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sexta-feira, 3 de março de 2017

E Assim Nascem Os Fantasmas



Depois de tanto ver filmes, séries, desenhos abordando a história de Ichabod Crane, finalmente li o livro original escrito por Washington Irving em 1820. A história do que, para mim, lembra mais um conto que um romance só se compara ao filme e afins no que diz respeito a ]Ichabod ser um jovem bem atrapalhado.


O texto narra praticamente história do jovem professor de Sleepy Holow, um amante de histórias de terror, sonhador, ambicioso, oportunista, com tiradas ácidas de humor e crítica a sociedade da época. Que deixemos claro pouco mudou desde, então. O texto é curtíssimo, embora bem rico desses detalhes sociais. Acho que Washington Irving foi muito inteligente na construção textual, pois quem ler o livro superficialmente não perceberá as alfinetadas. Teria sido uma tática para driblar as censuras da época? Talvez!



A maioria, hoje, deve chegar ao livro depois de ver o filme do Tim Borton ou de visto a Série Sleepy Holow; e provavelmente esses terão uma sensação de frustração dada a diferença de abordagem dos diretores e roteiristas. Por isso, sejam mais generosos ao lerem a obra de Irving e ampliem seus olhares para os detalhes a margem do mito e assim entenderão porque esse romance inspirou tantas versões e visões diferentes.


O desfecho do livro é interessante. Primeiro, porque evidências nos leva a pensar em X, mas não nos deixa de levantar a possibilidade de Y e Z também fazerem sentido em relação a Ichabod e o fantasma. Ora, trata-se de um vilarejo cheio de lendas e histórias de e sobre pessoas com passados envoltos em segredos. Uma ambientação propícia para mentes imaginativas criarem novas lendas e outros mitos. Mesmo que seja só um desdobramento de um outro mito já existente.



Até o próximo! 



segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Morangos Mofados – Parte I: O Mofo



Conto 1: Diálogo

Tudo é simples. A tal complexidade das coisas somos nós quem criamos com nossa eterna mania de procurar um porquê para tudo. Nem tudo tem porque e é porque deve ser. E amar alguém é simples como o ato de piscar os olhos. 

É desse “complicar o simples” que Caio fala nesse primeiro conto. E será que um dia chegamos a um ponto que esses porquês desaparecem? Caio também responde essa questão de maneira sábia. Mas eu não contarei como, claro!

Conto 2: Os Sobreviventes

Lembrei-me demais de James Joyce em “Monólogo de Molly Bloom” ao ler esse conto. Ri, chorei, odiei e me identifiquei com a personagem em crise. Mas que fique claro que não é um monólogo. É que ao ler imaginei-me no lugar dela conversando da minha própria vida com um de meus fantasmas. Coisa minha!

O conto é poético e lindo – Falar que Caio Fernando é lindo me parece tão pleonástico -, mesmo dentro dos tons ácidos e irônicos que carrega. Vou deixar-lhes o trechinho do conto que mais gostei. 

“Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia, ela para e pede, preciso tanto tanto tanto, cara, eles não me permitiram ser a coisa boa que eu era...”
(Caio F. Abreu, in “Os Sobreviventes”)

Conto 3: O Dia Em Que Urano Entrou Em Escorpião (Velha História Colorida)

Estranhos personagens compondo outro cenário cotidiano. Tão caótico quanto pode ser o cotidiano moderno. E tão egoísta, também. Quatro indivíduos em uma única sala evitando-se em assuntos desconexos ou tentando fazer com que suas próprias questões sejam tratadas como prioritárias ou pelo menos urgentes necessidades. O clima do terceiro conto inicia-se mais ou menos assim “Farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Mas quando se tem alguém determinado a convencer o outro de uma ideia tudo pode acontecer. Desde nada mudar até uma outra realidade começar, não é mesmo? E no conto de Caio... 

Trechinho...

“...ela lia muito, e quando contava uma história nunca sabia ao certo onde a teria lido, às vezes não sabia sequer se a tinha vivido ou não lido...”
(Caio Fernando Abreu, in “O Dia Em Que Urano Entrou Em Escorpião”)

Conto 4: Pela Passagem de Uma Grande Dor

Sabe aquelas histórias que nos fazem revirar e repensar o profundo de nós, nos fazendo miúdos diante do gigante e vasto universo que há por detrás da porta? Esse conto é dessas histórias. A ausência de nome para os personagens ou qualquer outro tipo de característica nos faz ainda mais íntimos deles. Houve aquele momento em que eu era ela querendo ele e outros onde eu era ele num conflito entre querer ficar só e a querer por perto. Pensei, então, em Nietzche: É difícil viver com as pessoas porque calar é muito difícil. 

Olhem que delicia de trecho:

“Imóvel assim no meio da casa, o som desligado e nenhum outro ruído, era possível ouvir o vento soprando solto pelos telhados”
(Caio F. Abreu, in “Pela Passagem de Uma Grande Dor”)

Conto 5: Além do Ponto

Parei dez minutos para tomar ar. Eu precisava disso depois que li o título do próximo conto. O motivo é que esse fora o primeiro encontro entre Caio e eu. Como se não bastasse, o personagem desse conto “é” alguém que eu amei demais. Confesso que quase pulei a leitura. Mas Caio não merecia isso. “Ele” não merecia isso. Eu também não merecia. Então, parei os dez minutos para tomar coragem e voltei depois quando reencontrei dentro de mim a paz que é preciso para ler. Volte e entrei na chuva indo ao encontro deles (Personagens da ficção e personagens do meu passado).

O conto “Além do Ponto” é o conto mais asfixiante que já li. E essa impressão foi a mesma que tive na época da faculdade. Nada mudou em mais de vinte anos passados desde a primeira leitura. Delirante, sufocante, angustiante e... catártico. É para ser lido com goles de vinho numa noite de frio e chuva; ao som de algo como um blues ou um bolero. “Além do Ponto” é uma travessia e o ponto de chegada é o sentir. 

