sábado, 8 de agosto de 2015

Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”, 1983



1-  Caprichos & Relaxos

“Em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós
(Paulo Leminski, in “contranarciso”)

Somos múltiplos e únicos. Confusos universos que se fragmentam e se agrupam. Não tenho nem começo nem fim. Nem sou eu sozinha e nem sou nós. O ser que existe é tudo.

“eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro do meu centro
este poema me olha”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)
Os olhos são os principais reveladores da essência. Queres-me conhecer? Arrisque-se! Me olhe.
“Quem nasce com coração?
Coração tem que ser feito.
Já tenho uma porção
Me infernando o peito.”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

“Coração” ganha forma e textura de acordo com o meio. De carinho ou de desagrado o “coração” vira pedra, vira pétala, vira aço, vira flor.

“sou um rio de palavras”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

Todo poeta corre  em rio pela. Rio de letra. Nem sempre bem entendidas. Rio de emoções nem sempre respeitadas. Todo poeta é um rio que corre de amor na terra de gente que se mata.

“ali
bem ali
dentro de alice
só alice
com alice
ali se parece”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

Respeitem, senhores, a individualidade de cada um e o mundo se tornará mais calmo, mais manso e gostoso de viver.

“nada tão comum
que  não possa chamá-lo
meu

nada tão meu
que não possa dizê-lo
nosso

nada tão mole
que não possa dizê-lo
osso

nada tão duro
que não possa dizer
posso”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

O que busco no amor é isso um “nosso” que é meu e teu. Como se um fosse o outro, mas não um só. Você é um eu com pedacinho meu. E eu um eu com pedacinho seu. Uma confusão que ninguém separa.

“Bom dia, poetas velhos.
me deixem na boca
o gosto de versos
mais fortes não farei.”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

A boa literatura me faz chorar até me perder do tempo. Me pego tantas vezes do nada citando Vinícius, Florbela, Clarice, Neruda, J.G. etc...Eles correm em mim sem que eu tome consciência. Tão meus...! E eu, tão deles!

“enxuga aí

vê se enxerga

essa lágrima
eu deixei cair

examina

examina bem

vê se não é
água da pedra
ouro de mina
essa gotadágua

minha
obra-prima”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

Respeitem as lágrimas ainda que não sejam argumentos, de certo são sentimentos.

“objeto
do meu mais desesperado desejo
não seja aquilo
por quem ando e não vejo

seja a estrela que me beija
oriente que me reja
azul amor beleza

faça qualquer coisa
mas pelo amor de deus
ou de nós dois
seja”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

Amar a distância dói. Amor não correspondido dói. Amor bem vivido dói. Amor mal acabado dói. Amar dói. Não amar dói mais ainda.

“tanto mim me pareça você”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

No máximo do amor a entrega é completa, mas desequilibrada. Sempre um ama mais. E esse é o que sofre. Coitadinho! No máximo do amor um “eu” fica suspenso em prol do outro, o que mais se doou o que mais se esqueceu. Não do outro, mas de si.

“quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta adolescência

vou largar da vida louca
e terminar minha livre-docência

vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

Apaixonei! Ainda bem que não chegarei aos setenta. E todos dirão quase que poeticamente “morreu na adolescência”.

“Vocês nunca vão saber
quanto dói uma saudade
quando perto vira longe
quanto longe fica perto”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

Por que se arrasta o fim de tudo? Se eu não existo mais nele e ele não mais existe em mim. Por que não dizer adeus, enquanto ainda é fácil? Se não me tens em seus olhos e tu já não estas mais nos meus. Só fica essa coisa que pergunta “Onde está o que já fomos?”. E o silêncio dolorido respondendo frio “Fomos... Mais não somos!”.

“elas quando vêm
elas quando vão
versos que nem
versos que não
nem quero fazer
se fazem por si
como se em vão”
(Paulo Leminski, in “Caprichos & Relaxos”)

O poeta aborta sentimento em versos. Amputa dores em rimas. O poeta é realmente uma criatura divina. Que fala bonito daquilo que não há quem defina.

2-     Polonaises

“aqui

nesta pedra

alguém sentou
olhando o mar

o mar
não parou
pra ser olhando

foi mar
pra tudo quanto é lado”
(Paulo Leminski, in “Polonaises”)

Quantos olhares perdemos por não termos tempo de olhar.

“Um deus também é o vento
só se vê nos seus efeitos
árvores em pânico
bandeiras
água trêmula
navios a zarpar

me ensina
a sofrer sem ser visto
a gozar em silêncio
o meu próprio passar
nunca duas vezes
no mesmo lugar

a este adeus
que levanta a poeira dos caminhos
os levando a voar
consagro este suspiro

nele cresça
até virar vendaval”
(Paulo Leminski, in “Polonaises”)

Acho que de todos os elementos o vento será sempre o mais especial para mim.  Ele pode ir a todos os lugares onde eu nunca irei. Ele sabe de cheiros que nunca sentirei. Deve ser demais ser vento em lugares como Marrocos, por exemplo.

