quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Imortais


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

(Pablo Neruda)

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Vinte e Nove, uma história de mudanças



“e aos vinte e nove, com o retorno de Saturno, decidi começar a viver.”
(Renato Russo, quando tomou a decisão que mudaria o rumo de sua história. abril/1993)

Tantas canções da Legião Urbana me chamam tanta atenção pelos simbolismos que para mim pessoalmente representam (Clarice, Fábrica, L'Avventura, Love in the afternoon) mas, Vinte e Nove vem carregada de mensagens pelas quais muitos de vocês leitores devem se encaixar em algum momento da sua história de vida pra mim ela representa uma certa libertação como pro próprio Renato foi.
Recentemente foi lançado pela Companhia das Letras “Só por hoje e para sempre – diário do recomeço”, um relato dos famosos 29 dias eternizado numa das maiores canções do Álbum O Descobrimento do Brasil (1993).
"Perdi vinte em vinte e nove amizades
Por conta de uma pedra em minhas mãos
Me embriaguei morrendo vinte e nove vezes
Estou aprendendo a viver sem você
(Já que você não me quer mais)
Passei vinte e nove meses num navio
E vinte e nove dias na prisão
E aos vinte e nove, com o retorno de Saturno
Decidi começar a viver.
Quando você deixou de me amar
Aprendi a perdoar
E a pedir perdão.
(E vinte e nove anjos me saudaram
E tive vinte e nove amigos outra vez)"

O descobrimento do Brasil foi lançado pela Legião Urbana em novembro de 1993. Menos de seis meses antes, em abril do mesmo ano, Renato dava entrada na clínica de reabilitação Vila Serena, no Rio de Janeiro, não só para se desvencilhar do álcool e das drogas, como também para mergulhar numa reflexão profunda sobre sua vida.
Vinte e Nove é apresentada, abrindo o disco "O Descobrimento do Brasil", que tem como característica marcante a presença de letras após a fase de dependência de Renato.
Dentro dessa canção é citado o Retorno de Saturno, que é um fenômeno que a Astrologia descreve como os 29 anos para percorrer sua órbita e voltar ao ponto em que se encontrava no dia do nascimento do indivíduo; considera-se, então, que os vinte e nove anos de vida marcam o início de uma nova fase na vida de cada pessoa. 
Relativamente pra mim essa canção é o retrato das esperanças que reconquistamos ao longo das nossas crises interiores e provavelmente o recomeço para quem se encontra em uma situação de tal perigo.
Uma Breve análise da canção
Na frase : "Perdi vinte em vinte e nove amizades" podemos ver que por conta da droga ,como ele diz “pedra em minhas mãos”,ele perdeu tais amizades. Percebe-se, também, que ele bebia e que aprendia a viver sem a pessoa amada, que, certamente, não o queria pelo vício.
Na frase: "Decidi começar a viver" vemos que ele se deu conta do tempo que estava perdendo de viver e ser feliz, da liberdade que estava perdendo e das decisões erradas que ele tomou, vemos que o mesmo realmente decidiu começar a viver ,passou para uma nova fase de sua vida, uma fase de recomeço. 
Na Frase: "Quando você deixou de me amar" podemos dizer que ele aceitou o fato dessa pessoa não amar mais ele, por conta disso ele aprendeu a ser mais compreensível, a perdoar e a pedir perdão.
Podemos dizer que com isso ele libertou-se, por isso os anjos vieram saudá-lo, e, consequentemente ele conseguiu vinte e nove amigos. 


