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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Um título, Uma Capa e o Tempo Errado



Numa feira de livros um título e uma capa me encantam. Mas foi um encanto de tal forma que não li nem o resumo, nem a crítica, nem nada do livro, comprei-o cegamente. E assim foi que o livro “A Menina Que Colecionava Borboletas” de  Bruna Vieira, veio parar na minha estante. Tudo estaria perfeito se não fosse o distanciamento de realidade entre a autora e eu. Explico-me.

É inegável o talento da autora para crônica. Elas são lindas, cheias de sentimentos, lineares, gostosas de ler. E eu simplesmente amo narração em primeira pessoa que me dá a sensação de emoções mais intimistas. Como se fosse um bate papo entre personagem e eu. Só que, no caso desse livro as crônicas nos remetem a uma espécie de diário onde fica inevitável entender que estamos dialogando com a autora e seus conflitos pessoais. – A autora é uma blogueira famosa com zilhões de fãs e seguidores. E esse formato de diário já é algo que ela lida muito bem. – Porém, ela fala das crises que está passando ao deixar o mundo adolescente pelo mundo adulto. O livro é de 2014, e ela estava com vinte anos. Bom, eu com quarenta e cinco agora, já tendo passado pelos conflitos que a jovem vem narrando no seu livro e está numa outra fase de conflitos, tenho outra visão de tudo. Então, o livro foi se arrastando depois de um tempo.  Mas se você está nesse momento de transição de adolescência para vida adulta, o livro se tornará uma delicia. Porque houve momentos que eu revivi meus momentos adolescentes e sorri deliciosamente lendo. 

O livro é de uma editora que eu não conhecia Gutenberg e fiquei muito apaixonada pela formatação e zelo da editora com a autora e sua obra. Parabéns a toda equipe de edição. Isso é estimulante para conhecermos outros livros de vocês. 

Sobre a autora ela lançou outros trabalhos que, pelo que entendi, segue essa linha diário em crônicas e contos. Seus outros títulos são: “Depois dos Quinze”. E há também uma série de ficção chamada “Meu Primeiro Blog”, cujo volume 1 já foi lançado por essa mesma editora. Mas para quem gosta de seguir as celebridades virtuais, ela está em toda rede social e tem o blog chamado “Depois dos Quinze”.  

Indicar ou não indicar? Indico para todas as jovens que procuram se entender ainda. Indico para todos os jovens que estão nesse momento de mudança. Indico a quem quer uma leitura gostosa e rápida, livre das entrelinhas e sub-textos de interpretação profunda e filosófica. E para todo jovem que curte essa linha “Meu diário” de escrita. Acho que é uma escritora que vocês jovens gostarão. Como professor, acho bacana como leitura instrumental. Já os mais velhos que, como eu estão em um foco diferente dentro da literatura, não acho que prenderá a atenção por não fazer parte de nossas buscas e anseios literários.

Crônicas Que Mais Gostei No Livro

Enquanto Valer a Pena
O Futuro Que Você Nunca Viu Na Gente
Tudo Aquilo Que Eu Nunca Te Disse
Um Errinho
O Amor Que Eu Inventei
De Madrugada
Até
O Dia Em Que Eu Me Apaixonei Pela Liberdade

Enfim, é isso! E até o próximo!!!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Morangos Mofados: o Fim.



E com dó e dor me despedi de um livro que busquei por tanto tempo e acabou chegando de surpresa de aniversário. E o que dizer do conto título desse livro? Eu não sei exatamente. Chorei. Mas não sei se foi choro de tristeza porque chegou o fim da linha ou se chorei porque também sinto em mim o mesmo câncer que o personagem. Acho que chorei porque o livro todo mexe nas lacunas que carregamos. Ele veio desde o início me desconstruindo e no final quando eu era pó revirado, ele me fez renascer para uma nova consciência do ato de escrever. Desde o porquê até a a responsabilidade com quem lê. Nunca me vi escritora, embora sempre ouvisse que sou boa nisso. Mas agora sinto que ninguém foge desse dom. E inevitavelmente temos que escrever os sentimentos e emoções que nem sempre são nossas, mas que nos são doadas diariamente pela vida. O escritor tem o dever de dizer o que a maioria não consegue. Então, entendi que é por isso que quando falo tudo meio confuso a quem me ouve, mas quando escrevo toco naquele profundo que faz o outro chorar, suspirar, sorrir, se identificar, me ver…

Ninguém entra no universo de Caio Fernando e sai dele da mesma forma. E estranhamente enquanto escrevo isso penso: alguém sai do universo de alguém exatamente como entrou? Não! Somos canais. Todos nós e cada qual transforma o outro com as armas que tem.

Caio me transformou numa deia de escritora melhor. Digo ideia porque não sei se consigo ainda olhar para mim como escritora, mas sei que sinto que meus olhos e pensamentos não seguem o fluxo da maioria. E cada delírio meu diante de algo visto ou vivido nada mais é que o momento de conceber algo que alguns chamarão de literatura. Ou como diz o próprio Caio Fernando numa carta que ele escreveu a José Márcio Penido onde ele fala do processo de criação, eu entendi que “escrever é enfiar o dedo na garganta”.

Toda pessoa que se diz LEITOR, tem por obrigação ler essa obra. Tem que provar o mofo dos morangos e morrer de câncer para renascer essa outra coisa que sinto aqui agora em mim. Tem que provar “disso”. Eu não sei definir, mas é uma coisa que inexplicavelmente precisa ser vivida. E então, no fim do livro com dó e dor entender que de alguma forma você é parte de um processo que não finda nunca mas que é de extrema importância estar dentro, fazer parte, sentir o movimento chacolhar-nos como coqueiros nas tardes de ventania de verão. Entende? Talvez não ainda. Mas entenderá quando ler. E aí você fará parte dessa coisa de que falo e que agora você só sente como uma viagem minha, particular.


Maravilhoso. É só isso que posso usar para definir “Morangos Mofados”. Maravilhoso. Ma-ra-vi-lho-so! 


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Sobre Morangos



Quando comecei a leitura da segunda parte de “Morangos Mofados” pensei que leria textos ainda mais poéticos, mais líricos, suaves… A ideia de que os “morangos” escorregariam pelos meus pensamentos trazendo-me frescor e leveza para os dias, foi para o ralo no primeiro conto.

Na verdade os “morangos” despertam em nós uma fome louca de pensar e revira-nos o estômago em centenas de experiências que comodamente deixamos esquecidos no inconsciente. Eles travam na boca com um gosto amargo. E descem rasgando abrindo velhas feridas. (Ao menos foi assim comigo!)
Eu estava em cada conto lido. Um pedaço de mim tatuado em cada um deles. Na solidão do espelho, no passeio de carro, na inocência perdida, nos quadros, nos medos, nas dúvidas. E de repente, eu mesma era Caio Fernando de forma íntima e dolorosa. Eu sentia cada momento na minha própria pele, cada conflito, cada febre. Acho que os morangos ressuscitaram cada um dos meus moinhos de vento com os quais batalhei toda uma vida e eu me vi revirando-me toda intensamente.

