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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Resposta Para o Texto “Mude a sua vida ou você vai ficar aí parado?”


 

Bruneca, seu texto de hoje mexeu comigo. Estou nessas fases da vida onde tudo fica ou chato ou esquisito. Mas a vida tem dessas fases onde nós nos estranhamos ou os outros nos estranham. Acho que é o momento de fechar um ciclo para começar outro.


Então, vamos lá por parte!

Eu por várias vezes tentei mudar. Transformar-me algo mais fácil de se adaptar ao mundo, mas foi inútil e eu vivia me cobrando e sofrendo. Então, um amigo hinduísta me disse que ninguém muda essência. Aprendemos a dominá-la, mas não mudamos. Eu não posso dizer que a partir daí eu sofri menos, mas o sofrimento não doía mais tanto. Algo se acalmou e eu não me preocupava mais em me adaptar ao mundo. Passei a valorizar mais está perfeita em mim. E esse sentimento é confortável e satisfatório para mim.

Você lembrou a letra de Oswaldo Montenegro e essa letra é de se ouvir de tempos em tempos e perceber que a lista nunca será a mesma. Mas isso não é ruim de fato. É sinal que nós não somos mais os mesmos.  Ter a consciência de que acordaremos amanhã moldados pelo hoje é acreditar que o futuro pode ser bem melhor, porque as mudanças são perceptíveis. Acho que a esperança nasce dessa consciência.
Se eu tivesse que responder as perguntas propostas no seu texto, acho que seria assim:

1-
Quantos mistérios que você sondava?  Tudo era mistério para mim. E ainda o é. Pois sou criatura curiosa e com grande necessidade de vivenciar tudo. Mesmo aquilo que sei que não levará a nada. Eu preciso provar.

2- Quantos você conseguiu entender? Eu achei poucas respostas e fatalmente todas me levavam a outra ainda mais complexa. E com o tempo a certeza que tinha é que viver é experimentar todos os dias algo novo mesmo dentro de uma rotina.

3- Quantos segredos que você guardava?
Muito menos do que eu ainda guardo. Acho que vim acumulando segredos ao longo desses 43 anos. Porque sou uma pessoa que se reserva demais por ter medo de gente. Medo do que as pessoas são capazes de fazer as outras por prazer, inveja ou crueldade.

4- Hoje são bobos ninguém quer saber?
São bobos até para mim. Mas ainda querem saber com certeza. Porque saber do íntimo do outro, para alguns, é como ter poder. É como dar uma arma na mão de alguém para ele uma hora ou outra atirar contra você.

Na minha adolescência eu ficava horas olhando no espelho no fundo dos meus olhos. Algo nos meus olhos me incomoda até hoje. Mas hoje eu sei o que é. É de lá que meu eu mais íntimo vem me contar as novidades dos meus mundos interiores. Dizem que dentro de nós há dois lobos, não é? Por mais que eu alimente o meu lobo bom todos os dias, o lobo mau se alimenta junto. E, de vez em quando, a fera se agita impaciente dentro de mim querendo sair. Ainda bem que consigo controlá-lo ainda! Talvez só o faça porque não o nego. As pessoas tendem a negar os seus monstros e ele se aproxima sem que eles os percebam. Eu tenho consciência do meu, então me mantenho vigilante sempre.

Nunca me preocupei com os que me rodeiam. Porque acredito que podemos neutralizar o meio em que vivemos se formos fiéis a nós. Só me machucam os que eu por algum motivo permito que me machuquem. Minha relação com a mulher que me criou é assim: sei que ela não me ama, não tento mais ser amada por ela, embora eu a ame e ela me fere porque eu não mato meu amor por ela. Eu fiz a escolha de amá-la apesar de tudo. Entende?

Dez anos é muito tempo! Eu aprendi a viver vinte e quatro horas de cada vez. E tudo que tenho e realizo deve ser para essas vinte e quatro horas. Então, tenho que viver bem e realizar tudo com zelo. Por isso, digo sempre que sou uma borboleta. Viva e plena por vinte e quatro horas.

Eu li a sua lista. Tive preguiça de fazer uma. Vou usar a sua, está bem?

Queria ser cigana. Não deu! Casei-me com meu primeiro amor e com ele o mais longe que fui foi Vila Velha no Espírito Santo. Mas sozinha fui à Londres, Évora, Avalon, Oz, País das Maravilhas. Ele era estreito. Eu sempre me ampliei. Felicidade é feita de pequenas gotas. São dias, horas... Mas nunca passa disso. É preciso o contrário para se dar valor aos dias bons. Nunca tive muitos amigos. Até hoje, amigos de verdade, conto numa mão. Acho que é esse meu jeitão escorpião que põe as pessoas para longe. Sei lá! Não vou melhorar como pessoa. Não tento mais. Sou mãezona. Mães dos meus e dos filhos dos outros. Eu adoro ser mãe!!! Queria uma casa lotada de amigos, parentes, pessoas indo e vindo sempre. Mas minha casa é vazia. Não fico triste. Se é assim é porque em algum momento eu fiz algo para que seja assim. Tenho meu jardinzinho de vasinhos simples e sou feliz com ele. Algumas pessoas riem comigo outras riem de mim. Mas sou do tipo que inventa as próprias histórias e ri delas sozinha. Então, rir é de menos. Eu quero alguém que me surpreenda. Alguém que se dê a mim pelo seu melhor. O medo faz parte da vida, então, ter medo não me perturba.