Como é difícil recomeçar. A maioria das pessoas sofre de medo de iniciar e mais ainda de pânico de reiniciar. Seguimos uma lógica dualista, preto e branco, bem e mal, ganhar ou perder. Lógica responsável por grande parte das aflições que nos atingem.Some a isto uma boa dose de autocentramento e temos uma bomba de sofrimento, prestes a explodir, diante de qualquer instabilidade.
O referencial autocentrado se transforma no principal obstáculo quando estamos diante da possibilidade de seguir nosso caminho. É ele que se veste de culpa e medo fazendo-nos estagnar. É ele que nos força a tentar vencer, moldando as circunstâncias exteriores a nosso favor. O grande problema é que, muitas vezes, este "a favor" não é tão favorável assim.
Entretanto, seja qual for o começo ou o recomeço — ambos e ou todos eles só começam ou recomeçam com um passo simples.

Até o próximo texto
Au Revoir

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Poeminha da Tristeza


Eu triste sou calada
Eu brava sou estúpida
Eu lúcida sou chata
Eu gata sou esperta
Eu cega sou vidente
Eu carente sou insana
Eu malandra sou fresca
Eu seca sou vazia
Eu fria sou distante
Eu quente sou oleosa
Eu prosa sou tantas
Eu santa sou gelada
Eu salgada sou crua
Eu pura sou tentada
Eu sentada sou alta
Eu jovem sou donzela
Eu bela sou fútil
Eu útil sou boa
Eu à toa sou tua.
(Martha Medeiros)

terça-feira, 6 de outubro de 2015

A Felicidade


Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranqüila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A felicidade é uma coisa boa
E tão delicada também
Tem flores e amores
De todas as cores
Tem ninhos de passarinhos
Tudo de bom ela tem
E é por ela ser assim tão delicada
Que eu trato dela sempre muito bem

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite, passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Pra que ela acorde alegre com o dia
Oferecendo beijos de amor

(Vinicius de Moraes)

domingo, 4 de outubro de 2015

Depressão Profunda


Comecei a me sentir indiferente
Para as coisas que sempre mais amei.
Por mais que eu faça nada é suficiente,
Eu já não sonho mais como sonhei...
Eu tenho medo de pegar no sono,
Porque os pesadelos me atormentam...
Meu coração que sofre de abandono,
Pressionam meus vasos que ainda agüentam...
Eu sinto uma tristeza que é tão grande,
Que não tenho palavras pra explicar...
Meu corpo sofre tanto e a dor se expande;
Minhas pernas pesam muito para andar.
A minha voz que antes era bela,
Morreu e minha garganta atrofiou...
Contemplo o meu retrato numa tela:
Lembrança do tempo bom que se acabou ...

(Autor Desconhecido)

sábado, 12 de setembro de 2015

O Mágico de OZ




“We are off to see the wizard, the wonderful wizard of Oz…”, essa é a primeira coisa que me vem a cabeça quando penso em Mágico de Oz. Você se lembra?

Bom, depois de uma leitura mais cabeça, sempre corro para algo na linha infantil ou infanto-juvenil como forma de equilibrar as ideias. Sendo assim, saí de James Joyce e seus mortos e fui para a Cidade das Esmeraldas a procura de Oz junto com Dorothy, menininha de onze anos e moradora oriunda do Kansas, o Homem de Lata – em minha opinião, o personagem mais chato; o Espantalho e o Leão – personagem que mais curti.

“O Mágico de Oz” é um dos livros da série de livros “O Maravilhoso Mundo de Oz” que teve quatorze livros escrito pelo seu autor original L. Frank Baum e mais vinte e seis escrito por outros autores.

O enredo de “O Mágico de Oz” é fofo e simples. Para aquela leitura prazerosa e suave. Não traz muito além dos ensinamentos, tais como: “O bem vence o mal” e a “A amizade acima de tudo”.  O que me deixou um pouco decepcionada porque imaginei de tirar pelo menos uma meia dúzia de boas citações, mas não deu nem para isso.
Lembro-me bem do filme estrelado por: Judy Garland (Dorothy), Jack Haley (Homem de Lata). Bert Lahr (Leão) e Ray Bolger (Espantalho). O filme é de 1939, produção da MGM originalmente em preto e branco e mais tarde remasterizado; costumava ser passado nas Sessões da Tarde com grande frequência.

