre e de nunca esquecer.  Mas o Amor é um senhor que, as vezes, esquece de casa e que troca de nomes. E houve amores que viraram carinho, amizade, saudade. E o Nunca é uma terra formada de corredores com grandes portas. De repente abrimos uma e nos perdemos por aí só nos dando conta de que esquecemos quando não sabemos mais o caminho de volta.

Quando eu tinha vinte e dois, eu jurei “Até que a morte nos separe”. Acordei numa manhã de março e um cadáver empestiava a sala com cheiro de traição. A morte finalmente tinha acabado com a minha jura e eu enterrei dezessete anos de mim em algumas malas que foram se amontoando na varanda.Eu tive mais tempo que os protagonistas para o adeus. Mas ter mais ou menos tempo diminui o sofrimento que há na lágrima que pontua o fim de uma relação?


 “O que esperar da vida e suas artes dos encontros?”, você nos pergunta. Lembrou-me Vinicius:  “A vida é arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. Tudo que podemos fazer é esperar que haja uma próxima vez, uma próxima chance, uma próxima página... E se vierem novos desencontros, esquecimentos, partidas... Que não nos falte, então, caneta, folha e inspiração para abortarmos as dores em poemas e canções. 

terça-feira, 15 de abril de 2014

Sobre Montanhas e Rochas


“O que são homens comparados a rochas e montanhas?”
(Jane Austen, in “Orgulho e Preconceito”)

Quero viajar nessa frase de Jane Austen! Na verdade, peço licença para ir um pouco além e falar um pouco de um pensamento que me ocorreu de a partir do de Jane. Quero falar de homens-rochas e homens-montanhas que, em minha opinião, são diferentes embora possam alcançar o mesmo tamanho e aparente poder.

Ao pensar em Homens-rochas visualizo pessoas de insensibilidade extrema. Incapazes de curvarem-se as coisas do mundo. Aquele tipo de pessoa que olha o telejornal e resume a fome do mundo com a típica frase “Por que fazem filhos se não podem nem consigo?”. Gente que passa pelo mundo ignorando o alheio. Homens-rochas não têm tempo para nada! Andam com pastas e papéis embaixo do braço de lá para cá, são impacientes e carrancudos nas filas, reclamam do calor e do frio, questionam a real necessidade da chuva, ignoram o sorriso e a beleza de uma canção...

Mas temos que ter paciência com os homens-rocha. Muitas dessas pessoas foram endurecidas no calor da dor. Algumas explodiram numa erupção de paixão, mas esqueceram que paixão é sentimento adolescente e nem sempre tem tempo de amadurecer para virar amor. Sentindo-se incapaz de se apaixonar novamente esses seres se endurecem nas juras de nunca mais se apaixonar. Outros demoram tanto a experimentar o mundo lá fora por medo, talvez, que  sofrem pressões de todos os lados. E com tanta pressão daqui e dali, vão perdendo a vontade de sair de si e segmentam sua essência em mundos particulares no medo de não estarem preparado para outros mundos que estão além de si.

Há os que querem espalhar sua dureza por aí. Destruindo sonhos alheios com desesperança e palavras negativas. Ah, como tenho horror a esses aí! Gente ruim que torna pedra tudo que há ao seu redor por não suportar ver a beleza florescer nos corações  ao seu redor. Ainda bem que para essas pessoas que são contaminadas por essa gente-rocha podre, existe a fé e a esperança que ficam escondidas dentro deles esperando só um toque, um novo momento, um escultor disposto... qualquer coisa que os resgatem e os preparem para se tornar quem sabe os tais homem-montanha.

Porque  para mim homem-montanha é aquele que forte e que já suportou muitas intempéries, mas mesmo assim estendeu-se para todos os lados para ousar, arriscou-se a ir até onde pode; e quando não pode mais alongou-se para o céu . Homem-montanha abre-se para que outros os habite e  permite que esses novos habitantes tragam com eles novas experiências, tons, sabores, cores... que serão agregados ao homem-montanha que entende que é preciso estar nesse mundo para somar e multiplicar. Homens-montanha revestem-se de flores, folhas, bicho, nascente... São universos repletos de mistérios, mas abertos a visitação. São extensão positivas de si para a vida de outros. Germinam possibilidades e sonhos em quem toca. É rocha firme para suportar a vida, mas é terreno fértil para quem se aproxima porque está sempre disposto a compartilhar, a doar, a agregar...