Desculpem-me, mas não haverá trechos dessa vez.

Conto 6: Os Companheiros

Uma porrada no meio do olho vinda de repente de não se sabe onde deixando tudo desconexo. Li três vezes e a cada vez que relia terminava tão perdida e perplexa quanto a vez anterior. Então, dei-me uns dias. Vinha meio desembalada, faminta... Sei lá! E retornei a leitura do zero. E aí... Nada mudou!A sensação era de cair no caos de braços abertos tentando me agarrar em um fio sensório qualquer que não veio. Acho que esse conto são peças de um jogo de montar. E você vai montá-lo trinta vezes e cada vez será a primeira. Simples assim!

Trecho...

“... aquele que muito fora amado e ferira fundo de faca a quem o amou: permanecia mudo parado suspenso entre várias coisas que já não eram e outras tantas que poderiam vir a ser, ou não.”
(Caio F. Abreu, in “Os Companheiros”)

Conto 7: Terça-feira Gorda

Deus quanta tristeza!  Por que? Por que? Quem determinou que isto ou aquilo é o certo? Não perguntem! Leiam! Repensem! Leiam e respondam: Por que? Deus quanta tristeza! 

Trecho...

“A gente queria ficar apertado assim porque nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro. Tão simples, tão clássico”
(Caio F. Abreu, in: “Terça-feira Gorda”)

Conto 8: Eu, Tu, Ele

Encaixei-me nesse conto. Não como uma quarta parte, mas como sendo alguém em cujo essa tríade existe e se confronta tanto quanto. Uma ponta sustentando a outra num quase equilíbrio. Algumas vezes, perguntaram-me quantas sou eu. Nunca soube a resposta. Mas sei que, como Caio, quase todos os meus lados são incompreendidos.

Trecho...

“... vê se me entendes: ele não se agasta, mas é dentro dele que eu me afasto. Dentro dele, eu espio o de fora de nós. E não me atrevo.”
(Caio F. Abreu, in “Eu, Tu, Ele”)

Conto 9: Luz e Sombra

A música ao fundo era “Stand by Me” nessa nova e divina versão de Florence and The Machine; e o calor carioca escaldante de um quarto onde eu me encontrava deitada era o cenário da leitura do último conto dessa primeira parte de “Morangos Mofados”.

A angústia da personagem foi crescendo em mim. Ele – Caio – falava comigo e eu solidária, solicita, dedicada respondia carinhosa e ternamente atenta a cada “Você me entende?”; na tentativa inútil e desesperada de que ele soubesse o quanto eu o entendia e o sentia naquele momento. 

Terminei o conto com lágrimas e apertei o livro contra o peito. Mãe agradecida querendo mimar o filho por ele ter me deixado estar com ele ali naquele quarto dividindo comigo suas angústias, medos, dúvidas e poesia. 

Trecho...

“O dia está muito quente. Quando a tarde avançar, sei que me encontrará sentado no degrau. E depois que o cinza tiver se transformado em rosa e em violeta e em azul profundo e por fim em negro, sei que estarei parado no centro daquele quarto, ouvindo os guinchos estridentes e o bater de asas dos morcegos. Gritarei, então. Muito alto, com todas as minhas forças, durante muito tempo. Não sei se foi esta a ordem, se será assim o depois. Mas sei com certeza que nem você nem ninguém vai me ouvir”
(Caio F. Abreu, in “Luz e Sombra”)

Nota: 

Caio Fernando Abreu escreveu o livro original “Morangos Mofados” em 1982 e o revisou em 1995. Se ficou melhor ou pior que o original, eu não sei. Só sei que o Caio é Caio e eu o amo incondicionalmente!

Até o próximo!

Beijos da Wal. 

domingo, 16 de agosto de 2015

Os Mortos de James Joyce



Depois de ler vários autores que usam James Joyce como referência decidi eu mesma lê-lo. E escolhi a obra “Os Mortos” originalmente publicado em 1907. E abri o livro na expectativa de um grande acontecimento e me deparei com um acontecimento banal. Uma soirée anual das Senhoritas Morkan que são tias e prima do personagem principal Gabriel Conroy. Uma festa de fim de ano muito bem organizada, com músicas, danças, e uma ceia, o auge do entretenimento burguês.

Apesar de contada em terceira pessoa, a história possui um ponto de vista principal que é o de Gabriel que nitidamente sente-se superior aos demais participantes da festa por ser um homem mais intelectualizado e mais “continental” do que arraigadamente irlandês, como fica claro na preparação de seu discurso onde ele exalta a “hospitalidade” como uma qualidade nativa dublinense. Vale ressaltar aqui que Gabriel é alvo de várias gafes ao longo da narrativa onde ele parece querer mostrar o melhor da sua natureza. Por exemplo, ele faz uma observação até um pouco paternal à jovem Lily que é a serviçal da festa e acaba levando um carão, dança uma quadrilha com a Srta. Ivors que o espicaça como escritor anglófilo.
E tudo transcorre como deve ser: com os chatos de plantão, parentes bêbados inconvenientes e chatos, a prima que toca uma peça ao piano, os comentários normais, a nostalgia dos velhos, a despreocupação dos jovens, uma velha amiga intrigueira... Enfim, tudo corre conforme o esperado. Conforme vai amanhecendo, uns convidados se vão e outros seguem no salão, cantando árias irlandesas. Gretta, a esposa de Gabriel, os ouve a canção enlevada enquanto Gabriel mal ouve a letra.
Ao chegarem ao hotel onde eles estão hospedados, Gabriel procura pela mulher que parece distante, abstraída, inquieta. Ele insiste em saber o motivo e descobre pela esposa, que a velha ária tocada ao fim da festa a lembra de Michael Furey, já morto que teria sido seu primeiro amor. Chocado com a revelação Gabriel começa a repensar seus últimos e seus próximos passos. Como vencer um amante morto? Que pode Gabriel contra o ímpeto de se impor a essa figura do passado? Pois o passado não é apenas o território das perdas, no sentido de mortes pessoais, mas das perdas, no sentido de possibilidades que não voltarão.
Algumas coincidências não são à toa nessa narrativa e foram construídas para acentuar esse momento de inquietação de Gabriel. Por exemplo, devemos notar a excitação de Gretta quando o casal é convidado para uma viagem a região onde a Gretta pela última vez esse ex-amor,Michael Furey, na neve. Ou seja, todos os elementos da narrativa se ligam e se entrelaçam nos mínimos detalhes da trama.
 “Os Mortos” fala sobre a consciência da mortalidade numa trama onde os protagonistas não são jovens. Gabriel, em especial, está na meia-idade. James Joyce o fez com maestria, mesmo porque a maioria dessas conscientizações de vida decorre de acontecimentos banais, à primeira vista. Em “Os Mortos” o jantar da família Morkan, Joyce deixa bem claro, acontece todos os anos há vários anos com os mesmos pratos servidos, as mesmas pessoas fazendo as mesmas coisas. Ou seja, o tipo da rotina que faz com que esqueçamos que as pessoas podem não estar mais lá no próximo evento.

