terça-feira, 3 de junho de 2014

VIVO-MORTO




Por Gabriella Gilmore


"...A transformação  gradual de um homem vivo como todos nós em cadáver."
A dor é veículo de consciência, disse um grande pensador uma vez.
Ivan chegou naquele estágio no qual a dor já não fazia mais sentido e que a morte seria o alívio, mesmo sendo algo que ele não queria para si. Quem suportaria se ver morrer?
A imortalidade chega a ser um sonho inconsciente de cada ser humano.
O doutor dizia que os sofrimentos físicos dele eram terríveis, mas que os seus sofrimentos morais eram mais terríveis que os carnais, e nisso consistia a sua tortura maior.
Ivan não agüentava mais a culpa que nele existia por ter chegado ao estado em que chegou. Mesmo ele negando qualquer coisa que seja, no fundo, ele merecia a morte que estava passando.
Relutando contra o orgulho ferido, só encontra paz ao receber a comunhão do padre, e finalmente ele se dar por vencido, dizendo: "Acabou. A morte acabou. Não existe mais".
Essa catarse que o autor faz de Ivan e sua morte é muito real. Nos passa como se a morte fosse algo vivenciado aqui no plano terrestre, e depois que se vai, ai sim, você "vive".
Ivan pode vivenciar de perto e por meses uma morte literalmente lenta e dolorosa, e faz com que o leitor possa refletir sobre suas ações em vida e também numa "pré-morte".

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Os Dois Lados da Solidão




Pois é, Gabizinha! Há dois tipos de solidão: aquela que queremos porque é necessário um reencontro conosco, uma busca por respostas interiores, resoluções de conflitos particulares; e outra que provocamos quando afastamos de nós quem nos ama, quando nos isolamos nas imbecilidades do mundo, quando nos esquecemos de olhar para o mundo com olhos humanos.

Acredito que no primeiro tipo de solidão, Deus nos acolha com seus braços seguros e nos sussurre palavras de fé, esperança e força. Acredito que anjos façam roda em volta de nós e nos cantem deliciosas canções enoquianas para nos trazer paz e nos inspirar a tal luz interior. Creio seriamente que é nesse momento que todos nós voltamos a um ventre mágico para renascermos mais consciente de nossa importância no plano astral. Essa solidão é abençoada e, portanto benigna.

A segunda solidão é dolorida e doentia. Ela começa por adoecer a alma. Esgotando a luz de nossas auras. Afastando-nos dos seres iluminados que nos protegem. Quando isso acontece, eu acredito que os espíritos inferiores se aproximam e aos poucos vão dominando o nosso redor. Eles atingem as nossas vidas inicialmente com coisas bobas como mau humor sem razão, depois em explosões de choro, até que se transforme em males físicos como gastrite ou, em casos mais graves, até o câncer. Destruído o corpo, resta a mente. Eu vejo a loucura como total dominação desses espíritos ruins. Eles nos cobrem com sua escuridão e começa a ficar difícil ver o caminho de volta a luz, a fé a esperança, a uma vida saudável na presença dos protetores, dos mentores espirituais. 

Contudo, Gabizinha, Deus não desiste de nós. E haverá sempre alguém que nos ama. Alguém emanando orações. Para o Ivan foi o empregado. Para você tem seus amigos – estou no meio deles. Para mim tem meus filhos – e você é um deles.

É claro que a morte chegará para todos. Porém, para uns será só uma transição, um momento de libertação desse casulo corpóreo, um momento de reencontro com os que já se foram. Para outros será um momento de aprisionamento porque ou não entenderão que se foram ou simplesmente não aceitarão a ida. De tudo isso, o importante é que não nos esqueçamos de viver, de sermos felizes e de fazermos felizes quem está ao nosso lado.

Fé e luz para ti, anjinho ranzinza! 


PRELÚDIO MORTAL


Por Gabriella Gilmore

"O caso não está no ceco, nem no rim, mas na vida e... na morte. Sim, a vida existiu, mas eis que está indo embora, embora, e eu não posso detê-la. Sim. Para quê me enganar? Não é evidente para todos, com exceção de mim, que estou morrendo, e a questão reside apenas no número de semanas, de dias, talvez seja agora mesmo? Existiu luz, e agora é a treva. Eu estive aqui, e agora vou para lá! Para onde?"