“tenho andado fraco

levanto a mão
é uma mão de macaco

tenho andado só
lembrando que sou pó

tenho andado tanto
diabo querendo ser santo

tenho andado cheio
o copo pelo meio

tenho andado sem pai

yo no creo em caminos
pero que los hay
                                 hay”
(Paulo Leminski, in “Polonaises”)

Tenho andado com essa mesma sensação de estar ao “meio” de si.

“todo bairro tem um louco
que o bairro trata bem
só falta mais um pouco
pra eu ser tratado também”
(Paulo Leminski, in “Polonaises”)

E viva a loucura boa de cada dia. Amém!

“me enterrem com meu coração
na beira do rio
onde o joelho ferido
tocou a pedra da paixão”.
(Paulo Leminski, in “Polonaises”)

Não me enterre em lugar algum. Não há se quer um pedaço desse chão que tenha me acolhido como meu. Sou do ar. Sou do “por aí”. Lancem-me ao vento, pelo mar e esqueçam, então, de mim.

“meu coração de polaco voltou
coração que meu avô
trouxe de longe pra mim
um coração esmagado
um coração de poeta”
(Paulo Leminski, in “Polonaises”)

Coração de poeta já nasce doente. Tenha pena dele, minha gente!

“lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça”
(Paulo Leminski, in “Polonaises”)

Lembre de mim como quem sentia a chuva como bênção do céu e a vida sempre a beira de um abismo.

3-     Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase

“ apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)

Que seja o para sempre muito mais que o agora. Que sejamos nós muito mais que a eternidade. E que nunca chegue o momento de sermos lembrança no viver do que ficou.

“coração
PRA CIMA
escrito embaixo
FRÁGIL”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)

Não cuidaram. Não entenderam o recado. Coração PRA BAIXO escrito em cima QUEBRADO.

“que tudo passe

passe a noite
passe a peste
passe o verão
passe o inverno
passe a guerra
e passe a paz

passe o que nasce
passe o que nem
passe o que faz
passe o que faz-se

que tudo passe
e passe muito bem”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)

Porque nada é mesmo feito para ficar. Nem eu, nem tu, nem ele. Nessa vida somos todos passarinhos.

“em la lucha de clases
todas lãs armas son buenas
piedras
noches
poemas”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)

Me atirem somente pedras poéticas!

“você para
a fim de ver
o que te espera

só uma nuvem
te separa
das estrelas”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)

A minha maior ambição é um dia poder voar. Depois me sentar na ponta de um sorriso para pescar versos no céu da boca de alguém que me ame.

“não discuto
com o destino

o que pintar
eu assino”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)

Se aceitarmos a ideia de destino, não tempo como discutir com ele. Tudo torna-se inevitável.

“confira

tudo que respira
conspira”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)

O ser humano é o animal do conflito. Dê-lhe a lua e ele lutará pelo sol. Infelizes bélicos!

“nascemos  em poemas diversos
destino quis que a gente se achasse
na mesma estrofe e na mesma classe
no mesmo verso e na mesma frase

rima à primeira vista nos vimos
trocamos nossos sinônimos
olhares não mais anônimos

nesta altura da leitura
nas mesmas pistas
mistas e minha a tua a nossa linha”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)

Poeta se apaixona por poema e dentro do universo  ele dura e morre poesia.

“Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em nada.”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)
Perdi as contas de quantos ex-amores há nos meus versos. Poeta ama demais. É pré-condição para existir. Mas não tenho raiva de nenhum. Os acho bonitinhos assim rimados. Eles é que me rasgam.

“parem
eu confesso
sou poeta

cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face

parem
eu confesso
sou poeta

só meu amor é de deus

eu sou o seu profeta”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)

Poeta é um marginal de si, da vida, do mundo. É o que chora e o que ri para que os outros tenham o indizível impresso na folha em branco.

“à noite
fantasmas das coisas não ditas
sombras das coisas não feitas
vem
pé ante pé
mexer em seus sonhos”
(Paulo Leminski, in “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”)



É na madrugada que os cães gritam e que nosso íntimo uiva. O medo do escuro. O medo da noite. O medo do mundo.
(Waleska Zibetti)

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Esquerda x Direita (Liberalismo vs Conservadorismo): Esquerda

A Esquerda e a Direita voltam a brigar. Dessa vez por um motivo besta, porém preocupante. A questão está no Conservadorismo da Direita e no Liberalismo da Esquerda.

Esquerda

Falemos primeiro do Liberalismo. A Esquerda está pregando uma forma mais “livre” para todos. Onde todos serão aceitos e o mundo será cor de rosa. Algumas bandeiras levantadas são as Homossexuais, Feministas etc. Além de algumas outras mais “humanistas” (Direitos Humanos e companhia). Esses movimentos sociais são importantíssimos para o desenvolvimento cultural de uma sociedade. Os homossexuais precisam ser aceitos, as mulheres devem ser valorizadas, os deficientes devem ter espaço na sociedade etc.