A descrição dos acontecimentos é feita no mesmo tom ordinário e comum. São pessoas reais, vivendo sua vidinha, sem pensar muito em si e no futuro. Sem mesmo buscar conhecer melhor as pessoas próximas tanto os estereótipos se arraigaram. E o choque de Gabriel é grande quando ele percebe que tudo pode acabar um dia. James Joyce te envolve de tal maneira no cotidiano, que não se espera o impacto do desfecho. O leitor fica sem chão, ciente da própria mortalidade e da mortalidade dos outros. Eu diria que esse é um conto que deve ser relido de tempos em tempos para que não nos esqueçamos de que tudo na vida uma hora chega ao fim.
(Waleska Zibetti, in "Os Mortos de James Joyce")

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Última Carta de Um Vilão




“Talvez até a morte tenha seu lado bom, um lado simpático... Mas eu não.

Desde que me entendo por gente, sonho em ter o mundo em minhas mãos. Em mandar e desmandar. Em criar e destruir todos os que se opõem a mim. Desde pequeno sonho com a glória de ser chamado de tirano, de monstro, de cruel. Tudo isso porque sempre me vi melhor que os outros seres humanos. Todos são idiotas demais, nada mais justo que eu os governe. Mas eles não sabem escolher o que é melhor para eles. 

Desde que me entendo por ser vivo, que não temo a morte. Gosto dela a acho divertida, sarcástica e irônica. Talvez porque eu nunca tenha morrido. Mas não entendo porque as pessoas temem tanto ela. Acostumei-me a ela desde o momento que jurei guerra contra todos os prepotentes imbecis que se auto proclamam “heróis”, mandei vários de presente para ela. 

De tanto viver ao lado dela não percebi que ela se aproximara demais, agora estou aqui de frente para esse espelho, preso em meu próprio quarto, e atrás da porta me espera um maldito moleque... Um maldito herói. Como odeio “heroizinhos”. Seres patéticos. Odeio heróis. Odeio com todas as minhas forças... Que já não são muitas...

No espelho vejo meu sorriso, que na minha infância era considerado um sorriso de loucura, mas eu sempre o achei tão atraente. Como meus olhos. Enquanto eu amo meus olhos, as pessoas o temem. O temem como temem a Morte. Vêem uma crueldade insana nos meus olhos e sorriso. Acho que é por isso que os amo tanto.

Ouvi um barulho na porta. Quero ter certeza de que tudo que fiz foi certo. Foi... Pelo menos para mim. Consegui tudo o que sempre quis: poder, estátuas em minha honra, o temor de todos, mandei para os anjos algumas pessoas mais cedo. Não me arrependo de nada. 

Mas depois de um tempo fica tudo muito chato. Nem matar nem torturar me trazem a alegria de antes. Acho que esse deve ser o problema da imortalidade. Veria tudo acontecer milhares de vezes e sempre saberia onde acertar. Seria um inferno. 

De novo o “herói” tenta abrir a porta. Meu sorriso está ainda mais louco. Acho que sei o porquê... Minha velha amiga, a Morte está se aproximando e eu sei quem ela vem buscar. No espelho o meu rosto já está cansado, eu já estou velho demais para essas brincadeirinhas de criança. 

Durante anos cacei esses infelizes que se dizem heróis, agora eu já não aguento nem lutar contra um. Devo estar louco, devo estar problemático, devo matá-lo agora... Ou morrer tentando. 

Ouço meu ultimo trovão, a magnífica obra da natureza. 
Quero que se lembrem que eu não me arrependo de nada. Quero que saibam que odeio heróis. Quero morrer e ser lembrado como um louco tirano que foi recebido com um trono no inferno. 

Até a morte tem seu lado piedoso, um lado humano... Mas eu nunca.”

Ele pegou a espada no canto e com os pés abriu a porta do quarto pulando em seu inimigo com a espada em punho. Ele não esperava a cavalaria que vinha atrás do herói. Foi derrotado antes de conseguir o triunfo de seu ultimo ato. Os soldados depois da batalha olharam para a cidade em chamas. 

O “monstro” podia ter morrido, mas seu sorriso e seus olhos refletiam o orgulho do dever cumprido.
(João V. Zibetti, in "Última Carta de Um Vilão")


segunda-feira, 13 de julho de 2015

O Show Tem Que Continuar




O ator estava sozinho no palco, sentado com suas longas pernas penduradas para fora do palco. Pensava seriamente, há muito tempo que as luzes se apagaram. Pensava que depois de tanto tempo longe da platéia, longe dos textos, longe da loucura, como iria voltar assim do nada.