"Eu não existirei mais, o que existirá então? Não existirá nada. Onde estarei então, quando não existir mais? Será realmente a morte? Não, não quero. "

"Para quê? Tanto faz . A morte. Sim, a morte. E nenhum deles sabe nem quer saber, e nem lamenta isso. Ocupam-se de música. Para eles, tanto faz, mas também eles hão de morrer. Bobalhões. Eu vou primeiro, eles depois; hão de passar pelo mesmo que eu. E no entanto, estão alegres. Animais!"

Essas são as palavras de Ivan dialogando consigo mesmo, quando a realidade finalmente começou a escancarar-se para ele.
Mesmo "merecendo" todo o desprezo familiar e social, ele sentia conforto em saber que a qualquer momento, as pessoas ao seu redor também teriam o mesmo destino.
Obviamente cada um terá a morte que merece, e como disse Wal em uma de nossas conversas, o leito de morte passa a ser menos doloroso quando temos ao redor pessoas que nos amam, que nos apoiam e que farão de tudo para aliviar nosso sofrimento.
Ainda não conclui a leitura, mas creio que voltarei com algum desfecho sobre o que aprendi com a morte de Ivan Ilitch.


Até breve.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Dona Clô



Nunca segui os conselhos de minha mãe que me dizia: “não converse com estranhos”. Gosto de conhecer pessoas! Em todo lugar que vou, sempre puxo assunto com alguém estranho. Em especial as pessoas mais simples: pescadores, idosos em banco de praça, vadios, prostitutas, bêbados... Essas pessoas são como eu de certa forma. São viscerais e com histórias que mudam as nossas histórias. Numa dessas conversas conheci a dona Clô.

Ela era uma senhora muito bonita apesar da idade, e elegantemente vestida que encontrei por acaso na fila do banco. Cabelos bem cuidados e pintados, unhas muito bem feitas e perfumada. Falamos sobre o tempo lá fora. Uma chuva assolava a cidade há dias e pessoas já perdiam casas e todas as suas coisas. Dona Clô contava-me do seu medo de chuva. “Tenho trauma!” - resumiu ela e em seu trauma se calou. Fiquei imaginando qual seria o trauma, mas não quis perguntar. Só sorri como se sorrindo eu ficasse cúmplice de seu trauma. Então, ela pagou suas contas e se foi carregando seu trauma pelas calçadas molhadas. E eu, também.

Passado uns dias, eu caminhava de manhã pela rua e reparei em uma pessoa que me pareceu conhecida. Que surpresa! Era dona Clô. Apressei o passo – com sorte ela me reconheceria. Ela estava tão simples naquele dia. Tão diferente da senhora que conheci no banco: usava calça legging, camiseta, boné e tênis. Contudo, sustentava ainda seu ar elegante e um olhar firme que os óculos de sol não escondiam.

__ Bom dia! – disse com um sorriso.

Dona Clô, olhou-me um pouco e sorriu. E no seu sorriso havia acolhimento.

__ Bom dia, mocinha do banco. Como vai?

E começamos a conversar novamente. Hoje sobre o sol escaldante que levava risos à praia. Paramos em um quiosque fomos tomar uma água de coco. E então, conheci mais de uma dona Clô sem traumas. Rimos e combinamos de caminhar por ali na manhã seguinte.

E por algum tempo essa foi a nossa rotina: encontrarmo-nos no calçadão para uma conversa a toa enquanto caminhávamos. Dona Clô contava coisas do seu tempo e dizia sempre que o tempo passado era o melhor de viver. Afirmava que um dia eu entenderia. Um dia em que ela não estaria mais ali, mas que eu me lembraria das palavras dela e diria “bem que aquela matusquela me avisou!” e demos gargalhadas do “matusquela” que ela complementou com “palavra de velho”.

