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terça-feira, 21 de abril de 2015

Lembranças Viventes


Vez por outra meus olhos passeiam pelo seu quarto e vejo minhas roupas cansadas do dia descansando ao chão...
 Elas parecem tão em paz mesmo amontoadas as pressas com o desespero de ir para onde estão... 
Mas como... 
Ei... 
Sou organizado... cada coisa no seu lugar. 
Foi assim que aprendi... 
Me indago elas estão desorganizadas?
 Não encontro respostas simples só sentimento que mesmo no caus da pressa em se despir elas e eu encontramos paz. 
No mesmo instante no calor do seu quarto você me aquecendo me indaga esta com calor? 
Quer que eu me afaste... 
Indignado digo este seu calor me aquece a alma.
Boba...
 
Até o próximo texto
Au Revoir

quinta-feira, 12 de março de 2015

A dor de sentir


Passam pessoas, rostos, vozes...
Sorrisos de criança, namorados de mãos dadas, amigos que gargalham...
Um casal de idosos que se cuidam.
Eu, um observador da vida e um questionador de sentimentos e em busca da verdade!
As pessoas não têm culpa por sentirem o que sentem, independente do que levou a isso ou ao quê isso vai levar. Nós sentimos e ponto.
Engraçado como as vezes o ciclo de sucessivos fracassos nos moldam.
Se me permitem um grito:

- PORQUE DÓI TANTO?

A dor de não saber;
A dor do querer;
Dor,
Dor,
É muita dor!

- PORQUE SENTIMOS POR ANTECIPAÇÃO?

Devaneios soltos 
Transmitidos em palavras...
Sinto demasiadamente muito
Sinto muito.
Sinto o silêncio, que sufoca, incomoda, agita.
Me tira o sossego, me traz a lembrança, junto com a agonia.
Cadê tudo?

Cadê você?


Até o próximo texto
Au Revoir

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Todas Iguais!





__ Alô!

__ Mãe?
__ Oi! Tudo bem? Lembrou que tem mãe, né? Ainda bem!
__ Tenho trabalhado muito. Aqui...
__ Quem trabalha não liga para as mães? Não sabia disso.
__ Não é isso, mãe. Não tenho tido tempo. 
__ Mas para os outros certamente você tem, né?
__ As vezes. Mãe, escuta.
__ Ainda confirma. A gente faz tudo por um filho e a coisa acaba assim. Deus é testemunha do meu esforço para te dar de tudo. 
__ Mãe... Eu sei disso tudo! Mas eu liguei...
__ Fala! Ligou por que? Ah, deixa eu te falar uma coisa antes que eu me esqueça. Estou ficando muito esquecida. É triste a velhice. 
__ Então, fala! 
__ O que?
__ O que ia falar. 
__ Eu? Esqueci! 
__ Então, agora me escuta, tá? O Junior está usando aquela pulseirinha que você deu quando ele nasceu. Ficou...
__ Gay? Você acha que ele vai ser gay? Ah, meu Deus! Não quero uma decepção dessa. 
__ Ficou bonitinha, mãe. E não gay. 
__ Mas não tem perigo de ladrão?
__ Mãe, se roubarem fazer o que? Tem que usar uma hora o que ganhou, né?
__ Eu morro de medo de assalto. Eu vejo na TV coisas horríveis. É pai matando filho, é pedofilia, é criança levando tiro, é droga. Meu Deus! No meu tempo não tinha nada disso. A gente usava ouro a todo tempo...
__ Vou mandar ele tirar, tá bom?
__ Por que? Compro as coisas para o menino e ele não vai usar? Deixa ele! Já está um rapaz. Tem que usar as coisas. 
__ Bom, mãe, eu liguei para falar isso e...
__ Lembrei o que eu dizer. Ele está de cabelo cortado e unha, também? Olha lá! Criança suja não dá. Olha direito. Ele é uma criança tem que ser acompanhado direito.
__ Você acabou de dizer que ele é um rapaz!
__ Quando?
__ Agora por causa da pulseira. 
__ Ah, a pulseira. Cuida para ele não virar gay. Fica de olho. E cuida com ladrão. 
__ Mãe, preciso ir. 
__ Já? Nem me falou de você. E como está as plantas? E a cachorra? O passarinho está cantando? Eu ando louca para ir para aí. Mas não posso agora. Acho que vou no mês que vem.
__ Mãe, tenho que trabalhar. A cachorra está ótima. Suas plantas, também. E eu idem. 
__ Idem? Idem não é bom. 
__ Claro que é bom!
__ Você está me escondendo algo. Sua pressão está bem. Você tem que se cuidar. Quem vai cuidar desse menino se você morrer? Eu já estou velha. Você não tem irmãos. Nem namorado. Não pode contar com o ex-marido, né? Se separou...
__ Mãe, eu não vou morrer. Eu só preciso trabalhar agora. E você não está tão velha assim. E o ex deve estar feliz na nova vida. Assim como eu.
__ Conheceu alguém? Nem me conta nada! Isso mesmo! Aposto que para as amigas você contou. Por isso que não tem tempo de me ligar. Nem conheço o sujeito, mas se tira seu tempo de me ligar também não quero conhecer.
__ Mãe, eu preciso ir. Fica bem e se cuida!
__ Eu me cuido. Dá um beijo no Junior. 
__ Bênção!
__ Deus a abençoe. Te faça uma boa filha.
__ Já me fez até boa mãe. Que dirá boa filha! Fica com Deus, mãe. 
__ Vá com Ele. 
__ Tchau!

