sábado, 13 de setembro de 2014

A Borboleta e o Lobo do Mar



É uma da manhã e o telefone não tocou. Ou tocou e eu não ouvi? Ele sempre diz que não ouço nada e que vivo absorta em meu mundo de borboletas azuis. E eu me pergunto: é crime gostar de borboletas? Não sou eu que não ouço. É ele que insiste em falar algo demais quando o melhor momento é se calar. Então, eu me desprendo e vou voar com as borboletas. Se ele soubesse que nem sempre elas são azuis... 

 Ele não tem tempo para vê-las. Quase ninguém tem! Todos vivem presos aos seus compromissos e correrias que enfartam. As borboletas não acompanham os que correm. Elas precisam pousar aqui e ali de vez em quando. Tocar suave pétalas de flores campestres amarelas. Das minhas borboletas azuis e do amarelo das minhas flores selvagens é que vem o verde da minha esperança. Mas quase ninguém vê. 

 Aliás, ele também não vê a esperança em mais nada. Acho que ele não vê nada. Não tem tempo para ver. Ah, se ele conseguisse parar de falar e começasse a ouvir só um pouquinho as canções do vento! Acho que ele precisa dançar ao som do vento e começar a ver borboletas. Não ligo de emprestar as minhas até ele criar as dele. 

 E já são duas e não sei se o telefone tocou ou não. Tudo que sei é que estou aqui pensando, pensando, como faço as noites em que nem eu durmo e nem o telefone toca. 

Ele está lá em algum ponto desse mar. De repente, um pensamento triste me ocorre: não há borboletas no mar. Então é fácil se sentir sozinho por lá. Talvez eu devesse desenhar algumas bem coloridas e dar a ele na próxima vez que o vir. Devo desenhar também algumas flores. 

O mar é triste a noite. Tão escuro e envolto em mistérios. Talvez de tanto ficar no mar o coração dele esteja escuro também. Sei que há quem me dirá que o mar é magnífico. E eu concordo. Ele é! Mas é que imaginá-lo sem borboletas, o deixou tão triste. Lindo ainda assim. E as ondas lambem a areia. São Ondinas tentando sair dali. 

Mas sabe o que pensei agora? No mar há gotas que sonham em ser borboletas. E elas fogem dele para o céu e depois se lançam das nuvens em forma de chuva. E enquanto caem em queda livre, são borboletas de asas transparentes voando em direção as flores. São minutos de total liberdade antes de voltar para os braços do mar. Ai... Que vontade de ser gotas de chuva! 

Se ele me ouvisse agora me chamaria de louca. E me mandaria por os pés no chão e tirar a cabeça das nuvens. De vez em quando tenho pena dele; ele é tão raiz. Eu não quero ser raiz! Quero ver o sol refletido nas gotas-borboletas do meu jardim. Quero ver o mar se iluminando de manhã e as Ondinas cedendo espaço aos seus admiradores. E a canção solitária do mar ser tomada pouco a pouco por um coral de risos infantis. Ah, eu prefiro ser flor a ser raíz. Ele que me perdoe! 

E são quase três. Definitivamente o telefone não tocou. Vou dormir! Vou nos sonhos ser borboleta, vou voar até ele e tocar-lhe suavemente o ombro. Vou beijar-lhe com minhas antenas e soprar, num farfalhar de minhas asas, um pouco da minha esperança sobre ele. E que eu o faça sorrir! Quem sabe ele consiga novamente alguma ver esperança em mim? E quem sabe um pescador contará mais tarde a história de um amor bonito entre uma borboleta e um lobo do mar.
(Waleska Zibetti)

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Hello Stranger!

"Não me apetece viver histórias medíocres,
paixões não correspondidas e pessoas água com açúcar.
Só quero na minha vida gente que
transpire adrenalina de alguma forma."