Contudo, em momento algum tive pena de Caio ou de mim. Nem mesmo aquela vontade tão corriqueira de chorar o que seria lógico naquele momento. Eu deveria ter chorado, chorado, chorado… até esgotar de mim tudo aquilo que se remexia e doía em mim e em Caio. Mas eu não tive dó de nós dois. Porque esses personagens que circularam por mim e Caio é que nos fizeram o que somos. Ele foi grande porque tinha esses personagens para provocar-lhe a essência poética. E eu, tornei-me essa torre agigantada e para nessa coisa meio poeta e louca que sou.

Tinha, pois, a cada leitura a ilusão de andar num trem cada vez mais descarrilhado partido de não sei onde e indo para uma certeza de infinito que nunca se findará porque sempre virá um novo personagem. E eu lia, lia, lia… Porque já não era mais Caio era eu olhando da janela aquelas paisagens de passado ou de borrão futurístico. Meu Deus! Que sensação impressionante! Quantos sentimentos intensa e insanamente confusos.

Não, senhores, ler os “morangos” não foi fácil que o “mofo”! Definitivamente foi dolorido. Sadicamente prazeroso. Mas li-os, ou os engoli, um a um. Saboreando o amargor como quem espera nisso algum tipo de redenção ou salvação. Então, não pude desmembrá-los como fiz com a primeira parte. Não dá! Os morangos são um monobloco sensitivo. Só existem assim unidos, intrincados.

Contudo, penso que entendi Caio Fernando como nunca entendera antes. Entendi todos os outros que li antes desse. Eu furei a fila, sabe? Minha relação com ele tinha que ter começado aqui. Para depois vir “Os Dragões Não Conhecem o Paraíso”, “Onde Andará Dulce Veiga”, “O Triângulos das Águas”, “Ovelhas Negras”… Hoje, não sou mais uma leitora de Caio Fernando. Hoje, sou uma parte dele. Uma parte que sobreviveu.

Talvez seja assim que os artistas se eternizam. As pessoas se identificam com o que leem, visualizam, tocam… E eles sobrevivem ao seu tempo e a todos os tempos que virão. Imortais enquanto seus sentimentos existirem em algum fã. Eternos na identificação do outro na sua própria dor, alegria, ódio, amor…

Ah, que ilusão e surpresa foi essa de achar que os Morangos seriam mais fáceis e doces. Que paixão me despertaram ser aqueles personagens e o reencontro com os meus próprios. E agora serão os dois. Unidos os Morangos e o Mofo que me esperam na terceira parte. E que será que REALMENTE me espera lá? Não sei! Mas antes de ir até eles, vou respirar um pouco e beber um vinho.


Até breve.

Waleska Zibetti


segunda-feira, 27 de julho de 2015

O Segredo de Um Homem



Quando caminhava pelas ruas de manhã para comprar pão e jornal, ele era um homem como qualquer outro. Era um homem de meia idade, bem conservado, realizado no casamento, pai de bons filhos, avô. Um homem honesto, cumpridor de seus deveres civis. Um homem de prestígio. Ninguém ousaria duvidar de seu caráter ímpar.

Toda manhã orgulhosamente cumprimentava educadamente seus vizinhos na volta para casa. Beijava respeitosamente a esposa e sentava-se à varanda para se pôr a par das novidades do jornal. Franzia a testa indignado de vez em quando. Comentava com esposa uma coisa ou outra. E, por cima dos óculos, espiava as crianças brincando nas calçadas. Era um homem feliz. 

O problema começava quando ele ficava sozinho. Quando sua esposa estava entretida com os afazeres domésticos. Quando ninguém o observava. 

Diante da solidão, a cabeça doente do nosso herói fervilhava de histórias, de delírios. Ora acreditava ser o dono do mundo ora era um cão humilhado. Sua cabeça era doente. Um débil. Coitado!

Certa vez achou que era galã de novela. Queria a todo custo seduzir todas as moças das redondezas enviando-lhe versinhos que ele escrevia com poses de Neruda. Gostava das moças, quanto mais jovem melhor, pois eram mais inocentes e a sua lábia as convenciam melhor. Já as maduras nem era bonitas nem eram burras e sabendo disso fugia delas. 

Empertigado, gostava de falar difícil, achava que isso mostrava elegância; e assim convenceria a todos de seu poder. E quando alguma ninfeta lhe lembrava da calva... Ah, amigo, dava-se o dilema! Ele partia para cima da moça como toda fúria gritando: "Tenho dinheiro. Posso comprá-la!". Sentia-se o próprio califa comprando mulheres para seu harém. 

Sentado em seu quarto solitário, a sua metade louca e doente maquinava ideias para atormentar os outros. Não era realmente feliz, logo queria ver infeliz o resto do mundo. Tinha inveja de quem conseguia viver para si e por si. Revoltava-se ao descobrir que não era o dono do mundo como supunha. Que na verdade, por mais que se esforçava, não era nada além de um velho solitário. 

Adoecido, nosso herói estava morrendo. Cada dia mais sozinho e confuso. Cada dia mais enterrado em suas crenças insanas. Um dia acordou para comprar o pão e o jornal e não achou ninguém. Procurou do lado de fora da casa as crianças brincando e tudo estava deserto. Chorou feito menino querendo colo, atenção, carinho... Perdeu-se na própria loucura o pobrezinho.
(Waleska Zibetti, in "O Segredo de Um Homem")

sábado, 11 de julho de 2015

Minha Machadinha



Esse texto se refere a música portuguesa Minha Machadinha. Não há nada de real nele, é simplesmente obra da minha imaginação louca.

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Numa estranha tarde cheia de nuvens no céu, algumas crianças estavam sentadas na calçada conversando, quando de repente um casal saiu correndo de um prédio e gritos encheram a rua. Seguindo o casal, veio um homem com uma machadinha na mão. Ele a erguia e a balançava no ar, atrás dele vinha uma pequena multidão que corria para tentar impedi-lo de chegar à rua, de chegar ao casal. 
  O casal estava assustadíssimo. O homem com a machadinha na mão louco e enfurecido. A multidão atordoada com a velocidade de fatos. E as crianças assistiam com certo interesse. O homem com a machadinha na mão começou a gritar:
- Por que você fez isso comigo? Por que você me traiu?
- Calma, não é o que você pensou... – a mulher respondeu - Vamos conversar...
- Não quero calma, quero o motivo...
- Pense um pouco, não vai resol... – o rapaz ao lado da mulher tentou argumentar, mas o outro ameaçou. 
- Fica fora disso, desgraçado... FICA FORA DISSO! – mais uma vez ele sacudiu a arma no ar fazendo medo em todos.
- Amor, calma... Vamos conversar...
- Por quê? Por quê? Por que ele te pôs a mão. – O homem com a machadinha começou a chorar. 
- Calma, pois eu sou sua...
- Eu também sou teu... 
- Solta essa arma... – O homem largou a machadinha, quase no mesmo instante dois rapazes da multidão pularam nele. O rapaz ao lado da mulher segurou-a e saiu correndo. Ou pelo menos tentou.
O marido se soltou dos dois rapazes, pegou a machadinha no chão e a arremessou contra o rapaz que fugia com sua esposa. A machadinha pegou no meio das costas dele. O homem foi até eles correndo e, antes que pudessem impedi-lo, decapitou a mulher. Todos com medo se afastaram um passo. O homem, perdido na sua loucura, pegou a arma e atingiu a própria cabeça. 
A multidão foi se desfazendo, a polícia chegou e levou os corpos e as crianças cantavam sombriamente no canto da rua:

“Ha ha ha puxa a machadinha
Ha ha ha puxa a machadinha
Quem te pôs a mão, sabendo que és minha? 
Quem te pôs a mão, sabendo que és minha?
Ha ha ha sabendo que és minha
Ha ha ha eu também sou tua
Puxa a machadinha no meio da rua
Puxa a machadinha no meio da rua”

(João V. Zibetti, in "Minha Machadinha") 

sábado, 4 de julho de 2015

Na Madrugada: Arrependimentos.