Disca de novo o celular...


__ Junior?

__ Oi, mãe!
__ Oi? Está pensando o que? É bênção! Eu, heim? Não sou suas amiguinhas, não.
__ Está bem, mãe...
__ Está com a pulseira? Toma cuidado, viu filho... Blá...Blá... Blá...
(Waleska Zibetti)



terça-feira, 15 de julho de 2014

Pensando no Tempo (Uma Leitura Particular de "O Outro" - Rubem Fonseca)



“Quando chegava a hora do almoço,
eu havia trabalhado duramente.
Mas sempre tinha a impressão
de que não havia feito nada de útil”
(Rubem Fonseca, in “O Outro”)

Tenho escutado muito o “Desculpa-me, mas não deu tempo”. Não deu tempo! Tempo... O que as pessoas têm feito com seu tempo? Não há mais tempo nos jovens e isso me preocupa. Trabalho, faculdade, curso, agenda... E onde ficam os pássaros?

Devorados na ausência do tempo e nos sonhos de grandeza – quero carro viagem para Paris, cobertura - o jovem suicida-se na pilha de papéis e envelhece nos vazios internáuticos. Como é mesmo um olhar real?

Essa noite na TV um show dos Rolling Stones, no site o ícone avisa que é aniversário da Paulinha aquela amiga que mora em Volgogrado – deve ser bom conhecer alguém que mora em Volgogrado – e que eu conheci lá em... Onde mesmo? Só sei que a Paulinha é uma menina maneira que eu nunca soube o som da voz, mas imagino que seja linda.  Quantos quilômetros há daqui a Rússia mesmo?

“E, sempre, no fim do dia,
eu tinha a impressão
de que não havia feito tudo
o que precisava ser feito.
Corria contra o tempo” 
(Rubem Fonseca, in “O Outro”)

Eu sou dessas pessoas que correm contra o tempo. Na verdade eu estou sempre na contra mão. Contra o tempo, contra o mundo, contra mim... Eu gosto de estar no sentido contrário, de ir ao encontro, de estar em confronto.  E os pássaros estão no céu que hoje está meio cinza. Um dia chato de terça-feira. Povo vestido de preto e marrom. Inverno.

Devoro juízos e faço pensar. A loucura é o vinhos dos pensadores. Dos que não se importam do pé no chão desde que a cabeça resida segura na lua. Não tenho carro, vou a pé ou de ônibus, porque gosto de olhar os olhos dos para descobrir novos tons de azul e verde. Tenho pilhas de papéis poéticos em minha bolsa e encontro velhos amigos para falarmos da internet enquanto ouvimos rock and roll.

Essa noite não tem luar, me canta Renato Russo, na festa da Silvinha que mora ali em Costa Azul e que eu conheci pela Glória que mora em Unamar – Não tem nada de diferente em Costa Azul ou Unamar, eu sei porque eu estive lá. E a Silvinha é uma menina maneira e a Glória também. E as duas moram a dez minutos daqui.

“Um dia
comecei a sentir
uma forte taquicardia”
(Rubem Fonseca, in “O Outro”)

O jovem está envelhecendo rapidamente. E leva tudo muito a sério. Perde a piada, o humor, o amor... Dirige pela madrugada para chegar Volgogrado um dia e ver que a Paulinha suicidou-se porque não suportou passar o próprio aniversário sozinha entre as dezenas de e-mails que recebeu.  

E então, num café em Paris ele vai perceber que o tempo passou. E que não há números na sua agenda. Ele conhece filosofia, música, política, cinema. É cute, cool, grunge... Mas não sabe nada do rosto do espelho?

