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sexta-feira, 26 de junho de 2015

Loucura


Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exactamente na cabeça.
Meu coração estoirou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...
Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
Como a serapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!
Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução.
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!
Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto resolvido em vários —
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho nem fim nem vida...
s.d.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
 - 116.

domingo, 17 de maio de 2015

A Partida



Agora que os dedos da Morte à roda da minha garganta

Sensivelmente começam a pressão definitiva...

E que tomo consciência exorbitando os meus olhos,

Olho p'ra trás de mim, reparo pelo passado fora

Vejo quem fui, e sobretudo quem não fui

Considero lucidamente o meu passado misto

E acho que houve um erro

Ou em eu viver ou em eu viver assim.

Será sempre que quando a Morte me entra no quarto

E fecha a porta a chave por dentro,

E a coisa é definitiva, inabalável,

Sem Cour de cassation para o meu destino findo,

Será sempre que, quando a meia-noite soa na vida

Uma exasperação de calma, uma lucidez indesejada

Acorda como uma coisa anterior à infância no meu partir?

Último arranco, extenuante clarão, de chama que a seguir se apaga

Frio esplendor do fogo de artifício antes da cinza completa,

Trovão máximo sobre as nossas cabeças, por onde

Se sabe que a trovoada, por estar [...], decresceu.

Viro-me para o passado.

Sinto-me ferir na carne.

Olho com essa espécie de alegria da lucidez completa

Para a falência instintiva que houve na minha vida

Vão apagar o último candeeiro

Na rua amanhecente de minha Alma!

Sinal de [..]

O último candeeiro que apagam!

Mas antes que eu veja a verdade, pressinto-a

Antes que a conheça, amo-a.

Viro-me para trás, para o passado, não [visiono? ];

Olho e o passado é uma espécie de futuro para mim.

Mestre, Alberto Caeiro, que eu conheci no princípio

E a quem depois abandonei como um espantalho reles,

Hoje reconheço o erro, e choro dentro de mim,

Choro com a alegria de ver a lucidez com que choro

E embandeiro em arco à minha morte e à minha falência sem fim,

Embandeiro em arco a descobri-la, só a saber quem ela é.

Ergo-me em fim das almofadas quase cómodas

E volto ao meu remorso sadio.

Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 27a.