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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Diálogos 1: Sobre Beleza




Ele disse que sou bonita. E eu não concordei, claro! Tenho espelho em casa, né? Mas ele não desistiu. Ficou batendo na mesma tecla:

__ É bonita! É bonita, sim!

Muito debochada, respondi:

__ Acha, então, que devo quebrar o meu espelho?
__ Sim! Colocaram na sua cabeça que você é feia. Você está sensível. Fragilizada.
__ É amigo! Acho mesmo que sou muito sensível. E isso não é uma coisa muito boa no mundo pragmático em que vivemos, sabia? Viramos alvo fácil! Estou tentando aprender a arte da camuflagem e me passar de mulher dura e cruel. Pode parecer estranho, mas ainda é a melhor maneira que encontrei para sobreviver.
__ Não vale a pena! Você não é assim. Tem gente que admira você.
__ Vou tentar acreditar.Penso até que me fará bem acreditar em algo assim. A esperança não deve morrer, não é? Dizem que ela é a mola-mestra que nos impulsiona para o dia seguinte.
__ Pára de ser negativa! Pára de se diminuir! Pára com isso de que é feia! - se zangou comigo.
__ Tenho o péssimo hábito de dizer tudo que me vai a cabeça. Digo de súbito, sem pensar. Isso não é bom, eu sei.
__ Você acha que sou bonito? Eu sou velho, gordo, careca...
__ Que seria do amarelo se todos gostassem do azul? Eu gosto de azul, de borboletas azuis. Rs... E também gosto de vinho. E você sabe o que dizem dos vinhos? Contudo, há os que dizem que vinho dá porre. Talvez! Mas só os vinhos baratos e aqueles que não são bebidos adequadamente. Eu sei beber vinho de gole em gole, deixando que ele me leve em todas as suas notas, suaves ou rascantes. Vinhos são para se beber como quem tenta um ponto de encontro com o divino.
__ Então, pronto! Para mim você é bonita e eu sou vinho.
__Vamos ouvir uma música? Eu posso ver minha vida sem muitas coisas, mas nunca sem poesia e música.Obrigada por dividir mais essa tarde comigo.

Fomos ouvir Loreena Mckennitt enquanto esperávamos a noite chegar. 
(Waleska Zibetti, in "Diálogos 1: Sobre Beleza")

terça-feira, 28 de outubro de 2014

História de Uma Estrela Cadente

Sentou-se para pensar na vida no fim da tarde. Seus olhos perdidos num pedaço de céu cinza chumbo que anunciava temporal. E um vento frio, anunciava uma noite difícil. “Ele disse que viria as oito. Falta muito” – concluiu então, antes de mergulhar seus pensamentos no passado.

Ele era um homem bonito. Simples assim. Nunca foi lindo, mas era bonito. Isso ninguém podia negar. Ela era bonita também. Tinha dessas belezas diferentes que as pessoas não sabem explicar. Eu poderia jurar que o que ela tinha de fato era carisma. Uma luz de menina nos olhos que fazia com que ela se destacasse. Ele não tinha carisma nenhum. Era só bonito.

Ela tinha sonhos e os pendurava nas estrelas todas as noites pouco antes de dormir. De sua cama ela olhava seus sonhos brilhando lá no céu. Ela era tímida demais para falar deles com outro alguém que não fosse com ele. E ele a ouvia sempre com um sorriso, porque ele não tinha sonhos. Era dessas pessoas duras demais diante da vida e não sabia sonhar. Mas ele vivia, um a um, os sonhos dela e sonhando os sonhos dela, ele se sentia feliz.

A lua era o refúgio dos dois. E ela dizia que na lua morava um dragão que ela um dia iria montar e sair pelos céus apostando corrida com os cometas. E eles venceriam os cometas porque seu dragão era encantado. Ele dizia que São Jorge havia matado o dragão. Ela ficava brava e fazia pirraça porque ele havia destruído a fantasia dela e nessas noites ela chorava olhando a lua e de tristeza, a lua se escondia numa nuvem qualquer até que ela adormecesse entre soluços. Ele não fazia por mal e no dia seguinte ele aparecia com um desenho de dragão que voava feliz ao redor da lua. E ela sorria feliz com seu dragão.

Eles eram dois extremos, mas um dependia do outro para existir. Ela era poética, ele cético. Ela falava palavrão, ele era polido. Ela comia pizza com a mão, ele não sabia pisar no chão. Ela ria de tudo, ele questionava. Ela dançava na areia da praia, ele corria para o trabalho. Ela cantava no chuveiro, ele lia o jornal. Ela o amava, ele, eu já não sei dizer.

“Ele virá as oito” – ela disse arrumando-se na varanda. Ouvindo a voz marcante de Billie Holliday em uma canção que ela cantarolou baixinho. Logo, sentiu-se sendo levada para um tempo muito depois daquela noite em que eles se despediram.

