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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Morangos Mofados: o Fim.



E com dó e dor me despedi de um livro que busquei por tanto tempo e acabou chegando de surpresa de aniversário. E o que dizer do conto título desse livro? Eu não sei exatamente. Chorei. Mas não sei se foi choro de tristeza porque chegou o fim da linha ou se chorei porque também sinto em mim o mesmo câncer que o personagem. Acho que chorei porque o livro todo mexe nas lacunas que carregamos. Ele veio desde o início me desconstruindo e no final quando eu era pó revirado, ele me fez renascer para uma nova consciência do ato de escrever. Desde o porquê até a a responsabilidade com quem lê. Nunca me vi escritora, embora sempre ouvisse que sou boa nisso. Mas agora sinto que ninguém foge desse dom. E inevitavelmente temos que escrever os sentimentos e emoções que nem sempre são nossas, mas que nos são doadas diariamente pela vida. O escritor tem o dever de dizer o que a maioria não consegue. Então, entendi que é por isso que quando falo tudo meio confuso a quem me ouve, mas quando escrevo toco naquele profundo que faz o outro chorar, suspirar, sorrir, se identificar, me ver…

Ninguém entra no universo de Caio Fernando e sai dele da mesma forma. E estranhamente enquanto escrevo isso penso: alguém sai do universo de alguém exatamente como entrou? Não! Somos canais. Todos nós e cada qual transforma o outro com as armas que tem.

Caio me transformou numa deia de escritora melhor. Digo ideia porque não sei se consigo ainda olhar para mim como escritora, mas sei que sinto que meus olhos e pensamentos não seguem o fluxo da maioria. E cada delírio meu diante de algo visto ou vivido nada mais é que o momento de conceber algo que alguns chamarão de literatura. Ou como diz o próprio Caio Fernando numa carta que ele escreveu a José Márcio Penido onde ele fala do processo de criação, eu entendi que “escrever é enfiar o dedo na garganta”.

Toda pessoa que se diz LEITOR, tem por obrigação ler essa obra. Tem que provar o mofo dos morangos e morrer de câncer para renascer essa outra coisa que sinto aqui agora em mim. Tem que provar “disso”. Eu não sei definir, mas é uma coisa que inexplicavelmente precisa ser vivida. E então, no fim do livro com dó e dor entender que de alguma forma você é parte de um processo que não finda nunca mas que é de extrema importância estar dentro, fazer parte, sentir o movimento chacolhar-nos como coqueiros nas tardes de ventania de verão. Entende? Talvez não ainda. Mas entenderá quando ler. E aí você fará parte dessa coisa de que falo e que agora você só sente como uma viagem minha, particular.


Maravilhoso. É só isso que posso usar para definir “Morangos Mofados”. Maravilhoso. Ma-ra-vi-lho-so! 


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Sobre Morangos



Quando comecei a leitura da segunda parte de “Morangos Mofados” pensei que leria textos ainda mais poéticos, mais líricos, suaves… A ideia de que os “morangos” escorregariam pelos meus pensamentos trazendo-me frescor e leveza para os dias, foi para o ralo no primeiro conto.

Na verdade os “morangos” despertam em nós uma fome louca de pensar e revira-nos o estômago em centenas de experiências que comodamente deixamos esquecidos no inconsciente. Eles travam na boca com um gosto amargo. E descem rasgando abrindo velhas feridas. (Ao menos foi assim comigo!)
Eu estava em cada conto lido. Um pedaço de mim tatuado em cada um deles. Na solidão do espelho, no passeio de carro, na inocência perdida, nos quadros, nos medos, nas dúvidas. E de repente, eu mesma era Caio Fernando de forma íntima e dolorosa. Eu sentia cada momento na minha própria pele, cada conflito, cada febre. Acho que os morangos ressuscitaram cada um dos meus moinhos de vento com os quais batalhei toda uma vida e eu me vi revirando-me toda intensamente.

Contudo, em momento algum tive pena de Caio ou de mim. Nem mesmo aquela vontade tão corriqueira de chorar o que seria lógico naquele momento. Eu deveria ter chorado, chorado, chorado… até esgotar de mim tudo aquilo que se remexia e doía em mim e em Caio. Mas eu não tive dó de nós dois. Porque esses personagens que circularam por mim e Caio é que nos fizeram o que somos. Ele foi grande porque tinha esses personagens para provocar-lhe a essência poética. E eu, tornei-me essa torre agigantada e para nessa coisa meio poeta e louca que sou.

