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terça-feira, 25 de agosto de 2015

Eu, Marinheiro



Quero rimar porto e mar
Com um adentrando no outro
E nem se vê o mar
E nem se vê o porto
Pois tudo é uma coisa só
Amarrados pelo mesmo nó
Invisível como o que une
Criador e criatura
Além do que se pode compreender
Quero achar a rima perfeita
Para o inverno e verão
E que o tempo entre uma coisa e outra
Nem seja o calor nem seja o frio
Mas seja sim o tempo dos teus sonhos
Banhados de desejos e devaneios
Quero rimar tua ternura
Com a mesma entrega
Da mãe para seu filho
E aninhar-te em meus seios
Com abraços e beijos de loucura
Quero rimar-te a noite inteira
No encontro de tuas partes na minha
E então, voltar ao mar
Como fazem os marinheiros
Enquanto tu descansas
Entre lençóis de céu azul
Que completam a minha rima
Onde o porto adentra o mar.
(Waleska Zibetti, in "Eu, Marinheiro")

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Intimidade



Escreva-me
Cubra minha pele com suas ideais
Seus desejos e fúria
Que eu saiba dos seus versos
Dos seus segredos perversos
Teus erros mais que teus acertos
Dedilhe em mim suas canções
Toque suas inspirações
Suas melodias inimagináveis
Use-me
Como o travesseiro pra seus sonhos
Como colchão pro seu cansaço
Como os caminhos pro seu viver
Deixe-me ser a alegria da tua manhã 
E a razão do seu anoitecer
Torna-me a roupa que te protege
A tua rota de fuga do mundo
Teu porto 
Teu farol
Ama-me
Como as flores do jardim
Como o gosto do primeiro beijo
Depois... depois me deixe partir
Como as aves migratórias
Como as pétalas que se lançam ao vento 
E eu prometo que volto
Naquele dia que você menos esperar
Para que você escreva suas novidades
Na minha pele cansada
Pra que você componha outras canções
Pra que você se deite sobre mim
E então, descansemos do mundo da vida da falta 
Da carência do medo da ausência do amor.
(Waleska Zibetti, in "Intimidade")

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Num Domingo... Um Vagabundo



“Dream On” era a trilha sonora daquele domingo. Não importa se manhã ou tarde. Acho que nem era domingo. Todos os dias eram iguais para ele. E todos parecidos com domingo. De certo mesmo só o som do Aerosmith tocando o mais alto que dava dentro daquele apartamento mínimo de subúrbio do Rio de Janeiro. 

Ele estava sentado em sua velha mesa de dois lugares olhando os carros que passavam pelo viaduto. O sol ofuscava seu olhar fazendo da cena um borrão em movimento. Ele bebia café frio de ontem de manhã. Estava falido, mas ainda tinha três cigarros e um pouco de conhaque no fundo de um armário. Marginalizado como todos os vagabundos que moravam no seu bairro, na sua rua, no seu prédio, no seu andar. A barba por fazer e um livro de Maiakovski nas mãos.

A vida não faz sentido aos domingos. Deus se esquecera dos miseráveis que moravam no seu bairro. 

Um cachorro latiu a direita e uma prostituta xingando seu cafetão a esquerda. Outro cigarro apagado no parapeito da janela. Está fodido! Como todo mundo que caminhava em direção a igreja vizinha. Riu do próprio caos. Meteu o dedo no buraco da camiseta, mas queria mesmo era enfiar o dedo na garganta e vomitar toda aquela miséria que lhe embrulhava o estômago. 

Sempre fora um traste. Um retrato perfeito do pai. Nem Ela o suportou... Foi morar com a mãe no interior do mundo. Ele devia ter ido também ou tê-la feito ficar. Era mais digno quando a tinha ao seu lado. Mas ele era um merda sem disposição para lutar nem mesmo por amor. 

E agora só resta um cigarro e algumas centenas de segundos até que o domingo passe de vez. 

Abre a janela e senta-se com os pés para fora. Décimo primeiro andar de uma rua suja qualquer. Ninguém, como era de se imaginar, o percebe ali fumando seu último cigarro com sua camisa furada e um resto de conhaque barato. 

Quem choraria por ele? A loira do terceiro andar, com certeza. Feia, velha, gorda, fedia a fritura, mas, de vez em quando, gentilmente dava para ele em troca de algum serviço de manutenção. Será que alguém mais? 

Inclina o corpo mais para a frente. Chega a sentir o frio percorrer a espinha. Lança o resto do último cigarro para baixo como se quisesse pegar coragem de fazer o mesmo. O cigarro desce os andares e ele o perde de vista. Merda! Bebe, por fim, o último gole. Tudo é derradeiro nesse momento. Olha para a garrafa, tenta se despedir do viaduto, mas o sol não está mais lá. Olha para o apartamento pela última vez. É pequeno, escuro e estranho. Está no fio, no fundo, no fim. Abre os braços...

... A campainha toca...