A vida dela era outra. Não havia mais sonhos pendurados em estrelas durante suas noites. A maior parte do tempo era só ela e algumas coisas que ela guardava em uma caixinha de ilusões. A menina feliz, era agora uma mulher de realidade dura. Pouco tinha tempo para si. Mas não perdera seu sorriso. Algo nela ainda era esperança. E, em algumas noites, ela olhava a lua e imaginava o dragão voando atrás dos cometas. Mas sem ela a acompanhá-lo. Seus olhos marejavam. E ela disfarçava olhando a novela. E olhava tanto até que o sono a roubava dali.

Ela crescera. Ela virara mulher. Ela virara mãe. E que graça havia nela agora? Era só mais uma como as outras. Não lembrava mais de poemas, silenciou seus palavrões, aprendeu a usar o garfo e a faca, esqueceu como rir com facilidade, tem vergonha de dançar, seus banhos são corridos, desaprendeu a amar. Ele simplesmente vem às vezes. Como hoje!

E ela se inquieta. Em seu coração a dúvida doendo. “Será que ele virá? Como será que ele está?” – uma vontade de chorar contida dentro do peito. E ouve-se um trovão ao longe. Ela olha para o alto e o coração apertado. Ele está chegando. Um relâmpago. Ele está perto. Ela vai para o meio da rua. Ela chora olhando o céu. Ele desce enfim no meio da rua. Abaixando-se suavemente diante dela numa espécie de reverência. Ela acaricia seu rosto com carinho. “Meu dragão!” – ela exclama feliz. Ela o abraça e ele a leva em vôo livre. O povo na rua comenta a estrela cadente. Ela é menina de novo.

A morte pode roubar pessoas. Mas não pode vencer o amor. Enquanto viver a menina na mulher, ele viverá. E quando você vir no céu uma estrela cadente, fique feliz porque é o sinal de que tudo pode ser possível àqueles que não têm medo de acreditar.

(Waleska Zibetti)

terça-feira, 21 de outubro de 2014

A Grande Descoberta



O quadro era um tanto quanto incomodo. Uma sala quase vazia e cheirando a mofo. Ela estava sentada na poltrona próxima a janela e a luz da lua agravava ainda mais a sua palidez. Estava tão quieta que parecia não ter notado minha presença. Nem mesmo o gato que estava deitado em seu colo, se mexerá quando eu cheguei à porta. Pensei em sair dali antes de ser notado pelos dois, mas...

__ Por que sair se sua curiosidade implora para que fique?

A voz dela tinha um arrastar que causava arrepios. Eu vacilei, mas entrei lentamente. Ela continuava a olhar pela janela de sua poltrona. Tinha as pernas cobertas por uma manta e a mão fazia movimentos pelo dorso do gato como se aquilo fosse completamente involuntário a vontade dela. O bicho me encarou pela primeira vez. Seus olhos faiscavam em um tom de amarelo que inexplicavelmente me dava à sensação de que filmavam a alma. 

__ Boa noite!
__ Deve ser boa, não é?

Eu fiquei parado sem jeito e sem coragem de continuar a me aproximar. O gato ainda me observava e ela ainda não me olhara nos olhos. A situação era incomoda e eu me arrependia em silêncio de ter me aproximado daquela casa.

__ Não se sinta assim. Puxe aquele banco e sente-se. – enquanto eu me encaminhava para o banco, ela completou. – A curiosidade cobra um preço alto aos seus adeptos. O pior é que sempre pagamos. Todos nós! Até mesmo eles.

Olhei ao redor da sala a procura das outras pessoas. Não vi ninguém. Só móveis pesados e aparentemente mal cuidados dividiam a sala conosco. Notei que alguns estavam cobertos como que esperando mudança ou um fim qualquer. Finalmente sentei-me nem tão perto da mulher, mas também não tão distante. Ela continuava expectadora da rua e o gato também parecia ter se familiarizado comigo, uma vez que cochilava tranquilo no colo de sua dona.

__ Eles nos observam. Então, por favor, seja discreto e indireto. E principalmente, aja de modo natural. 

“Louca!”, pensei ao ouvi-la dizer aquilo. 

__ Não! Eu não sou louca. Só estou aqui há tanto tempo que já consigo pressenti-los. – e finalmente o rosto dela se vira para mim. Uma sensação de frio percorreu todo meu corpo e eu estremeci. Os olhos dela estavam nos meus eu poderia jurar que eram azuis. Mas não tenho ideia de como cheguei a essa conclusão com toda aquela escuridão. – Você já foi um deles. Mas deve estar por aí há muito tempo. Por isso, perdeu-se de si. Agora ficará por aqui, também. E vai caminhar pelas ruas até achar um lugar onde repousar, como eu. E verá que nada faz sentido fora daqui. Mas aqui, nesse mundo, as coisas são cada dia de um jeito e nunca sabemos como irão terminar.  – e um sorriso enigmático surgiu no canto de seus lábios no mesmo momento em que ela moveu seu corpo para frente ficando numa posição onde podia ver-me melhor. 

Era velha. Sim! Muito velha. Magra. Frágil. Pálida. Seus olhos eram claros, mas eu não posso mais afirmar se eram azuis. E a voz era marcante. Não sei defini-la exatamente. Porém, ela prendia-me na cadeira e calava minha própria voz. 