Na porta de entrada outro homem entrou e se se encostou à porta, usava uma roupa cinza e negra. Tinha o rosto magro e com ar sacana. Não disse nada e ficou encarando o ator. O ator fez uma leve referencia e a pessoa se aproximou, com um sorriso sarcástico no rosto. O ator se levantou e se lembrou de seus velhos tempos.

- Muito bem. Ainda esta em forma. – O homem tinha a voz calma e perversa. – Você quer voltar, né? Por quê?

- Por nada mais que o gosto de estar no palco. – Disse o ator e sozinho começo a dançar. De tango a valsa. O homem deu de ombros. O ator parou e observou todo o teatro, grandes momentos ali. Morou quase a vida inteira ali dentro e agora, estava tanto tempo afastado, não conhecia mais nada, uma lágrima de tristeza caiu de seus olhos. O homem sorriu piedosamente e se retirou, agora era só ator e teatro.

Ele desceu do palco e andou entre as cadeiras, lembrando cada momento que passara ali sentado. Algo gritava dentro dele: “Esta chegando a hora”. Ele queria voltar a atuar, mas também queria, nem ele sabia o porquê, morrer. Já estava tanto tempo afastado. Subiu de novo ao palco, olhou para as cadeiras, fez uma breve reverencia e interpretou seu ultimo ato, uma cena entre ele e ele mesmo. Lutas, canções e amores perdidos, no final se jogou no chão. “É o fim” pensou e fechou os olhos.

De repente reabriu os olhos, o homem de roupa cinza e negra estava lá se aproximando.

- Pode voltar! Já decidi. – Disse o ator para o homem.

- Como? Por quê? – Retrucou o homem um pouco confuso.

- Não foi dessa vez que me levou.

- Vamos logo, afinal ninguém te verá, de certo terei de te buscar mais tarde...

- Ai! Me buscará mais tarde. Não agora, não hoje. – O ator olhou para as cadeiras de novo, agora com um ar soberano e triunfante.

- Sim, sim, belo discurso. Agora vamos, afinal para que continuar vivo? – O homem estendeu a mão esquelética e sorriu.

- É verdade, meu querido e adorável Ceifador Sinistro. – Olhou uma ultima vez para o homem, que agora segurava um cajado, suas roupas se transformaram em um capuz negro e depois voltou a olhar para as cadeiras vazias, recitando e interpretando um magistral texto.

“Espaços vazios, pelo o que estamos vivendo?
Lugares abandonados;
Eu acho que já sabemos o resultado;
De novo e de novo, alguém sabe o que nós estamos procurando?
Outro herói, outro crime impensável;
Atrás da cortina, na pantomima;
Segure a linha, alguém quer segurar um pouco mais?
O show deve continuar...”

- Bravo. Acaba de me convencer, primeira vez que, em todos esses anos de trabalho, eu vejo Queen ser recitado como poema. – O Ceifado colocou as mãos nas costas do homem e completou. – Boa sorte, meu caro. – O ator assentiu e o Ceifador sumiu andando em direção à porta. Com um leve sorriso o próprio ator comentou.

- Eu só posso estar ficando doido.

Alguns meses se passaram e o ator olhou de novo paras as cadeiras, agora infinitamente cheias todos o aplaudiam, muitos de pé, outros gritando e assoviando e um de roupa cinza e negra com um sorriso sarcástico. Nos últimos segundos, chegou à frente do palco e com toda a força do pulmão terminou sua mais notável peça:

- O show tem que continuar! – E todo o teatro o seguiu formando um coro estupendo e brilhante. – O Show Tem Que Continuar!

(João V. Zibetti, in “O Show Tem Que Continuar”)

quarta-feira, 8 de julho de 2015

O Chato e o Quadro




Na casa do Chato havia um Quadro antigo, um rosto de uma pessoa. Um dia o Chato, ao chegar à casa, disse ao Quadro:


- Eu sou a pessoa mais inteligente de todas, sei sobre tudo e todos. – O Quadro não respondeu nada. 


No dia seguinte disse a mesma coisa: 


- Eu sou a pessoa mais inteligente de todas, sei sobre tudo e todos. – O Quadro não disse nada outra vez. 


No terceiro dia o Chato repetiu a frase e o Quadro, para não perder o hábito, não disse nada. Após uma semana com essa rotina o Chato convenceu-se de que era a pessoa mais inteligente de todas. 

No fim de semana foi convidado para ir a um bar com um colega, o Chato aceitou e foi ao encontro. Começaram então a conversar sobre política, o colega possuía uma ideia um pouco diferente da ideia do Chato, este ficou irritadíssimo, pois não entendia como alguém poderia discordar dele, logo ele que era o ser mais inteligente de todos. O colega vendo uma possível briga mudou de assunto, começaram a falar sobre futebol. O Chato mais uma vez se mostrou superior e se frustrou ao ver que o colega não compartilhava da mesma opinião. 

Numa ultima tentativa de manter a amizade o colega sugeriu que falassem de música. No meio da conversa o Chato disse uma coisa errada e o colega, sem maldade, o corrigiu. O Chato não conseguiu aceitar a derrota e começou a gritar, a tentar humilhar o colega, mas nada adiantava. O colega, por fim, o alertou:


- Quando gritamos para convencer alguém, o convencemos, apenas, de que somos idiotas. – O Chato enlouquecido de fúria virou a mesa e foi embora. 


Chegando à casa, gritou com o Quadro:


- Você! A culpa é sua! Por que não me avisou que eu não sou tão sábio? – O Quadro ignorou a pergunta assim como ignorou tudo durante uma semana inteira. Enfurecido pela loucura pegou o Quadro e o arremessou numa outra parede. Havia se convencido de que estava certo, mas nunca correu atrás de algo para realmente estar certo. 


Às vezes nos convencemos de que somos algo, mas não tentamos de fato ser algo. Às vezes acreditamos que chegamos a um estado de perfeição e que não precisamos melhorar em nada. 