O principal tema do filme foi a música “Somewhere Over The Rainbow” que foi regravada depois em vários momentos e pelos mais diferentes interpretes. Aposto que ela ainda está na cabeça da todos os cinéfilos até hoje.

Enfim, “O Mágico de Oz” é um filme ou um livro para a garotada curtir sem grandes pretensões. Por exemplo, animar uma aborrecida tarde de férias de inverno. Aventura não falta no enredo e crianças menores curtirão, com toda certeza.


Já eu, jamais pensei em dizer isso, mas... Sou muito mais o filme. De qualquer forma fica a dica e até a próxima! 
Beijos da Wal.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Os Miseráveis - Final (Epílogo)

Epílogo

Marius já sabe que foi Valjean que o retirou da barricada quando fora atingido e agora ele e Cosette estão indo encontrar o velho que o salvou. Infelizmente não há o que falar dessa parte, pois (para quem não viu) estragará o final, mas vale dizer que é belíssimo.

Mas o que posso dizer é o quanto interessante se faz essa cena, misturando a esperança de revolução da época em que foi escrito, misturando religião e tantas outras coisas que a peça soube misturar de forma ímpar.

E deixo aqui uma das grandes mensagens da peça: And remember the truth that once was spoken, to love another person is to see the face of God (E lembre-se da verdade que uma vez foi dita: Amar outra pessoa é ver o rosto de Deus).


Como bônus especial eu falarei o seguinte: Na versão de 1995 (o aniversário de 10 anos da peça), após o espetáculo são convidados para o palco Valjean’s de 17 países diferentes: Reino Unido, França, Alemanha, Japão, Hungria, Suécia, Polônia, Holanda, Canadá, Áustria, Austrália, Noruega, República Tcheca, Dinamarca, Irlanda, Islândia e Estados Unidos. Todos eles juntos cantam uma das mais épicas versões de “Do You Hear The People Sing?”. 

Convido-lhes mais uma vez a ver a peça.Bom. Foi isso, espero que tenham gostado e que assistam a peça. Até a próxima pessoal. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Os Miseráveis - Parte 6 (Inspetor Javert)



Inspetor Javert

Após a batalha dos revolucionários contra o governo, Marius é deixado inconsciente e gravemente ferido, Valjean o pega e o leva para um médico. No caminho ele cruza com Javert.

Valjean tenta passar e Javert tenta impedi-lo, sobre o pretexto de que tinha chegado a hora de Valjean. Valjean lhe pede mais uma hora e que depois eles se encontrarão para resolver tudo. Javert dá o tempo que precisa.

Enquanto Valjean leva Marius para o médico, Javert vai até a ponte onde costuma pensar. Lá ele entra em um grande estado de confusão. Afinal o homem que ele perseguiu na esperança de prender o salvou. E diz que o mundo terá que escolher. There is nothing in this world that we share. It’s either Valjean or Javert. (Não há nada no mundo que compartilhamos. Isto é entre Valjean ou Javert).

Depois se pergunta como ele pode impedir Valjean de dominá-lo, afinal ele teve a chance de matá-lo e não o fez. Devolveu-lhe a liberdade. And my thoughts fly apart. Can this man be believed? Shall his sins be forgiven? Shall his crimes be reprieved? (E meus pensamentos voam. Dá para acreditar nesse homem? Seus pecados serão perdoados? Seus crimes serão suspensos?). E agora ele se vê duvidando de coisas que nunca duvidou. My heart is stone and still it trembles. The world I have known is lost in shadows. Is he from heaven or from hell? And does he know that granting me my life today this man has killed me even so. (Meu coração é pedra e ainda treme. O mundo que eu conheci perde em sombras. Ele é do céu ou do inferno? E ele sabe que me concedendo minha vida hoje, este homem me matou mesmo assim).