Devemos ter ficado em silêncio alguns minutos. Eu a observando e ela a mim. Ora ela sorria. Ora ficava quieta numa expressão firme. O gato parece ter se aborrecido com a situação e sentou-se a janela onde pude notar o negrume de sua pelagem. 

__ É um belo animal, não é? Veio para mim numa noite de lua cheia e ficou. Os gatos podem caminhar por entre os mundos. São almas tomadas de liberdade. E isso revolta o cão tão submisso ao seu dono. Claro que há os que não gostam do gato. Contudo, o que eles não gostam é da ideia de pertencer a um animal. Sim! Os gatos é que possuem. – e olhando-me tão profundamente ela me põe em xeque. – Importa-se de ser possuído, meu jovem?

__ Dependendo da situação...

Uma gargalhada alta e sonora ecoou na sala. Não condizia com a fragilidade aparente daquela senhora. O pior é que posso jurar que o gato participara daquela gargalhada em uníssono com ela. 

__ Você é fruto da possessão, querido. É por isso que está aqui. Junto com todos os outros. Você só existe por isso! Não se sinta menor. Também só existo por isso. E assim também é o nosso amiguinho Wade ali. Todos nós estamos aqui porque alguém lá foi possuído ou de raiva ou de amor ou de tristeza ou de alegria ou de dor... O sentimento não importa! O que importa é que nascemos desse momento. E ficamos aqui. Alguns ficam sem passado, outros sem presente. Futuro? Ah, nunca vi nenhum ter futuro. 

Ela parecia transtornada e confusa. Eu não via nexo no que ela falava. Parecia que ela delirava. Ou era eu que achava tudo aquilo ali completamente confuso. E foi aí que me dei conta de uma coisa... 

__ Como vim parar aqui? – disse em voz alta. 

E ela não me disse nada. Só continuou a olhar-me com seus olhos frios e seu sorriso misterioso. Levantei-me. Ela se recostou. Wade pulou no colo da sua dona como que para defendê-la. Passei a mão na cabeça. Percebi que não havia nada antes da minha imagem parada na porta a observar essa velha que agora me deixara tão louco quanto ela. 

__ Você não está louco! Acalme-se. 

Eu caminhava pela sala. Queria sair dali. Eu deveria ir embora. Voltar... Voltar para onde? Eu não sabia de onde tinha vindo. “O que está acontecendo?”, pensei. E meu peito apertou-se ao mesmo tempo em que meu coração acelerou. Sentia enjoo. A cabeça rodopiava. E ela paciente esperava que eu me acalmasse. 

__ A sensação do despertar é sempre essa. Mas com o tempo você se acostumará e verá as inúmeras possibilidades que há aqui. Acredite em mim. Nós estamos melhores aqui que eles do lado de lá. Aqui somos livres. 

As palavras dela chegavam aos meus ouvidos de modo profundo e complexo. Finalmente, sentei-me. Não que eu estivesse me acalmando, e sim porque as pernas fraquejaram. Tentava fixar meu pensamento em alguma lembrança anterior a minha aparição naquela porta, todavia minha cabeça era um nada absoluto. Só as últimas revelações da velha ecoavam dentro dela.

__ A liberdade que experimentamos do lado de cá é a nossa recompensa. Sinta-a. Absorva essa prazerosa sensação. – A voz rouca da velha foi ganhando força sobrenatural. O tom era quase hipnótico. - Deixe que ela entre pelos seus poros. Que percorra suas veias. Que alcance sua razão. Que envolva sua alma. – Ela fechou os punhos com tamanha força que eu pude notar suas veias da mão ressaltarem e gritou. – Liberte-se!

Algum tipo de trovão percorreu a sala. E eu notei que tudo escurecia ao meu redor. A última lembrança que tenho daquele momento era dos olhos amarelos de Wade dentro dos meus. Não sei se dormi ou desmaiei. Mas tenho certeza que foi por um longo tempo. 

                                              ...

Era tanta claridade que eu não conseguia abrir os olhos. Esforcei-me até que finalmente consegui. Fiquei um tempo ali deitado no chão sem entender onde estava. “Foi tudo um sonho!”, respirei fundo e fechei os olhos novamente. Lentamente e de olhos fechados me virei de lado. “Tudo aquilo foi um terrível pesadelo.”, conclui e sorri.

__ Seria reconfortante se fosse, não é mesmo? 

Levantei-me rapidamente e me deparei com o sorriso amarelado da velha. Agora podia vê-la nitidamente. Cabelos em coque no alto da cabeça. Pele sardenta. A mão tocou meus cabelos carinhosamente. 

__Venha comigo! – e ela passou seu braço pelo meu. E nos levou até a porta onde tudo isso começou. Eu só a acompanhava. Não tinha outra opção. Na varanda, notei um dia maravilhosamente ensolarado. Um jardim florido e muito bem cuidado era tudo o que separava a casa da rua que tinha outras casinhas simples exatamente como aquela. Em um banco, Wade espreguiçava-se gordo e lindo. 