Há muitas pessoas que acreditam que são melhores porque conversam com quadros, mas esquecem que nem sempre quem cala consente, às vezes é preguiça de arrumar confusão.  
(João V. Zibetti, in "O Chato e Quadro")

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Na Estação



Ele estava lá como sempre esperando um trem, um trem que nunca passava, se passava não pegava.  Ele já era velho, sempre de pernas cruzadas, com roupas pretas, sempre lendo o jornal, sempre consultando seu relógio de bolso.

      Um dia chegou um trem e desse trem saiu um jovem, nessa hora o homem se endireitou. O garoto sentou no mesmo banco que o velho. Disfarçadamente o velho puxou conversa com o garoto. O garoto, que já não era tão moço, devia ter uns 29 ou 30 anos, mesmo assim o velho o chamou.

- Ei rapaz! – o garoto não percebeu que o velho o estava chamando, se percebeu não deu atenção.  O velho se calou.

Pouco tempo depois o garoto começou a olhar assustado para todos os lados. Não havia ninguém, não havia relógio e o pior não havia trem. Espantado o garoto se dirigiu ao velho.

- Ei senhor!  - o velho virou a cabeça calmamente. – O senhor teria horas, para me informar?

- Sim. – pegou seu relógio e olhou. – São 12h45min, por quê?
- Ah, estou preocupado.

- Preocupado? Com sua esposa?

- Não. Estou com medo de ficar atrasado.

- Atrasado? Para que?

- Meu trabalho. - O velho ficou pensativo.

- Então tá indo trabalhar, né? De quê?

- Sou empresário. Não posso me atrasar.

- A única pessoa que não pode se atrasar é a morte.

- Como?

- Por que tanta presa se a vida é bela e o tempo é curto?

- Ora, preciso ganhar dinheiro.

- Somente isso?

- Sim.

- E o resto?

- Que resto?

- A amizade, o amor, a diversão, a felicidade.

- Não preciso, sou feliz com o que tenho.

- Quando você ficar velho e o dinheiro ser uma coisa que já está sem utilidade, pois já tem tudo, o que você vai fazer?

- Vou descansar. – O garoto parecia orgulhoso.

- Sozinho? Meu filho, já faz três semanas que eu estou esperando por você aqui. Vim para te dizer que você não vai poder ficar sozinho tanto tempo. Saia um pouco mais, brinque um pouco mais, ame um pouco mais, viva mais.

- Mas eu vivo. E vivo bem com meu dinheiro e minha casa.

- Mas não tem ninguém para compartilhar, não tem um amigo para chamar, não tem uma vida que possa se orgulhar. O mundo é uma grande torre de relógio. Cada pessoa funciona como uma engrenagem, todas tem que estar ligadas para que o mundo funcione direito.

- Não preciso de ninguém. Sou bom do jeito que sou.

- Você precisa se desprender do seu trabalho. Escute a floresta, veja o mar, cante para o pôr do sol, saia com os amigos, viva para sua namorada. – Uma moça nova entrou na estação. Usando roupas vermelhas se sentou em um banco separado. O silencio dominou a estação.  A menina toda hora lançava olhares meigos para o rapaz, que nem dava atenção. O velho perdeu a paciência e cutucou o rapaz.

-Anda. Você precisa, um dia quando for velho só terá seus netos.

-Como eu...

- Seja você mesmo.  – O rapaz se aproximou e conversaram.  As horas se passaram e o garoto perdeu o seu trem, queria continuar aquela conversa. No alto do final da tarde, um beijo saiu. O velho olhou para eles e depois para a colina de onde o trem vinha. Seu trem chegava à estação.

Quando o trem chegou ele foi até ele, era um trem com somente um vagão.  O trem saiu da estação e o velho se pendurou no ferro para dar “adeus”.
- Adeus Mario, Adeus Joana. – O garoto e a moça se assustaram como ele sabia o nome deles?

- Espera se sabe quem nós somos. Quem é você?

- A única pessoa que não pode se atrasar. Eu sou a Morte.   – Sua mão ganhou virou um esqueleto assim como seu rosto, ele sacudia a mão em um profundo “adeus”.  – Au revoir, meu amigo, viva mais essa sua única vida. Não espere eu voltar para lamentar, faça.  O trem sumiu a fazer a primeira curva, dali em diante Mario aprendeu uma lição.

“...O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído...”
(João V. Zibetti, in “Na Estação”)

quinta-feira, 14 de maio de 2015

A Espera



Era uma flor que esperou por muito tempo. E o dia se fez noite. E a noite virou dia. E a flor esperou e esperou no jardim. No final do terceiro dia, quando ninguém ressuscitou, sozinha a pobre flor no meio do jardim chorou. 

(Waleska Zibetti, in "A Espera")

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Reencontros E Despedidas




"Ainda mais bizarra era sua dupla vida mental:
Uma parte dela vivia no presente;
a outra parte respondia
emocionalmente a eventos ocorridos"
(Yrvin D. Yalom,in "Quando Nietzsche Chorou")

__ Poderia ser você? – disse ele mostrando-lhe a aliança recém conquistada – Mas você não me escolheu. Preferiu ficar aí levando a vida desse jeito.

Ela o olhava paciente e compreendia bem o porquê daquilo. Ele guardava mágoas do passado. Ela podia sentir isso sendo despejado em seu colo letra a letra. E manteve-se em silêncio esperando que ele se esvaziasse por completo de seus sentimentos.

__ Ela acreditou em mim. Estou muito feliz! Ela é especial, sabe? Deus foi muito bom para mim. Vou começar uma família. Estou me sentindo realizado.

Ela escutou o discurso e de repente se deu conta do quanto ele se ressentia dela. Ficar quieta e em silêncio era o seu pedido de desculpas por não tê-lo desejado como ele esperava ou imaginara. Essas coisas não acontecem quando e como queremos. Acontecem e pronto. No caso deles, não aconteceu. Simplesmente não aconteceu.