Tinha, pois, a cada leitura a ilusão de andar num trem cada vez mais descarrilhado partido de não sei onde e indo para uma certeza de infinito que nunca se findará porque sempre virá um novo personagem. E eu lia, lia, lia… Porque já não era mais Caio era eu olhando da janela aquelas paisagens de passado ou de borrão futurístico. Meu Deus! Que sensação impressionante! Quantos sentimentos intensa e insanamente confusos.

Não, senhores, ler os “morangos” não foi fácil que o “mofo”! Definitivamente foi dolorido. Sadicamente prazeroso. Mas li-os, ou os engoli, um a um. Saboreando o amargor como quem espera nisso algum tipo de redenção ou salvação. Então, não pude desmembrá-los como fiz com a primeira parte. Não dá! Os morangos são um monobloco sensitivo. Só existem assim unidos, intrincados.

Contudo, penso que entendi Caio Fernando como nunca entendera antes. Entendi todos os outros que li antes desse. Eu furei a fila, sabe? Minha relação com ele tinha que ter começado aqui. Para depois vir “Os Dragões Não Conhecem o Paraíso”, “Onde Andará Dulce Veiga”, “O Triângulos das Águas”, “Ovelhas Negras”… Hoje, não sou mais uma leitora de Caio Fernando. Hoje, sou uma parte dele. Uma parte que sobreviveu.

Talvez seja assim que os artistas se eternizam. As pessoas se identificam com o que leem, visualizam, tocam… E eles sobrevivem ao seu tempo e a todos os tempos que virão. Imortais enquanto seus sentimentos existirem em algum fã. Eternos na identificação do outro na sua própria dor, alegria, ódio, amor…

Ah, que ilusão e surpresa foi essa de achar que os Morangos seriam mais fáceis e doces. Que paixão me despertaram ser aqueles personagens e o reencontro com os meus próprios. E agora serão os dois. Unidos os Morangos e o Mofo que me esperam na terceira parte. E que será que REALMENTE me espera lá? Não sei! Mas antes de ir até eles, vou respirar um pouco e beber um vinho.


Até breve.

Waleska Zibetti


segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Morangos Mofados – Parte I: O Mofo



Conto 1: Diálogo

Tudo é simples. A tal complexidade das coisas somos nós quem criamos com nossa eterna mania de procurar um porquê para tudo. Nem tudo tem porque e é porque deve ser. E amar alguém é simples como o ato de piscar os olhos. 

É desse “complicar o simples” que Caio fala nesse primeiro conto. E será que um dia chegamos a um ponto que esses porquês desaparecem? Caio também responde essa questão de maneira sábia. Mas eu não contarei como, claro!

Conto 2: Os Sobreviventes

Lembrei-me demais de James Joyce em “Monólogo de Molly Bloom” ao ler esse conto. Ri, chorei, odiei e me identifiquei com a personagem em crise. Mas que fique claro que não é um monólogo. É que ao ler imaginei-me no lugar dela conversando da minha própria vida com um de meus fantasmas. Coisa minha!

O conto é poético e lindo – Falar que Caio Fernando é lindo me parece tão pleonástico -, mesmo dentro dos tons ácidos e irônicos que carrega. Vou deixar-lhes o trechinho do conto que mais gostei. 

“Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia, ela para e pede, preciso tanto tanto tanto, cara, eles não me permitiram ser a coisa boa que eu era...”
(Caio F. Abreu, in “Os Sobreviventes”)

Conto 3: O Dia Em Que Urano Entrou Em Escorpião (Velha História Colorida)

Estranhos personagens compondo outro cenário cotidiano. Tão caótico quanto pode ser o cotidiano moderno. E tão egoísta, também. Quatro indivíduos em uma única sala evitando-se em assuntos desconexos ou tentando fazer com que suas próprias questões sejam tratadas como prioritárias ou pelo menos urgentes necessidades. O clima do terceiro conto inicia-se mais ou menos assim “Farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Mas quando se tem alguém determinado a convencer o outro de uma ideia tudo pode acontecer. Desde nada mudar até uma outra realidade começar, não é mesmo? E no conto de Caio... 