Senhoras e Senhores. Javert é a representação de um Direito cego e cruel, que simplesmente segue o que está na lei, esquece-se do que torna o Direito uma ciência humana. Valjean vem para ensinar-lhe o perdão. Eis a grande jogada Javert é o mundo antigo, Valjean é a ocorrência das revoluções, as mudanças. Tudo o que Javert viu e acreditou que fosse certo caiu como sombras que somem ao chegar o dia. Javert havia sido derrotado como o antigo mundo.

I am reaching but I fall. And the stars are black and cold, as I stare into a void of a world that cannot hold. I’ll escape now from that world. From the world of Jean Valjean. There is nowhere I can turn. There is no way to go on.
(Eu estou alcançando [o céu], mas eu caio. E as estrelas são escuras e frias, enquanto eu observo um vazio de um mundo que não me segura. Eu escaparei deste mundo. Do mundo de Jean Valjean. Não há lugar para retornar. Não a como seguir).


Javert se joga da ponte...

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Os Miseráveis - Parte 5 (A Vida Continua e Malditos Ladrões)



A Vida Continua e Malditos Ladrões

O senhor Thénardier estava nas barricadas, mas não para ajudar na batalha. Ele “rouba” os pertences das pessoas mortas e usa-as para fazer fortuna. O momento de sua maior atrocidade acontece com a ária “Dogs Eat Dogs”. Como eu já havia dito antes eles são um casal desprezível.

Não houve revolução, logo nada mudou. Agora as pessoas se conformam de que nada mudará. E os anos se passarão sem nada mudar.

Marius foi o único sobrevivente (mas não sabe como saiu de lá quando esteve inconsciente, falarei disso depois). Ele lamentasse de ter sido o único a sobreviver e que seus amigos tenham morrido. O momento passa na Taverna onde eles discutiam sobre a revolução (“Empty Chair at Empty Tables”) outro momento muito bonito da peça e o verso mais bonito dessa ária é: Now my friends will sing no more (Agora meus amigos não cantarão mais).

Cosette chega até Marius e ele se pergunta como saiu da barricada, Cosette pede que ele esqueça. Marius a pede em casamento e Valjean conta toda sua história para Marius, desde seu crime até o final. Ele com medo do que Cosette iria pensar dele, ele foge.

Na noite do Casamento de Marius e Cosette o casal Thénardier aparece bancando pose de nobres. Marius reconhece o anel que o senhor Thénardier está usando. O anel era de Marius. Nesse momento cai a ficha de que quem o tirou das Barricadas foi Valjean. Marius expulsa os Thénardier (que cantam a música “Beggars at the Feast”), conta a Cosette a verdade e vai até Valjean.  


O correto seria eu falar sobre o Epílogo, mas ainda há Javert que eu pulei na ordem por ele ser, além do meu favorito, um personagem muito mais complexo que os Thénardier, Marius e Cosette. Então no próximo texto falarei sobre o fim de Javert e depois sobre o Epílogo. 

domingo, 6 de setembro de 2015

Homenagem Aos Poetas Franceses - Paul Verlaine

3- Paul Verlaine No final do século 19, os críticos incluíram Verlaine entre os chamados "poetas malditos", como Arthur Rimbaud. A expressão, aliás, é do próprio Verlaine, eleito em 1894 o "Príncipe dos Poetas".

A uma Mulher
Paul Verlaine


Pra vós são estes versos, pla consoladora 
Graça dos olhos onde chora e ri um sonho 
Doce, pla vossa alma pura e sempre boa, 
Versos do fundo desta aflição opressora. 

Porque, ai! o pesadelo hediondo que me assombra 
Não dá tréguas e, louco, furioso, ciumento, 
Multiplica-se como um cortejo de lobos 
E enforca-se com o meu destino que ensanguenta! 

Ah! sofro horrivelmente, ao ponto de o gemido 
Desse primeiro homem expulso do Paraíso 
Não passar de uma écloga à vista do meu! 

E os cuidados que vós podeis ter são apenas 
Andorinhas voando à tarde pelo céu 
— Querida — num belo dia de um Setembro ameno