Acho que consegui tudo que planejei. De uma forma ou de outra. Estou amadurecendo meu eu. Evoluindo. Mudando. Vivendo. Ficar parada não dá, mas vou conforme a vida me leva. Experimentando tudo pelo caminho. Com certeza de que um dia, em alguma esquina, eu me perderei de todos vocês. Não nos veremos mais, mas tenha certeza que eu, do meu modo, estarei feliz.

Beijos,


Waleska Zibetti.  

quarta-feira, 22 de julho de 2015

A sociedade e o amor romântico

por Gabriella Gilmore

Recebi um texto recentemente pelo celular que me fez pensar de novo no amor romântico e  na vida a dois.
O texto falava que o amor uma hora acaba.
Será?
O amor acaba ou somos nós que deixamos o amor acabar?
Te peguei!


Não sou perita em relacionamentos, até porque eu falhei em todos! Como diz uma amiga e também redatora deste Clube, “você tem dedo podre para homens”. Acontece leitor, que eu só sei amar torto.
Porém, isso não me impede de refletir sobre o tema e também desejar ter um amor verdadeiro e correspondido algum dia. Sem paranoias, sem precisar pensar por nós dois.
Uma coisa que irrita os parceiros é quando apenas UM pensa.
Esses dias eu comentava com uma colega de trabalho sobre como ando cansada de “conquistar” o homem desejado. Cansei. Estou exausta de fazer o papel de “macho” da relação. Aquele que galanteia como nos filmes de romance. Cansei de ser a mulher que deixa marcas, porque eu queria pelo menos uma vez ser conquistada. “You need to earn me”, disse Olivia Pope uma vez em Scandal.
Acredito que na relação a dois a conquista precisa ser mútua e diariamente. Ninguém precisa fazer a “Paula” e amar sozinho. O amor precisa ser correspondido, regado, ser interessante e interessado. Precisa de injeção de quebra de rotina. Fazer #aloka em dupla é muito bom!
Precisam nutrir uma sintonia mística. Sim! Dessas em que o casal compartilha da mesma fé. A maioria dos casamentos não dura porque o casal não ora juntos. No caso da pessoa que não é cristã, terminam porque não dialogam em sintonia. Por isso citei a “sintonia mística”.
“É injusto, doloroso e insuportável assistir a um amor que foi tudo se tornar nada”.
Acontece que o casal quando falha, normalmente, a princípio, ele falha sozinho. Dai o outro murcha. Se as pessoas tivessem o hábito de conversar antes, de pedir a Deus, Allah, Budah, ao Sol, uma orientação (em conjunto, porque você está num relacionamento a dois) e tivesse paciência para aguardar a solução chegar, o índice de divórcios seria menor. Porém, o que acontece é que as pessoas são imediatistas. Desesperadas. Ou na pior das hipóteses, são estúpidas, porque espera a situação chegar ao fundo do poço para assim tentar “resolve-la”. Já ouviu em falar em prevenção? Ou medicar a “doença” no início para ela não se agravar? A mesma coisa acontece com o amor.
Agora se você pensa que não nasceu para o casamento, me faça à gentileza de viver sua vida de solteiro feliz e com consciência. Porque a sociedade indiretamente nos obriga a casar, pois se você passou dos 30 e não se casou você é infeliz, fracassado e um estorvo.
Sociedade miserável. Que indiretamente te projeta para algo que nem você mesmo tem a certeza se está pronto. Eu vejo com tanta seriedade o matrimônio que mesmo correndo o risco de virar “avó” dos meus sobrinhos, eu ainda prefiro não embarcar nessa fase sem estar pronta, pois esse enlace é algo para ser duradouro, e não viver sobre aquela frase: Não deu certo separa.
As pessoas simplificam demais as coisas sérias. Ou seria o contrário?

E você? Já parou para refletir sobre o amor a dois?

quarta-feira, 15 de julho de 2015

O Vento Na Ilha- Releitura



Esticou os braços para fora e brincou com o vento. O carro corria a mais de cem. O céu estava azul e o mar brilhante. Mas ela pensava no vento. Sorria com a pressão que ele fazia na sua mão. "O vento é um cavalo...", recitou baixinho. Neruda entendia o vento. Ela é vento. Neruda a entenderia.

Esticou os braços para fora e ria-se toda tentando prender o vento. Sabia que era impossível. E riu de quem tentava detê-la. Sempre há frestas na parede e ela pode passar por elas. "...Ouça como ele corre", entoou sussurrante. Será que o vento está voltando para ilha, Neruda? Ela já quis ser uma ilha. Donne não deixou. Ela hoje gosta mais de Neruda que de Donne.

Esticou os braços para fora com a ponta dos dedos tocava o vento como quem fazia cachos nos cabelos do homem amado. E o vento passava a mais de cem. O mar estava calmo brincando com o céu azul. "Quer me levar: escuta", pensou. O vento é um mensageiro impaciente, não é Neruda? Ele traz mensagens de além mar, além ilha, além vida... Nem sempre é possível entendê-lo. Ainda bem! O vento traz cheiro de saudade e sempre que ela o entende acaba triste e com alguma canção de Billie Holiday na cabeça.

Enfim, colocou os braços para dentro. E notou como o braço estava gelado e o corpo todo se arrepiou. "Me esconde em teus braços", lembrou. O vento está morando nos braços dela. Escondido para se livrar da obrigação de levar saudades por aí. E ela acaricia o braço acalmando o vento. Recosta a cabeça e olha o mar passando a mais de cem.