__Vamos nos sentar ali.
__ Sim, senhora.
__ Está mais calmo? 
__ Não sei se essa é a sensação. 
__ Vai ficar em alguns minutos. Eles é que não ficarão. Mas eu os entendo. A inveja da nossa liberdade do lado de cá, os consome. Nunca terão o que temos. E mesmo que não se conformem com isso, sempre nos vigiam. Precisam alimentar-se de nós! Não nos afetam depois que chegamos aqui. Servimos de alimento para eles, de esperança, de mola de impulsão para suas vidinhas limitadas... Eles precisam de nós, mas nós independemos deles. 

__ Eu não estou entendendo nada. Me desculpe! Eu não sei nem mesmo como tudo isso começou. Estou confuso. Afinal, senhora, quem é você e quem sou eu?

Wade aproximou-se e pulou no meu colo. Assustei-me, mas acariciei o bicho que ronronou em agradecimento. 

__ Você é um de nós. – disse enfim... Wade. Sim! Wade disse-me isso. Wade, o gato negro da velha misteriosa. E uma sensação de desespero tomou-me de vez. Os dois riram e em coro disseram: vai começar tudo outra vez. 
__ O gato falou! Meu Deus! Eu morri! É isso! Estou no mundo dos mortos. Meu Deus! Como morri?
__ Você se sente morto?
__ Não!
__ Então...
__ Então, estou louco. É isso?
__ Se sente louco?
__ Não sei. Por favor, me responda.

Ela suspirou. Desses suspiros que se dá quando vamos pegar uma longa e cansativa jornada. 

__ Você nem morreu nem está louco. Pelo contrário, ontem você nasceu. Está com menos de 24 horas de vida. 
__ Como assim?
__ Ontem a noite alguém de lá foi possuído de uma vontade incontrolável de parir um ser novo. Alguém precisava expurgar alguma ideia e você nasceu dessa necessidade, dessa possessão. Você é fruto de uma ideia. Todos aqui somos. Meu nome é Amélia. Esse é o gato que nasceu de uma noite insone dela. Eu dei o nome de Wade porque significa “Andarilho”. Somos todos personagens dela. 
__ Personagens?
__ Sim! Fomos criados porque ela adora escrever. E vivemos aqui no mundo da Ficção em liberdade que nem ela nem eles têm. 
__ Quem são eles? Quem é ela?
__ Eles? Eles são os que nos imortalizam. Eles são os prisioneiros de nossa liberdade. Eles estão aqui até agora presos a nós por curiosidade de saber quem somos nós. E só se deram conta agora de que eles são os alvos dessa história. – risadas – Alguns ficarão muito bravos com ela. Mas ela é assim mesmo. Inusitada. Louca, dizem alguns. Contudo, eles voltarão de vez em quando para se alimentar de nós ou de outros. Nós os chamamos simplesmente de “Leitores”. São muitos não dá para lembrar todos os nomes. Nem mesmo ela que é do mundo de lá conhece seus nomes.
__ E afinal, quem é ela?
__ Waleska. Uma criatura taxada de louca desde menina. E no fundo, até acho que ela é. Todavia, é da loucura dela que nascemos. Esse mundo que você vê foi todo criado por ela. Esse jardim, essa rua, cada um dos moradores que aqui vivem somos todos filhos do mesmo cérebro, da mesma mente, mas não da mesma ideia. 
__ Então, eu sou só um personagem?
__ Não! Só uma personagem, não. Você é O personagem dessa viagem. E agora poderá ser o que quiser e morar onde quiser nesse nosso mundo. Eles irão embora e só ela sabe o que acontece aqui. 
__ Eu quero é comer algo porque estou com muita fome.
__ Concordo com ele, Amélia. Também, estou com fome.
__ Wade, você está sempre com fome. Vamos entrar e comer bolinhos de chuva com café. 

Eles se levantam e suas vozes vão sumindo junto com eles para dentro da casa. E quanto a você leitor, até a próxima vez. Tchau!
(Waleska Zibetti)

Sobre Produção Literária:
Deixe-me falar um pouco sobre a arte de escrever. Nunca me olhei como escritora e nem pretendo fazê-lo um dia. Olho meus escritos como uma necessidade na minha vida. E o meu processo criativo é viver, ler, pensar, ruminar e escrever.

Saio pelas ruas com olhos atentos ao detalhes, ao imperceptível a grande maioria. Permito-me atrasos se for uma prosa ou uma paisagem. Já corri muito até entender que Deus me deu pernas curtas para que andasse miúdo. Hoje, passeio pela vida. E passeando por ela vivo melhor.


Leio centenas de coisas e poucas me prendem. Os grandes autores me deixam frases soltas. Geralmente um livro inteiro desses caras me faz perder o tesão por eles porque são chatos. Leio os grandes como quem toma doses homeopáticas de um remédio qualquer. Sou feita de remendos literários. Um Frankenstein poético.