Trechinho...

“...ela lia muito, e quando contava uma história nunca sabia ao certo onde a teria lido, às vezes não sabia sequer se a tinha vivido ou não lido...”
(Caio Fernando Abreu, in “O Dia Em Que Urano Entrou Em Escorpião”)

Conto 4: Pela Passagem de Uma Grande Dor

Sabe aquelas histórias que nos fazem revirar e repensar o profundo de nós, nos fazendo miúdos diante do gigante e vasto universo que há por detrás da porta? Esse conto é dessas histórias. A ausência de nome para os personagens ou qualquer outro tipo de característica nos faz ainda mais íntimos deles. Houve aquele momento em que eu era ela querendo ele e outros onde eu era ele num conflito entre querer ficar só e a querer por perto. Pensei, então, em Nietzche: É difícil viver com as pessoas porque calar é muito difícil. 

Olhem que delicia de trecho:

“Imóvel assim no meio da casa, o som desligado e nenhum outro ruído, era possível ouvir o vento soprando solto pelos telhados”
(Caio F. Abreu, in “Pela Passagem de Uma Grande Dor”)

Conto 5: Além do Ponto

Parei dez minutos para tomar ar. Eu precisava disso depois que li o título do próximo conto. O motivo é que esse fora o primeiro encontro entre Caio e eu. Como se não bastasse, o personagem desse conto “é” alguém que eu amei demais. Confesso que quase pulei a leitura. Mas Caio não merecia isso. “Ele” não merecia isso. Eu também não merecia. Então, parei os dez minutos para tomar coragem e voltei depois quando reencontrei dentro de mim a paz que é preciso para ler. Volte e entrei na chuva indo ao encontro deles (Personagens da ficção e personagens do meu passado).

O conto “Além do Ponto” é o conto mais asfixiante que já li. E essa impressão foi a mesma que tive na época da faculdade. Nada mudou em mais de vinte anos passados desde a primeira leitura. Delirante, sufocante, angustiante e... catártico. É para ser lido com goles de vinho numa noite de frio e chuva; ao som de algo como um blues ou um bolero. “Além do Ponto” é uma travessia e o ponto de chegada é o sentir. 

Desculpem-me, mas não haverá trechos dessa vez.

Conto 6: Os Companheiros

Uma porrada no meio do olho vinda de repente de não se sabe onde deixando tudo desconexo. Li três vezes e a cada vez que relia terminava tão perdida e perplexa quanto a vez anterior. Então, dei-me uns dias. Vinha meio desembalada, faminta... Sei lá! E retornei a leitura do zero. E aí... Nada mudou!A sensação era de cair no caos de braços abertos tentando me agarrar em um fio sensório qualquer que não veio. Acho que esse conto são peças de um jogo de montar. E você vai montá-lo trinta vezes e cada vez será a primeira. Simples assim!

Trecho...

“... aquele que muito fora amado e ferira fundo de faca a quem o amou: permanecia mudo parado suspenso entre várias coisas que já não eram e outras tantas que poderiam vir a ser, ou não.”
(Caio F. Abreu, in “Os Companheiros”)

Conto 7: Terça-feira Gorda

Deus quanta tristeza!  Por que? Por que? Quem determinou que isto ou aquilo é o certo? Não perguntem! Leiam! Repensem! Leiam e respondam: Por que? Deus quanta tristeza! 

Trecho...

“A gente queria ficar apertado assim porque nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro. Tão simples, tão clássico”
(Caio F. Abreu, in: “Terça-feira Gorda”)

Conto 8: Eu, Tu, Ele

Encaixei-me nesse conto. Não como uma quarta parte, mas como sendo alguém em cujo essa tríade existe e se confronta tanto quanto. Uma ponta sustentando a outra num quase equilíbrio. Algumas vezes, perguntaram-me quantas sou eu. Nunca soube a resposta. Mas sei que, como Caio, quase todos os meus lados são incompreendidos.

Trecho...