__ Tenho projetos com ela. Você precisava saber disso para não deixar escapar mais ninguém. Poderia ser você agora, entende isso? Mas você simplesmente ficou inerte a tudo que lhe ofereci. Esqueceu-me. Deixou de lado. E, quer saber, foi bom para mim. Eu... Eu agora a tenho. Alguém que me quis. Que me deu valor e me levou a sério. Estou feliz! Nossa! Como estou feliz!

Ela só sorria e olhava para ele complacente e paciente. Então, ele se levantou. Procurou algo nos bolsos. Sorriu e concluiu.

__Bom, é isso! Eu queria que você soubesse que estou bem e feliz. Agora vou embora. Obrigado por tudo! Não vou mais incomodar você. Espero que você também seja feliz e que da próxima vez que alguém quiser lhe fazer feliz, você aceite.

Ela abriu um pouco mais o sorriso e assentiu com um meneio de cabeça e levantou-se para levá-lo até a porta. Ele parecia aliviado e uma vez à porta, respirou fundo.

__ Adeus!
__ Adeus! E felicidades.

Havia sinceridade nas palavras dela. Toda a sinceridade do mundo. E ternura também. Sentia-se em paz por tê-lo ajudado a acreditar que ele dera o troco nela e que agora ela estaria triste e pesarosa de não ser a esposa dele. Ela sentiu-se caridosa em ajudá-lo a vestir a fantasia de que era feliz mesmo sabendo que de vez em quando a realidade cairia nos ombros dele, levando-o a pensar nela, em como teria sido se fosse ela. Havia uma falsa sensação de coisas realizadas e ajustadas naquela tarde. E o mundo parecia perfeito.

Ele desceu a rua com mãos no bolso e pensamentos desconhecidos. Ela entrou, ligou o rádio, serviu-se de vinho e sentou-se feliz para ler Nietzsche.

“... Falei de amor! Trago uma dádiva aos homens”.

(Waleska Zibetti, in "Reencontros e Despedidas")

quarta-feira, 8 de abril de 2015

A Joaninha



__ Mãe, olha lá! É uma Joaninha. 
__ É mesmo.

Ele se abaixa e cuidadosamente captura o inseto. A mãe o observa vir correndo em sua direção. Sorriso gigantesco. Olhos radiantes. 

__ Para você, mãe. - disse como quem entregava a mãe o maior de todos os tesouros da terra. 

Ao abrir a mão, a tristeza tomou conta do seu rosto. A Joaninha havia voado. Os olhos marejaram num misto de vergonha, raiva e decepção. A mãe abriu um sorriso enorme e abraçou o filho com uma gratidão tremenda. 

__ Amei o presente!
__ Como?
__ A liberdade que você trouxe na palma de sua mão para mim. Amei!

O menino sorriu de novo. Mesma face orgulhosa de antes. Aprendera uma lição para vida toda. 

__ Te amo!
__ Eu também. 

E correndo ele voltou para o jardim.
(Waleska Zibetti, in "A Joaninha")

terça-feira, 7 de abril de 2015

UMA MESTIÇA NO VATICANO



CONTO (sinopse)

Não sei se a Waleska vai se lembrar, mas esse conto eu escrevi na época em que tínhamos a família Du Condreys como perfil de jogo na rede social. Fiz esta sinopse com intuito de escrever um conto completo.
Venho agora dividir com vocês essa ideia e quem sabe minhas colegas do clube não animam em escrever essa história comigo de presente para vocês!?

“Em nome do Pai, do filho, do espírito Santo. Deixe este corpo, pois a Deus ele pertence. Sou Jacob Petrovna e ordeno que saia!”
Assim começou o exorcismo de Shayla, filha de uma bruxa com um lobisomem já falecido, em 1666 num povoado em Sérvia.
Naquela época, o cristianismo ainda dominava e tentava acabar com a religião dos pagãos. Houve muitas inquisições e guerras entre bruxos e cristãos. Mas o caso de Shayla foi extremamente inusitado porque nunca houvera um caso de um servo das trevas (bruxo) ser assombrado por seres das mesmas trevas (demônios).
Havia uma força maligna dentro dela, algo indecifrável.
Podia-se ver insanidade e obscuridade  através de seus olhos.
“Que saia os anjos que habitam em mim. Expulsem os demônios que tentam me possuir!”
Foram as ultimas palavras que ela disse ao padre quando entrou em transe satânico profundo.
Ela transpirava ira, luxúria e gula.
Lágrimas de sangue jorrava através de seus olhos.
Naquele dia, padre Petrovna percebeu o quão injusto foi a igreja por condenar os pagãos, sendo que eles não tinham feições maquiavélicas.
Chegando a meia noite, Shayla foi despertando e caninos foram aparecendo enquanto sorria com lábios frios e seus olhos que eram azuis, foram se transformando em gelo e ela começou a voar. Assim ela matou o padre e sua mãe, então fugiu.
A única prova de seu exorcismo está preservado no templo mais sagrado da humanidade. E essa prova é a própria mestiça Shayla. 
Se ela se mantém viva, não se sabe ao certo, mas nos dias atuais tem acontecido muitos sequestros e pessoas desaparecidas sem deixar rastros, levando a aguçar nossos pensamentos e nos questionarmos se essas pessoas não são levadas como alimento para a própria. E por quê a igreja não exterminou a vampira? Será que sua vida e seu sangue tem servido para algo que também não sabemos? Esse é mais um mistério por detrás da religião. Ajude a clã das du Condreys a desvendar este mistério. A caça apenas começou. Mas agora será de igual para igual. 

Por Gabriella Gilmore e Thiago Marlon

sexta-feira, 20 de março de 2015

MONA MAYFAIR - CONTO



por Gabriella Gilmore








Inspirado no Best Seller “A hora das bruxas” de Anne Rice





Maio de 2003

Foi em 2003 quando Mona...