“Não é simples parar de repente de trabalhar.
Eu me senti perdido, sem saber o que fazer” 
(Rubem Fonseca, in “O Outro”)


Eu estou envelhecendo e meu corpo as vezes não acompanhar a vontade dos pensamentos. Eu morro de rir quando esqueço alguma data ou nome. Minhas mãos perderam um pouco da tez. Sou sedentária. Não me ajudo muito nisso. Mas ainda ouço rock e leio bons livros na beira da praia ou deitada no sofá. Conheço tanto de mim que  me temo. E conheço do mundo o suficiente para respeitá-lo. Sei das calçadas, das vielas, das prostitutas, dos vinhos, da loucura, do medo, da solidão, da força, do vento, da chuva, do sol, da terra, do negro, da ruiva, da porta, da fresta, da janela, dos meninos, das meninas, da boca, da coxa, da velha, do executivo, do monge, de sonhos, do tempo...

"não faça isso, doutor,
só tenho o senhor no mundo"



Estamos imersos num mundo onde a responsabilidade nos rouba o tempo e o jovem acelera o tempo na tentativa de um futuro melhor e eu do futuro aceno tire o pé do acelerador para se dar o tempo de ver os pássaros no céu que de repente agora ficou azul. 

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Um Ponto Além



E bati, e bati outra vez, e tornei a bater,
e continuei batendo sem me importar
que as pessoas na rua parassem para olhar,
eu quis chamá-lo, mas tinha esquecido seu nome...
(Caio Fernando Abreu, in “Além do Ponto”)


Estamos sempre indo ao encontro de alguém ou de algo. Uma busca incessante pelo que nos completa e amplia como lemos nos livros, como nos contam pelas estradas, como nos falam as músicas, como vemos nos filmes. Somos seres lacunares. Almas despedaçadas. Qual parte lhe falta?

Alguns de nós são corajosos se lançam no encontro sem proteção, sem medo. Ou será a inocência que nos leva a caminhar assim tão impulsivamente por aí permitindo que o outro entre em nossas vidas e depois se vá de nós nos mutilando mais uma vez? A maior parte de nós são cicatrizes. Qual a cicatriz que mais lhe dói?

Quando realmente se quer algo não medimos esforços para conquistar. A desculpa brota de algum tipo de desinteresse. E na multidão os solitários são os olhos de caçadores ávidos atrás de uma nova presa. E na vida todos são presas e caçadores. Qual papel você está desempenhando hoje?

Contudo, é importante que sigamos... Olhe para fora de si! Há um mundo muito maior que esse que você vê. Até onde podemos ir para atingir o que idealizamos? Mas aproveite as curvas do caminho para experimentar-se. Nos atalhos moram os perigos que fazem a diferença. O proibido é o vinho dos sábios. Somos criaturas imorais. Qual pecado você esconde?

Estamos sempre a procura. Não importa o quanto tenhamos encontrado. A vida é ir e ir e ir... A limitação do ponto é o desconhecimento do poder do espírito. Estamos em busca do inatingível. E na impossibilidade alguns se desesperam, se angustiam e se debatem. Somos criaturas conflitantes. Onde mora a sua dualidade?

Colecionamos rosto que esquecemos e que nos esqueceram. Imaginamos onde estão e o que fazem nos dias de chuva quando a rotina e o tédio são a corda para enforcamento da razão. Na solidão de uma casa alguém se questiona como teria sido. No cansaço do casamento eles se perguntam o porquê. O menino pensa no homem. A mulher pensa no menino. Somos criaturas curiosas. Qual parte de você, você ainda desconhece?

Mas é preciso ir além. Percorrer as vias do medo. Ultrapassar o limite da dúvida. É preciso não parar no porto. É importante que se lance para o horizonte. É fundamental que não desista. Apesar da pedra, do ponto, da porta... Somos criaturas errantes. Qual caminho você tomará hoje?

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Os Dois Lados da Solidão




Pois é, Gabizinha! Há dois tipos de solidão: aquela que queremos porque é necessário um reencontro conosco, uma busca por respostas interiores, resoluções de conflitos particulares; e outra que provocamos quando afastamos de nós quem nos ama, quando nos isolamos nas imbecilidades do mundo, quando nos esquecemos de olhar para o mundo com olhos humanos.

Acredito que no primeiro tipo de solidão, Deus nos acolha com seus braços seguros e nos sussurre palavras de fé, esperança e força. Acredito que anjos façam roda em volta de nós e nos cantem deliciosas canções enoquianas para nos trazer paz e nos inspirar a tal luz interior. Creio seriamente que é nesse momento que todos nós voltamos a um ventre mágico para renascermos mais consciente de nossa importância no plano astral. Essa solidão é abençoada e, portanto benigna.

A segunda solidão é dolorida e doentia. Ela começa por adoecer a alma. Esgotando a luz de nossas auras. Afastando-nos dos seres iluminados que nos protegem. Quando isso acontece, eu acredito que os espíritos inferiores se aproximam e aos poucos vão dominando o nosso redor. Eles atingem as nossas vidas inicialmente com coisas bobas como mau humor sem razão, depois em explosões de choro, até que se transforme em males físicos como gastrite ou, em casos mais graves, até o câncer. Destruído o corpo, resta a mente. Eu vejo a loucura como total dominação desses espíritos ruins. Eles nos cobrem com sua escuridão e começa a ficar difícil ver o caminho de volta a luz, a fé a esperança, a uma vida saudável na presença dos protetores, dos mentores espirituais. 