O telefone toca no meio da madrugada e uma voz conhecida me pergunta:


__ Como você consegue?

Entre o sonho e uma realidade surreal tento entender a pergunta ou, pelo menos encaixa-la numa razão plausível. Mas não há nenhuma justificativa.

__ Consigo o que?
__ Consegue viver como se nada tivesse acontecido. 

Sento na cama e esfrego os olhos. Fico pensando no que exatamente aconteceu. Chego a pensar que ainda estou dormindo. 

__ Do que você está falando? Você bebeu?
__ Não. Eu acho que me perdi. Estou confuso demais. Não sei o porque de ligar para você. Eu estou ficando louco. 

Ignoro tudo dito anteriormente. 

__ Está tudo bem aí?
__ Não. Nada está bem. Você não está aqui. Nada está no lugar. Eu achei que eu pudesse, sabe? Achei que era forte. Eu não sou! E agora está doendo! Caralho, está doendo demais. E eu não sei o que fazer ou pensar. Eu queria saber como você conseguiu mudar tudo, como você superou tudo, como você consegue ser feliz. Eu acho que ainda amo você.

As informações saíram de enxorada. Parecia que ele precisava vomitar aquelas emoções  que, provavelmente, lhe embrulhavam o estômago.  Eu entendia aquilo muito bem e fiquei em silêncio deixando que ele aliviasse aqueles sentimentos. E o silêncio se estendeu mesmo depois do desabafo.

__ Fala algo. Pelo amor de Deus! Me diz qualquer coisa. Você sempre sabe o que falar. Me ajuda!
__ Eu nunca mais estarei aí. Então, reorganize o espaço que deixei. Plante uma samambaia e coloque no meu lugar. Se você não é forte como pensava, não posso fazer nada por você. Eu estou na posição contrária. Eu sou forte, mas não sabia disso. E não sinto nem pena do seu desabafo. Eu não sinto nada. Pense em fazer algo que lhe preencha o tempo e a vida. Outras mulheres como você fazia antes quando eu ficava esperando por você. Eu consegui ir adiante porque fui eu quem apanhei, chorei, esperei... Você foi eficiente em me ensinar a ser só. Aprendi. E quanto ao amor... Bom, eu sei que não te amo mais. Dei a outra pessoa o meu amor. 

Houve um silêncio pesado.

__ Quem é ele?
__ Ela?
__ O que?
__ Dei o meu amor a uma mulher, querido.
__ PORRA!
__ Dei o meu amor a mulher que ficou comigo quando você se foi. Dei o meu amor para mim. 

Mais um pouco de silêncio. 

__ Você é foda! Será que um dia...?
__ Nunca!
__ Tchau!
__ Até. 
(Waleska Zibetti, in "Na Madrugada: Arrependimentos")

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Do Estranho e do Esquisito



Era uma vez uma menina estranha que certa vez conheceu um homem esquisito. Ela tinha alma azul e ele coração de pedra. O vento soprava pela fresta da janela previsões de mudança. E choveu no fim da semana. 

Era uma vez um homem estranho vestido de vento que conheceu certa vez uma menina esquisita que nunca mudava. E o coração soprava na alma previsões de chuva.  E na janela de pedra azul passava o fim de semana. 

Era uma vez uma chuva que certa vez conheceu o vento. E o coração de uma menina passava o fim de semana nas pedras. Estranha alma! E um homem soprava pela fresta azul previsões esquisitas.
 
Era uma vez uma história estranha de um homem que nunca conheceu a menina. Onde o vento soprava a chuva na janela azul. Onde uma alma buscava um coração num fim de semana. E a previsão era de que tudo seria esquisito. E foi!

(Waleska Zibetti, in "Do Estranho e do Esquisito")

sábado, 23 de maio de 2015

Ponto Final


Era só um espectro de si mesmo. Esconde-se na penumbra. A ponta de seu vestido era a única coisa que alcança a luz vinda da lua que invade a fresta da janela.

__ Olá!

A voz é como um acorde frio que retumba no cômodo cheirando a passado. É difícil imaginar-lhe os traços porque seus cabelos cobrem-lhe o rosto.

__ Entre. Eu o esperava.

É impossível não obedecer a essa voz. Uma banqueta do outro lado, provavelmente de veludo e que em outro tempo fora vermelho, está quase em frente a ela. E diante dela é difícil controlar a respiração, o corpo, a voz, o olhar.

__ Há quanto tempo sinto você se esgueirando por aí a me rondar.

Ela respira pesadamente e sua voz sai como um silvo. Uma mão pálida e cadavérica segura o braço da poltrona acariciando o tecido também aveludado.

__ O que você procura? Melhor... O que você não procura é o que lhe traz aqui.

Seu cabelo é longo e seu cheiro lembra velhas bibliotecas. Não é possível ver mais do que a ponta do vestido e os contornos magérrimos de uma mulher.

__ Eu não sou o caminho, mas vocês insistem em vir sempre por aqui. Vocês insistem em visitar-me pela comodidade que causo em vocês. Gentinha miúda e nojenta. É isso que são! Todos vocês!

A voz agora demonstra desprezo e um cheiro ruim invade o cômodo. Talvez seja a hora de ir. Mas não se consegue. Tem que ter um porquê.

__ E tem!  - sentencia pela primeira vez forte essa coisa sentada adiante – O porquê é o seu medo. O seu medo de não assumir o que quer, de não se lançar nos seus desejos. Fica arrumando pequenas desculpas para tudo: falta de tempo, falta de dinheiro, depressão, loucura, Deus... Até quando será isso em sua vida? Esse vaguear em mentiras, em ilusões, em desculpas...

A respiração acelera. É possível ouvi-la ainda mais nítida.

__ Foram criados para serem superiores e na maioria do tempo agem como vermes. Depois ficam aí... pelas madrugadas... ratos pelos meus corredores. Misericórdia... misericórdia...

Aperta o braço do sofá.  Unhas pontiagudas quase rasgam o tecido roto.

__ Infelizes! Haverá sol amanhã, sabia? E tudo que terá a fazer é ter coragem de admitir seus pesadelos para que ele o cubra inteiro. Se despir dessa sua pele fantasiosa de segurança e admitir o medo, a falha, a culpa. Mas... É mais fácil não chorar, não é? É mais fácil arrumar outra desculpa para enfiar o dedo na garganta e jorrar sua frustração no vaso do banheiro. Dizer sinceramente para si que você é o resto de merda nenhuma e então, sair pela vida para provar a delicia de ser totalmente livre.