Mona estava com 20 anos, morava na cidade de Nova Orleans e já era gerente administrativa da charmosa pousada Mayfair Inn.
Seu pai Michael morrera um ano antes de uma doença cardíaca. Nenhum médico conseguiu encontrar um motivo cabível para o fato.
Criada pela tia-avó Vivian e pelo pai, a pequena garota não chegou a conhecer sua mãe Rowan quando nasceu. Esta havia fugido sem deixar explicações e simplesmente abandonado à criança que nascera prematura na antiga mansão Mayfair, na famosa First Street, no final do ano de 1983.
Michael viveu até o ultimo dia acreditando que sua esposa retornaria ao lar para pedir desculpas pelas falhas na qual ele com certeza a perdoaria. Ele nunca amou tanto uma mulher como amou aquela médica.
Claro que ele nunca teve coragem de dizer a filha quem realmente foi Rowan. Ela nunca entenderia. 
Rowan havia dado luz a gêmeos. O garoto Christopher foi possuído pelo espírito de Lasher logo depois do nascimento. A mãe ainda consciente, conseguiu esconder a garotinha Mona, que nascera 5 minutos depois, em um baú velho que havia na sala de estar, local onde ela teve prematuramente as crianças. Rowan sabia das intenções do espírito Lasher. Ele almejou por séculos um corpo, e ao manipular as 12 bruxas Mayfairs durante gerações, Rowan seria o futuro portal para que seu plano viesse à tona.
A jovem dos cabelos chocolate avermelhado, da pele branca aveludada e dos olhos arregalados cor de areia, cuidava do estabelecimento junto com seu pai e tia. A casa que pertenceu durante séculos à família de sua mãe, hoje virara uma pousada. Mona Mayfair se tornou uma jovem muito sensual, tinha gosto refinado, era vaidosa e adorava ter atenção das pessoas. Ela lembrava muito a primeira Mayfair, Suzanne. Ela se sentia atraída por pessoas independentes e dinâmicas. Gostava de pessoas de cultura ampla e viajadas. Muito ambiciosa e trabalhadeira, estar à frente do Hotel de seu falecido pai, parecia um ótimo ramo para pessoas como ela. Muito brava e gastadeira, Mona não conseguia encontrar um par ideal. Mas na verdade, a bruxinha nunca aceitou o fato de conseguir ler a mente das pessoas e ver o futuro delas através de sonhos. Seu pai preferia dizer que aquilo era a sua intuição feminina muito aguçada, onde ela não precisava se preocupar, afinal, era normal. “A maioria das mulheres tem esse sexto sentido.” Dizia ele. E voltava a falar que sua mãe tinha esse “dom”. Porém, a garota sabia que ela era diferente.
Na sua adolescência, ela se apaixonou por um garoto chamado Jonas. Ele conseguia mover as coisas quando ficava com raiva. Ela percebeu isso quando estavam no laboratório de biologia e ele não conseguia fazer o corte certo numa rã morta. Cansado, ele moveu os itens que havia na sua mesa e desconcertado, fingiu derrubar tudo com as mãos, simulando estar nervoso.
Depois disso, ficaram amigos. Assim, ela teve um confidente por três meses. Infelizmente, ele se mudou para a Europa.
Ela nunca soube, mas o amigo de seu pai, Aaron, que conhecia também os pais de Jonas, o levou para estudar no Talamasca, uma escola para crianças com poderes paranormais.
Aaron também sugeriu que levassem Mona, contudo, a resistência de Michael foi imensa.
Depois de jovem, a ruiva Mayfair resolveu tentar viver em função do trabalho e evitava se envolver com as pessoas, assim, ela não correria riscos de ficar lendo mentes ou sonhando com o futuro delas.
No outro lado do oceano, estava Rowan e Lasher, vivendo em pela paixão cega em alguma  cidade da Romênia. No nosso senso comum, é inadmissível uma mãe ter relações com o próprio filho, mas caso de incestos na família Mayfair chegava a ser comum. O culpado? O espírito maligno de Lasher que agora habitava no corpo do filho de Rowan, o jovem Christopher.
Durante séculos, o espírito manipulou as bruxas Mayfair para que a 13° bruxa, (Rowan), fosse a mais poderosa e estivesse pronta para materializar seu corpo. Cansado de não saber como era sorrir, tocar em alguém e sentir algo, Lasher conseguiu manipular Rowan, e enganando-a, fez com que ela tivesse os gêmeos prematuramente na data do natal. Sendo assim, ele possuiu o corpo do bebê Chris. 
Tentando evitar um mal duplo, Rowan conseguiu poupar a pequena Mona escondendo-a em um velho baú.
Depois de anos, Lasher teve a infeliz descoberta de que a carne humana perece e que em breve ele voltaria a ser apenas espírito novamente. Em busca da imortalidade para seu corpo, ele recorreu ao clã dos vampiros Unikans para que fosse transformado.
Em seguida, ele quis transformar Rowan, mas ao recusar-se, ficou furioso e a matou, deliciando-se de seu sangue.
Anos depois, cansado de viver solitário, sem nenhuma perspectiva, ele descobriu que ainda havia uma bruxa Mayfair viva e que ela era filha de Rowan e sua irmã.
Com uma fúria gulosa ele conseguiu localizá-la.
Depois de algumas pesquisas sobre Mona Mayfair, o espírito enganador de Lasher ligou para o Mayfair Inn fazendo uma reserva para duas semanas. Se passando por um sedutor historiador romeno, Lasher conseguiu uma atenção especial da sua irmã.
_ Senhor Victus. (Esse era o seu nome falso). Qual é a linha de pesquisa que o senhor vem trabalhando? Perguntou Mona em uma das tardes do chá das cinco.
_ Bela Mona dos cabelos ruivos. Sente-se. Faça-me companhia. E por favor, não me chame de senhor. Acredito que não tenhamos idades tão diferentes.
_ O senhor, quero dizer, você, é sempre gentil assim o ano todo? Perguntou ela com um tímido, porém, frio sorriso.
Ele sorriu ao dar mais um gole do seu chá de hortelã e logo pousou a xícara para respondê-la.
_ Estou investigando sobre algumas escolas da Europa que trabalham com crianças paranormais.
Quando ele disse isso, ela logo se lembrou dos seus poderes e sobre o Talamasca, escola para onde teria ido o seu amigo Jonas.
_ O que suas pesquisas dizem sobre os poderes paranormais? Perguntou curiosa a jovem.
_ Quando nunca vivenciamos nada parecido e só temos relatos, sempre nos ateremos às dúvidas. 
Mona ainda não o conhecia o bastante para revelar-lhe o seu segredo e a conversa acabou morrendo ali.
Lasher sabia que ela tinha dons, e sabia também do perfil de homem que lhe agradava. Em algum momento ela iria ceder.
A vontade de possuir a própria irmã, a saudade que ele tinha em dar prazer às bruxas Mayfairs, aumentava a cada momento que ele sentia o cheiro da jovem. Ele só tinha mais uma semana para tentar gentilmente seduzir a bela moça, caso contrário, iria brincar a força.
Mas desde quando alguma Mayfair deixou de se encantar pela astúcia de Lasher?
No 13º e penúltimo dia de hospedagem do demônio, ele a convidou para um jantar.
_ Você me parece tão próximo! Exclamou Mona. Tem os olhos da minha mãe. Profundo, perdido mas acolhedor.
_ E como era sua mãe?
_ Eu não cheguei a conhecê-la. Mas meu pai guardou algumas fotos. Ela era linda. Vocês têm o mesmo tom de cabelo.
Ele incrivelmente conseguiu fingir estar corado de vergonha, porém, lisonjeado. 
Lasher queria ter o prazer de dominá-la sem precisar usar de seu pode persuasivo. Ele se engrandeceria muito mais se ela ficasse com ele por vontade própria. Cuspir em sua cara dizendo sobre o incesto, seria uma parte de sua glória, e escravizá-la a viver para sempre com a vergonha, seria o maior prazer para a besta.
Lasher era muito belo, sedutor, homem! Vestia-se feito cavalheiro, tinha uma perfeita dicção, era viajado, inteligente e super a frente de seu tempo. Nos pensamentos de Mona, este seria o par perfeito para suas juras de amor.
_ Nunca estive com um homem feito você. Sussurou Mona debaixo dos lençóis.
_ E como sou? Lasher adorava instigar as jovens com perguntas aleatórias.
_ É o tipo de homem que acabei estereotipando com apenas qualidades. No fundo, eu queria adiar minha felicidade.
Seu ego demoníaco fez com que ele quisesse sugá-la de uma vez só. Ele se conteve. Em seguida, começaram a se amar. Ele a elogiava aos ouvidos, chamando-a de rainha e isso a excitava de uma forma fantasmagórica. Eles começaram a flutuar, foi quando ela percebeu algo diferente. Ao olhar para o lado, eles estavam próximos a balaustra dourada. Mona olhou para o seu rosto e ele cochichou algumas palavras:
_ Calma irmãnzinha. Depois que matei mamãe Rowan por desobediência, eu vim atrás de você.
Ela cravou suas unhas nas costas de Lasher e ele golpeou-a com uma suculenta mordida em seu pescoço.
Ali, ele não teve a maldade em pensar que estava tornando a bruxa Mayfair mais poderosa em uma imortal, e que a luta para a sua própria destruição estava começando. Seria árdua, porém, perpétua.