É sempre tarde quando tudo acontece... E já era tarde. E já acontecia. "com tua boca em minha boca", falou alto causando espanto. Sorriu. "...debaixo teus grandes olhos", continuou. Ela não estava tão ali. E ria. "por somente esta noite", respirou. Porque tudo que ela sabe que tem é uma noite. Ela o beijou e sussurrou ao seu ouvido: "descansarei, amor meu".
(Waleska Zibetti, in "O Vento Na Ilha- Releitura")

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Amanhecer em Marrocos




"... A Cada instante de nossas vidas 

temos um pé no conto de fadas 
e o outro no abismo"
(Paulo Coelho)

Mais uma vez visitante de mim no dia que já quase amanhecia notei, há alguns quarteirões de certo passado, um sonho esquecido. Ao ver-me passear por ali, apesar de fraco e empoeirado me acenou. Aproximei-me mais para poder sonhar melhor e o sonho-menino abriu-me um sorriso de covinhas. Estava sentindo-se revigorado. Levantou-se do canto, estendeu suas mãos para mim e convidou-me a passear pelas ruas de céu alaranjado. 

Caminhamos lado a lado e eu pensava em como somos capazes de esquecer sonhos sem ao menos tentarmos traze-los a realidade. Ele estava tão orgulhoso de se sentir lembrado que apertava minha mão com suas mãos gordinhas e suspirava.  E me dei conta de que ele falava. 

Me contava sobre lugares mágicos e cores brilhantes combinadas sem frescuras. Falou-me de tardes com chá e de músicas inspiradas nos som das coisas. Relatou-me de construções românticas e paisagens místicas. Homens escondidos em véus e mulheres de olhares marcantes e de repente eu estava caminhando com meu sonho pelas ruas de Marrocos. 

O menino apressava-se entre as lojas escolhendo sedas e tapetes, cheirando e experimentando especiarias, barganhando jóias e artigos decorativos. E o céu já era azul e o mar movia suave suas águas aos nossos pés quando novamente me dei conta de que minha realidade é centenas de quilômetros dos homens sérios de Marrocos.

O menino estava vibrante porque eu me lembrara e me disponibilizara por ele. E me abraçou docemente agradecido por estar ali, apesar da hora, do tempo, da realidade, do risco... E sorrindo em covinhas correu para mar dizendo que voltaria para Marrocos. E que esperaria lá que num outro amanhecer eu o encontrasse nas ruas do mercado, vestida de sedas coloridas que relembrassem um céu de amanhecer alaranjado, cheirando a pimenta-rosa e falando de mistérios escondidos na fumaça de narguilé. Da areia acenei as gargalhadas para o sonho-menino vendo-o sumir no mar, enquanto um sol de amarelo-lúcido me abraçou convidando-me a mais um dia entre o sonho e a realidade.
(Waleska Zibetti, in "Amanhecer em Marrocos")


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Para Todos



Lá está ela com seus olhos presos no mar. Olhos vazios a encarar o mar calmo. E Chronos, por piedade, recorta o tempo para prendê-la em algum pensamento feliz. Já faz tanto tempo que ela não vinha... Hélio aproxima-se tentando devolver um pouco de calor ao seu olhar frio. Onde parou o sorriso que a acompanhava nesses momentos junto ao mar? Poseidon proibiu os serenos de cantar. O silêncio da mulher há de ser respeitado, pois é silêncio de dor. E o mar muda de cor e ela nem percebe. Calíope beija o rosto da amiga na tentativa desesperada de acordá-la. E Érato beija-lhe a boca. Contudo, seus olhos estão pousados em algum tipo de mistério particular e logo tudo se cobre de negro. Selene toma lentamente seu lugar no céu. E finalmente ela respira mais fundo buscando forças. Encara o céu. Selene sorri argêntea e solidária. Conhece bem os conflitos da mulher, ela própria é mulher também. "Não há paz na noite que se inicia", anunciam as ondinas ao tocarem a areia. "Mas quem precisa de paz?", responde Éolo da beira do cais. E Psiquê abraça a mulher a fazendo caminhar sem que a rua a perceba. Porque ninguém consegue entender que as Erínias, apesar de tudo, também são capazes de amar.
(Waleska Zibetti, in "Para Todos")

sábado, 27 de junho de 2015

Amanhã Tudo Muda





E de repente tudo vira um silêncio só. Não há lua e a rua adormece de tal maneira que nem os gatos ousam passar por ela. O vento entra pela fresta da janela e arrepia levemente o corpo. Não há paz real, mas uma calmaria que anuncia sinistramente a próxima tempestade. E é preciso passar por ela para chegar ao próximo ponto. E já não sei mais se é o vento mesmo que estremece o corpo ou se é o medo. E em silêncio entôo o mantra: "Amanhã  tudo muda... Amanhã tudo muda...". É preciso crer que vai passar apesar da noite, do vento, do silêncio atormentado da rua, da ausência da lua... É preciso crer apesar de. O corpo já mostra cansaço, mas a cabeça insiste em pensar. Mas é só mais uma noite que eu devo vencer e amanhã tudo muda. Eu hoje precisava não anoitecer. Mas a noite chega sempre independente da lua. E hoje ela trouxe um silêncio pesado, incomodo... Em algum lugar alguém morre e no ponto oposto um outro nasce. Nem tudo é noite além dessa janela. Em algum lugar é dia claro com crianças rindo na calçada. E eu aperto forte o travesseiro. Dorme em paz porque amanhã tudo muda.
(Waleska Zibetti, in "Amanhã Tudo Muda")

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Sob a Luz do Luar



“Ninguém está na calçada porque quer”, disse-lhe certa vez uma velha cafetina. E ela em silêncio sorriu pensando que nunca aquela velha enfrentaria um serviço pesado mesmo quando jovem. Porque ela tinha certeza de que a rua era um vício. A lua rompe a janela do quarto ditadora e ordena aos seus filhos que invadam a rua espalhando luxúria por onde passarem. Toda puta é filha da lua, concluía.