(Gabriel García Marquez)






Talvez fiques surpreso com estas linhas seguintes, pois este não é um simples texto, mas, uma carta de amor diferente. Sem Remetente e sem destinatário, apenas, uma carta de amor. 
Naquela tarde de inverno, aquele era o último sorriso sincero em meses, talvez em muito tempo... Ali parada olhando para você a espera de um caminho a seguir, os ouvidos tentando escutar o que aquelas palavras traduziam em meu coração. Sem mais barulhos, sem multidões, sem chuva, sem sol, sem distâncias, sem férias. Somente nós e a música... Como diriam os franceses enfáticos e gestualmente falando "La musique c'est très fantastique!!!" a música tem esse poder mágico de transpor a barreira das palavras que precisam ser ditas. Treme, disfarça, nega, se entrega e não se entrega. Eu ainda não acredito, digo que não é verdade e tento disfarçar, ando e desando negando o que minha alma tenta dizer...

- Como posso ter me rendido  assim?

Há muito mais sentimentos embutidos do que simplesmente declarações. Muita gente diz que o tempo é inimigo do amor, que as relações se desgastam com o passar dos meses e anos. Mas seria insano argumentar que esse tipo de pensamento pode cair por terra quando reciprocamente alimentamos nossos sentimentos com a lenha certa para que o fogo continue a queimar?
Pois é caro estranho...
Nem todos pensam assim e por não semearmos tão bem nossos sentimentos é que o mundo carece de tanto amor e hoje me encontro exatamente na bifurcação da dúvida. Dúvida de quais caminhos seguir.
Caminhos?
Destino?
Ah Estranho, há dias em que tudo é tão nebuloso, sombrio que chego a pensar que o amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas.  Comeu os minutos de adiantamento do meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu a futura grande dançarina, o futuro grande poeta.  Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala. O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte. Sei que tenho culpa Estranho, me acovardei várias vezes, esperei aquela luz tão pequena se ampliar na minha frente, mas tive medo de ir adiante então retornei ao caminho mais fácil, mesmo sabendo que não era feliz por inteiro, ainda faltava o essencial...
Ah estranho! Sabe o quanto foi difícil pra mim muitas vezes desejar por fim em tudo e saber que é totalmente alucinante e sem saída? Veja só, eu ainda estou viva e veja só como eu estou… Parece fácil estar transcrevendo em mal traçadas linhas estranho, mas não é. A cada emoção sentida uma lágrima rola do meu rosto.
Mas parece que hoje vejo uma pequena chama, linda e coberta por algo tão vistoso de sentimentos, é mesmo para mim? É assim que me encontro, desacreditada e perdida. Engraçado, mas, será que ele perceberá Caro Estranho, que quando me acorda, tem a dose exata para me despertar para o dia, e mesmo sem dormir ao meu lado, tem a dose certa para trazer meu sono em doses pequenas, exatas, incessantes, que de longe não pensa em futuro, mas é a dose certa para fazer bonito meu presente?

Será que é certo acreditar ou devo mais uma vez recolher-me a apatia e a covardia de seguir uma vida traçada ou desejada por outros? Que sinais devem ter para seguir adiante? Estranho, sentir-se triste é pecado? É feio? Ter certeza e me calar é Crime?
Hoje se eu pudesse diria tantas coisas, mas só queria que ele sentisse que é a melhor de todas as sensações que eu já experimentei na vida. Independente de que ele fique ou se vá para bem longe... Não consigo mais escrever Caro Estranho, cada mal traçada linha e cada palavra que brota vêm com esperanças desconfiadas e incertezas. Espero que entenda tudo que tenho a dizer, você me pergunta se eu tenho esperança ainda que mínima? Se olhar em meus olhos agora o que você diria?
Adeus.

sábado, 6 de setembro de 2014

Onde eu estava que me perdi?

"Not really sure how to feel about it
Something in the way you move
Makes me feel like I can't live without you
It takes me all the way
I want you to stay"


Trad.: "Não tenho muita certeza de como me sentir quanto a isso
Algo no seu jeito de se mexer
Faz com que eu acredite não ser possível viver sem você
Isso me leva do começo ao fim
Quero que você fique"

(Stay feat. Mikky Ekko - Rihanna)