“... vê se me entendes: ele não se agasta, mas é dentro dele que eu me afasto. Dentro dele, eu espio o de fora de nós. E não me atrevo.”
(Caio F. Abreu, in “Eu, Tu, Ele”)

Conto 9: Luz e Sombra

A música ao fundo era “Stand by Me” nessa nova e divina versão de Florence and The Machine; e o calor carioca escaldante de um quarto onde eu me encontrava deitada era o cenário da leitura do último conto dessa primeira parte de “Morangos Mofados”.

A angústia da personagem foi crescendo em mim. Ele – Caio – falava comigo e eu solidária, solicita, dedicada respondia carinhosa e ternamente atenta a cada “Você me entende?”; na tentativa inútil e desesperada de que ele soubesse o quanto eu o entendia e o sentia naquele momento. 

Terminei o conto com lágrimas e apertei o livro contra o peito. Mãe agradecida querendo mimar o filho por ele ter me deixado estar com ele ali naquele quarto dividindo comigo suas angústias, medos, dúvidas e poesia. 

Trecho...

“O dia está muito quente. Quando a tarde avançar, sei que me encontrará sentado no degrau. E depois que o cinza tiver se transformado em rosa e em violeta e em azul profundo e por fim em negro, sei que estarei parado no centro daquele quarto, ouvindo os guinchos estridentes e o bater de asas dos morcegos. Gritarei, então. Muito alto, com todas as minhas forças, durante muito tempo. Não sei se foi esta a ordem, se será assim o depois. Mas sei com certeza que nem você nem ninguém vai me ouvir”
(Caio F. Abreu, in “Luz e Sombra”)

Nota: 

Caio Fernando Abreu escreveu o livro original “Morangos Mofados” em 1982 e o revisou em 1995. Se ficou melhor ou pior que o original, eu não sei. Só sei que o Caio é Caio e eu o amo incondicionalmente!

Até o próximo!

Beijos da Wal. 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Meus amigos são um barato

Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência
Se a Nara Leão, naquele velho disco, também achava — por que não poderia eu também achá-lo? E se o Nirlando Beirão, tão chique, tem um vizinho yuppie — por que não posso ter coisa semelhante em minha vida de retinas fatigadas? E confessá-lo de público — atente na expressão —, assim: meus amigos são um barato. Um baratão. Nos dois sentidos: o do insólito e o do inseto.
Meu amigo Pedro, por exemplo, é um barato no sentido mais tradicional da expressão. Ou não? Fico um pouco confuso, e pensan­do bem talvez ele seja mesmo uma curtição. O passatempo prefe­rido dele é, nos fins de semana, fazer tremendas vivências em Mauá. Fazer vivência vem a ser o quê? Ora, cara, tá por fora: qualquer coisa pode ser uma vivência: um chá, um baseado, uma caminhada. Im­portante é que seja em grupo. E que você vá fundo, entendeu? Com direito a nirvanas e iluminações.
Meu amigo Pedro é superfeliz. Detesta quem tem problemas: ele diz que é baixo-astral. Ele está sempre numa ótima. Detalhe: mora num apartamento de andar inteiro de frente para a praia, no Rio. Com os pais, claro — embora tenha trinta anos. Mas tudo bem: para gozar de inteira liberdade, ele pode usar uma coberturazinha absolutamente simples. Outro passatempo dele, embora adore pe­dir carona, é dirigir o Monza zerinho de manhã. Daqueles que você

