Mostrando postagens com marcador Brasileiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Brasileiro. Mostrar todas as postagens

domingo, 11 de janeiro de 2015

Enquanto Isso...



Enquanto ele caminhava pela rua pensava na infância agora tão distante. Era tempo de carrinho de rolimã e pipa com rabiola de jornal. Sua mãe era pobre demais e hoje ele tem coisas que nunca poderia imaginar naquela época. Tomava suco da fruta da época... Riu lembrando-se que na sua infância cada fruto tinha seu tempo e tudo estava ali descendo os seis degraus que separavam a casa do quintal. Ele tinha um cão de nome Corisco. E então se riu a valer sozinho caminhando pela rua. Corisco era nome de cavalo e de corisco seu cão não tinha nada: era magro, pulguento e vermelho de terra.  “Um dia bate um vento e leva esse bicho” – repetia sua mãe enquanto escolhia feijão para o almoço. E ele fechou os olhos por um segundo para sentir o cheiro. Ele só não sabia qual cheiro procurava se o da mãe, o da comida na lenha ou o da infância. E lá vai ele rua abaixo...

Ela estava indo pela rua como sempre fazia organizando em seus pensamentos a sua agenda apertadíssima. Enquanto caminhava apressada pela rua em seus saltos, ela revirava coisas na bolsa. Ela sempre procura na bolsa alguma coisa. Nunca entendeu que o que ela procura não está na bolsa. O que ela procura está nos olhos de alguém que ela nunca verá porque tem os olhos preso no fundo preto da bolsa lotada de coisas vazias. Ela tem que ir ao banco pagar a conta que vence hoje e ao dentista as quinze depois de passar na lotérica e fazer uma fezinha. À noite ela vai chegar a casa e preparar o jantar (macarrão que é mais rápido porque hoje a novela vai ser boa e ela não pode perder). No fim da noite ela abraçará o travesseiro pensando em coisas que fará amanhã enquanto revirará pela rua a sua bolsa de inutilidades. E lá vai ela rua acima...

Ele passa por ela e perde seus pensamentos felizes olhando curioso para a mulher linda que se esconde na bolsa. Ela nem ouve quando ele sorri e lhe diz bom dia porque ela sabe que estava ali, em algum lugar, o endereço da agência. E lá vai ele rua abaixo. E lá vai ela rua acima.
(Waleska Zibetti, in "Enquanto Isso")

domingo, 6 de julho de 2014

O Homem Que Desafiou o Diabo



Lançamento
28 de setembro de 2007 
Duração
1h46min
Dirigido por
Moacyr Góes
Com
Marcos Palmeira, Fernanda Paes Leme
Gênero
Comédia
Nacionalidade
Brasil

Sinopse e detalhes
Zé Araújo (Marcos Palmeira) é um homem boêmio, que gosta de freqüentar cabarés e ouvir cantadores de viola. Após tirar a virgindade de uma turca, ele é obrigado pelo pai dela a se casar. Durante anos Zé passa por seguidas humilhações, provocadas por sua esposa. Um dia, ao ouvir uma piada sobre sua situação, ele se revolta, destrói o armazém do sogro e ainda dá uma surra na esposa. Ao terminar ele monta em seu cavalo e parte sem destino, decidido a ter uma vida de aventuras. A partir deste dia Zé Araújo passa a ser conhecido como Ojuara, enfrentando inimigos e vivendo situações inusitadas.

Minha Opinião

Um passeio pelos cenários nordestino brasileiro através da linguagem de cordel é a proposta dessa divertida comédia nacional que assisti nessa última sexta-feira. Um filme sem grandes pretensões aparentes, mas com algumas mensagens subliminares que desconstrói as figuras típicas do interior.

O Zé Araújo é o caixeiro viajante acostumado a estrada que cai na armadilha de uma mocinha e acaba no cabresto. Com o tempo, meio que se acomoda com a situação. Até que decide matar o seu “eu ridicularizado” para dar vida ao seu alter ego  Ojuara – Araújo ao contrário. E a partir daí, Zé vira mesmo o seu inverso. Cria e traça novos rumos para sua vida, sua coragem vai abrindo portas nesse mundo e no mundo dos espíritos. A diversão é garantida numa atuação ímpar de Marcos Palmeira.

Ah, por que falar desse filme? Bom, pense bem em quantas vezes você não quis ser o seu inverso. Eu adoraria deixar nascer a Akselaw e aventurar-me por aí em novas experiência sem o peso das responsabilidades que a Waleska tem, sem tantas poesias e borboletas no pensamento... Uma mulher mais prática e fria. Está chocado? Fica não! Eu queria ter um coração mais pedra que é para pensar um pouco mais em mim. Talvez seja egoísta de minha parte, mas...

Desafiar o diabo, não foi o ato de maior coragem de Ojuara. Penso que o que o torna um personagem especial é o desafio que ele se propõe para si ao longo de seu caminho, a determinação de atingir uma cidade fantasiosa onde paz e as coisas boas reinam. Ojuara é representação da determinação nordestina que não desiste de uma vida simples e justa. E essa determinação de Ojuara é invejável!


Senhores, deixo-lhes agora com o próprio Ojuara, esse anti-herói mais “heroístico” que já conheci que mal comparando podemos chamar de Quixote brasileiro sem Sancho Pança e com uma Dulcinéia prostituta. Hei-o, senhores, Ojuara!

“O meu nome é Ojuara eu vim de longe e vou em frente, e o senhor não é mais feio que certo tipo de gente. Feio é a herança do homem, a herança de Caim. Praga de mão ofendida, tentação do coisa ruim. Feio é aquela sombra escura que vai levando consigo o covarde que traiu a confiança do amigo. A beleza e a feiúra tão junta em toda parte, a beleza inté na morte, e feiúra inté na arte. Olhe seu rosto no espelho e não perca a esperança, porque foi Deus que lhe fez, à sua imagem e semelhança.”