Ah o "Stalkcídio" esse que é o senhor mal daqueles que escondem uma paixão, um amor, uma vontade idealizada em outro ser!
Agora vamos falar desse sentimento que você procura esconder a sete chaves mas que não é segredo pra quem percebe o brilho dos seus olhos. 
A-ha, estás enamorada? Não! É mais uma coisa conhecida como Amor Platônico!
Sim, sim e talvez nesse minuto você se pergunte onde estava aquela garota que gostava de chorar, talvez ela não gostasse de chorar ela gostasse de você!
É interessante que as pessoas conhecem tão bem o caos e o caso a ponto de fornecerem n's conselhos, mas, é porque querendo ou não todo mundo já passou por isso algum momento da vida! E creia vocês que é um sentimento saudável e bom de ser vivido  (claro que com doses homeopáticas) porque o excesso disso é o medo e a insegurança do "E Se" e "Talvez".
Lendo um pouco sobre o assunto me deparei com uma frase num texto bem interessante: "Fazia tempo que eu me via pensando nele. Como seria estar a seu lado, conviver com ele, saber-lhe o cotidiano. Claro, era tudo exercício dos meus quereres, pois a gente era impossível, ele era inalcançável. Imagina." (Sergio Freire)

Não temos como fugir daquilo que está dentro da gente mesmo não é mesmo? Então só nos restam dois focos: Ou sai da moita ou Esquece (Se é que isso é possível, ah coração desconexo)! Sentimentos são casas para as pessoas fazerem suas moradas, entretanto,  sentimento é cativar e cultivar todas possibilidades! 

Então deixe-o saber! Caso ele perceba, o convide demonstrando com atitudes!
E amanhã ou depois esse texto aqui será mais um texto a nível obviedade!


Au Revoir
Até o próximo texto!

Em Verdade Vos Digo



Eu sempre digo que minha verdade é não ter verdade. 
Sou fruto do meu desejo.
É nele que existo. 
 A ponta das minhas unhas vermelhas 
sabem mais de mim que os olhos caridosos de minha mãe. 
As cicatrizes de minha alma me traduzem 
mais que a pele intacta de meu rosto. 
Sou mais que minha voz arrastada 
porque habito em meus pensamentos atormentados. 
E não pensem que sou triste, doente, cinza... 
Sou mais que isto ou aquilo, 
sou o silêncio incomodo 
que fica quando não se tem mais nada a dizer. 
Sou a flor do bougainville liberta 
e transformada em borboleta 
com o toque mágico do vento. 
Disseram-me que sou pecado 
e eu ainda nem sabia falar. 
Hoje falo e peco mais ainda. 
Mas um Jesus me salvará.
Ele me ama e é fiel a mim. 
Nele tudo posso. 
Então ganho o mundo naquilo que as vizinhas, 
por detrás das cortinas, 
vigiam, condenam, comentam... 
mas querem para si. 
E que seus maridos nas mesas dos bares 
comentam, condenam, vigiam... 
mas querem para si. 
E a minha verdade está na minha risada debochada 
que solto quando me batem 
e a lágrima solitária que não deixo ninguém ver. 
A minha verdade é não ter verdade alguma 
mas lhe deixar totalmente inquieto 
sem saber se isso também é verdade
ou é só algo que quero fazer você crer.
(Waleska Zibetti)

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Lover of your life, Singer of Songs!

Eu não serei um astro do rock, serei uma lenda!
(Freddie Mercury)

Quem me conhece sabe que além de Arquitetura e Livros, sou apaixonada pelo Queen (Pode ler a minha Bio), enfim, mais do que uma paixão é um amor sem fim! Apaixonada pelo Brian May e John Deacon e mais ainda alucinada pelo melhor cantor dessa Era Freddie Mercury.
Nada mais justo do que fazer essa homenagem!
Hoje estaria completando 68 anos, mas será que as profecias e inúmeras entrevistas dadas pelo Freddie seriam concretizadas caso ainda estivesse vivo? (Freddie alegava em meios dos anos 80 que seria ridículo ser um Rock Star aos 60). Talvez o contágio de todas as suas canções seriam um dos maiores motivos de todo artista de seu calibre pra continuar compondo e musicando!