Depois de ingerida minha dose literária, penso, repenso, analiso, critico, discuto... Tudo comigo mesmo! "Coisa de gente aluada!", sentencia minha mãe. Eu sou aluada porque vivo por ali na lua, em Shangrilá, Oz, Xanadu, País das Maravilhas, Mundo de Sofia, Asteróide B612... Eu estou em universos longínquos e por isso mesmo tão consciente de minhas responsabilidades com esse mundo ao qual pertenço.


Então, é hora de pôr no papel tudo aquilo que ficou inquietando, tomando forma, revirando meus íntimo. A coisa volta na madrugada. Sou ruminante de ideias, de pensares. E despejo no papel minhas impressões de cenas cotidianas. Dou um título e jogo para o próximo que lerá, que pensará, que ruminará e explodirá em um ponto além do meu.

Escrever para mim é expandir-me. É o meu alongamento diário. E resumo essa arte, esse dom, da seguinte maneira: se aos lusos o navegar é preciso, aos loucos é necessário escrever.

Beijos literários a todos.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A Moça de Um Certo Lugar



Tinha uma moça num certo lugar 
que dizia "eu te amo" por cem Reais. 
Tinha uma moça num certo lugar 
que vendia ilusões aos homens carentes.
E um dia um homem chegou 
e perguntou se ao invés de vender, 
ela simplesmente daria a ele um "eu te amo" daqueles. 
Ele também quis saber 
se ela trocaria um pouco da ilusão, 
por algo mais concreto. 

A moça pensou, olhou 
para as cortinas vermelhas, 
para as meias de seda, 
para a cama cheirando a alfazema barata...

Tinha uma moça num certo lugar 
que cantava a meia-luz canções de além mar.
Tinha uma moça num certo lugar 
que entre a fumaça do próprio cigarro dizia 
que seu "eu te amo" de nada valia
na boca de quem a faria chorar, 
mas que ali seu "eu te amo" valia cem reais
entre corpos carente que não tinha que amar.
E a moça olhando de esguio sorriu da calçada
olhando o vadio levando suas mentiras para outro lugar. 

A moça pensou, 
olhou para o céu de estrelas, 
para as unhas vermelhas, 
e caminhou pelas ruas 
com a certeza de que vive melhor nessa vida
quem conhece seu lugar.
(Waleska Zibetti)
 

sábado, 13 de setembro de 2014

A Borboleta e o Lobo do Mar



É uma da manhã e o telefone não tocou. Ou tocou e eu não ouvi? Ele sempre diz que não ouço nada e que vivo absorta em meu mundo de borboletas azuis. E eu me pergunto: é crime gostar de borboletas? Não sou eu que não ouço. É ele que insiste em falar algo demais quando o melhor momento é se calar. Então, eu me desprendo e vou voar com as borboletas. Se ele soubesse que nem sempre elas são azuis... 

 Ele não tem tempo para vê-las. Quase ninguém tem! Todos vivem presos aos seus compromissos e correrias que enfartam. As borboletas não acompanham os que correm. Elas precisam pousar aqui e ali de vez em quando. Tocar suave pétalas de flores campestres amarelas. Das minhas borboletas azuis e do amarelo das minhas flores selvagens é que vem o verde da minha esperança. Mas quase ninguém vê. 

 Aliás, ele também não vê a esperança em mais nada. Acho que ele não vê nada. Não tem tempo para ver. Ah, se ele conseguisse parar de falar e começasse a ouvir só um pouquinho as canções do vento! Acho que ele precisa dançar ao som do vento e começar a ver borboletas. Não ligo de emprestar as minhas até ele criar as dele. 

 E já são duas e não sei se o telefone tocou ou não. Tudo que sei é que estou aqui pensando, pensando, como faço as noites em que nem eu durmo e nem o telefone toca. 

Ele está lá em algum ponto desse mar. De repente, um pensamento triste me ocorre: não há borboletas no mar. Então é fácil se sentir sozinho por lá. Talvez eu devesse desenhar algumas bem coloridas e dar a ele na próxima vez que o vir. Devo desenhar também algumas flores. 

O mar é triste a noite. Tão escuro e envolto em mistérios. Talvez de tanto ficar no mar o coração dele esteja escuro também. Sei que há quem me dirá que o mar é magnífico. E eu concordo. Ele é! Mas é que imaginá-lo sem borboletas, o deixou tão triste. Lindo ainda assim. E as ondas lambem a areia. São Ondinas tentando sair dali. 

Mas sabe o que pensei agora? No mar há gotas que sonham em ser borboletas. E elas fogem dele para o céu e depois se lançam das nuvens em forma de chuva. E enquanto caem em queda livre, são borboletas de asas transparentes voando em direção as flores. São minutos de total liberdade antes de voltar para os braços do mar. Ai... Que vontade de ser gotas de chuva! 

Se ele me ouvisse agora me chamaria de louca. E me mandaria por os pés no chão e tirar a cabeça das nuvens. De vez em quando tenho pena dele; ele é tão raiz. Eu não quero ser raiz! Quero ver o sol refletido nas gotas-borboletas do meu jardim. Quero ver o mar se iluminando de manhã e as Ondinas cedendo espaço aos seus admiradores. E a canção solitária do mar ser tomada pouco a pouco por um coral de risos infantis. Ah, eu prefiro ser flor a ser raíz. Ele que me perdoe! 