Amigos chegando para beber. Domingo é assim: um dia imprevisível. 
(Waleska Zibetti, in "Num Domingo... Um Vagabundo")

terça-feira, 11 de agosto de 2015

A Normal Anormalidade das Coisas



Dera agora para manter-se silenciosa
numa postura de despedida
         macambúzia 
         retraída
Olha o mar tão distraída
que nem parece gente
é gota desprendida
Espera o verão despontar 
          no horizonte
          a linha onde
o vento e o arrependimento
lhe mexe a sais e as ideias
As ondas no vai e vem
e ela perde a conta
       dos erros
       dos medos
       que a vida tem
Deu agora para se manter distante
      fala em Deus
      e visita o diabo
Complexo entre o santo e maldito
       paradoxa
       ambígua 
       poliforme
Perdida no canto de si
       está triste
       está só 
       está louca
Diante do mar tão saudosa
        De quem?
        De que?
        Por que?
Por certo de vida
do caos dela
de dentro dela
onde ela não encaixa 
e se debate
na pedra do mar
onde ela se distancia 
na paisagem
como gota solta
num abraço de adeus.
(Waleska Zibetti, in "A Normal Anormalidade das Coisas")

sábado, 8 de agosto de 2015

Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”, 1983



1-  Caprichos & Relaxos

“Em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós
(Paulo Leminski, in “contranarciso”)

Somos múltiplos e únicos. Confusos universos que se fragmentam e se agrupam. Não tenho nem começo nem fim. Nem sou eu sozinha e nem sou nós. O ser que existe é tudo.

“eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro do meu centro
este poema me olha”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)
Os olhos são os principais reveladores da essência. Queres-me conhecer? Arrisque-se! Me olhe.
“Quem nasce com coração?
Coração tem que ser feito.
Já tenho uma porção
Me infernando o peito.”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

“Coração” ganha forma e textura de acordo com o meio. De carinho ou de desagrado o “coração” vira pedra, vira pétala, vira aço, vira flor.

“sou um rio de palavras”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

Todo poeta corre  em rio pela. Rio de letra. Nem sempre bem entendidas. Rio de emoções nem sempre respeitadas. Todo poeta é um rio que corre de amor na terra de gente que se mata.

“ali
bem ali
dentro de alice
só alice
com alice
ali se parece”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

Respeitem, senhores, a individualidade de cada um e o mundo se tornará mais calmo, mais manso e gostoso de viver.

“nada tão comum
que  não possa chamá-lo
meu

nada tão meu
que não possa dizê-lo
nosso

nada tão mole
que não possa dizê-lo
osso

nada tão duro
que não possa dizer
posso”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

O que busco no amor é isso um “nosso” que é meu e teu. Como se um fosse o outro, mas não um só. Você é um eu com pedacinho meu. E eu um eu com pedacinho seu. Uma confusão que ninguém separa.

“Bom dia, poetas velhos.
me deixem na boca
o gosto de versos
mais fortes não farei.”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

A boa literatura me faz chorar até me perder do tempo. Me pego tantas vezes do nada citando Vinícius, Florbela, Clarice, Neruda, J.G. etc...Eles correm em mim sem que eu tome consciência. Tão meus...! E eu, tão deles!

“enxuga aí

vê se enxerga

essa lágrima
eu deixei cair

examina

examina bem

vê se não é
água da pedra
ouro de mina
essa gotadágua

minha
obra-prima”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

Respeitem as lágrimas ainda que não sejam argumentos, de certo são sentimentos.

“objeto
do meu mais desesperado desejo
não seja aquilo
por quem ando e não vejo

seja a estrela que me beija
oriente que me reja
azul amor beleza

faça qualquer coisa
mas pelo amor de deus
ou de nós dois
seja”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

Amar a distância dói. Amor não correspondido dói. Amor bem vivido dói. Amor mal acabado dói. Amar dói. Não amar dói mais ainda.

“tanto mim me pareça você”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

No máximo do amor a entrega é completa, mas desequilibrada. Sempre um ama mais. E esse é o que sofre. Coitadinho! No máximo do amor um “eu” fica suspenso em prol do outro, o que mais se doou o que mais se esqueceu. Não do outro, mas de si.

“quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta adolescência

vou largar da vida louca
e terminar minha livre-docência

vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

Apaixonei! Ainda bem que não chegarei aos setenta. E todos dirão quase que poeticamente “morreu na adolescência”.

“Vocês nunca vão saber
quanto dói uma saudade
quando perto vira longe
quanto longe fica perto”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

Por que se arrasta o fim de tudo? Se eu não existo mais nele e ele não mais existe em mim. Por que não dizer adeus, enquanto ainda é fácil? Se não me tens em seus olhos e tu já não estas mais nos meus. Só fica essa coisa que pergunta “Onde está o que já fomos?”. E o silêncio dolorido respondendo frio “Fomos... Mais não somos!”.

“elas quando vêm
elas quando vão
versos que nem
versos que não
nem quero fazer
se fazem por si
como se em vão”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

O poeta aborta sentimento em versos. Amputa dores em rimas. O poeta é realmente uma criatura divina. Que fala bonito daquilo que não há quem defina.