Contudo, Gabizinha, Deus não desiste de nós. E haverá sempre alguém que nos ama. Alguém emanando orações. Para o Ivan foi o empregado. Para você tem seus amigos – estou no meio deles. Para mim tem meus filhos – e você é um deles.

É claro que a morte chegará para todos. Porém, para uns será só uma transição, um momento de libertação desse casulo corpóreo, um momento de reencontro com os que já se foram. Para outros será um momento de aprisionamento porque ou não entenderão que se foram ou simplesmente não aceitarão a ida. De tudo isso, o importante é que não nos esqueçamos de viver, de sermos felizes e de fazermos felizes quem está ao nosso lado.

Fé e luz para ti, anjinho ranzinza! 


quarta-feira, 28 de maio de 2014

Dona Clô



Nunca segui os conselhos de minha mãe que me dizia: “não converse com estranhos”. Gosto de conhecer pessoas! Em todo lugar que vou, sempre puxo assunto com alguém estranho. Em especial as pessoas mais simples: pescadores, idosos em banco de praça, vadios, prostitutas, bêbados... Essas pessoas são como eu de certa forma. São viscerais e com histórias que mudam as nossas histórias. Numa dessas conversas conheci a dona Clô.

Ela era uma senhora muito bonita apesar da idade, e elegantemente vestida que encontrei por acaso na fila do banco. Cabelos bem cuidados e pintados, unhas muito bem feitas e perfumada. Falamos sobre o tempo lá fora. Uma chuva assolava a cidade há dias e pessoas já perdiam casas e todas as suas coisas. Dona Clô contava-me do seu medo de chuva. “Tenho trauma!” - resumiu ela e em seu trauma se calou. Fiquei imaginando qual seria o trauma, mas não quis perguntar. Só sorri como se sorrindo eu ficasse cúmplice de seu trauma. Então, ela pagou suas contas e se foi carregando seu trauma pelas calçadas molhadas. E eu, também.

Passado uns dias, eu caminhava de manhã pela rua e reparei em uma pessoa que me pareceu conhecida. Que surpresa! Era dona Clô. Apressei o passo – com sorte ela me reconheceria. Ela estava tão simples naquele dia. Tão diferente da senhora que conheci no banco: usava calça legging, camiseta, boné e tênis. Contudo, sustentava ainda seu ar elegante e um olhar firme que os óculos de sol não escondiam.

__ Bom dia! – disse com um sorriso.

Dona Clô, olhou-me um pouco e sorriu. E no seu sorriso havia acolhimento.

__ Bom dia, mocinha do banco. Como vai?

E começamos a conversar novamente. Hoje sobre o sol escaldante que levava risos à praia. Paramos em um quiosque fomos tomar uma água de coco. E então, conheci mais de uma dona Clô sem traumas. Rimos e combinamos de caminhar por ali na manhã seguinte.

E por algum tempo essa foi a nossa rotina: encontrarmo-nos no calçadão para uma conversa a toa enquanto caminhávamos. Dona Clô contava coisas do seu tempo e dizia sempre que o tempo passado era o melhor de viver. Afirmava que um dia eu entenderia. Um dia em que ela não estaria mais ali, mas que eu me lembraria das palavras dela e diria “bem que aquela matusquela me avisou!” e demos gargalhadas do “matusquela” que ela complementou com “palavra de velho”.

Um dia dona Clô convidou-me para ir a sua casa jogar buraco e eu fui. Conheci lá outras senhorinhas sorridentes como dona Clô. E logo fui adotada como a netinha da turma. Elas eram muito animadas e simpáticas. Cada uma delas com seus traumas, com suas histórias e seus mistérios, mas todas tão cheia de vida e esperança que me deixavam como elas, vibrante.

Passávamos a tarde a jogar buraco, bingo, 21 a valer bombons, dançávamos, cantávamos ao som do piano de dona Clô, o violão de dona Cláudia e a voz vacilante pela idade de dona Leda – a mais velha do grupo. Elas me diziam que eu saía dali cheirando a naftalina e formol. Mal sabiam elas que o cheiro delas era tão mais vivo que o meu em alguns dias. No fim da tarde eu ia embora renovada, remoçada na experiência delas.

Um dia dona Clô pediu que eu ficasse um pouco mais para tomarmos um cálice de vinho do porto. E eu fiquei.