E são quase três. Definitivamente o telefone não tocou. Vou dormir! Vou nos sonhos ser borboleta, vou voar até ele e tocar-lhe suavemente o ombro. Vou beijar-lhe com minhas antenas e soprar, num farfalhar de minhas asas, um pouco da minha esperança sobre ele. E que eu o faça sorrir! Quem sabe ele consiga novamente alguma ver esperança em mim? E quem sabe um pescador contará mais tarde a história de um amor bonito entre uma borboleta e um lobo do mar.
(Waleska Zibetti)

sábado, 6 de setembro de 2014

Em Verdade Vos Digo



Eu sempre digo que minha verdade é não ter verdade. 
Sou fruto do meu desejo.
É nele que existo. 
 A ponta das minhas unhas vermelhas 
sabem mais de mim que os olhos caridosos de minha mãe. 
As cicatrizes de minha alma me traduzem 
mais que a pele intacta de meu rosto. 
Sou mais que minha voz arrastada 
porque habito em meus pensamentos atormentados. 
E não pensem que sou triste, doente, cinza... 
Sou mais que isto ou aquilo, 
sou o silêncio incomodo 
que fica quando não se tem mais nada a dizer. 
Sou a flor do bougainville liberta 
e transformada em borboleta 
com o toque mágico do vento. 
Disseram-me que sou pecado 
e eu ainda nem sabia falar. 
Hoje falo e peco mais ainda. 
Mas um Jesus me salvará.
Ele me ama e é fiel a mim. 
Nele tudo posso. 
Então ganho o mundo naquilo que as vizinhas, 
por detrás das cortinas, 
vigiam, condenam, comentam... 
mas querem para si. 
E que seus maridos nas mesas dos bares 
comentam, condenam, vigiam... 
mas querem para si. 
E a minha verdade está na minha risada debochada 
que solto quando me batem 
e a lágrima solitária que não deixo ninguém ver. 
A minha verdade é não ter verdade alguma 
mas lhe deixar totalmente inquieto 
sem saber se isso também é verdade
ou é só algo que quero fazer você crer.
(Waleska Zibetti)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O Vinho e A Bailarina


Sentada no chão olhando a taça com dois dedo de vinho barato. Ele espera que algo aconteça. E nisso somos parecidos; eu tenho a mesma urgência de um acontecimento que essa taça de vinho.

Movimento o vinho na taça e ele quase derrama. Eu sou assim! A vida mexe comigo eu chego na borda, ao ponto mais extremo e depois me assento no fundo de mim outra vez. Sem perder nada e sem nada ganhar também. Talvez até ganhe um pouco de oxigênio para resistir a mais uma temporada no fundo da minha alma sombria.

Dou corda na caixa de música e fico olhando a bailarina rodopiando de braços para o ar. Ela é como eu. Prisioneira sorridente de uma caixa de ilusões. A mesma canção sempre e a mesma solidão. E a solidão já não dói mais como no segundo anterior. Eu fiz da bailarina a minha parceira essa noite.

A canção da caixa fala de uma noite estrelada...

E eu me reporto a algumas noites em que, entretida em gargalhadas, eu nem lembrava da presença das estrelas. Todas as estrelas de que eu precisava estava ali no olhar que me fazia sorrir. Mas estrelas morrem, se apagam ao cair no mar... As gargalhadas também se silenciam em lágrimas. Onde foram parar aqueles olhos?

Olho o céu, há tanta estrela nele. Mas nenhuma é tão brilhante quanto aquele olhar. E a bailarina para de dançar, a música silencia, o vinho ainda representa a espera e eu canto baixinho na janela da sala...

“Starry starry night, paint your palette blue and grey
Look out on a summer’s day with eyes that know the darkness in my soul...”

Minha loucura é a mesma sua, mas você não vê porque fechou seus olhos de estrelas para mim. Largou-me no fundo da taça de vinho. Será que quando eu me for de vez você me compreenderá 
assim como a diz a canção?

Não dance nunca mais bailarina! Não pise sobre minha solidão com suas doces sapatilhas. Não quero encarar meu abandono no seu rodopiar. Não dance nunca mais! Seus braços para o ar são os meus que estendo em busca de um abraço. Eu sou você bailarina prisioneira! Você presa a sua caixa de canção triste. Eu presa ao sonho de um amor de olhar triste. Não dance mais! Vamos nos guardar de mais um choro. Vamos nos poupar de lembrar das estrelas. Vamos esquecer nosso abandono.

Sentada no chão olhando a taça com dois dedos de vinho barato. Ele espera que algo aconteça. Eu faço acontecer... Com a ponta do dedo viro a taça, derramo o vinho... Liberdade, ao menos para um de nós nessa madrugada estrelada.

(Waleska Zibetti, in "O Vinho e A Bailarina")


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O Showman


Hoje um dos maiores representantes da música nacional está completando 73 anos de idade. Eu falo Ney de Souza Pereira, mais conhecido como Ney Matogrosso(1).