Ela observava aqueles personagens analisando-os como um microuniverso independente do macro universo que crescia ao seu redor. As pessoas podiam olhá-los como parasitas da sociedade, mas ela era capaz de jurar que ali havia muito mais a oferecer que nas senhoras distintas que se sentam no fim da tarde diante de sua TV para ver as novelas com olhos inocentes. Olhos inocentes e cabeça perversa. Mulheres como aquelas se masturbavam secretamente pelo vizinho nas suas tardes solitárias. Imaginavam os corpos dos adolescentes sobre os seus enquanto inocentemente liam revistas Marie Claire em suas cadeirinhas de varanda.

A maioria não assume sua perversão vivendo um conflito doentio com seus desejos reprimidos. Nas calçadas, todo desejo é permitido e todo sonho real. Nas calçadas o medo é só mais uma via para o prazer. E o prazer, a morada de toda razão. E ela caminha a observar as frestas das portas, movimentos por trás de cortinas, silhuetas embaçadas nos carros, vultos na escuridão. De vez em quando encara o céu e algumas estrelas piscam seus olhos para ela incentivando a sua caminhada.

Toda noite tem seus sons ainda que tudo esteja calmo. E na praia, o mar lambe a areia. Os serenos se amam nas pedras ao som suave das ondas. A noite tem seus mistérios e ela também. A lua engole os mistérios da noite até encher. Os dela ela guarda por baixo das unhas vermelhas. Todo mistério seduz.

Ela sempre foi meio caminho perigoso e nunca temeu bicho ou a madrugada. Tinha olhos de viela e atraía curiosos personagens que se fascinavam com suas histórias com movimentos pseudo-dramáticos.  Andava pelos becos pouco se importando com os gatos, cachorros, bêbados, mendigos, prostitutas, travestis...

“Ninguém envelhece porque quer”, disse certa vez a uma jovem. E uma cafetina em silêncio sorriu porque tinha certeza de que a rua era um vício. E ela rompia a janela do quarto e invadia a rua espalhando luxúria por onde passasse. A rua é um serviço pesado, concluía. E todo filho da puta deveria ir para lua.

Ela é um daqueles microuniversos parasita que observa a sociedade independente crescendo ao seu redor. As pessoas a analisam no fim da tarde. E ela vira uma espécie de macro universo capaz de oferecer segredos as salas das senhoras distintas. Seus olhos perversos povoam as tardes solitárias dos vizinhos. E o corpo dela é coberto pela imaginação dos adolescentes que inocentemente se masturbam nas cadeirinhas da varanda. Personagem pervertida das novelas de revista.

A maioria dos seus desejos são perversos e conflitantes. Mas a calçada é real. Não permite sonhos e não assume doenças. A calçada troca medo por prazer. É a morada de toda razão. De vez em quando há estrelas nas frestas das portas, e se vai ao céu nos movimentos por trás de cortinas, silhuetas embaçadas nos carros piscam para ela, vultos na escuridão o observam. Ela encara o céu e segue sua caminhada.

Toda noite está calma e tem seus sons vindos da praia. Os serenos lambem a areia. O mar ama nas pedras. A noite tem mistérios vindos das ondas. E ela também engole os mistérios da noite. A lua guarda os dela até encher. Os dela seduzem por baixo das unhas vermelhas. À noite tudo é mistério.

E ela caminha na noite e a lua caminha com ela pelas frestas dos becos, pelas vielas prostituídas, pelos carros em movimentos, pela perversão escura, nos mistérios da luxúria, lambendo adolescente, amando senhoras, enchendo-se de cafetinas, com seus olhos de estrela, seus medos pseudo-dramáticos, seus sonhos prazerosos, manchete de revista, personagem de novela, cadela dos vizinhos, parasita das calçadas, microuniverso doente...
(Waleska Zibetti, in "
Sob a Luz do Luar")

domingo, 7 de junho de 2015

BRASÍLIA, ME DESCUBRA!