Um dia dona Clô convidou-me para ir a sua casa jogar buraco e eu fui. Conheci lá outras senhorinhas sorridentes como dona Clô. E logo fui adotada como a netinha da turma. Elas eram muito animadas e simpáticas. Cada uma delas com seus traumas, com suas histórias e seus mistérios, mas todas tão cheia de vida e esperança que me deixavam como elas, vibrante.

Passávamos a tarde a jogar buraco, bingo, 21 a valer bombons, dançávamos, cantávamos ao som do piano de dona Clô, o violão de dona Cláudia e a voz vacilante pela idade de dona Leda – a mais velha do grupo. Elas me diziam que eu saía dali cheirando a naftalina e formol. Mal sabiam elas que o cheiro delas era tão mais vivo que o meu em alguns dias. No fim da tarde eu ia embora renovada, remoçada na experiência delas.

Um dia dona Clô pediu que eu ficasse um pouco mais para tomarmos um cálice de vinho do porto. E eu fiquei.

Depois que todas elas se foram, sentamos na varanda com nossos vinhos. Dona Clô então segurou a minha mão e disse que naquele dia ela estava se sentindo muito só. Que o passado estava doendo dentro dela. Um passado de plumas e brilhos, mas que agora pairava cinza de tristeza dentro dela. Eu só apertei a mão dela, não sabia o que dizer. De repente, toda a idade de dona Clô pesava-lhe a face e eu me dei conta de que ela já tinha mais de setenta.

Ela apanhou um baú antigo cheio de fotos amareladas e algumas até desfocadas, cartas, cartões, pétalas de flores secas, papéis de bala enroladinhos, cachinho de cabelo, uma pluma que devia ter sido azul em uma época qualquer, mas que agora era tão velha quanto dona Clô... Disse-me, então, depois de um silêncio pesado: “Veja o meu passado! Ele cabe todo em uma caixinha.” E sorriu.

Na caixinha uma dona Clô sem rugas e vestida de vedete com poses, me sorria. Olhei cuidadosamente cada uma das centenas de fotos e ouvi algumas das histórias que elas continham. Histórias alegres e tristes. Reconheci ali outros sorrisos joviais: o de dona Leda e de dona Cláudia. “Mais que amigas... minhas irmãs.” – dizia dona Clô com olhos cheios de lágrimas e mãos trêmulas.

Dona Clô me contou que ela era vedete e dançava em um antigo cassino. Foi lá que ela conheceu certo militar de alta patente que lhe deu tudo o eu tinha, menos um filho. Ele não queria e nem podia arriscar a ter um filho fora do casamento porque seria um escândalo e ela respeitou. Só que, segundo ela, ela não imaginava que na velhice ela sentiria tanta falta de um filho. Ela disse que quando se é jovem, às vezes, esquecemos que vamos envelhecer e que na velhice a solidão é contada em segundos, pois o tempo fica caduco como os velhos. Quanto mais dona Clô falava mais eu bebia as suas palavras com o vinho do porto. Foi uma tarde incrível! Mágica!

Minha amizade com dona Clô era assim, mágica. Era cercada de coisas glamorosas e de sentimentos que se revelavam como a lua que víamos brotar do céu enquanto bebíamos vinho do porto na varanda. Eram tardes com tardes dentro. Tardes de um passado lindo e cheio de vida de uma pessoa que exalava vida em tudo que fazia e dizia.

Hoje, eu vi dona Clô ser sepultada sobre o choro contido de dona Leda e dona Cláudia. Elas, depois que todos se foram, ficaram ali cantando a canção que elas diziam ser o hino da amizade eterna entre elas. E eu as abracei com muito carinho para engrossar o canto:

“... Amigos para sempre é o que nós iremos ser
Na primavera ou em qualquer das estações
Nas horas tristes nos momentos de prazer
amigos para sempre...”

Dona Clô se foi. Tenho certeza que virou estrela. Uma estrela brilhante e cheia de vida que vai iluminar as minhas noites ao lado de dona Leda e dona Cláudia. E que um dia formará uma nova constelação quando essas duas estrelinhas se forem também. E nem assim ficarei triste. Elas que me guiarão para sempre nas palavras que me disseram, em canções que me ensinaram, em meu coração onde elas serão eternas vedetes sorridentes.