Pela primeira vez ela movimenta o corpo para frente. Partes dos cabelos alcançam a luz. São grisalhos e mal cuidados.

__ Ouça um pouco... Há vida lá fora. Gente. Gente de verdade. Gente querendo e sendo gente. E você aí... Rondando-me. Perdendo tempo. Querendo um amanhã perfeito. Ele não virá! Ele não existe! Mas você entenderá isso tarde demais.

Ela se levanta. É completamente possível se sentir o olhar dela pousado em nós.

__ É a sua última chance. VÁ!

A mão cadavérica aponta a porta, a rua iluminada...


__ VÁ AGORA E VIVA!

E agora, amigo? O que você escolhe: continuar aqui ou ir? É você quem decide. Tudo agora é com você. 

(WAleska Zibetti, in "Ponto Final")

quinta-feira, 21 de maio de 2015

A Borboleta e A Águia


Era uma vez uma borboleta que avistou um dia uma águia. Ela  a observou por dias e de tanto observá-la quis conhecê-la. Aproximou-se lentamente num dia que viu a águia pousada. E as duas conversaram por horas. A borboleta ingênua pensou que as duas poderiam ser amigas. E quando a águia voou a borboleta tentou acompanhar-lhe no voo. Inocente borboleta ignorou o poder de suas asas pequenas. 
 
As águias são criaturas altivas e desconhecem os seres menores e mais simples. A borboleta ainda tentou fazer com  que a águia a notasse. Mostrou-lhe as suas cores, suas flores, mas a águia era um ser sozinho e acostumado com os céus altos, amplos, grande. Nada naqueles universos miúdos de borboleta  atraíram a águia. 
 
Pior foi que a águia pensou que a borboleta fosse como ela. Forte, implacável, altiva, orgulhosa... “Acho que as águias enxergam o mundo só de cima”, pensou triste a borboleta. A consciência de sua inferioridade e o medo da insensibilidade da águia foi fazendo a borboleta temê-la, mas a águia a atraia e curiosa ela ainda se mantinha por perto esperando que numa distração a águia notasse que pousar numa flor de jardim poderia ser bom também.

Infelizmente para a borboleta algumas coisas não podem mudar. Águias e borboletas não voam no mesmo plano. E num momento de fragilidade da borboleta, seguindo seu instinto natural de sobrevivência solitária a águia atacou com suas garras afiadas a borboleta insistente.

Com as asas feridas a borboleta recuou. A águia rindo-se disse: “Você é covarde diante da vida?”. A borboleta ferida, machucada, chorou baixo e disse-lhe: “Sim, eu sou. Sou uma covarde e quem quiser que me aceite!”. Foi embora e águia ainda continuou bradando suas ilusões altivas, conclusões infundadas de um ser tão cheio de si que em momento algum conseguiu realmente ver ou sentir o que havia naquela borboleta.

De volta ao jardim, sentindo-se menor ainda, mais fragilizada ainda, mais triste ainda, escondida por baixo de suas folhas, a borboleta chorou vendo a águia sumir de sua vida para sempre pelos céus onde tolamente ela borboleta pequenina um dia pensara que poderia desfrutar. 

(Waleska Zibetti, in "A Borboleta e A Águia")

segunda-feira, 18 de maio de 2015

A Rosa e o Girassol



Gira teu sol-coração
e nos ilumina,
sempre

(Aline Mariz)

Ela abriu a janela para ver o mundo como faz todos os dias. Ainda despenteada e meio preguiçosa. Da janela ela o viu. Ficou curiosa, mas como tem medo se escondeu na cortina para observar.

A primeira coisa era sempre mostrar que ali não era lugar para gente comum. Todos ali sabem que ela é meio bicho. Borboleta! Assustada, frágil e morre fácil e ele teria que saber disso para poder ficar. Mas ele não riu dela como os outros. Não teve medo dela. Doou-se, também. E não quis que ela fosse para ele o que era para todos. Para ele, ela não era borboleta. Era rosa. 


E ela se lembrou de um principezinho que certa vez conheceu e que também a fizera rosa. E ela gostou de ser a rosa dele. Mesmo tendo medo de ter as pétalas tocadas. Porém, ele também era flor. E flor não machuca flor, ela pensou. Melhor, ela apostou. Fez-se rosa. E foi então, para o jardim.

Por fim começou a se acostumar com o novo amigo. Foi chegando de passinho leve, mas como não é de se acanhar logo estava rindo inteira ao lado dele. Divertindo-se como se já se conhecessem há muito tempo. 


Era bom para rosa frágil sentir de perto o girassol cortês. E a poesia dela entrou nele como perfume de primavera. E transbordou suave em versos de carinho. Os versos de carinho tomaram força e se espalharam por aí.  De ciúmes uma nuvenzinha quase estraga o quadro, mas não foi forte o suficiente. Era amizade ciumenta e tudo ficou no lugar antes mesmo que a rosa lembrasse que era borboleta e tentasse fugir para longe. 

E o dia termina melhor do que começou. Ela fecha a janela para o mundo. Volta para seu mundinho normal. Mas hoje ela dorme contente porque dentro de seu coração a rosa se aninha feliz no abraço de um girassol. 

(Waleska Zibetti, in "A Rosa e o Girassol")

sábado, 16 de maio de 2015

Estela, Estrela


Ele olhou-se no espelho analisando-se, avaliando-se, encorajando-se. Ajeitou a roupa mais uma vez. Colocou seu melhor perfume. Tirou a máscara e saiu no meio do bloco sendo ela mesma. 
(Waleska Zibetti, in "Estela, Estrela")

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Coragem



Era tanto olhar para baixo... Tanto medo da chuva... Mas ela nunca foi como as outras. Encarou o céu do meio do mar de guarda-chuvas e se sentiu feliz com os beijos molhados de vida.
(Waleska Zibetti, in "Coragem")

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Dos Porquês



À noite...

__ Vamos conversar?
__ Não venha me atormentar com suas bobagens que já é tarde. Deite e durma, mulher! 

Pela manhã...

__ A esta hora e já com essa cara azeda? Deus do céu!
__ É que ontem dormi engolindo palavras amargas.

Envergonhado ele afunda os olhos no jornal. 
(Waleska Zibetti, in "Dos Porquês")

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Para Sempre



__ Interessante! - Assim ele me definiu no fim da noite quando eu e a taça de vinho repousávamos em silêncio do lado oposto da mesa e dos pensamentos dele.  Eu o observava talvez buscando algum tipo de definição para ele, também. E de repente notei que tinha olhar reticente. - Está tentando entender o "interessante"? 

__ Não! Estou tentando uma palavra para você. 

__ Achou alguma?

__ Austero. - E ele franziu a testa, não sei se ele buscava uma explicação ou se não achou pertinente a definição dada. Depois recostou-se na parede com olhar perdido. E houve alguns minutos silenciosos. Depois ele olhou-me tão diretamente nos olhos que eu não pude desviá-los. Eu deveria dizer algo ou talvez ele. 