Brasília é uma cidade para se conhecer em um passeio turístico e com um guia que saiba com detalhes cada monumento que ela possui. Nem mesmo os nascidos ou criados lá sabem o tesouro cultural e de inteligência que ela possui. Depois disso, tire mais ou menos um mês de férias para você continuar a entender suas quadras, superquadras, tesourinhas e vias de acesso como W3 sul/norte, L2 sul/norte. Quem? Pois é.
Quando me mudei para lá, nos primeiros meses eu fiquei de cabeça doendo.
O clima seco, juntamente com suas ruas sem nome incrivelmente iguais uma das outras, me deixavam louca. Depois fui percebendo que aquela culta cidade é matemática lógica pura. Me apaixonei.
Em seis meses eu já conseguia me deslocar por lá com mais facilidade e até comecei a sentir saudade de como era se perder.
Uma vez, tive crise de pânico dentro de casa no Cruzeiro. Precisei sair para a rua para descarregar a explosão de energia que brotava de dentro de mim. Peguei Matilda (minha Caloi) e fui correr dentro do bairro. Em uma hora eu rodei três bairros.
Não me perdi.
As quadras por terem sequência numérica facilita a vida dos brasilienses/candangos/aventureiros.
A única coisa que me fez perder por lá foi o seu céu.
Quase sempre limpo e muito azul, você consegue nadar nele sem ficar com os olhos vermelhos e de cabelo duro.
O nascer do sol é estupendo. O céu começa num laranja clarinho até ficar azul bebê. A grama verde que tem por toda a cidade, monta perfeitamente a bandeira do Brasil.
Para quem nunca viu um céu lilás escondido no rosa, é só esperar o por do sol para você entender o que estou falando. Não. Eu não uso drogas.
Na noite, você estica as mãos e rouba uma estrela. E a lua com toda sua sedução te engole num piscar.
Cidade da natureza.
Às vezes acho que há uma cidade dentro de um parque, e não ao contrário.
Comecei a fazer coleção de árvores por lá. São tantas, tantas! Nunca consegui fotografar todas, e nem vou.
Brasília é tão astuta que às vezes fico com vergonha de mim.
Eu andava em algum lugar e me deparava com um concreto aparentemente sem explicação, mas eu sabia que se eu tivesse escutado melhor o guia turístico lá no início desse texto, eu entenderia. Porém acho que o mistério daquela cidade estava naquilo, em te deixar absorta.
BSB tem uma coisa de que não acho graça. O povo e a comida.
“Ow, me vê um prato típico de Brasília?” Ixxi, não tem. “Qual é o sotaque do brasiliense?” Abafa que também não tem.
Lá você vê muito nordestino, goiano, mineiro, e outros. Brasiliense que é bão, nada.
Você só consegue ter contato com eles no trabalho. Fora isso todo mundo some. Nunca consegui pegar uma caneca de açúcar com minha vizinha do prédio. Será que vivia mesmo alguém lá?
As pessoas devem ter medo de gente. Só pode.
Entretanto Brasília é moderna e ousada, apesar de ter essa população fechada e individualista. É quadrada, às vezes oval, de concreto e cimentada. É Nova Orleans, Paris e Saturno. É um museu de arte contemporânea em área aberta. É lógica, e nos ensina a caminhar um pouquinho, justificando aqui seus “quarteirões” enormes e distantes um dos outros. Foi inspiração de vários artistas e ainda tem mexido com muita gente, perpetuando-se. É Brasília sua irreverente! Sua linda!!!

terça-feira, 5 de maio de 2015

A MENTIRA É UMA COBRA



por Gabriella Gilmore.

Luiz é o cômico da turma, porém bastante inteligente. Até hoje não sei como ele aprende as matérias, sendo que sempre está contando casos para um ou outro no meio da classe.
Como de costume, o rapaz chega atrasado à aula.
_ Podem recomeçar a matéria porque estou chegando! Brinca o engraçadinho.
Todos riram.
Realmente é impossível não achar graças de suas piadas. Ele é ótimo.
Nesta noite, até que ele ficou mais calado do que o costume. Depois fomos saber o motivo: Ele maquinava seu programinha depois da aula.
Acaba o curso e nosso jovem sai em encontro com sua trupe.
_ Hoje vamos beber horrores! Comenta seu amigo.
_ Rá! Só se for você, né querido? Estou dirigindo. Qual parte do "Se beber, não dirija" você não entendeu? Perguntou zoando o rapaz.
_ Tá tá táaa. Eu degustarei por nós então e "simbóra" mano!

_ Luiz, estou passando mal cara.
_ Mas já?

Antônio desaba no chão.

_ "Affemaria"! Angélica meu bem! Me ajuda aqui. Chama Luiz.
_ Como assim desmaiado?
_ FI-LHA! Incoma alcólico. COMOFAZ? Levamos pro hospital?
_ Ixi! Acho que ia babar. Faz o seguinte, vamos lá pra casa.
_ Ai meu Pai! Vou chegar tarde em casa.

Deixaram a bênção de porre na casa da Angie e foi para casa, afinal, seus pais nem sonhavam que ele iria sair depois da aula.
Entrou de fininho e por sorte, todos estavam no último estágio do sono. Bom, era o que ele pensava.

_ Bom dia mama!

(Cara de bunda)

_ Ué "bãe". Está com raiva de mim por quê?
_ Sua aula terminou tarde né? Vá contando o que aconteceu Luiz.

Ele arrumou a maior lorota e conseguiu dobrar aquela "gigante" de um metro e quarenta.
Falou que um amigo do curso havia passado mal em sala, que o levara para o hospital e como era regional, demorou para darem entrada.

"Ufa, vou trabalhar sossegado hoje. Ela caiu". Pensou.

Quando ele retorna, sua mãe pergunta:
_ Tira o óculos agora. Vou te dar um tapa.
_ O que foi dessa vez "bãe"?
_ Pode contar o que aconteceu porque já liguei para seu professor. Como a esposa dele havia atendido, ela não soube me informar, e foi aí que liguei para o hospital e lá não constava NE-NHU-MA entrada do Antônio Amaral. Francamente né Luiz? Vá falando.
_ Maaasssss...

Páh! $#@&%$

A mentira tem pernas curtas? Nem isso. Ela é uma cobra!

domingo, 3 de maio de 2015

Eu sei, mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Colasanti, Marina. "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

Até o próximo texto
Au Revoir!