Amigos são para sempre!

(Waleska Zibetti)

terça-feira, 27 de maio de 2014

Reações

" Aí está, morreu; e eu não — pensou ou sentiu cada um."

Tratar de morte é sempre delicado, de um lado porque já perdemos ou ainda perderemos pessoas queridas e de outro porque no fundo, todos nós temos um desejo de imortalidade, até mesmo os suicidas que enxergam a morte como solução de uma vida que parece pouco agradável aos sentidos.
Quando penso no clássico de Tolstói, a primeira coisa que vem à minha mente são as reações que as pessoas ao seu redor tiveram com a notícia de sua morte. Colegas de trabalho pensaram em ocupar seu cargo, e ufa, que bom que foi ele e não nós. A família se livrava de um estorvo e em seu velório a esposa apenas pensava em como ganhar dinheiro com o infortúnio do marido.
Jeito triste de partir, deixando um legado de colegas que apenas se acostumam a nossa presença e familiares que nos aturam por obrigação.
Tenho certeza que muitos já morreram e ainda morrem nesta situação por viver uma vida mal vivida, colecionando amarguras e decepções ao invés de ver com olhos de bondade e humanidade cada um que passa por seu caminho.
A vida pode e deve ser maravilhosa, mas só nós mesmos podemos torná-la dessa forma e assim, quando finalmente a morte bater em nossa porta, podemos ir com a sensação de uma jornada completa e com verdadeiros amigos ao nosso redor. Pense bem nas reações que você gostaria que as pessoas tivessem ao saber de sua morte, e faça em vida algo para que sintam sua falta.

Até os próximos capítulos!

Vida de Adulto

                                       

“Só se é jovem uma vez...”, já ouviu isso, Gabizinha? Pois, então, saiba que isso é muito verdadeiro. A juventude é um perfume bom que vem em vidro pequeno. E a gente nem se dá conta do quanto é bom até que ele não exale mais do nosso próprio corpo. Contudo, pequena, posso lhe afirmar que o cheirinho especial da vida adulta é do seu modo muito atraente. Tão atraente que por vezes, anula o tal perfume jovial para destacar-se entre os outros. O que quero que você entenda é que cada fase da vida é uma com suas virtudes e seus defeitos.

Agora lá vai o puxão de orelha. Segura aí! Você não está engrenando na leitura porque encasquetou de ser Ivan que nada tem de Gabi. Você é dessas, sabia? Desfaz o bico! Estou te olhando. Senta aí e cale a boca.

Todos nós estamos morrendo. A cada segundo a vida nos rouba um suspiro de vida. Mas não é por isso que vamos chafundar no canto do mundo questionando a que horas será a partida. Você Gabi – Você também leitor! – está VIVA. Então, levanta o buzanfão daí e vá viver! Viver para fora de si. Tira o olho do umbigo e olhe o sol, a lua, a chuva... a vida!

A morte só seduz porque usa vestido longo preto elegantíssimo. Eu tenho certeza que a morte veste Gucci e calça Louise Vuitton. O que seduz na morte é a ideia de um beijo que abre o portal para o desconhecido, o inimaginável, o próximo passo... Somos criaturas curiosas e o slogan “O que vem depois?” vendido pelas crenças de uma existência post mortem faz os lobos jurarem-se de cordeiros no fim da vida na esperança vã de uma “salvação”.

Cansaço faz parte do viver. Tem hora que tudo fica igual. Fica cinza. Fica um saco. Mas sabe o que se tem que fazer? Mudar! Já viu o filme “Curtindo a vida a doidado”? Aquele filme é a chave do viver bem. Aí você me dirá “Fácil dizer, Wal!”. Pois vou lhe confessar que há dias que digo a todos que saí e tranco tudo, desligo o celular e fico quietinha comigo me curtindo o dia inteiro de camiseta e calcinha, comendo porcaria, sem pentear cabelo, sem sapatos... Como já teve dia de eu sair para trabalhar linda no salto e simplesmente descer no meio do caminho e passar o dia olhando loja, andando a toa, curtindo um dia diferente... Descontaram meu dia, mas e daí? Foda-se! Naquele dia eu precisava ser livre!!!