.... se tornou uma vampira.

terça-feira, 17 de março de 2015

O Convite



Era sempre da mesma maneira: ele chegava com sorriso e promessas. Vinha todo lindo cheirando a novo. Ela o observou se aproximando sorrateiro com seu jeito envolvente já tão conhecido.

__ Vamos?
__ Não posso. 
__ Por que?
__ Medo. 
__ Do "novo"?
__ Não! Do "de novo".

E Amor segue seu rumo sozinho cantando um samba de Cartola. Enquanto ela observa a noite escura salpicar-se de estrelas, pensa no amor que acabara de recusar. E sorrindo serena, esconde-se nas entrelinhas de Cecilia Meireles.

"Viajo sozinha com o meu coração 
Não ando perdida, mas desencontrada 
Levo o meu rumo na minha mão"
(Waleska Zibetti, in "O Convite")

quarta-feira, 4 de março de 2015

O Corvo


Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais." 
Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará jamais.
E o rumor triste, vago, brando,
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto e: "Com efeito
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."
Minha alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós - ou senhor ou senhora -
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse: a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.
Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta:
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.
Entro co'a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais tarde; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma coisa que sussurra. Abramos.
Ela, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso.
Obra do vento e nada mais."
Abro a janela e, de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre Corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto
Movendo no ar as suas negras alas.
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.
Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo - o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "Ó tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais:
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o Corvo disse: "Nunca mais."
Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Coisa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta,
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é o seu nome: "Nunca mais."
No entanto, o Corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o Corvo disse: "Nunca mais."
Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: "Nunca mais."
Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao Corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera.
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais."
Assim, posto, devaneando,
Meditando, conjecturando,
Não lhe falava mais; mas se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava,
Conjecturando fui, tranqüilo, a gosto,
Com a cabeça no macio encosto,
Onde os raios da lâmpada caiam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.
Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso.
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o Corvo disse: "Nunca mais."
"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: "Existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o Corvo disse: "Nunca mais."
"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No Éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais.
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."
"Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa!, clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fica no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua,
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o Corvo disse: "Nunca mais."
E o Corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!


(trad. Machado de Assis - 1883)
Poe, Edgar Allan. O Corvo. Editora Lorimer Graham. 1845.