Depois que todas elas se foram, sentamos na varanda com nossos vinhos. Dona Clô então segurou a minha mão e disse que naquele dia ela estava se sentindo muito só. Que o passado estava doendo dentro dela. Um passado de plumas e brilhos, mas que agora pairava cinza de tristeza dentro dela. Eu só apertei a mão dela, não sabia o que dizer. De repente, toda a idade de dona Clô pesava-lhe a face e eu me dei conta de que ela já tinha mais de setenta.

Ela apanhou um baú antigo cheio de fotos amareladas e algumas até desfocadas, cartas, cartões, pétalas de flores secas, papéis de bala enroladinhos, cachinho de cabelo, uma pluma que devia ter sido azul em uma época qualquer, mas que agora era tão velha quanto dona Clô... Disse-me, então, depois de um silêncio pesado: “Veja o meu passado! Ele cabe todo em uma caixinha.” E sorriu.

Na caixinha uma dona Clô sem rugas e vestida de vedete com poses, me sorria. Olhei cuidadosamente cada uma das centenas de fotos e ouvi algumas das histórias que elas continham. Histórias alegres e tristes. Reconheci ali outros sorrisos joviais: o de dona Leda e de dona Cláudia. “Mais que amigas... minhas irmãs.” – dizia dona Clô com olhos cheios de lágrimas e mãos trêmulas.

Dona Clô me contou que ela era vedete e dançava em um antigo cassino. Foi lá que ela conheceu certo militar de alta patente que lhe deu tudo o eu tinha, menos um filho. Ele não queria e nem podia arriscar a ter um filho fora do casamento porque seria um escândalo e ela respeitou. Só que, segundo ela, ela não imaginava que na velhice ela sentiria tanta falta de um filho. Ela disse que quando se é jovem, às vezes, esquecemos que vamos envelhecer e que na velhice a solidão é contada em segundos, pois o tempo fica caduco como os velhos. Quanto mais dona Clô falava mais eu bebia as suas palavras com o vinho do porto. Foi uma tarde incrível! Mágica!

Minha amizade com dona Clô era assim, mágica. Era cercada de coisas glamorosas e de sentimentos que se revelavam como a lua que víamos brotar do céu enquanto bebíamos vinho do porto na varanda. Eram tardes com tardes dentro. Tardes de um passado lindo e cheio de vida de uma pessoa que exalava vida em tudo que fazia e dizia.

Hoje, eu vi dona Clô ser sepultada sobre o choro contido de dona Leda e dona Cláudia. Elas, depois que todos se foram, ficaram ali cantando a canção que elas diziam ser o hino da amizade eterna entre elas. E eu as abracei com muito carinho para engrossar o canto:

“... Amigos para sempre é o que nós iremos ser
Na primavera ou em qualquer das estações
Nas horas tristes nos momentos de prazer
amigos para sempre...”

Dona Clô se foi. Tenho certeza que virou estrela. Uma estrela brilhante e cheia de vida que vai iluminar as minhas noites ao lado de dona Leda e dona Cláudia. E que um dia formará uma nova constelação quando essas duas estrelinhas se forem também. E nem assim ficarei triste. Elas que me guiarão para sempre nas palavras que me disseram, em canções que me ensinaram, em meu coração onde elas serão eternas vedetes sorridentes.

Amigos são para sempre!

(Waleska Zibetti)

terça-feira, 27 de maio de 2014

Vida de Adulto

                                       

“Só se é jovem uma vez...”, já ouviu isso, Gabizinha? Pois, então, saiba que isso é muito verdadeiro. A juventude é um perfume bom que vem em vidro pequeno. E a gente nem se dá conta do quanto é bom até que ele não exale mais do nosso próprio corpo. Contudo, pequena, posso lhe afirmar que o cheirinho especial da vida adulta é do seu modo muito atraente. Tão atraente que por vezes, anula o tal perfume jovial para destacar-se entre os outros. O que quero que você entenda é que cada fase da vida é uma com suas virtudes e seus defeitos.

Agora lá vai o puxão de orelha. Segura aí! Você não está engrenando na leitura porque encasquetou de ser Ivan que nada tem de Gabi. Você é dessas, sabia? Desfaz o bico! Estou te olhando. Senta aí e cale a boca.

Todos nós estamos morrendo. A cada segundo a vida nos rouba um suspiro de vida. Mas não é por isso que vamos chafundar no canto do mundo questionando a que horas será a partida. Você Gabi – Você também leitor! – está VIVA. Então, levanta o buzanfão daí e vá viver! Viver para fora de si. Tira o olho do umbigo e olhe o sol, a lua, a chuva... a vida!

A morte só seduz porque usa vestido longo preto elegantíssimo. Eu tenho certeza que a morte veste Gucci e calça Louise Vuitton. O que seduz na morte é a ideia de um beijo que abre o portal para o desconhecido, o inimaginável, o próximo passo... Somos criaturas curiosas e o slogan “O que vem depois?” vendido pelas crenças de uma existência post mortem faz os lobos jurarem-se de cordeiros no fim da vida na esperança vã de uma “salvação”.