Está aí! O que falta para vocês é o “foda-se” ligado. Essa teclazinha embutida em todos nós, mas que raramente conseguimos acionar porque temos inconscientemente uma origem masoquista. Deixamos as coisas nos atingirem, permitimos que o mundo nos escravize. Não estou aqui apregoando que devamos viver numa realidade cômoda. O que estou dizendo é que de nada também nos adianta tentar atingir coisas que estão muito além do alcance se isso custar nossa saúde, humor, felicidade... Vale a pena lutar tanto pelo “ter” se o fim disso for igual ao de Ivan? Velho, solitário, frustrado, mal-amado... um estorvo. Não teria sido melhor se ele tivesse plantado alguns sorrisos em seu caminho? Alguns abraços sinceros? Se tivesse se entregado de corpo e alma a sua família de vez em quando?

A vida adulta só é chata para quem foi criança chata, adolescente chato e o pior é que esse chato vai se tornar um velhinho chato também. Eu fui uma criança feliz. O pouco que vivi com meu pai, ele aproveitou para semear em mim jardins inteiros de esperança, ilusões, sonhos... E era lá, que na ausência dele, eu me escondia para continuar a conviver com a gente ruim que me cercava sem me permitir ser contaminada por eles. Hoje sou adulta, posso ou não conviver com essa gente, eu escolho. No caso do inevitável, quando o social me obriga estar perto deles, eu me refugio nos mesmos canteiros para não perder o contato com minha luz interior.

Se eles me fazem chorar? Fazem sim! Magoam-me sim! Machucam-me sim! Mas não conseguem me perfurar tanto a ponto de eu dizer que a vida é ruim, que ser adulto é ruim. Porque eles optaram a viver nesse mundo adulto pesado e escuro. Eu não. Eles optaram a se envenenar na ambição, no preconceito, na frivolidade. Eu não. Eles me vampirizam sim. Mas ainda há em mim luz suficiente para me curar deles e desse mundo adulto chato que você diz aí. Sinto muito, Gabi. Sei que você vai ficar triste com o que vou dizer: ser adulto só é chato para quem não soube crescer.

Contudo, ao som de Pitty lhe digo: “Guarde os pulsos pro final... Exercita a consciência...”. Você ainda é jovem. Você ainda tem tanto para fazer. Você só precisa querer. Mude! Liberte-se! Não tenha medo dos sofrimentos que fatalmente você passará. Não se pode fazer uma revolução com luvas de seda, já nos disse tão sabiamente Stalin. Examine-se. Enxergue-se árvore e pode seus galhos ruins para que cresça outros fortes que lhe renderão bons frutos. Depois... Depois... Depois será como tem que ser. Não é isso que chamam de destino. Então, deixe o destino tomar o seu rumo.

Bom, vou nessa de Titãs... “Devia ter arriscado mais e até errado mais, ter feito o que eu queria fazer... O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído...”.


Até!!!