sábado, 2 de maio de 2015

O LUTO - E.B

por Gabriella Gilmore

Ela acordou com o som de gritos de dor.
Não uma dor qualquer. Uma dor que ardia a alma.
Subiu as escadas apressada, achando que os gritos provia de alguma violência física.
Ainda desorientada com o susto daquele grito, ela entendeu que sua irmã perdia uma pessoa muito valiosa em sua vida.
Perdia uma ova.
Você não pode "perder" uma pessoa como se perde a chave de casa.
A cara da morte, como eu perguntava em um dos posts do Clube, não é bela e romântica para todo mundo.
Qual é o problema dela? Da morte? Qual é o seu problema, Sra Morte?
Na verdade, a pergunta é o inverso.
Qual é o nosso problema quanto a lidar com essa passagem?
O medo de um céu, de um inferno? O medo de não ter se despedido? O medo da pessoa ter ido embora decepcionada com você? Medo de ela ter sofrido uma dor antes de partir?
Qual é o nosso problema? Qual é o seu problema em compreender isso?
Nascemos sem saber nada. Podemos morrer ainda sem saber muita coisa. Porém, a morte, é uma certeza que qualquer ser vivo tem. ELE sabe. Por que não aceita?
Existe resposta e solução para tudo, até para a morte.
Medo de um céu e um inferno? Cuide de sua alma para que ela tenha um lugar aonde repousar.
Medo de não se despedir da pessoa querida? Cuide para que tenha todos os seus relacionamentos sadios, sem mágoas, sem decepções, para que nunca tenha o sentimento de "eu não tive a chance...".
Medo dela ter sofrido na passagem? Se você crê em um Deus bondoso, se você crê que a pessoa partindo era uma pessoa bondosa aos olhos do Pai, não se preocupe com isso. Não cabe a você.
Precisamos ter em mente que amar nunca é demais. Nunca troque o certo pelo duvidoso. O remorso é um sentimento que nos corroí aos poucos. Se você faz parte de alguém, seja realmente uma parte, e não uma metade vazia. Sim, metade vazia!
O mal do ser humano é que só sente depois que perde. Só se lembra quando não tem mais acesso. Só perdoa quando não possui mais a oportunidade de falar do perdão. Só sabe pedir. Nunca agradece.
"Então louve, simplesmente louve

Tá chorando, louve, precisando, louve
Tá sofrendo, louve, não importa, louve
Seu louvor invade o céu".

O agradecer aos céus não é uma prática somente do crente. É e deve ser uma prática do ser humano. Precisamos refletir sobre isso. Cultivar o sentimento de gratidão. Praticar o "polianismo". Chorar menos. Sorrir mais. E nunca esquecermos de que estamos aqui a passeio. Viva! Porque sobreviver cansa. Por isso VIVA!

E.B (R.I.P)

terça-feira, 28 de abril de 2015

A PROTAGONISTA

por Gabriella Gilmore


Numa sexta qualquer, resolvi pegar um ônibus e ir visitar alguns amigos na cidade de Poços de Caldas.
Encontrei sentada num banco, uma senhora dos cabelos brancos, da pele alva, olhando a plataforma 22.
Não sei porquê, mas me bateu uma imensa vontade de sentar-me ao seu lado e puxar papo.
Ali, eu descobri que fazia 34 anos que ela ia àquela rodoviária toda sexta-feira às 17hrs para esperar pelo único amor que ela teve na vida.
Perguntei se ela tinha filhos, marido, e ela balançou a cabeça afirmando.
A protagonista tinha quatro filhos e seis netos. O esposo morrera há cinco anos.
Eu não entendi.
Perguntei a ela quem seria a tal pessoa de 34 anos atrás que fez com que ela viesse religiosamente todos os dias para a rodoviária a espera de um encontro.
_ Ela se chamava Bel. Há 34 anos, eu combinei com essa amiga que tanto amei, de nos encontrarmos aqui.
Ela abaixou a cabeça com os olhos brilhando.
_ Mas... Eu indaguei baixinho.
_ Naquele tempo combinamos de ficarmos o final de semana juntas. Comprei algumas coisas que eu sabia que ela gostava, enchi a geladeira com coisas que eu não importava só para agradá-la, e dois dias antes, recebi um telefonema dizendo...
_ Ela morreu! Falei arregalando os olhos.
_ Não.
_ Mas o quê que aconteceu?
_ O destino nos separou numa forma injusta. Nunca consegui aceitar isso e desde aquele dia eu venho fazendo tudo que fiz naquela semana, na esperança de ...
Ela se levantou ansiosa e lenta, quando me perguntou:
_ Como se chama?
_ Isadora Martinez. E a senhora?
Ela subitamente se voltou para mim, me encarando nos olhos e perguntou:
_ Martinez de onde, minha filha?
_ Poços de Caldas.
A velha fraquejou, titubeando.
Levantei-me para segurá-la.
_ Isabel Martinez. Sussurrou a protagonista. Minha amiga de Poços.
Senti-me tonta ao escutar aquilo, porque seria coincidência demais aquela Isabel ser a minha mãe.
Abracei a protagonista, e disse:
_ Estou aqui. Vou te levar para casa.
Só assim, aquela senhora mudou sua trajetória triste. Só assim, ela percebeu que as histórias por algum motivo não se cruzaram.
Talvez nunca entendamos o motivo. As respostas nunca seriam o bastante.

sábado, 28 de março de 2015

PUTA QUE PARIU!

O SUMIÇO DA CHAVE
Uma crônica por  Gabriella Gilmore

(Dedico esta crônica a Angélica Farias, Suzana Barbi e a minha chefe querida, sucesso, luxo toda.)