aperta botões e acontecem coisas tipo fontes luminosas, faróis de laser, show de mulatas etc. Mas ele, meu amigo Pedro, é singelo e franciscano: anda sempre de camisetinha zurrapa e sandália havaia­na. Tem certeza de que, um dia, vamos todos viver em paz — na Era de Aquário. Confirmou isso no último verão, passado na Bahia, com uma pá de gente de cabeça feita.
Já minha amiga Kate, um pouco mais moça, despreza meu amigo Pedro. Comenta: "Ele acha que Woodstock foi ontem. E ain­da nem desarrumou a mochila". Ele comenta sobre ela: "Quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou". A verdade é que não conheço ninguém mais moderno (ou pós, nos dois sentidos: o do depois e o das carreiras) que minha amiga Kate. Coberta de negro, cabelo raspado de um lado, vezenquando uma peruca rosa de nái­lon. Naturalmente é performática. E faz cursos sen-sa-cio-nais: o último foi de vídeo-performance — um arraso. Minha amiga Kate acha tudo meio antigo, mas concede ir ao Satã, ao Rose Bom-Bom, dá umas bandas pelo Ritz e não pisa nem morta no Pirandello. Acha que tudo é uma questão de pique-e-pá-e-crã, sabe como? Fico numas que só...
Meu amigo Betinho é radicalmente o oposto. Faz a linha subir-com-esforço-na-vida. Quanto mais esforço, melhor. Tem visões futuristas com videocassetes, IBMs elétricas, secretárias eletrônicas louras de olhos azuis, guarda-roupas completos para as quatro estações comprados na Mr. Kitsch. Embora, no fundo, goste mesmo é de Calvin Klein. Ou — em momentos de profunda verdade interior — de um sólido Pierre Cardin. Naturalmente, ele veio de baixo. Muito baixo. Tem um problema sério: quando bebe, tem paixão por ouvir Alcione. E por tudo isso, se você for a um res­taurante com meu amigo Betinho, pode estar certo de que a conta jamais será dividida em partes iguais. Em alto e bom som, ele sem­pre dirá: "Mas eu não tomei cafezinho!"
Minha amiga Joana — ex-atriz, ex-cantora, ex-traficante — há anos largou tudo, pegou uns panos vermelhos, botou um mala no pescoço, com aquele 3X4 de Rajneesh, e foi embora pra Floripa (leia-se Florianópolis). É conhecida por lá como Bodhira, que em sânscrito quer dizer flor de não me lembro o quê. Será — haja — ló- tus? Quando fui visitá-la, fizemos muita meditação caótica juntos. Supervivência, se pintar, experimente. É um barato.
Enfim, esses são só alguns. Tem mais, talvez para uma Parte II. Mas, como todo ficcionista, sempre procuro deixar muito claro que qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas — bem, você sabe. E eu adoro meus amigos. Simplesmente adoro.
Até o Próximo Texto
Au Revoir


ABREU, Caio Fernando. A VIDA GRITANDO NOS CANTOS. Editora: Nova Fronteira, 2012. 248p

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Coração - Caio Fernando Abreu

Na terra do coração passei o dia pensando - coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só com-cor, ação - repetido, invertido - ação, cor - sem sentido - couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:
Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.
Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.

Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.
Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.
Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.
Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.
Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.
Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pôs. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.
Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.
Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco. 
Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.

Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: "Im too pure for you or anyone". Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas. 
Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.
Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.
Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro. 
Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.
Meu coração é uma planta carnívora morta de fome.
Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos - ai de mim! ai, ai de mim!
Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também.

Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso. Acesa, aceso - vasto, vivo: meu coração teu.

sábado, 1 de novembro de 2014

Os dragões não conhecem o paraíso e eu não sei mais nada da vida...

Então. Que seja doce!
(Caio Fernando Abreu)

Ninguém é capaz de compreender as coisas que vem do coração,um olhar ou quem sabe até uma explicação.
Mas quem disse que é fácil viver e sentir?
Quem aqui sabe muito do amor?
Em tempos de poucas gentilezas e muita aceleração parar para despertar é um privilégio que poucos têm.

Você tem paciência?

A caminhada dos dragões é diária e tem seu tempo certo e a existência de suas intenções faz com que sentimentos e pessoas se fortaleçam. É maravilhoso sentir que a paciência está presente em todos os momentos em cada coisa que fazemos, a qualquer hora, lugar, no que vemos. Sei que esse sentimento me estimula Para enfrentar qualquer barreira, qualquer obstáculo. Essa mesma paciência vai além das fronteiras do pensamento e acontece em cada ato que fazemos, em cada gesto, por pequenino que seja.

Você tem força?

Você não é só aquilo que enxergam por fora, tem muito de si mesmo que precisa ser explorado e externado.
Procure mais pela sua identidade no seu próprio coração admitindo que existe uma grande força e capacidade em você mesmo. Há marcas visíveis e profundas em cada ser humano que provam quem nós somos. É nas adversidades que surge a chamada força interior que nos move e impulsiona para frente, então, continue procurando pela sua força que está bem aí mesmo no seu íntimo, no lugar onde sempre esteve! Não dá mais para ficar negando e dando as costas para isso a vida inteira, viu?

Você acredita em sonhos?