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Sentindo a morte de Ivan


Por Gabriella Gilmore

Confesso que estou demorando a engrenar na leitura de Lev Tolstói, que com o título nos chama para conhecer a história de Ivan Ilitch sem mesmo ler a sinopse.
O tema “morte” apesar de ser algo que ainda aflige as pessoas, não deixa de ser sedutora.
Apesar de todo o bla bla bla do autor, eu tenho conseguido pegar o sentimento de Ivan de uma forma muito íntima, pois como ele, eu também ando narrando minha própria morte mentalmente. 
A vida adulta é só desgosto. 
Costumo falar isso para os adolescentes que às vezes convivo, dizendo que essa fase, juntamente com o da juventude, é algo que devemos curtir lentamente, saboreando-a, sem precisar pular este período, porque o cansaço é apenas uma “impressão”. Eu quando jovem, também almejava a vida adulta, só para não ter de encarar a encheção de saco da minha mãe e dos professores. E  finalmente, a vida adulta chega fazendo dedinho para você. Debochada que só!
Com tanta coisa para resolver em todos os lados da vida, seja sentimental, profissional, espiritual, familiar e social, 24 horas chega a ser nada quando se tem tantas preocupações assolando a mente que nem dormindo descansa, porque os pesadelos insistem em te fazer careta.
Ivan chegou num estagio da vida em que tudo pelo qual estudou não valeu por quase nada, e pelo que tenho lido, ele está de face a face a uma depressão.
Ivan, assim como eu, tem nadado, nadado, e nadado... mas quando percebeu que o cansaço está ganhando, foi pego pensando em absurdos. É como se a gente andasse sem destino. Para que? Por quê? Ah, vá saber!
Posso estar errada quanto aos meus sentimentos sobre Ivan e sua morte lenta, mas sente aqui comigo para desvendarmos os temores que no íntimo do autor Tolstoi, fez brotar esse personagem que foi um sucesso em sua época.

domingo, 25 de maio de 2014

O Embarque...

                                              

“E quanto mais longe da infância,
quanto mais perto do presente,
tanto mais insignificantes
e duvidosas eram as alegrias”
(Liev Tolstoi, in “A Morte de Ivan Ilitch”)

A cena se abre com nós dois sentados no fundo de nossas consciências. Somente você, eu e as nossas lembranças que sempre insistimos em manter presas num suposto esquecimento. Lá onde repousam nossos sonhos frustrados e nossos medos nos recebem com seus sorrisos amarelados e podres. É de lá, desse mesmo calabouço psicológico que vieram os fantasmas que atormentaram Ivan Ilitch em seus últimos dias. 

O velho moribundo estava condenado a enfrentar o pior inimigo do homem: a visão do próprio passado. Talvez fosse melhor a loucura, a perda total de contato com qualquer coisa que um dia foi real; a encarar as farsas em que viveu. Um homem vazio quando longe da toga que dava prestígio, uma criatura medíocre longe do título que lhe poder. Um velho estorvo condenado no fim de tudo.

"O que mais atormentava Ivan Ilitch era que ninguém tivesse pena dele como ele queria que tivessem..."
(Liev Tolstoi, in “A Morte de Ivan Ilitch”)

E o velho grita... Resmunga... Reclama... Contesta... Ensandece na dor. Mas qual dor era mais cruel? A física ou a da alma? Quantas vezes o quarto onde perecia, Ivan não tentou abafar no grito a decepção de descobrir-se um não-amado, um não-desejado, um não-querido?

Ah, amigo, acredite não há pior inferno que nossas próprias dúvidas, nossos próprios erros, nossas próprias culpas nos acordando no meio da madrugada para nos fazer contorcer em doloridos pensamentos. Os arrependimentos são os chicotes que a memória usa para nos açoitar no peito. Somos escravos, amigo! E o passado é o nosso capataz voraz.

Ivan achava que merecia mais daqueles com quem conviveu. E não somos todos assim, meu amigo? Não estamos sempre esperando que os outros vejam nossa infinita bondade, solicitude, altruísmo... Criaturas impecáveis, inteligentes, elegantes, perfeitas... Temos que ter o melhor desses que têm o privilégio de estar ao nosso lado. Não é assim que pensamos? No fundo somos todos criaturas mesquinhas e egoístas. Temos em nosso íntimo pedacinhos de Ivan que fervilha vez ou outra.

“Chorou pelo seu desamparo, pela sua horrível solidão, pela crueldade dos homens, pela crueldade de Deus, pela ausência de Deus."
(Liev Tolstoi, in “A Morte de Ivan Ilitch”)

Mas e no fim?  E quando formos nós no leito? Quem terá pena de nós? Quem não se queixará por vir tão longe para as visitas? Quem terá lembranças boas de nós ao redor da nossa urna? Será que Deus se apiedará e reconhecerá o que há de bom em nós? Deu medo? Não tenha! Mude!!! Declare morte a Ivan! Morte aos Ivans! Morte a tudo que nos adoece!