Biografia:

Farrohk Bulsara é Freddie Mercury.
Nascido em 5 de setembro de 1946 na colônia britânica de Zanzibar, viveu com os pais na Índia e, em 1954, aos oito anos, o garoto foi enviado para estudar na St. Peter Boarding School, uma escola para meninos na cidade indiana de Bombaim, tendo feito todo trajeto sozinho a bordo de um navio. Nessa época, já grande apreciador de música, ele começou a ter aulas de piano, muito influenciado pela cantora local Lata Mangeshkar. Aos doze anos, montou uma banda chamada The Hectics, com quem ele se apresentava em eventos escolares cantando sucessos de artistas como Cliff Richard e Little Richard, sendo que foi nessa época que ele passou a ser chamado de "Freddie" pelos amigos. Apesar de ser apreciado pelos mais velhos devido a seu carisma e talento musical, o garoto sofria muito bullying por parte das outras crianças de sua idade devido a sua personalidade afeminada, o que o levou a se tornar uma pessoa introspectiva e muito tímida quando perto de estranhos. Quando mais velho, Freddie passou a morar na casa de sua avó, mas continuou frequentando o mesmo colégio até o fim do curso, voltando para a casa de seus pais em seguida. Aos 18 anos, foi para Londres, onde se formou em design gráfico. Tímido, levou algum tempo para se entregar à paixão pela música. Só em 1970, fundou o grupo Queen e parou por conta de complicações da Aids. Viveu intensamente os seus 45 anos. Quem teve a oportunidade de participar do coro de milhares de vozes no Rock in Rio, de 1985, certamente não esquece o seu fascínio. 
Em 1986, com sua popularidade altamente renovada, o Queen lançou o disco A Kind of Magic, que foi um grande sucesso, e realizou uma turnê de estádios pela Europa, com uma produção e recepção nunca vista antes, com dois concertos no Estádio de Wembley que foram gravados e lançados em vários formatos posteriormente. Em 1987, Freddie descobriu ser portador do vírus da AIDS, e sua saúde física se deteriorou rapidamente, por isso o Queen se aposentou dos palcos, sendo que o concerto final da Magic Tour, em Londres, no dia 8 de agosto de 1986, foi o último momento de Freddie no palco. Trabalhando apenas no estúdio, o grupo lançou The Miracle em 1987, e no ano seguinte, Freddie voltou a inovar sua carreira ao lançar o disco Barcelona, um projeto de música clássica ao lado da soprano espanhola Montserrat Caballé. Em 1991, o Queen lançou Innuendo, que foi um grande sucesso comercial, e mesmo estando com sua saúde extremamente debilitada, Freddie continuou a trabalhar exaustivamente, tanto que, após menos de um mês, ele já estava em estúdio gravando vocais para um disco novo do grupo. O cantor, que morreu nesse mesmo ano, já sabia que não sobreviveria por muito tempo, por isso gravou todos os vocais antecipadamente para que a banda concluísse o trabalho mais tarde.
Aqui está uma das minhas canções favoritas:

Au revoir
E até o próximo texto!
Bisous

Outras mentiras

E não bastasse o caos, eis a mentira que nos circunda.
Não há uma só pessoa que não tenha experimentando a mentira e os seus mais variados estilos e densidades.
Há quem diga tratar-se de uma questão de sobrevivência, faz parte dos muitos atributos necessários ao desenvolvimento psíquico, cognitivo e social de nós, seres humanos.
Diariamente, enfrentamos, muitas vezes sem perceber, uma corrente impetuosa de mentiras, enganações e falsidades.
A mentira se dá, em alguns casos, de forma antecipada e com reflexão. Outros casos são observados como mentiras passivas, como encontramos nos filmes, novelas e outras encenações artísticas.
A mentira premeditada, praticada particularmente por pessoas de pouca ou nenhuma escrupulosidade, é uma ferramente bastante utilizada para que essas pessoas, egoísticamente, atinjam o nirvana de suas meticulosas ambições.
Mas, a maior mentira é a que praticamos conosco todos os dias. Essa mentira nos é ensinada aos montes, é embutida numa crosta subterrânea da nossa consciência e nos guia a vida toda.
Para livrar-se desse peso constante que você mal sabe que carrega, faça-se duas perguntas:
Eu sou o que quero ser? Eu faço o que quero fazer?
O ponto crucial para que as respostas sejam realmente verdadeiras é, em um primeiro momento, que você tente, com todas as suas capacidades, entender o significado do verbo 'querer' nessas duas questões. Ele não vem acompanhado daquela libertinagem exorbitante que nos torna inconsequentes de nossas atitudes, mas de um significado bem mais profundo, de mãos dadas ao sentido primordial que cada um de nós deveria buscar, sem as falsas e mentirosas ideias as quais nossos ideais, nossos sonhos e o nosso verdadeiro eu se tornam aprisionados.
A sugestão é emancipar o seu interesse, fazer com que o seu raciocínio busque um caminho independente. Pense! Que as suas verdades emerjam, desabrochem e inundam a superfície da sua consciência tornando-te uma pessoa seguidora das suas próprias verdades.