__ Austero igual a chato? 

__ Austero igual diferente de mim.

__ Fala porque sorrio pouco?

__ Falo pela loucura. 

__ Você sabe que de louca, você nada tem. É a pessoa mais coerente e consciente que conheço. Só que sem carregar o peso dessa coerência nos ombros. E isso a deixa leve e ainda mais interessante. Mas por que "sóbrio"?

__ Porque você, em todo o tempo manteve-se centrado quando seus gestos indicavam descompasso. Porque você não perdeu a linha em nenhum momento, mesmo quando seus olhos faiscaram de ódio. Você vai ao extremo e antes que o ultrapasse, volta uma espécie de equilíbrio confortável. - E novamente ele recostou a cabeça e perdeu-se em pensamentos. 

__ Você passou esse tempo todo me analisando, enquanto eu achava que você nem me ouvia. Você é realmente muito interessante. - E voltando novamente seus olhos para os meus. - Você será para sempre minha. 

__ Para sempre não existe! E eu não sou de ninguém!

__ Para sempre existe sim. Você só não precisa estar fisicamente nele. E você é minha. Porque sou dono de meus pensamentos e eu vou levar você dentro deles. - Ele havia me silenciado. Eu que sempre tenho resposta para tudo, nada pude dizer. Então, ele se levantou sorrindo. Estendeu a mão para mim. De pé diante um do outro sem nada dizer. Eu não conseguia pensar em nada coerente. Ele me sorri. E eu nem sei se sorri de volta. - Vem comigo!

__ Para onde? - E de repente senti-me tão pequena e débil por ter dito aquilo.

__ Ser para sempre num momento de nós dois. 

Sorri. E entendi. E em algum momento de uma noite. Um para sempre se repete numa cama de motel.  
(Waleska Zibetti, in "Para Sempre")

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Em Vermelho



Ela pintou a boca de vermelho e ficou quase imóvel esperando ele chegar e buscar. As horas passaram e ela ainda esperava por ele. A noite chegou e ela cansou de esperar. Fez um envelope de guardanapo branco e guardou dentro o beijo vermelho que ele não veio buscar. Dobrou com cuidado, lacrou com uma lágrima e foi dormir.
(Waleska Zibetti,  in "Em Vermelho")

sábado, 25 de abril de 2015

A CARA DA MORTE


O post de hoje conta com um conto de João Zibetti, que também é leitor do #CLV

"Jão", como costumo chamá-lo, de vez em quando  me manda link de textos que ele escreve. Algumas semanas atrás quando li o conto que vou citar no final do post, eu logo pensei: "JÃO! Vou escrever algo falando de morte, queria publicar seu texto". E aqui estamos nós.
Espero que gostem do post de hoje.

Filosofias e religiões diferentes nos oferecem ideias distintas sobre a morte e suas dimensões espiritual e pessoal. Na era moderna, embora a medicina tenha critérios precisos para determinar quando a morte ocorreu, os médicos ainda debatem sobre o significado exato do que é morrer.

A MORTE EM OUTRAS CULTURAS

Embora sejamos acostumados a pensar na morte como uma clara fronteira, essa linha divisória pode variar surpreendentemente entre as diferentes sociedades. Em algumas culturas, acredita-se que os cadáveres mantenham um princípio vital muito depois de os médicos ocidentais declararem a morte.
Os tibetanos têm a tradição de entoar o Livro Tibetano dos Mortos durante 49 dias após a morte de uma pessoa – eles acreditam que é esse o período entre a morte e o renascimento através da reencarnação. Eles entoam cânticos para o corpo e o espírito durante uma semana depois que o indivíduo pára de respirar, e continuam a fazer o mesmo diante de uma imagem do morto depois que o corpo é enterrado.
Na crença islâmica, a morte é considerada a separação entre a alma e o corpo; e como a alma habita todas as partes do corpo, uma pessoa pode estar “viva” mesmo após a morte cerebral ter sido diagnosticada.
Retrocedendo na história até a época de Cristo, o povo judeu acreditava que a alma permanecia no corpo até o terceiro dia após a morte (contando o dia da morte como o primeiro - daí advém o significado da ressurreição de Jesus “no terceiro dia”: se acontecesse antes, ele não teria sido considerado verdadeiramente morto.
Muitas sociedades depositam fé na presença contínua dos mortos como membros da ordem social, com direitos e obrigações. Já outras culturas tratam alguns dos vivos como se estivessem mortos – por exemplo, se sofrem de determinada doença ou ignoram um tabu social importante. Sem dúvida, a morte tem uma dimensão social como médica – você está morto quando sua sociedade assim o considera.


Créditos: Reader’s digest (Maximize o potencial do seu cérebro)


                 Ultima Carta de Um Vilão
por João Zibetti

"Talvez até a morte tenha seu lado bom, um lado simpático... Mas eu não.
Desde que me entendo por gente, sonho em ter o mundo em minhas mãos. Em mandar e desmandar. Em criar e destruir todos os que se opõem a mim. Desde pequeno sonho com a glória de ser chamado de tirano, de monstro, de cruel. Tudo isso porque sempre me vi melhor que os outros seres humanos. Todos são idiotas demais, nada mais justo que eu os governe. Mas eles não sabem escolher o que é melhor para eles.
Desde que me entendo por ser vivo, eu não temo a morte. Gosto dela. Eu a acho divertida, sarcástica e irônica. Talvez porque eu nunca tenha morrido. Porém não entendo porque as pessoas a temem tanto. Acostumei-me a ela desde o momento que jurei guerra contra todos os prepotentes imbecis que se auto proclamam “heróis”, mandei vários de presente para ela.
De tanto viver ao seu lado não percebi que ela se aproximara demais, e agora estou aqui de frente para esse espelho, preso em meu próprio quarto. 
Atrás da porta me espera um maldito moleque... Um maldito herói. Como odeio “heroizinhos”. Seres patéticos. Odeio heróis. Odeio com todas as minhas forças... Que já não são muitas...
No espelho vejo meu sorriso, que na minha infância era considerado um sorriso de loucura, mas eu sempre o achei tão atraente! Assim como meus olhos. Enquanto eu amo meus olhos, as pessoas o temem. O temem como temem a Morte. Vêem uma crueldade insana nos meus olhos e sorriso. Acho que é por isso que os amo tanto.
Ouvi um barulho na porta. Quero ter certeza de que tudo que fiz foi certo. Foi... Pelo menos para mim. Consegui tudo o que sempre quis: poder, estátuas em minha honra, o temor de todos, mandei para os anjos algumas pessoas mais cedo. Não me arrependo de nada.
Mas depois de um tempo fica tudo muito chato. Nem matar nem torturar me trazem a alegria de antes. Acho que esse deve ser o problema da imortalidade. Veria tudo acontecer milhares de vezes e sempre saberia onde acertar. Seria um inferno!
De novo o “herói” tenta abrir a porta. Meu sorriso está ainda mais louco. Acho que sei o porquê... Minha velha amiga, a Morte, está se aproximando e eu sei que ela vem me buscar. No espelho o meu rosto já está cansado, eu já estou velho demais para essas brincadeirinhas de criança.
Durante anos cacei esses infelizes que se dizem heróis, agora eu já não aguento nem lutar contra um. Devo estar louco, devo estar problemático, devo matá-lo agora... Ou morrer tentando.
Ouço meu ultimo trovão, a magnífica obra da natureza.
Quero que se lembrem que eu não me arrependo de nada. Quero que saibam que odeio heróis. Quero morrer e ser lembrado como um louco tirano que foi recebido com um trono no inferno.
Até a morte tem seu lado piedoso, um lado humano... Mas eu nunca.”
Ele pegou a espada no canto e com os pés abriu a porta do quarto pulando em seu inimigo com a espada em punho. Ele não esperava a cavalaria que vinha atrás do herói. Foi derrotado antes de conseguir o triunfo de seu ultimo ato. Os soldados depois da batalha olharam para a cidade em chamas.
O “monstro” podia ter morrido, mas seu sorriso e seus olhos refletiam o orgulho do dever cumprido.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Homem Passarinho