Tome coragem de fazer mudança. Olhe-se no espelho e busque seus monstros. Cace-os, aprisione-os, vença-os e reescreva suas rotas, seus objetivos, seus modos. Liberte-se dos vícios de ser melhor para aceitar a possibilidade de ser eterno aprendiz. Esvazie-se da soberba do “eu sei” para preencher-se da doce necessidade da busca.  É esse o caminho: observar, absorver, aprender, compartilhar... Plante mais amor nos seus dias. Humanize-se. O mundo não precisa de mais sábios fechados em seus conceitos e certezas. O mundo precisa de humildes humanos que ensinam.

E a cena vai se fechando. Vou deixar você aí para pensar. Sozinho como Ivan. Ele estava doente e sabia que iria morrer. Não é o seu caso. Ele nada podia fazer para mudar seu destino. Você pode. A grande pergunta é: Você quer?

Até breve!

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Na Estação...



“__ Meus senhores, morreu Ivan Ilitch!”

(Liev Tostói, in “A Morte de Ivan Ilitch")


E depois do anúncio do óbito, oitenta e cinco páginas de reflexão sobre a maior das certezas nos leva a questionamentos profundos sobre a divina miséria humana.

Ivan Ilitch, irrefutável juiz nos últimos dias de vida analisou-se, questionou-se e deu por si, tarde demais, que sua vida fora um grande teatro de conveniência; uma vida de falsidades adequadas a sua necessidade de prestígios fúteis. Quadro triste, não é?

Conheço centena de Ivans que caminham por aí indiferentes aos reais valores do bem viver, enquanto esnobam seu dinheiro e poder entre os menos favorecidos. Ivans que pagam pelo sorriso, pela mulher, pelo respeito... Quando se fala na morte a grande maioria se acovarda, se encolhe, se benze... Por que será? Que tanto medo causa essa viagem nos tão corajosos Ivans que circulam por aí? Acho que a consciência de um possível julgamento divino incomoda os nossos Ivans do cotidiano. “Será que terei direito ao tal Paraíso?”, intimamente eles se perguntam nas madrugadas onde podem ocultar seus rostos assustados na escuridão.

Ivan Ilitch acamado por uma doença pensou e repensou tudo que preconizou uma vida inteira. De que valeu? Não foi querido entre os amigos e nem entre a família. Sua mulher achava um capricho a sua doença e a filha o chamava de estorvo. E nenhum de seus médicos o enxergaram como homem a ser cuidado, e sim como uma doença a ser extirpada. Então, lembrou-se dele mesmo que nunca viu o homem e seus porquês antes julgar e sim o problema que deveria eliminar. “Se eu pudesse voltar no tempo...”, algo me diz que foi isso que ele pensou. Você não pensaria assim? Não pensa assim?

A morte é o momento mais justo na linha da vida. O momento em que todos, Ivan ou não, embarcamos em um trem rumo ao desconhecido, a um possível julgamento divino, a imaginário conforto de um paraíso ou a condenação de um inferno. E o que fazer? Outra prece? Ave Maria? Ah, se tivesse como mudar o passado, não é? Ou adiar o futuro? Já desejou a imortalidade vampiresca? Dizem que é uma maldição ser imortal.

Estamos começando essa leitura. Estamos na estação a minutos do embarque. Ainda haverá mais questionamentos por certo. E será que chegaremos a alguma resposta? Bom, o que posso fazer, é convidá-lo a ler, a acompanhar o cortejo de Ivan Ilitch e a pensar sobre tudo isso conosco.


Até a próxima! 

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Apenas um gesto!

Ao ler as primeiras páginas do novo livro um primeiro questionamento surge a cabeça: Quanto vale a vida humana. 
Escrever sobre esse assunto tem sido um desafio pois tem muitas idéias para serem postas em uma folha de papel.
Mas ao ver esse vídeo resume inicialmente o que gostaria de dizer hoje.

Espero que realmente faça vocês pararem para pensar o quanto vale a vida humana hoje!

Até o próximo post
Au Revoir!