Nada é como queria que fosse. Tudo é, como eu não imaginava ser. Em contradições, me deixei cair, sete, oito, nove vezes para que meus sonhos e verdades permanecessem... Você acredita em algo que seja tão forte e lindo ao ponto de transformar a si mesmo no melhor que pode ser?O céu, com todas as suas constelações está bem aí, bem dentro do seu coração. Se você acredita que está no caminho certo, não pare. Não desista, aguente firme. Não é o mundo que deve acreditar na sua capacidade de sonhar. Você tem que ter a capacidade de acreditar em si mesmo e nunca deixar que sonhos morram.


Você acredita no amor?

Há muitas razões para se duvidar e uma só para crer e, não fomos feitos para completa solidão. Acredito que pessoas se transbordam e no amor esse sentimento que pra muitos é sem medida talvez seja a cura para todos os males existentes. Se estiver amando, declare o seu amor. Cada vez mais, devemos exercer o nosso direito de buscar o que queremos. Arrisque!
Não existem fórmulas, segredos, receitas. Constam nos astros, se você por alguns minutos está ao lado de quem te olha com olhos de felicidade por estar ao seu lado, se por alguns minutos essa pessoa faz o seu coração acelerar e te transformar em alguém querido e se
aquele abraço vale mais que qualquer palavra, você não só acredita, como está vivendo esse sentimento!

Os dragões não conhecem o paraíso, eu não sei nada da vida... Mas quero continuar acreditando que existem, fadas, dragões, seres mitológicos e acreditar que o amor ainda existe!

"Dentro dela tem um coração bobo, que é sempre capaz de amar e de acreditar outra vez."
(Caio Fernando Abreu)

Até o próximo texto
Au Revoir

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Um Ponto Além



E bati, e bati outra vez, e tornei a bater,
e continuei batendo sem me importar
que as pessoas na rua parassem para olhar,
eu quis chamá-lo, mas tinha esquecido seu nome...
(Caio Fernando Abreu, in “Além do Ponto”)


Estamos sempre indo ao encontro de alguém ou de algo. Uma busca incessante pelo que nos completa e amplia como lemos nos livros, como nos contam pelas estradas, como nos falam as músicas, como vemos nos filmes. Somos seres lacunares. Almas despedaçadas. Qual parte lhe falta?

Alguns de nós são corajosos se lançam no encontro sem proteção, sem medo. Ou será a inocência que nos leva a caminhar assim tão impulsivamente por aí permitindo que o outro entre em nossas vidas e depois se vá de nós nos mutilando mais uma vez? A maior parte de nós são cicatrizes. Qual a cicatriz que mais lhe dói?

Quando realmente se quer algo não medimos esforços para conquistar. A desculpa brota de algum tipo de desinteresse. E na multidão os solitários são os olhos de caçadores ávidos atrás de uma nova presa. E na vida todos são presas e caçadores. Qual papel você está desempenhando hoje?

Contudo, é importante que sigamos... Olhe para fora de si! Há um mundo muito maior que esse que você vê. Até onde podemos ir para atingir o que idealizamos? Mas aproveite as curvas do caminho para experimentar-se. Nos atalhos moram os perigos que fazem a diferença. O proibido é o vinho dos sábios. Somos criaturas imorais. Qual pecado você esconde?

Estamos sempre a procura. Não importa o quanto tenhamos encontrado. A vida é ir e ir e ir... A limitação do ponto é o desconhecimento do poder do espírito. Estamos em busca do inatingível. E na impossibilidade alguns se desesperam, se angustiam e se debatem. Somos criaturas conflitantes. Onde mora a sua dualidade?

Colecionamos rosto que esquecemos e que nos esqueceram. Imaginamos onde estão e o que fazem nos dias de chuva quando a rotina e o tédio são a corda para enforcamento da razão. Na solidão de uma casa alguém se questiona como teria sido. No cansaço do casamento eles se perguntam o porquê. O menino pensa no homem. A mulher pensa no menino. Somos criaturas curiosas. Qual parte de você, você ainda desconhece?

Mas é preciso ir além. Percorrer as vias do medo. Ultrapassar o limite da dúvida. É preciso não parar no porto. É importante que se lance para o horizonte. É fundamental que não desista. Apesar da pedra, do ponto, da porta... Somos criaturas errantes. Qual caminho você tomará hoje?