Ele era um homem que não gostava de pessoas. Isolava-se dentro de sua casa, de seu jardim, tudo solitariamente cinza. Observava os movimentos da rua, mas não tinha a menor vontade de juntar-se a ele. Preferia o silêncio de sua sala sem televisão e com centenas de livros. Todos antigos, cheirando a bolor, amarelo-cansaço como ele próprio diante da vida.

A única coisa que o fazia sorrir era observar os pássaros que passavam sobre sua casa, que pousavam nos fios da rua ou temporariamente no chão do quintal. Ao notar a aproximação ele colocava-se tão imóvel que parecia não respirar. Era preciso que os pássaros não se assustassem, não o percebessem, não fugissem dele... Enquanto estavam por perto seus anos voavam para longe e ele era menino a jogar milhos aos pombos ao lado de seu pai. Menino correndo em piruetas no meio dos pombos a sorrir em liberdade. Menino-pombo, menino-voador, menino-passarinho...

Certo dia ele amanheceu em sua escrivaninha de madeira escura-pensamentos e decidiu sair para passear. Vestiu-se de preto-seriedade e perfumou-se de almíscar. Andou pelas ruas que ainda dormia olhando as casas de sua vizinhança. Nas árvores pardais comentavam o estranho passeio do velho. E ele olhava para as copas das árvores esforçando-se para sorrir. “Eu posso me mover, amiguinhos, mas não lhes farei mal algum”, assoviava. 

Caminhou até chegar a pracinha que amanhecia dourada de felicidade. E sentou-se no banco para observar os primeiros pombos chegarem ao local. Enfiou a mão no bolso e tirou um saco de saudade e começou a atirar aos pombos. Os grãos escorregavam em volta dele e ele observava seus amigos se aproximarem arrulhando “obrigados”. Ele sorria feliz. 

Encostou-se no banco de braços abertos olhando o céu. Revoadas de andorinhas passaram em arruaça tremenda. Nuvens brancas começaram a tomar forma do rosto do velho pai. E o pai sorriu para ele como fazia ao vê-lo no meio dos pombos quando ele ainda era um menino. E ele gargalhou sonhos que ecoaram na praça dos pombos. O sol atingiu-lhe o rosto envelhecido turvando a visão. 

Pássaros de todas as cores e tamanhos se aproximaram dele fazendo gracinhas a sua frente. Queriam agradar-lhe. Queriam fazê-lo sorrir. Eram pássaros de todas as espécies vindos não se sabe de onde a brincar com o menino passarinho na manhã de paz. Até que ele se levantou correndo entre os pássaros, rodopiando-passarinho, menino de asas... E os pássaros iam lado a lado acompanhando o amigo em seu voo despedida pelo céu azul-liberdade. 
(Waleska Zibetti, in "Homem Passarinho")

quinta-feira, 23 de abril de 2015

A casa tomada

 
Gostávamos da casa porque, além de ser espaçosa e antiga (as casas antigas de hoje sucumbem às mais vantajosas liquidações dos seus materiais), guardava as lembranças de nossos bisavós, do avô paterno, de nossos pais e de toda a nossa infância.

Acostumamo-nos Irene e eu a persistir sozinhos nela, o que era uma loucura, pois nessa casa poderiam viver oito pessoas sem se estorvarem. Fazíamos a limpeza pela manhã, levantando-nos às sete horas, e, por volta das onze horas, eu deixava para Irene os últimos quartos para repassar e ia para a cozinha. O almoço era ao meio-dia, sempre pontualmente; já que nada ficava por fazer, a não ser alguns pratos sujos. Gostávamos de almoçar pensando na casa profunda e silenciosa e em como conseguíamos mantê-la limpa. Às vezes chegávamos a pensar que fora ela a que não nos deixou casar. Irene dispensou dois pretendentes sem motivos maiores, eu perdi Maria Esther pouco antes do nosso noivado. Entramos na casa dos quarenta anos com a inexpressada idéia de que o nosso simples e silencioso casamento de irmãos era uma necessária clausura da genealogia assentada por nossos bisavós na nossa casa. Ali morreríamos algum dia, preguiçosos e toscos primos ficariam com a casa e a mandariam derrubar para enriquecer com o terreno e os tijolos; ou melhor, nós mesmos a derrubaríamos com toda justiça, antes que fosse tarde demais.

Irene era uma jovem nascida para não incomodar ninguém. Fora sua atividade matinal, ela passava o resto do dia tricotando no sofá do seu quarto. Não sei por que tricotava tanto, eu penso que as mulheres tricotam quando consideram que essa tarefa é um pretexto para não fazerem nada. Irene não era assim, tricotava coisas sempre necessárias, casacos para o inverno, meias para mim, xales e coletes para ela. Às vezes tricotava um colete e depois o desfazia num instante porque alguma coisa lhe desagradava; era engraçado ver na cestinha aquele monte de lã encrespada resistindo a perder sua forma anterior. Aos sábados eu ia ao centro para comprar lã; Irene confiava no meu bom gosto, sentia prazer com as cores e jamais tive que devolver as madeixas. Eu aproveitava essas saídas para dar uma volta pelas livrarias e perguntar em vão se havia novidades de literatura francesa. Desde 1939 não chegava nada valioso na Argentina. Mas é da casa que me interessa falar, da casa e de Irene, porque eu não tenho nenhuma importância. Pergunto-me o que teria feito Irene sem o tricô. A gente pode reler um livro, mas quando um casaco está terminado não se pode repetir sem escândalo. Certo dia encontrei numa gaveta da cômoda xales brancos, verdes, lilases, cobertos de naftalina, empilhados como num armarinho; não tive coragem de lhe perguntar o que pensava fazer com eles. Não precisávamos ganhar a vida, todos os meses chegava dinheiro dos campos que ia sempre aumentando. Mas era só o tricô que distraía Irene, ela mostrava uma destreza maravilhosa e eu passava horas olhando suas mãos como puas prateadas, agulhas indo e vindo, e uma ou duas cestinhas no chão onde se agitavam constantemente os novelos. Era muito bonito.