domingo, 31 de agosto de 2014

Mentiras sinceras, verdades mascaradas!

"Mentes tão bem
Que parece verdade o que você me fala
Vou acreditando
Mentes tão bem
Que até chego a imaginar
Que não quer me enganar
Que me ama de verdade
Mentes tão bem"
(Composição: Leonel Garcia y Noel Schajaris)
Vender uma imagem perfeita para agradar a todos é fácil, qualquer um pode fazê-lo. Mas para quê? Pra quem? Porque?
Ai caio no velho clichê da frase célebre do amado Renato Russo: "Mentir pra si mesmo, é sempre a pior mentira"
Você vende uma imagem no intuito de parecer alguém livre das banalidades do mundo cotidiano. Você mente quando posta o quanto está feliz nas redes sociais. Você mente quando tem uma depressão muito forte e uma estúpida vontade de chorar em seu travesseiro e vai postar no Facebook que está na melhor fase da sua vida!
Mentimos para parecermos mais adultos, para impressionarmos as pessoas, mas, quem você realmente engana com esse discurso pré-moldado?
Se existe algo que é digno de choque e talvez pena é atendido pelo nome de VIVER DE APARÊNCIAS!
Pra que fingir que está tudo bem quando na verdade você está morrendo asfixiado, preso aos escombros das falsas aparências?
Quem vai te levantar desses escombros quando você não mais tiver forças para fazê-lo? É isso de verdade que você quer?
Perder as possibilidades da vida, passar por ela em câmera lenta sem ao menos lutar para sair das falsas verdades impostas por você, negando a si mesmo a possibilidade de ser feliz?
Chegará um tempo em que a carga será tão pesada que até você, tão alto e tão soberbo das suas atitudes, irá questionar suas verdades.


Raspas, restos e mentiras sinceras, não me interessam! 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Todas Iguais!