No mundo deveria haver mais homens-montanhas compromissados com o outro. Pessoas de coração de mundo inteiro com capacidade de nos fazer voar quem veio ao mundo com uma asa só. Gente-cobertor que acolhe nos momentos de medo, frio ou solidão. No mundo deveria haver mais... Sei lá! Mais humanos, menos gente.


Até breve!!!

quarta-feira, 26 de março de 2014

CORREÇÃO DE CARÁTER



Por Gabriella Gilmore

Eu conhecia Jane Austen pelos filmes, mas ainda não havia lido nenhum de seus livros. Fui agraciada com Orgulho e Preconceito este mês e estou apaixonada. Acontece que Austen escreve da forma como eu gosto de ler. Adoro diálogos, e como meu cérebro não processa muito bem autores que descrevem muito o ambiente e cenário, eu aproveito melhor textos introspectivos. Um mapa interior me cai melhor. "Olha para fora Gabi!" Diria Zibetti para me atormentar, rs, porém o interior sempre me chamou mais a atenção.
A princípio, achei que o livro abordasse preconceito racial, ou coisa do gênero, e estava curiosa para saber que tipo de orgulho ele tocaria, e mais uma vez a autora conseguiu me conquistar. A leitura tem sido leve e agradável, e no meio de tantos personagens de personalidade forte e distinta, você acaba se identificando com algum. Ate o momento, estou na mente e no coração de Elizabeth. O que será que minhas companheiras de clube estão achando?

- Existe, acredito, em cada temperamento a tendência para algum mal, uma falha natural que nem mesmo a melhor educação pode extinguir. Falou Sr.Darcy.
- Seu defeito é uma propensão a odiar todas as pessoas. Retrucou Elizabeth.
- E o seu - replicou ele, sorrindo - é fazer questão de não compreendê-las.

Nesse trecho os personagens falavam sobre o jeito difícil e orgulhoso que Darcy encara a vida. Creio que no decorrer da trama, algum motivo Darcy deve ter por agir assim. Eu o adoro e não acho que ele seja vilão, inclusive não é atoa que Eliza se apaixonará por ele.

Você já se apaixonou por alguém que odiava? Eu já.

quinta-feira, 6 de março de 2014

AOS TRINTA ANOS





Por Gabriella Gilmore

“De fato, uma donzela (aos 20), tem demasiadas ilusões, demasiada inexperiência, é o sexo o grande cúmplice do seu amor, para que um homem possa se sentir lisonjeado, enquanto uma mulher (de 30), conhece toda a extensão dos sacrifícios que tem a fazer. Uma é arrastada pela curiosidade (20), por seduções estranhas às do amor, a outra (30) obedece a um sentimento consciencioso. Uma cede, a outra escolhe”.
Resumindo: aos trinta anos a mulher sabe o que quer. Por isso é fácil se casar cedo, porém, para as mulheres de 30 fazer lista de prós e contras salva vidas.
Ontem me deparei com um ex namorico na rede e mesmo não tendo notícias dele há anos, ele de cara perguntou se eu estava casada e se eu gostaria de ir morar com ele. Achei super engraçado o papo torto, e logo fui falando: Não gosto de sexo, não quero ter filhos. Ele se chocou. (Adoro chocar as pessoas). Defendi com louvor o fato deu ter me tornado seletiva demais, e de canja o mandei ler o artigo que escrevi “Solteiras sim, por que não?” [ Leia aqui ] e ele discordou dizendo que Deus deseja que sejamos felizes com alguém. Eu abri um parênteses, claro, falando que Deus quer que sejamos felizes sim, mas bem acompanhados ou solteiros por opção. Casamento virou lei agora?
Estou achando o máximo o assunto desse livro, porque ele levanta temas que ainda choca e rotula as pessoas.

“Enfim, além de todas as vantagens da sua posição, a mulher de trinta anos pode se tornar jovem, representar todos os papéis, ser pudica, e embelezar-se até com a própria desgraça.”


A segurança em si própria é algo que me chama a atenção nesta fase. Obviamente há pessoas que estará vivendo os 30 com postura de 20, e por ai vai, mas no geral é uma fase em que a mulherada tem que se curtir muito e orgulhar-se do quê tem se tornado.
E você? O que está achando dos 30?

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Resposta Para o Post: Solteiras sim, por quê não?