Como não me lembrar da distribuição da casa! A sala de jantar, lima sala com gobelins, a biblioteca e três quartos grandes ficavam na parte mais afastada, a que dá para a rua Rodríguez Pena. Somente um corredor com sua maciça porta de mogno isolava essa parte da ala dianteira onde havia um banheiro, a cozinha, nossos quartos e o salão central, com o qual se comunicavam os quartos e o corredor. Entrava-se na casa por um corredor de azulejos de Maiorca, e a porta cancela ficava na entrada do salão. De forma que as pessoas entravam pelo corredor, abriam a cancela e passavam para o salão; havia aos lados as portas dos nossos quartos, e na frente o corredor que levava para a parte mais afastada; avançando pelo corredor atravessava-se a porta de mogno e um pouco mais além começava o outro lado da casa, também se podia girar à esquerda justamente antes da porta e seguir pelo corredor mais estreito que levava para a cozinha e para o banheiro. Quando a porta estava aberta, as pessoas percebiam que a casa era muito grande; porque, do contrário, dava a impressão de ser um apartamento dos que agora estão construindo, mal dá para mexer-se; Irene e eu vivíamos sempre nessa parte da casa, quase nunca chegávamos além da porta de mogno, a não ser para fazer a limpeza, pois é incrível como se junta pó nos móveis. Buenos Aires pode ser uma cidade limpa; mas isso é graças aos seus habitantes e não a outra coisa. Há poeira demais no ar, mal sopra uma brisa e já se apalpa o pó nos mármores dos consoles e entre os losangos das toalhas de macramê; dá trabalho tirá-lo bem com o espanador, ele voa e fica suspenso no ar um momento e depois se deposita novamente nos móveis e nos pianos.

Lembrarei sempre com toda a clareza porque foi muito simples e sem circunstâncias inúteis. Irene estava tricotando no seu quarto, por volta das oito da noite, e de repente tive a idéia de colocar no fogo a chaleira para o chimarrão. Andei pelo corredor até ficar de frente à porta de mogno entreaberta, e fazia a curva que levava para a cozinha quando ouvi alguma coisa na sala de jantar ou na biblioteca. O som chegava impreciso e surdo, como uma cadeira caindo no tapete ou um abafado sussurro de conversa. Também o ouvi, ao mesmo tempo ou um segundo depois, no fundo do corredor que levava daqueles quartos até a porta. Joguei-me contra a parede antes que fosse tarde demais, fechei-a de um golpe, apoiando meu corpo; felizmente a chave estava colocada do nosso lado e também passei o grande fecho para mais segurança.

Entrei na cozinha, esquentei a chaleira e, quando voltei com a bandeja do chimarrão, falei para Irene:

— Tive que fechar a porta do corredor. Tomaram a parte dos fundos.

Ela deixou cair o tricô e olhou para mim com seus graves e cansados olhos.

— Tem certeza?

Assenti.

— Então — falou pegando as agulhas — teremos que viver deste lado.

Eu preparava o chimarrão com muito cuidado, mas ela demorou um instante para retornar à sua tarefa. Lembro-me de que ela estava tricotando um colete cinza; eu gostava desse colete.

Os primeiros dias pareceram-nos penosos, porque ambos havíamos deixado na parte tomada muitas coisas de que gostávamos. Meus livros de literatura francesa, por exemplo, estavam todos na biblioteca. Irene pensou numa garrafa de Hesperidina de muitos anos. Freqüentemente (mas isso aconteceu somente nos primeiros dias) fechávamos alguma gaveta das cômodas e nos olhávamos com tristeza.

— Não está aqui.

E era mais uma coisa que tínhamos perdido do outro lado da casa.

Porém também tivemos algumas vantagens. A limpeza simplificou-se tanto que, embora levantássemos bem mais tarde, às nove e meia por exemplo, antes das onze horas já estávamos de braços cruzados. Irene foi se acostumando a ir junto comigo à cozinha para me ajudar a preparar o almoço. Depois de pensar muito, decidimos isto: enquanto eu preparava o almoço, Irene cozinharia os pratos para comermos frios à noite. Ficamos felizes, pois era sempre incômodo ter que abandonar os quartos à tardinha para cozinhar. Agora bastava pôr a mesa no quarto de Irene e as travessas de comida fria.

Irene estava contente porque sobrava mais tempo para tricotar. Eu andava um pouco perdido por causa dos livros, mas, para não afligir minha irmã, resolvi rever a coleção de selos do papai, e isso me serviu para matar o tempo. Divertia-nos muito, cada um com suas coisas, quase sempre juntos no quarto de Irene que era o mais confortável. Às vezes Irene falava:

— Olha esse ponto que acabei de inventar. Parece um desenho de um trevo?

Um instante depois era eu que colocava na frente dos seus olhos um quadradinho de papel para que olhasse o mérito de algum selo de Eupen e Malmédy. Estávamos muito bem, e pouco a pouco começamos a não pensar. Pode-se viver sem pensar.

(Quando Irene sonhava em voz alta eu perdia o sono. Nunca pude me acostumar a essa voz de estátua ou papagaio, voz que vem dos sonhos e não da garganta. Irene falava que meus sonhos consistiam em grandes sacudidas que às vezes faziam cair o cobertor ao chão. Nossos quartos tinham o salão no meio, mas à noite ouvia-se qualquer coisa na casa. Ouvíamos nossa respiração, a tosse, pressentíamos os gestos que aproximavam a mão do interruptor da lâmpada, as mútuas e freqüentes insônias.

Fora isso tudo estava calado na casa. Durante o dia eram os rumores domésticos, o roçar metálico das agulhas de tricô, um rangido ao passar as folhas do álbum filatélico. A porta de mogno, creio já tê-lo dito, era maciça. Na cozinha e no banheiro, que ficavam encostados na parte tomada, falávamos em voz mais alta ou Irene cantava canções de ninar. Numa cozinha há bastante barulho da louça e vidros para que outros sons irrompam nela. Muito poucas vezes permitia-se o silêncio, mas, quando voltávamos para os quartos e para o salão, a casa ficava calada e com pouca luz, até pisávamos devagar para não incomodar-nos. Creio que era por isso que, à noite, quando Irene começava a sonhar em voz alta, eu ficava logo sem sono.)

É quase repetir a mesma coisa menos as conseqüências. Pela noite sinto sede, e antes de ir para a cama eu disse a Irene que ia até a cozinha pegar um copo d'água. Da porta do quarto (ela tricotava) ouvi barulho na cozinha ou talvez no banheiro, porque a curva do corredor abafava o som. Chamou a atenção de Irene minha maneira brusca de deter-me, e veio ao meu lado sem falar nada. Ficamos ouvindo os ruídos, sentindo claramente que eram deste lado da porta de mogno, na cozinha e no banheiro, ou no corredor mesmo onde começava a curva, quase ao nosso lado.

Sequer nos olhamos. Apertei o braço de Irene e a fiz correr comigo até a porta cancela, sem olhar para trás. Os ruídos se ouviam cada vez mais fortes, porém surdos, nas nossas costas. Fechei de um golpe a cancela e ficamos no corredor. Agora não se ouvia nada.