Em 1973 surge no cenário da música popular brasileira uma figura que ficaria para sempre como inusitada e rara. Isso mesmo! RARA. Ney Matogrosso é contratenor. E pouco no mundo atingem notas que ele consegue alcançar. Ainda no grupo Secos & Molhados (2), Ney destacava-se por uma dança ousada e uma voz inigualável. 

Em 1975, ele começou carreira solo interpretando canções de cantores ilustres como Rita Lee, Cartola, Tom Jobim, Cazuza (3)... Talvez o que você não saiba é que Ney foi considerado pela revista Rolling Stones como a terceira maior voz da música brasileira. E quando completou dez de carreira solo Ney já tinha dois discos de platina e dois de ouro.

Além de cantor, Ney também atua nos bastidores dos espetáculos como iluminador e diretor. Você sabia que a iluminação do Instituto Oswaldo Cruz (4)no Rio de Janeiro foi feita por ele? Detalhista e perfeccionista os trabalhos de Ney Matogrosso chamam sempre muita atenção do público de todas as idades. Sem falar no seu jeito andrógino que lhe confere, sem dúvida alguma, ares de mistério. 


Ele também atuou no cinema em filmes como "Luz das Trevas"(5), de 2009. Filme que conta a trajetória do filho do bandido da Luz Vermelha e ao mesmo tempo a história do própria Luz Vermelha mostrando como ele lidava com a fama de ser um dos maiores assassinos da história do Brasil.

E por isso tudo, a biógrafa Denise Pires Vaz o rotulou de Showman. 

E como presente para todos os fãs desse showman, deixo a música dele com que mais me identifico: "Mal Necessário" (6). O aniversário é dele, mas em se tratando de Ney Matogrosso, o presente é nosso. 

1- Ney Matogrosso


 2- Secos & Molhados



3- Ney e Cazuza


4- Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro

                            

5- "Luz Nas Trevas", 2008.



 6- "Mal Necessário". 


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Valha-me, Nossa Senhora! Cuide de Suassuna.

Valha-me Nossa Senhora, 
Mãe de Deus de Nazaré!
(Ariano Suassuna, in "O Auto da Compadecida")

Ariano Suassuna foi o dramaturgo, romancista, ensaísta e poeta brasileiro; falecido ontem em Recife aos 87 anos vítima de um AVC hemorrágico. 

 Em 1950, formou-se na Faculdade de Direito e recebeu o Prêmio Martins Pena pelo Auto de João da Cruz. Abandonou a carreira em 56 para tornar-se de Estética na Universidade Federal de Pernambuco. Em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste. Entre 1958-79, dedicou-se também à prosa de ficção, publicando o Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta (1971) e História d’O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão / Ao Sol da Onça Caetana (1976), classificados por ele de “romance armorial-popular brasileiro”. Membro da Academia Paraibana de Letras e Doutor Honoris Causa da Faculdade Federal do Rio Grande do Norte (2000). Em 2004, com o apoio da ABL, a Trinca Filmes produziu um documentário entitulado O Sertão: Mundo de Ariano Suassuna, dirigido por Douglas Machado e que foi exibido na Sala José de Alencar. 

 Suassuna ficou famoso no cenário literário popular brasileiro por uma literatura regionalista onde desfilam personagens caricatos que traduzem muito da cultura nordestina. E João Grilo é de longe o personagem mais popular desse escritor que nos deixará com muita saudade. E é com João Grilo que encerro esse edital. Nunca dizendo adeus um poeta, porque eles estão imortalizados nos universos particulares de seus leitores. Mas infelizmente, mais uma vez esse mês dizendo “Até breve” a um dos melhores de nossa literatura.



segunda-feira, 21 de julho de 2014

Até breve, Poeta!

"A saudade é a nossa alma
dizendo para onde ela quer voltar.
Rubem Alves”

__Está morto! – Anunciaram impiedosamente.

Faz-se silêncio entre os que amam. A morte egoísta não poupa ninguém. O poeta silenciou-se. Levou consigo o que a maioria não consegue dizer. Acho que quando poeta morre o mundo fica mais duro, mais cruel, mais mundo. Virou passarinho o menino de palavras encantadas. Foi-se com seu jeito simples de me falar tanto.

O domingo foi triste. Estão de luto os versos de todos os poetas. Morre em São Paulo aos 80 anos, Rubem AlvesTido por muitos estudiosos como uma das mais relevantes personalidades no cenário teológico brasileiro; o fundador da reflexão sobre uma teologia libertadora. Sua posição liberal logo lhe trouxe graves problemas em seu relacionamento com o protestantismo histórico e especificamente presbiteriano. Foi questionado desde cedo por suas idéias e teve de abandonar o pastorado, tendo antes abandonado suas convicções doutrinárias ortodoxas. Sua mensagem é direta e, por vezes, romântica, explorando a essência do homem e a alma do ser.  Autor de livros e artigos abordando temas religiosos, educacionais e existenciais, além de uma série de livros infantis.

E para despedir de um poeta, nada melhor que seus próprios versos. 