Cansaço faz parte do viver. Tem hora que tudo fica igual. Fica cinza. Fica um saco. Mas sabe o que se tem que fazer? Mudar! Já viu o filme “Curtindo a vida a doidado”? Aquele filme é a chave do viver bem. Aí você me dirá “Fácil dizer, Wal!”. Pois vou lhe confessar que há dias que digo a todos que saí e tranco tudo, desligo o celular e fico quietinha comigo me curtindo o dia inteiro de camiseta e calcinha, comendo porcaria, sem pentear cabelo, sem sapatos... Como já teve dia de eu sair para trabalhar linda no salto e simplesmente descer no meio do caminho e passar o dia olhando loja, andando a toa, curtindo um dia diferente... Descontaram meu dia, mas e daí? Foda-se! Naquele dia eu precisava ser livre!!!

Está aí! O que falta para vocês é o “foda-se” ligado. Essa teclazinha embutida em todos nós, mas que raramente conseguimos acionar porque temos inconscientemente uma origem masoquista. Deixamos as coisas nos atingirem, permitimos que o mundo nos escravize. Não estou aqui apregoando que devamos viver numa realidade cômoda. O que estou dizendo é que de nada também nos adianta tentar atingir coisas que estão muito além do alcance se isso custar nossa saúde, humor, felicidade... Vale a pena lutar tanto pelo “ter” se o fim disso for igual ao de Ivan? Velho, solitário, frustrado, mal-amado... um estorvo. Não teria sido melhor se ele tivesse plantado alguns sorrisos em seu caminho? Alguns abraços sinceros? Se tivesse se entregado de corpo e alma a sua família de vez em quando?

A vida adulta só é chata para quem foi criança chata, adolescente chato e o pior é que esse chato vai se tornar um velhinho chato também. Eu fui uma criança feliz. O pouco que vivi com meu pai, ele aproveitou para semear em mim jardins inteiros de esperança, ilusões, sonhos... E era lá, que na ausência dele, eu me escondia para continuar a conviver com a gente ruim que me cercava sem me permitir ser contaminada por eles. Hoje sou adulta, posso ou não conviver com essa gente, eu escolho. No caso do inevitável, quando o social me obriga estar perto deles, eu me refugio nos mesmos canteiros para não perder o contato com minha luz interior.

Se eles me fazem chorar? Fazem sim! Magoam-me sim! Machucam-me sim! Mas não conseguem me perfurar tanto a ponto de eu dizer que a vida é ruim, que ser adulto é ruim. Porque eles optaram a viver nesse mundo adulto pesado e escuro. Eu não. Eles optaram a se envenenar na ambição, no preconceito, na frivolidade. Eu não. Eles me vampirizam sim. Mas ainda há em mim luz suficiente para me curar deles e desse mundo adulto chato que você diz aí. Sinto muito, Gabi. Sei que você vai ficar triste com o que vou dizer: ser adulto só é chato para quem não soube crescer.

Contudo, ao som de Pitty lhe digo: “Guarde os pulsos pro final... Exercita a consciência...”. Você ainda é jovem. Você ainda tem tanto para fazer. Você só precisa querer. Mude! Liberte-se! Não tenha medo dos sofrimentos que fatalmente você passará. Não se pode fazer uma revolução com luvas de seda, já nos disse tão sabiamente Stalin. Examine-se. Enxergue-se árvore e pode seus galhos ruins para que cresça outros fortes que lhe renderão bons frutos. Depois... Depois... Depois será como tem que ser. Não é isso que chamam de destino. Então, deixe o destino tomar o seu rumo.

Bom, vou nessa de Titãs... “Devia ter arriscado mais e até errado mais, ter feito o que eu queria fazer... O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído...”.


Até!!!


domingo, 25 de maio de 2014

O Embarque...

                                              

“E quanto mais longe da infância,
quanto mais perto do presente,
tanto mais insignificantes
e duvidosas eram as alegrias”
(Liev Tolstoi, in “A Morte de Ivan Ilitch”)

A cena se abre com nós dois sentados no fundo de nossas consciências. Somente você, eu e as nossas lembranças que sempre insistimos em manter presas num suposto esquecimento. Lá onde repousam nossos sonhos frustrados e nossos medos nos recebem com seus sorrisos amarelados e podres. É de lá, desse mesmo calabouço psicológico que vieram os fantasmas que atormentaram Ivan Ilitch em seus últimos dias. 