O despertador toca as 7am em ponto. 
Eu acordei 6:58.
Ainda morceguei por dois minutos, antes de escutar a música da Ashley Simpson me animando para mais um dia de trabalho.
“Hoje vou tomar café no trabalho”. Pensei.
Lavei o rosto, liguei The Veronicas no meu palm treo, comecei a recolher meus materiais da faculdade para por tudo na mochila antes de sair, vesti o Jeans e lembrei de checar as chaves do trabalho. Quando fui conferir na mochila, cadê elas?
“Não é possível”. Murmurei.
Olhei em outros lugares aonde costumo deixá-las, e nada.
Respirei fundo e fui tentar refazer a minha noite passada, quando as peguei pela última vez.
“Maldição! Deve ter caído no jardim quando fui destrancar minha bicicleta”.
Peguei a mochila, vesti uma blusa de frio e fui correndo verificar.
Pulei o portão quando alguém me grita:
- O que você está fazendo?
- Estou sem as chaves, preciso ver se as deixei cair aqui na grama ontem a noite.
- Está querendo roubar a escola?
- Oh meu senhor! Eu trabalho aqui.
- E você entra no seu trabalho arrombando o portão?
*&%%#%¨&¨%&&@ 
Bati o portão na cara do velho e sair correndo para a faculdade.
“Só pode ter caído lá no estacionamento. OH CÉUS!!!”
Corri 4 km a fio, mentalizando a chave lá no chão, perto as infinitas folhas do fim de inverno.
Não encontrei.
“Ok Gabriella. Pode pirar.” Arregalei os olhos. “ Ah, vou no achados e perdidos!”
(FF >>>>>>>) Adiantando a fita.
Não encontrei.
“Droga. Agora tenho que falar para minha chefe que as perdi. Meu Deus! Agora vamos ter que trocar as fechaduras e ainda será descontado no meu salário, claro, a culpa é exclusivamente da minha mente mofada.” Meus olhos foram enchendo d’água.
Pedalei novamente sentido colégio Ibituruna e me preparava pelo sermão.
Tive uma LUZ!!!
“Vou pedir as chaves dela emprestada, falando que deixei as minhas na minha gaveta. Pelo menos vou ter mais um tempinho para pensar em algo.”
Cheguei na portaria e pedi para falar com a Adriana urgentemente. 
“Adriana Maria. Favor comparecer à recepção”.
Aquela voz nasal me fez rir. Era a secretária anunciando a chefe no rádio.
Minha chefe desceu branca. Com certeza ela deve ter pensado que alguém deveria ter roubado a escola. Por sorte, não foi isso. “Sorte nada. A chave estava por ai, perdida, ao léu, sentindo frio ou nas mãos de estranho”. Eu pensava e pensava...
- O que aconteceu fina? 
- Então, calma. Não consigo encontrar minhas chaves. Devo ter as deixado na gaveta. Você trouxe a sua?
(FF >>>>>>>>>>>)
Corri léguas e léguas, ansiosa para encontrar as malditas lá na minha gaveta.
E acredita que elas estavam lá??
Aff, como disse a Angélica: a gente só deixa para pensar no óbvio quando acha que já está tudo perdido.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Evolução




Eu entendo que algumas pessoas não creem em Deus. As vezes é difícil diante do que acontece ao nosso lado acreditar que haja um Deus de justiça. Mas eu acredito que há sim. Eu só não entendo porque as pessoas que não acreditam, não me permitam acreditar.

Eu entendo que algumas pessoas amam de forma diferente da minha. Uns amam só a Deus, outros só a si, há os que amam o do mesmo sexo, há quem ama o de sexo diferente, há os que só amem animais, há os que amam a todos. Só não entendo como pode haver quem não ama ninguém.

Eu entendo que haja felicidade e que muitas pessoas no mundo são felizes com menos do que eu tenho. Que há quem sorria mesmo em estágios terminais nos hospitais. O que não entendo é porque as pessoas não respeitem a minha tristeza ser muitas vezes maior que a minha felicidade.

Eu entendo muitas coisas e muitas coisas não entendo, mas fico em silêncio tentando entender, ao invés de ir por aí apontando dedo e falando coisas sem saber o fundo de tudo aquilo. 

É que penso que sou diferente da  maioria porque tento, ao menos tento me pôr no lugar das pessoas. Há tantos pedidos de socorro escondidos na loucura, tanta falta de abraço escondida no amargor, tanta solidão na desesperança, tanto grito na solidão. Se ao menos as pessoas parassem um minuto para sentir o outro... Um único minuto para ser o outro... Uma doação de si por ao menos um minuto. Ah, o mundo poderia ser melhor.

Porque eu entendo que o mundo é um lugar para se ser melhor.Não melhor que o outro, mas melhor para o outro e pelo outro. Então, por que insistem tanto em enfeiar o mundo? Eu queria entender essa gente que enfeia o mundo por puro prazer. Só para dizer para essa gente que pode ser diferente. Porque eu já fui dessa gente que amargamente julga e hoje sou dessas pessoas que docilmente ama.
(Waleska Zibetti, in "Evolução")

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A IMPONTUALIDADE DO AMOR

Você está sozinho. Você e a torcida do Flamengo. Em frente a tevê, devora dois pacotes de Doritos enquanto espera o telefone tocar. Bem que podia ser hoje, bem que podia ser agora, um amor novinho em folha.

Trimmm! É sua mãe, quem mais poderia ser? Amor nenhum faz chamadas por telepatia. Amor não atende com hora marcada. Ele pode chegar antes do esperado e encontrar você numa fase galinha, sem disposição para relacionamentos sérios. Ele passa batido e você nem aí. Ou pode chegar tarde demais e encontrar você desiludido da vida, desconfiado, cheio de olheiras. O amor dá meia-volta, volver. Por que o amor nunca chega na hora certa?

Agora, por exemplo, que você está de banho tomado e camisa jeans. Agora que você está empregado, lavou o carro e está com grana para um cinema. Agora que você pintou o apartamento, ganhou um porta-retrato e começou a gostar de jazz. Agora que você está com o coração às moscas e morrendo de frio.

O amor aparece quando menos se espera e de onde menos se imagina. Você passa uma festa inteira hipnotizado por alguém que nem lhe enxerga, e mal repara em outro alguém que só tem olhos pra você. Ou então fica arrasado porque não foi pra praia no final de semana. Toda a sua turma está lá, azarando-se uns aos outros. Sentindo-se um ET perdido na cidade grande, você busca refúgio numa locadora de vídeo, sem prever que ali mesmo, na locadora, irá encontrar a pessoa que dará sentido a sua vida. O amor é que nem tesourinha de unhas, nunca está onde a gente pensa.