__ Alô!

__ Mãe?
__ Oi! Tudo bem? Lembrou que tem mãe, né? Ainda bem!
__ Tenho trabalhado muito. Aqui...
__ Quem trabalha não liga para as mães? Não sabia disso.
__ Não é isso, mãe. Não tenho tido tempo. 
__ Mas para os outros certamente você tem, né?
__ As vezes. Mãe, escuta.
__ Ainda confirma. A gente faz tudo por um filho e a coisa acaba assim. Deus é testemunha do meu esforço para te dar de tudo. 
__ Mãe... Eu sei disso tudo! Mas eu liguei...
__ Fala! Ligou por que? Ah, deixa eu te falar uma coisa antes que eu me esqueça. Estou ficando muito esquecida. É triste a velhice. 
__ Então, fala! 
__ O que?
__ O que ia falar. 
__ Eu? Esqueci! 
__ Então, agora me escuta, tá? O Junior está usando aquela pulseirinha que você deu quando ele nasceu. Ficou...
__ Gay? Você acha que ele vai ser gay? Ah, meu Deus! Não quero uma decepção dessa. 
__ Ficou bonitinha, mãe. E não gay. 
__ Mas não tem perigo de ladrão?
__ Mãe, se roubarem fazer o que? Tem que usar uma hora o que ganhou, né?
__ Eu morro de medo de assalto. Eu vejo na TV coisas horríveis. É pai matando filho, é pedofilia, é criança levando tiro, é droga. Meu Deus! No meu tempo não tinha nada disso. A gente usava ouro a todo tempo...
__ Vou mandar ele tirar, tá bom?
__ Por que? Compro as coisas para o menino e ele não vai usar? Deixa ele! Já está um rapaz. Tem que usar as coisas. 
__ Bom, mãe, eu liguei para falar isso e...
__ Lembrei o que eu dizer. Ele está de cabelo cortado e unha, também? Olha lá! Criança suja não dá. Olha direito. Ele é uma criança tem que ser acompanhado direito.
__ Você acabou de dizer que ele é um rapaz!
__ Quando?
__ Agora por causa da pulseira. 
__ Ah, a pulseira. Cuida para ele não virar gay. Fica de olho. E cuida com ladrão. 
__ Mãe, preciso ir. 
__ Já? Nem me falou de você. E como está as plantas? E a cachorra? O passarinho está cantando? Eu ando louca para ir para aí. Mas não posso agora. Acho que vou no mês que vem.
__ Mãe, tenho que trabalhar. A cachorra está ótima. Suas plantas, também. E eu idem. 
__ Idem? Idem não é bom. 
__ Claro que é bom!
__ Você está me escondendo algo. Sua pressão está bem. Você tem que se cuidar. Quem vai cuidar desse menino se você morrer? Eu já estou velha. Você não tem irmãos. Nem namorado. Não pode contar com o ex-marido, né? Se separou...
__ Mãe, eu não vou morrer. Eu só preciso trabalhar agora. E você não está tão velha assim. E o ex deve estar feliz na nova vida. Assim como eu.
__ Conheceu alguém? Nem me conta nada! Isso mesmo! Aposto que para as amigas você contou. Por isso que não tem tempo de me ligar. Nem conheço o sujeito, mas se tira seu tempo de me ligar também não quero conhecer.
__ Mãe, eu preciso ir. Fica bem e se cuida!
__ Eu me cuido. Dá um beijo no Junior. 
__ Bênção!
__ Deus a abençoe. Te faça uma boa filha.
__ Já me fez até boa mãe. Que dirá boa filha! Fica com Deus, mãe. 
__ Vá com Ele. 
__ Tchau!

Disca de novo o celular...


__ Junior?

__ Oi, mãe!
__ Oi? Está pensando o que? É bênção! Eu, heim? Não sou suas amiguinhas, não.
__ Está bem, mãe...
__ Está com a pulseira? Toma cuidado, viu filho... Blá...Blá... Blá...
(Waleska Zibetti)



sábado, 16 de agosto de 2014

Noventa e Quatro Vezes Bukowski



Hoje ele estaria completando 94 anos de idade e eu me pergunto o ele diria sobre isso. Provavelmente Charles Bukowski tragaria seu charuto e olharia o céu com ar de desdém para depois me dizer algo como “Se Deus existe, Ele me esqueceu nessa porra de lugar!”.

Poeta, contista e romancista estadunidense nascido na Alemanha, Bukowski tem como marca uma literatura crítica, cética e fria baseados na atmosfera das ruas de Los Angeles. Sua escrita já foi tachada de nojenta e odiosa por alguns críticos. Mas as influências de Hamingway e Dostoiévski deram-lhe charme e o imortalizaram como um dos melhores da literatura contemporânea. Aclamado por um público ávido por uma literatura cuja identificação fosse mais imediata.

Seus pensamentos loucos estão presente em algumas letras de canção de bandas como Anthrax, Apollo 440,Bad Radio (uma das bandas de começo de carreira de Eddie Vedder, vocalista da banda Pearl Jam), Red Hot Chili Pepers entre muitas outras. E alguns contos foram adaptados para o cinema.

Seu talento nato somado a uma vida turbulenta que foram desde o espancamento por parte do seu pai até uma saúde frágil na adolescência levaram Bukowski a produzir alucinadamente contos e poesias que inquietam seus leitores. Seu mundo atormentado e distorcido, totalmente fora dos padrões impostos pela sociedade de sua época. E ele transcrevia essa realidade em textos quase autobiográficos. Foram cerca de 50 livros e milhares de publicações baratas.