"Quando me amei de verdade,
parei de desejar que a minha vida fosse diferente
e comecei a ver que tudo o que acontece
contribui para o meu crescimento.
(Charles Chaplin”)

As pessoas me perguntam sempre: “Você não vai casar de novo?”.  Imediatamente eu respondo: “NÃO!”.
Não! Eu não sou traumatizada com o casamento. Eu fui feliz por um tempo dentro dele. Mas lembro das mudanças que falei que acontecem aos 30? Pois bem, eu passei  por elas e comecei a me interrogar sobre “vida a dois”. E de repente ficou muito difícil me calar para as coisas. É preciso saber que tudo tem um tempo para ser. E é preciso identificar esse tempo. Quando o prazo de uma relação expira, é melhor dar “adeus” que viver em suspiros e lamentações.

Quando me separei vieram cobranças. E por uns meses olhei-me mutilada. Onde estava a parte que me completava? Cheguei a pensar que eu era mesmo incapaz de ser feliz e fracassada como mulher. – Olha o tamanho da idiotice! – Mas o tempo passa e um dia me encarei no espelho e... BOOM! Tinha outra mulher me olhando. Era mais bonita, seu olhar mais firme e brilhante, era desejosa de vida... Completa.
Estar sozinha, fez com que eu buscasse em mim tudo que eu precisava. Abandonando a dependência, pude olhar para cima. E que delicia foi descobrir que o mundo me esperava de braços abertos. E que a vida estava começando para mim.

Casamento é bom sim! Mas não é tudo. TUDO é o amor. O amor que deve começar em nós e se expandir para os que nos cercam dormindo ao nosso lado ou não. 
(Waleska Zibetti)

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Casamento, instituição falida (?)


Por Gabriella Gilmore


Estamos estreando nosso clube de leitura virtual com o título de Honoré de Balzac chamado A mulher de trinta anos.
Acredito que todas nós, do clube, vamos nos identificar com o tema. Eu e mais duas colegas estamos chegando aos 30.
Estou solteira basicamente por opção. Hoje nós não temos mais aquela pressão de casar para não ficar encalhada ou mal falada na sociedade, como mostra o caso da personagem Julia no início do século XIX. Antigamente o papel da mulher era ser esposa, dona de casa e mãe. Hoje as mulheres podem ser isso e muito mais, abrindo assim o seu leque de opções.
Eu costumo ser durona quanto aos meus sentimentos, e vivo dizendo que não acredito no amor. Mas lá no fundo eu ainda acho que esse amor romântico (por não tê-lo encontrado) possa ser a causa da minha “solteirice”. 
Há um trecho de uma carta que Julia escreve para Luiza no qual preciso dividir com vocês.
Juramos ambas que a primeira que casasse narraria fielmente à outra esses segredos do himeneu, essas alegrias que as nossas almas jovens nos figuravam tão deliciosas. Essa noite será o teu desespero, Luiza. Naquele tempo eras novas, formosa, despreocupada, senão feliz; um marido tornar-te-á, em poucos dias, o que eu já sou, feia, doente e velha. Dizer-te como me sentia altiva, vaidosa e feliz por desposar o coronel Vitor d’Aiglemont seria um loucura! E como havia de dizer agora? Já nem me lembro sequer de mim. Em poucos dias, a minha infância tornou-se como um sonho.”
Esse trecho mostra um pouco a decepção que a personagem tem após um ano de casada. O que será que ela esperava encontrar com o casamento? E como ela deve estar se sentindo por não ter escutado a opinião de seu pai, quando este não aprovou o seu casamento com o coronel?
Nos dias de hoje, muitos dizem que o casamento é uma instituição falida, o que você pensa sobre isso, caro leitor?!
O tema deste livro será discutido até dia 16 de março. Deixe sua opinião e interaja conosco.
Até o próximo post.

Beijos!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

1° Livro das discussões - Honoré de Balzac - A mulher de trinta anos

Primeiríssima Leitura do nosso Clube é:
A mulher de trinta Anos - Honoré de Balzac

Sugestão de nossa colunista Bruna Mota

Segundo Paulo Rónai, "esse conjunto de seis episódios disparatados, mal reunidos entre si e rematados por uma conclusão melodramática, é mais apropriado a enfastiar o leitor do que a fazê-lo procurar outras obras do romancista."

Portanto nos acompanhe durante a nossa jornada!
Pegue um chá ou um cafezinho e se delicie!