O jeito é direcionar o radar para norte, sul, leste e oeste. Seu amor pode estar no corredor de um supermercado, pode estar impaciente na fila de um banco, pode estar pechinchando numa livraria, pode estar cantarolando sozinho dentro de um carro. Pode estar aqui mesmo, no computador, dando o maior mole. O amor está em todos os lugares, você que não procura direito.

A primeira lição está dada: o amor é onipresente. Agora a segunda: mas é imprevisível. Jamais espere ouvir “eu te amo” num jantar à luz de velas, no dia dos namorados. Ou receber flores logo após a primeira transa. O amor odeia clichês. Você vai ouvir “eu te amo” numa terça-feira, às quatro da tarde, depois de uma discussão, e as flores vão chegar no dia que você tirar carteira de motorista, depois de aprovado no teste de baliza. Idealizar é sofrer. Amar é surpreender.

Medeiros, Martha. Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

Até o próximo texto
Au Revoir

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Meus amigos são um barato

Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência
Se a Nara Leão, naquele velho disco, também achava — por que não poderia eu também achá-lo? E se o Nirlando Beirão, tão chique, tem um vizinho yuppie — por que não posso ter coisa semelhante em minha vida de retinas fatigadas? E confessá-lo de público — atente na expressão —, assim: meus amigos são um barato. Um baratão. Nos dois sentidos: o do insólito e o do inseto.
Meu amigo Pedro, por exemplo, é um barato no sentido mais tradicional da expressão. Ou não? Fico um pouco confuso, e pensan­do bem talvez ele seja mesmo uma curtição. O passatempo prefe­rido dele é, nos fins de semana, fazer tremendas vivências em Mauá. Fazer vivência vem a ser o quê? Ora, cara, tá por fora: qualquer coisa pode ser uma vivência: um chá, um baseado, uma caminhada. Im­portante é que seja em grupo. E que você vá fundo, entendeu? Com direito a nirvanas e iluminações.
Meu amigo Pedro é superfeliz. Detesta quem tem problemas: ele diz que é baixo-astral. Ele está sempre numa ótima. Detalhe: mora num apartamento de andar inteiro de frente para a praia, no Rio. Com os pais, claro — embora tenha trinta anos. Mas tudo bem: para gozar de inteira liberdade, ele pode usar uma coberturazinha absolutamente simples. Outro passatempo dele, embora adore pe­dir carona, é dirigir o Monza zerinho de manhã. Daqueles que você

aperta botões e acontecem coisas tipo fontes luminosas, faróis de laser, show de mulatas etc. Mas ele, meu amigo Pedro, é singelo e franciscano: anda sempre de camisetinha zurrapa e sandália havaia­na. Tem certeza de que, um dia, vamos todos viver em paz — na Era de Aquário. Confirmou isso no último verão, passado na Bahia, com uma pá de gente de cabeça feita.
Já minha amiga Kate, um pouco mais moça, despreza meu amigo Pedro. Comenta: "Ele acha que Woodstock foi ontem. E ain­da nem desarrumou a mochila". Ele comenta sobre ela: "Quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou". A verdade é que não conheço ninguém mais moderno (ou pós, nos dois sentidos: o do depois e o das carreiras) que minha amiga Kate. Coberta de negro, cabelo raspado de um lado, vezenquando uma peruca rosa de nái­lon. Naturalmente é performática. E faz cursos sen-sa-cio-nais: o último foi de vídeo-performance — um arraso. Minha amiga Kate acha tudo meio antigo, mas concede ir ao Satã, ao Rose Bom-Bom, dá umas bandas pelo Ritz e não pisa nem morta no Pirandello. Acha que tudo é uma questão de pique-e-pá-e-crã, sabe como? Fico numas que só...
Meu amigo Betinho é radicalmente o oposto. Faz a linha subir-com-esforço-na-vida. Quanto mais esforço, melhor. Tem visões futuristas com videocassetes, IBMs elétricas, secretárias eletrônicas louras de olhos azuis, guarda-roupas completos para as quatro estações comprados na Mr. Kitsch. Embora, no fundo, goste mesmo é de Calvin Klein. Ou — em momentos de profunda verdade interior — de um sólido Pierre Cardin. Naturalmente, ele veio de baixo. Muito baixo. Tem um problema sério: quando bebe, tem paixão por ouvir Alcione. E por tudo isso, se você for a um res­taurante com meu amigo Betinho, pode estar certo de que a conta jamais será dividida em partes iguais. Em alto e bom som, ele sem­pre dirá: "Mas eu não tomei cafezinho!"
Minha amiga Joana — ex-atriz, ex-cantora, ex-traficante — há anos largou tudo, pegou uns panos vermelhos, botou um mala no pescoço, com aquele 3X4 de Rajneesh, e foi embora pra Floripa (leia-se Florianópolis). É conhecida por lá como Bodhira, que em sânscrito quer dizer flor de não me lembro o quê. Será — haja — ló- tus? Quando fui visitá-la, fizemos muita meditação caótica juntos. Supervivência, se pintar, experimente. É um barato.
Enfim, esses são só alguns. Tem mais, talvez para uma Parte II. Mas, como todo ficcionista, sempre procuro deixar muito claro que qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas — bem, você sabe. E eu adoro meus amigos. Simplesmente adoro.
Até o Próximo Texto
Au Revoir


ABREU, Caio Fernando. A VIDA GRITANDO NOS CANTOS. Editora: Nova Fronteira, 2012. 248p