Em março de 1994, aos 73 anos, Charles Bukowski despede-se da vida vítima de uma leucemia. Em sua lápide está escrito “Don’t try!”. Eu acredito que seja um alerta aos escritores amadores que se espelham nele para não tentarem ser como ele. Até porque acho que poucos conseguiriam transformar o universo “podre” em que ele vivia em poesia, a sarjeta em algo natural, a prostituição em arte.

E para terminar, um pouco de Bukowski por Bukowski.

"Nunca me senti só. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar”
(Charles Bukowski)

“Essas palavras que escrevo me protegem da completa loucura”
(Charles Bukowski)

Me sinto bem em não participar de nada. Me alegra não estar apaixonado e não estar de bem com o mundo. Gosto de me sentir estranho a tudo..."
(Charles Bukowski)

Cheguei numa fase da minha vida que vejo que a única coisa que fiz até agora foi fugir, fugir de mim mesmo, do meu nada, e agora não tenho mais para onde ir, nem sei o que vou fazer, fui péssimo em tudo.”
(Charles Bukowski)

Não, eu não odeio as pessoas. Só prefiro quando elas não estão por perto.”
(Charles Bukowski)

Tudo o que era mau atraía-me: gostava de beber, era preguiçoso, não defendia nenhum deus, nenhuma, opinião política, nenhuma ideia, nenhum ideal. Eu estava instalado no vazio, na inexistência, e aceitava isso. Tudo isso fazia de mim uma pessoa desinteressante. Mas eu não queria ser interessante, era muito difícil.

(Charles Bukowski)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O Vinho e A Bailarina


Sentada no chão olhando a taça com dois dedo de vinho barato. Ele espera que algo aconteça. E nisso somos parecidos; eu tenho a mesma urgência de um acontecimento que essa taça de vinho.

Movimento o vinho na taça e ele quase derrama. Eu sou assim! A vida mexe comigo eu chego na borda, ao ponto mais extremo e depois me assento no fundo de mim outra vez. Sem perder nada e sem nada ganhar também. Talvez até ganhe um pouco de oxigênio para resistir a mais uma temporada no fundo da minha alma sombria.

Dou corda na caixa de música e fico olhando a bailarina rodopiando de braços para o ar. Ela é como eu. Prisioneira sorridente de uma caixa de ilusões. A mesma canção sempre e a mesma solidão. E a solidão já não dói mais como no segundo anterior. Eu fiz da bailarina a minha parceira essa noite.

A canção da caixa fala de uma noite estrelada...

E eu me reporto a algumas noites em que, entretida em gargalhadas, eu nem lembrava da presença das estrelas. Todas as estrelas de que eu precisava estava ali no olhar que me fazia sorrir. Mas estrelas morrem, se apagam ao cair no mar... As gargalhadas também se silenciam em lágrimas. Onde foram parar aqueles olhos?

Olho o céu, há tanta estrela nele. Mas nenhuma é tão brilhante quanto aquele olhar. E a bailarina para de dançar, a música silencia, o vinho ainda representa a espera e eu canto baixinho na janela da sala...

“Starry starry night, paint your palette blue and grey
Look out on a summer’s day with eyes that know the darkness in my soul...”

Minha loucura é a mesma sua, mas você não vê porque fechou seus olhos de estrelas para mim. Largou-me no fundo da taça de vinho. Será que quando eu me for de vez você me compreenderá 
assim como a diz a canção?

Não dance nunca mais bailarina! Não pise sobre minha solidão com suas doces sapatilhas. Não quero encarar meu abandono no seu rodopiar. Não dance nunca mais! Seus braços para o ar são os meus que estendo em busca de um abraço. Eu sou você bailarina prisioneira! Você presa a sua caixa de canção triste. Eu presa ao sonho de um amor de olhar triste. Não dance mais! Vamos nos guardar de mais um choro. Vamos nos poupar de lembrar das estrelas. Vamos esquecer nosso abandono.

Sentada no chão olhando a taça com dois dedos de vinho barato. Ele espera que algo aconteça. Eu faço acontecer... Com a ponta do dedo viro a taça, derramo o vinho... Liberdade, ao menos para um de nós nessa madrugada estrelada.

(Waleska Zibetti, in "O Vinho e A Bailarina")