— Tomaram esta parte — falou Irene. O tricô pendia das suas mãos e os fios chegavam até a cancela e se perdiam embaixo da porta. Quando viu que os novelos tinham ficado do outro lado, soltou o tricô sem olhar para ele.

— Você teve tempo para pegar alguma coisa? — perguntei-lhe inutilmente.

— Não, nada.

Estávamos com a roupa do corpo. Lembrei-me dos quinze mil pesos no armário do quarto. Agora já era tarde.

Como ainda ficara com o relógio de pulso, vi que eram onze da noite. Enlacei com meu braço a cintura de Irene (acho que ela estava chorando) e saímos assim à rua. Antes de partir senti pena, fechei bem a porta da entrada e joguei a chave no ralo da calçada. Não fosse algum pobre-diabo ter a idéia de roubar e entrar na casa, a essa hora e com a casa tomada.
 
Julio Cortázar.
 
Ramal, Alicia (organização e tradução). Contos Latino-Americanos Eternos, Bom Texto Editora, Rio de Janeiro — 2005, pág. 09.
 
Até o Próximo Texto
Au Revoir. 

terça-feira, 10 de março de 2015

Noite de lua cheia...



Ela apagou todas as luzes para ver melhor no escuro. Abriu bem a janela e as cortinas, puxou a velha poltrona para perto da janela, mas não muito. Sentou-se entre a escuridão da sala e o prata da lua olhando pacientemente o céu. 

Os pés escondidos numa manta. As mãos apertando firme os braços do sofá demonstravam ansiedade. Vez ou outra ela mordia o lábio, como sempre fazia quando estava nervosa. O peito apertado anunciava que logo logo ela iria chorar. Era noite de lua cheia e toda vez ela ficava assim ao esperá-lo. Quem a visse ali, certamente a chamaria de louca. Contudo, ela não se incomodava mais com isso. Assumiu sua loucura para poder ser feliz.

Recostou a cabeça na cadeira, fechou os olhos e foi correr livre pelas ruas onde antes eles brincavam. Seus cabelos embaraçados, seus pés no chão, o rosto suado e as mãos sujas eram o retrato da sua essência. Menina-druida. Ligada a terra tal qual o bicho que era. E ele, sempre implicava com ela: bicho-do-mato. 

[...]

Ele era mais velho. Não sabia andar de pés no chão a não ser quando ela o perturbava tanto que ele perdia a classe e corria rua acima atrás dela que se metia no mato para o desespero dele, já que ele nunca a alcançara. Voltava com peito arfando e resmungando: peste de menina. Depois caia na gargalhada quando ela ressurgia do meio das árvores com as bochechas vermelhas e sorriso moleque no rosto, passando saltitante para casa. 

A noite ela em maria-chiquinhas se sentava na calçada para olhar a lua e ele vinha juntar-se a ela para viajar em seus pensamentos. 

__ Está fazendo o que aí, bicho-do-mato?
__ Esperando os dragões. É noite de lua cheia.
__ Um dia ainda prendem você num hospício, sabia?
__ Fala assim porque é como os outros e não pode ver. Idiota!
__ Olha a malcriação!!! 

Mesmo não vendo nada, ele sentava-se com ela a olhar a lua. E a admirar os sonhos dela através dos seus olhos brilhantes. Ele não tinha tempo para sonhar porque as responsabilidades não lhe permitia. 

__ Seus dragões não vieram. Entre e vá dormir. Já é tarde!
__ Você não me manda. Não vou!
__ Está tarde e calçada não é lugar para você, peste! Vá! Ou eu mesmo lhe carrego para dentro.
__ Não vou!
__ Menina, sou mais velho que você. Me obedece!
__ É mais velho, mas não é nada meu. Não vou!

E então, ela olhava o céu com sorriso enorme e começava a apontar. 

__ Olha! Olha! Eles estão lá!
__ O que? Onde?

Era uma estrela cadente que passava tão rápido que nem dava para se ver direito. Ele olha para ela que agora estava de pé agarrada a mão dele. 

__ Não são lindos?
__ Sim... São. 

Ela beija o rosto dele e corre para dentro. Ele olha a menina sumir entre as roseiras do jardim. Encara mais uma vez o céu e só vê estrelas. Ri sozinho... "Dragões... Menina maluca!". 

[...]

Naquela tarde de domingo quando lhe contaram do acidente, ela quase enlouqueceu. Não podia acreditar que ele estava morto. Tantos anos juntos até que a implicância virasse amor e agora ele se fora. Por que a vida sempre lhe tirava coisas? Por que a vida não permitia que ela fosse feliz?

Dias passaram desde aquele domingo e numa noite de lua cheia ela sentou-se a varanda para olhar a lua. Era uma mulher calçada e penteada agora. Uma mulher com o coração dolorido em histórias sorridentes. A vida não era mais facilmente resolvida em fábulas de Esopo. E ela chorava com mais facilidade que gargalhava. A luz da lua  tocou-lhe os pés e ela lembrou-se dos dragões. Sorriu. A luz da lua tocou-lhe os joelhos e ela lembrou de como ele a olhava quando ela falava dos dragões. A luz da lua tocou-lhe o ventre  e ela mordeu os lábios olhando o céu. 

__ Estou aqui!
__ Não pode ser!
__ Você que me ensinou. Vim te ver. 

Ela tocou o rosto dele. Chorava e sorria. 

__ Saudade!
__ Sente não. Estou aqui, peste!

Ela o abraçou e ele a levou. 

__ Está tudo em você. E aqui tudo é seu. Quando o mundo apertar você. Solte os cabelos, pise no chão, feche os olhos, venha. Tudo é seu. E eu estarei aqui com todos que você permitir que entre. Aqui você é a rainha. Daqui, ninguém irá embora. E você poderá vir nos ver sempre que quiser. Você me ensinou... 
__ Estava tão sozinha.
__ Aqui não tem solidão. E é seu lugar. E quando como eu, você se libertar do seu casulo, virá morar aqui de vez com suas asas de borboleta. Ser de fato a rainha desse lugar. A nossa menina-rainha.

[...]

É noite de lua cheia... A sala está escura. Os pensamentos fervilhando. Os cabelos soltos. Os pés no chão. E lá está ela. A menina-rainha a olhar a lua. Esperando... Meia-noite... E ela sorri moleca. Corre para a calçada. Ele pousa como sempre no meio da rua abaixando-se para apanhá-la. 

__ Pensei que não vinha. Por que você sempre demora?
__ Como reclama! Vamos sobe?
__ Não pense que só porque virou dragão pode me deixar esperando. Que coisa!
__ Eu te amo, peste!
__ Eu também, dragão! Eu também.

E lá vão os dois, as gargalhadas para o mundo mágico da menina-rainha onde todos podem ser feliz. Não é para sempre, ela sabe, a vida já ensinou a menina que sempre não existe e que felicidade boa dura o tempo de um sonho. Contudo, ela também sabe, que mesmo que as coisas passem, sempre haverá noites de lua cheia para fazê-la sonhar. 
(Waleska Zibetti, in "Noite de lua cheia...")