“Aquilo que está escrito no coração
 não necessita de agendas
porque a gente não esquece.
O que a memória ama fica eterno.” 
Rubem Alves


“Todas as palavras tomadas literalmente são falsas.
A verdade mora no silêncio
que existe em volta das palavras.
Prestar atenção ao que não foi dito, ler as entrelinhas.
A atenção flutua:
toca as palavras sem ser por elas enfeitiçada.
Cuidado com a sedução da clareza!
Cuidado com o engano do óbvio!”
Rubem Alves


Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio.
Daí a importância de saber ouvir os outros:
a beleza mora lá também.” 

Rubem Alves





terça-feira, 15 de julho de 2014

Pensando no Tempo (Uma Leitura Particular de "O Outro" - Rubem Fonseca)



“Quando chegava a hora do almoço,
eu havia trabalhado duramente.
Mas sempre tinha a impressão
de que não havia feito nada de útil”
(Rubem Fonseca, in “O Outro”)

Tenho escutado muito o “Desculpa-me, mas não deu tempo”. Não deu tempo! Tempo... O que as pessoas têm feito com seu tempo? Não há mais tempo nos jovens e isso me preocupa. Trabalho, faculdade, curso, agenda... E onde ficam os pássaros?

Devorados na ausência do tempo e nos sonhos de grandeza – quero carro viagem para Paris, cobertura - o jovem suicida-se na pilha de papéis e envelhece nos vazios internáuticos. Como é mesmo um olhar real?

Essa noite na TV um show dos Rolling Stones, no site o ícone avisa que é aniversário da Paulinha aquela amiga que mora em Volgogrado – deve ser bom conhecer alguém que mora em Volgogrado – e que eu conheci lá em... Onde mesmo? Só sei que a Paulinha é uma menina maneira que eu nunca soube o som da voz, mas imagino que seja linda.  Quantos quilômetros há daqui a Rússia mesmo?

“E, sempre, no fim do dia,
eu tinha a impressão
de que não havia feito tudo
o que precisava ser feito.
Corria contra o tempo” 
(Rubem Fonseca, in “O Outro”)

Eu sou dessas pessoas que correm contra o tempo. Na verdade eu estou sempre na contra mão. Contra o tempo, contra o mundo, contra mim... Eu gosto de estar no sentido contrário, de ir ao encontro, de estar em confronto.  E os pássaros estão no céu que hoje está meio cinza. Um dia chato de terça-feira. Povo vestido de preto e marrom. Inverno.

Devoro juízos e faço pensar. A loucura é o vinhos dos pensadores. Dos que não se importam do pé no chão desde que a cabeça resida segura na lua. Não tenho carro, vou a pé ou de ônibus, porque gosto de olhar os olhos dos para descobrir novos tons de azul e verde. Tenho pilhas de papéis poéticos em minha bolsa e encontro velhos amigos para falarmos da internet enquanto ouvimos rock and roll.

Essa noite não tem luar, me canta Renato Russo, na festa da Silvinha que mora ali em Costa Azul e que eu conheci pela Glória que mora em Unamar – Não tem nada de diferente em Costa Azul ou Unamar, eu sei porque eu estive lá. E a Silvinha é uma menina maneira e a Glória também. E as duas moram a dez minutos daqui.

“Um dia
comecei a sentir
uma forte taquicardia”
(Rubem Fonseca, in “O Outro”)

O jovem está envelhecendo rapidamente. E leva tudo muito a sério. Perde a piada, o humor, o amor... Dirige pela madrugada para chegar Volgogrado um dia e ver que a Paulinha suicidou-se porque não suportou passar o próprio aniversário sozinha entre as dezenas de e-mails que recebeu.  

E então, num café em Paris ele vai perceber que o tempo passou. E que não há números na sua agenda. Ele conhece filosofia, música, política, cinema. É cute, cool, grunge... Mas não sabe nada do rosto do espelho?

“Não é simples parar de repente de trabalhar.
Eu me senti perdido, sem saber o que fazer” 
(Rubem Fonseca, in “O Outro”)


Eu estou envelhecendo e meu corpo as vezes não acompanhar a vontade dos pensamentos. Eu morro de rir quando esqueço alguma data ou nome. Minhas mãos perderam um pouco da tez. Sou sedentária. Não me ajudo muito nisso. Mas ainda ouço rock e leio bons livros na beira da praia ou deitada no sofá. Conheço tanto de mim que  me temo. E conheço do mundo o suficiente para respeitá-lo. Sei das calçadas, das vielas, das prostitutas, dos vinhos, da loucura, do medo, da solidão, da força, do vento, da chuva, do sol, da terra, do negro, da ruiva, da porta, da fresta, da janela, dos meninos, das meninas, da boca, da coxa, da velha, do executivo, do monge, de sonhos, do tempo...

"não faça isso, doutor,
só tenho o senhor no mundo"



Estamos imersos num mundo onde a responsabilidade nos rouba o tempo e o jovem acelera o tempo na tentativa de um futuro melhor e eu do futuro aceno tire o pé do acelerador para se dar o tempo de ver os pássaros no céu que de repente agora ficou azul.