O velho moribundo estava condenado a enfrentar o pior inimigo do homem: a visão do próprio passado. Talvez fosse melhor a loucura, a perda total de contato com qualquer coisa que um dia foi real; a encarar as farsas em que viveu. Um homem vazio quando longe da toga que dava prestígio, uma criatura medíocre longe do título que lhe poder. Um velho estorvo condenado no fim de tudo.

"O que mais atormentava Ivan Ilitch era que ninguém tivesse pena dele como ele queria que tivessem..."
(Liev Tolstoi, in “A Morte de Ivan Ilitch”)

E o velho grita... Resmunga... Reclama... Contesta... Ensandece na dor. Mas qual dor era mais cruel? A física ou a da alma? Quantas vezes o quarto onde perecia, Ivan não tentou abafar no grito a decepção de descobrir-se um não-amado, um não-desejado, um não-querido?

Ah, amigo, acredite não há pior inferno que nossas próprias dúvidas, nossos próprios erros, nossas próprias culpas nos acordando no meio da madrugada para nos fazer contorcer em doloridos pensamentos. Os arrependimentos são os chicotes que a memória usa para nos açoitar no peito. Somos escravos, amigo! E o passado é o nosso capataz voraz.

Ivan achava que merecia mais daqueles com quem conviveu. E não somos todos assim, meu amigo? Não estamos sempre esperando que os outros vejam nossa infinita bondade, solicitude, altruísmo... Criaturas impecáveis, inteligentes, elegantes, perfeitas... Temos que ter o melhor desses que têm o privilégio de estar ao nosso lado. Não é assim que pensamos? No fundo somos todos criaturas mesquinhas e egoístas. Temos em nosso íntimo pedacinhos de Ivan que fervilha vez ou outra.

“Chorou pelo seu desamparo, pela sua horrível solidão, pela crueldade dos homens, pela crueldade de Deus, pela ausência de Deus."
(Liev Tolstoi, in “A Morte de Ivan Ilitch”)

Mas e no fim?  E quando formos nós no leito? Quem terá pena de nós? Quem não se queixará por vir tão longe para as visitas? Quem terá lembranças boas de nós ao redor da nossa urna? Será que Deus se apiedará e reconhecerá o que há de bom em nós? Deu medo? Não tenha! Mude!!! Declare morte a Ivan! Morte aos Ivans! Morte a tudo que nos adoece!

Tome coragem de fazer mudança. Olhe-se no espelho e busque seus monstros. Cace-os, aprisione-os, vença-os e reescreva suas rotas, seus objetivos, seus modos. Liberte-se dos vícios de ser melhor para aceitar a possibilidade de ser eterno aprendiz. Esvazie-se da soberba do “eu sei” para preencher-se da doce necessidade da busca.  É esse o caminho: observar, absorver, aprender, compartilhar... Plante mais amor nos seus dias. Humanize-se. O mundo não precisa de mais sábios fechados em seus conceitos e certezas. O mundo precisa de humildes humanos que ensinam.

E a cena vai se fechando. Vou deixar você aí para pensar. Sozinho como Ivan. Ele estava doente e sabia que iria morrer. Não é o seu caso. Ele nada podia fazer para mudar seu destino. Você pode. A grande pergunta é: Você quer?

Até breve!

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Na Estação...



“__ Meus senhores, morreu Ivan Ilitch!”

(Liev Tostói, in “A Morte de Ivan Ilitch")


E depois do anúncio do óbito, oitenta e cinco páginas de reflexão sobre a maior das certezas nos leva a questionamentos profundos sobre a divina miséria humana.

Ivan Ilitch, irrefutável juiz nos últimos dias de vida analisou-se, questionou-se e deu por si, tarde demais, que sua vida fora um grande teatro de conveniência; uma vida de falsidades adequadas a sua necessidade de prestígios fúteis. Quadro triste, não é?

Conheço centena de Ivans que caminham por aí indiferentes aos reais valores do bem viver, enquanto esnobam seu dinheiro e poder entre os menos favorecidos. Ivans que pagam pelo sorriso, pela mulher, pelo respeito... Quando se fala na morte a grande maioria se acovarda, se encolhe, se benze... Por que será? Que tanto medo causa essa viagem nos tão corajosos Ivans que circulam por aí? Acho que a consciência de um possível julgamento divino incomoda os nossos Ivans do cotidiano. “Será que terei direito ao tal Paraíso?”, intimamente eles se perguntam nas madrugadas onde podem ocultar seus rostos assustados na escuridão.

Ivan Ilitch acamado por uma doença pensou e repensou tudo que preconizou uma vida inteira. De que valeu? Não foi querido entre os amigos e nem entre a família. Sua mulher achava um capricho a sua doença e a filha o chamava de estorvo. E nenhum de seus médicos o enxergaram como homem a ser cuidado, e sim como uma doença a ser extirpada. Então, lembrou-se dele mesmo que nunca viu o homem e seus porquês antes julgar e sim o problema que deveria eliminar. “Se eu pudesse voltar no tempo...”, algo me diz que foi isso que ele pensou. Você não pensaria assim? Não pensa assim?