2-     Polonaises

“aqui

nesta pedra

alguém sentou
olhando o mar

o mar
não parou
pra ser olhando

foi mar
pra tudo quanto é lado”
(Paulo Leminski, in “Polonaises”)

Quantos olhares perdemos por não termos tempo de olhar.

“Um deus também é o vento
só se vê nos seus efeitos
árvores em pânico
bandeiras
água trêmula
navios a zarpar

me ensina
a sofrer sem ser visto
a gozar em silêncio
o meu próprio passar
nunca duas vezes
no mesmo lugar

a este adeus
que levanta a poeira dos caminhos
os levando a voar
consagro este suspiro

nele cresça
até virar vendaval”
(Paulo Leminski, in “Polonaises”)

Acho que de todos os elementos o vento será sempre o mais especial para mim.  Ele pode ir a todos os lugares onde eu nunca irei. Ele sabe de cheiros que nunca sentirei. Deve ser demais ser vento em lugares como Marrocos, por exemplo.

“tenho andado fraco

levanto a mão
é uma mão de macaco

tenho andado só
lembrando que sou pó

tenho andado tanto
diabo querendo ser santo

tenho andado cheio
o copo pelo meio

tenho andado sem pai

yo no creo em caminos
pero que los hay
                                 hay”
(Paulo Leminski, in “Polonaises”)

Tenho andado com essa mesma sensação de estar ao “meio” de si.

“todo bairro tem um louco
que o bairro trata bem
só falta mais um pouco
pra eu ser tratado também”
(Paulo Leminski, in “Polonaises”)

E viva a loucura boa de cada dia. Amém!

“me enterrem com meu coração
na beira do rio
onde o joelho ferido
tocou a pedra da paixão”.
(Paulo Leminski, in “Polonaises”)

Não me enterre em lugar algum. Não há se quer um pedaço desse chão que tenha me acolhido como meu. Sou do ar. Sou do “por aí”. Lancem-me ao vento, pelo mar e esqueçam, então, de mim.

“meu coração de polaco voltou
coração que meu avô
trouxe de longe pra mim
um coração esmagado
um coração de poeta”
(Paulo Leminski, in “Polonaises”)

Coração de poeta já nasce doente. Tenha pena dele, minha gente!

“lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça”
(Paulo Leminski, in “Polonaises”)

Lembre de mim como quem sentia a chuva como bênção do céu e a vida sempre a beira de um abismo.

3-     Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase

“ apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)

Que seja o para sempre muito mais que o agora. Que sejamos nós muito mais que a eternidade. E que nunca chegue o momento de sermos lembrança no viver do que ficou.

“coração
PRA CIMA
escrito embaixo
FRÁGIL”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)

Não cuidaram. Não entenderam o recado. Coração PRA BAIXO escrito em cima QUEBRADO.

“que tudo passe

passe a noite
passe a peste
passe o verão
passe o inverno
passe a guerra
e passe a paz

passe o que nasce
passe o que nem
passe o que faz
passe o que faz-se

que tudo passe
e passe muito bem”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)

Porque nada é mesmo feito para ficar. Nem eu, nem tu, nem ele. Nessa vida somos todos passarinhos.

“em la lucha de clases
todas lãs armas son buenas
piedras
noches
poemas”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)

Me atirem somente pedras poéticas!

“você para
a fim de ver
o que te espera

só uma nuvem
te separa
das estrelas”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)

A minha maior ambição é um dia poder voar. Depois me sentar na ponta de um sorriso para pescar versos no céu da boca de alguém que me ame.

“não discuto
com o destino

o que pintar
eu assino”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)

Se aceitarmos a ideia de destino, não tempo como discutir com ele. Tudo torna-se inevitável.

“confira

tudo que respira
conspira”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)

O ser humano é o animal do conflito. Dê-lhe a lua e ele lutará pelo sol. Infelizes bélicos!

“nascemos  em poemas diversos
destino quis que a gente se achasse
na mesma estrofe e na mesma classe
no mesmo verso e na mesma frase

rima à primeira vista nos vimos
trocamos nossos sinônimos
olhares não mais anônimos

nesta altura da leitura
nas mesmas pistas
mistas e minha a tua a nossa linha”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)

Poeta se apaixona por poema e dentro do universo  ele dura e morre poesia.

“Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em nada.”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)
Perdi as contas de quantos ex-amores há nos meus versos. Poeta ama demais. É pré-condição para existir. Mas não tenho raiva de nenhum. Os acho bonitinhos assim rimados. Eles é que me rasgam.

“parem
eu confesso
sou poeta

cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face

parem
eu confesso
sou poeta

só meu amor é de deus

eu sou o seu profeta”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)

Poeta é um marginal de si, da vida, do mundo. É o que chora e o que ri para que os outros tenham o indizível impresso na folha em branco.

“à noite
fantasmas das coisas não ditas
sombras das coisas não feitas
vem
pé ante pé
mexer em seus sonhos”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)



É na madrugada que os cães gritam e que nosso íntimo uiva. O medo do escuro. O medo da noite. O medo do mundo.
(Waleska Zibetti)