A morte é o momento mais justo na linha da vida. O momento em que todos, Ivan ou não, embarcamos em um trem rumo ao desconhecido, a um possível julgamento divino, a imaginário conforto de um paraíso ou a condenação de um inferno. E o que fazer? Outra prece? Ave Maria? Ah, se tivesse como mudar o passado, não é? Ou adiar o futuro? Já desejou a imortalidade vampiresca? Dizem que é uma maldição ser imortal.

Estamos começando essa leitura. Estamos na estação a minutos do embarque. Ainda haverá mais questionamentos por certo. E será que chegaremos a alguma resposta? Bom, o que posso fazer, é convidá-lo a ler, a acompanhar o cortejo de Ivan Ilitch e a pensar sobre tudo isso conosco.


Até a próxima! 

quarta-feira, 14 de maio de 2014

O Menino Tempo



Ah, lá vai ele! Veja ali! Correndo louco sem se importará com o que acontecerá depois. E como é lindo vê-lo livre, independente, criança brincando solta por aí. Você sabe quem é ele? Ao menos imagina? Ele é conhecido como Tempo. O Tempo é uma criança que nem consegue educar para passar da maneira correta pela vida da gente. E tudo que podemos é tentar aprender com os amigos que ele traz com ele.

Quando se é criança, o Tempo nos traz a Curiosidade. Menina “mexedeira”. Vai dali para lá perguntando o porquê de tudo. Revirando e experimentando. Corre riscos o tempo todo porque tem memória curta. Só aprende com a repetição. Só aprende com a experiência. Não adianta dizer a ela simplesmente “não”, ela não está pronta para entender. Quer o risco porque não sabe o que é perder.

Quando se é adolescente, o Tempo nos visita de braços dados com a Ilusão. Ah, como é linda essa garota! Ela usa uma veste dourada de estampa floreada de sonhos e  é muito elegante e charmosa por  trás de suas máscaras. Não vamos culpá-la pelo hipnotismo que nos causa. Ela é meio mágica e adivinha nossas necessidades. E, sendo assim, tira de suas vestes alguns sonhos para pôr aos nossos pés. Mas ainda somos jovens para perceber as oportunidades, ainda idealizamos um mundo diferente daquele que nossos pais nos mostram; ainda não temos espinhos fortes para nos proteger somos somente botão cheio de vontade de se abrir e ser diferentes no meio de jardim de mesmice; ainda não diferenciamos as armadilhas da paixão do terno envolvimento do amor.  A Ilusão se diverte, então, com nosso desespero ao cair de volta no mundo real. Perversa essa menina! A maioria do que nos dá, ela nos tira quando se vai.

Mas o Tempo é bondoso. Depois que a Ilusão se vai, o Tempo cuida de nós, zela por nós. Vai dizendo baixinho que tudo vai passar. Vai soprando ensinamentos e nos modelando enquanto nos leva por aí em pequenos passeios com ele pelas ruas da Vida. E quando nos damos conta, não somos mais um botão. Somos rosa e temos perfumes que atraem e espinhos fortes que repelem.


Então, o Tempo chega com o Discernimento, a Maturidade, a Ponderação... As vezes, traz o Amor com ele. E o Carinho, também. Eu gosto mais do Carinho que do Amor. É que o Carinho gosta de se sentar conosco na varanda para conversar, repara no nosso olhar, sorri cativante, abraça sem pressa. Já o Amor é cego, coitado, chega esbarrando em tudo. É preciso que se cuide bem dele ou ele faz um estrago enorme por onde ele passa. É difícil quem conhece o Amor sem perder algo. Nem que seja um pouco de Juízo que tenha plantado em algum canto do jardim. Mas vou lhe dizer uma coisa que já aprendi há muito tempo: não adianta tentar detê-lo no portão. Ele pula o muro quando estamos distraídos e quando nos atentamos... PIMBA! Ele já entrou, já bagunçou tudo e só nos resta curtir sua estadia.


Sabe? O Tempo, apesar de menino, é muito sábio. Quem se dispõe a observá-lo e pensá-lo, aprende muito. Aprende-se que é preciso doar-se sem esperar doação em troca. Que amor-Éros é bom, mas o que muda tudo a nossa volta é o amor-ágape. Que o nosso tempo é Chronos, mas é no tempo divino, Kairós, que as coisas acontecem. Aprende, por exemplo, que a vida é feita de antíteses: perder e ganhar, esperar e prosseguir, sonhar e realizar, chorar e sorrir, amar e odiar, querer e conseguir... Chegar e partir.

Waleska Zibetti