Mas o que torna isso preocupante? O Exagero. Impor algo não é de fato uma revolução. Revoluções mudam as mentes do povo, mas sem fazê-las sentirem-se oprimidas. Estamos chegando a um ponto que se não gostamos de algo somos vistos como um ser abominável. Acho válido que os homossexuais lutarem por seus direitos, mas não acho necessário, em uma “parada gay”, masturbarem-se com um crucifixo. Querer chocar a população; isso foi feito por diversas pessoas que se consideravam “gênios” da Idade Média, que por suas atrocidades acabaram no esquecimento e apenas parte das pessoas conhecem suas histórias.

A ideia feminista é muito boa, a questão do tratamento, a questão da forma com que as mulheres são vistas pelo mundo. Mudar isso é mais do que necessário, é mais do que uma obrigação. Mas há uma linha de pensamento que está extrapolando. Meninas que se dizem feministas e pregam a “destruição” dos “machos”. Há ainda o “feminismo tirano” que prega a submissão total dos homens às mulheres. O Feminismo era a equiparação de direitos entre homens e mulheres, mas estão pervertendo seus ideais. Isso traz a desgraça para o movimento e as pessoas que realmente apóiam as verdadeiras bandeiras feministas são ridicularizadas.

Direitos Humanos. Esse é o assunto mais difícil de falar. É o tema que mais tem causado confusão, não é à toa. A ideia dos Direitos Humanos é, realmente, uma causa nobre. Contudo estão fazendo dos Direitos Humanos uma forma de subverter o Direito comum. Estão começando a passar a mão na cabeça de quem não deve, estão justificando coisas que não são para ser justificadas. A redução da maioridade penal é o principal assunto do momento em relação a isso. Estou de acordo de que a redução não resolverá a situação. Mas não é por isso que os menores não devem ser punidos. Antes de continuar ressalto: Devemos acabar com o senso comum de que menor não é punido, eles são, mas ainda é pouca punição e um sistema falho. Não podemos punir policiais por matarem inimigos da sociedade (bandidos). Claro que não podemos aplaudi-los quando matam inocentes. Não podemos pegar pesado com um jovem rico e aliviar o lado de um jovem pobre, sei que as condições e os meios interferem no indivíduo (isso é o que diz a sociologia do Fato Social de Émile Durkheim), mas isso não significa que devemos aliviar a pena por causa disso. Isso cria um estado de falsa Justiça. Devemos acabar com o meio e não com o produto dele, mas enquanto não acaba devemos agir corretamente com as pessoas.

Eu devia falar sobre a pena de morte, mas não acho adequado para o momento.

Seguindo ainda o mesmo meio falarei sobre a Polícia. A corrupção é humana, a polícia é feita por humanos, logo há policiais corruptos. Mas isso não quer dizer que todos sejam. Vejo uma crescente vertente esquerdista tentando menosprezar o trabalho da polícia, tentando fazer que todos se tornem ou pareçam maus. Não adianta, pois sempre será preciso alguma guarda, seja com o nome de guarda real, seja como mosqueteiros, seja como jedis, seja como for é preciso que haja uma força do Estado para que se defendam os valores da sociedade e que zele pelo bem-estar dela. Às vezes a força do Estado precisará usar a força e julgar isso como errado não é uma boa ideia, pois os males da “não ação” vêm para nós como sociedade. Ao mesmo tempo em que defendo a polícia digo que devem ser punidos todos os corruptos dentro dela, todos os que se beneficiam com tráfico, todos os que aceitam suborno, todos os que se omitem em auxiliar o povo etc.  

O politicamente correto é uma chatice sem fim. Essa onda “humanista” que vem para dizer que as pessoas não podem ser chamadas por coisas “estereotipadas” é uma forma, patética, de auto-vergonha. Não pode chamar o a pessoa pelo o que ela é. A ideia de que tudo é ofensivo começa a preocupar quando levamos em consideração o que acontece na área humorística. Não pode mais fazer piada com homossexual, com negro, com gordo, com magro, com pessoas altas, com pessoas baixas. Eu sou preto, baixinho, espinhento, feio como o guarda do inferno e não vejo o menor motivo para não me chamarem assim, pois é o que sou e, na verdade, gosto de fazer de tudo isso uma piada. Falta o “amor por si próprio” para entender que não é só e somente ofensas, há também brincadeiras. A pessoa que se ofende a toa é porque não vê o que é ou tem vergonha de se assumir como algo. Não devemos nos envergonhar daquilo que somos, pois somos o que escolhemos ser.

Deficiências. Outro assunto muito delicado para se falar. Primeiramente digo-lhes que o que falarei sobre deficientes físicos e mentais pode não ser de agrado de todos e que é a minha opinião sobre o assunto, então peço que leiam o próximo capítulo com um pouco mais de imparcialidade.

Deficientes são deficientes, pois são diferentes da “sociedade padrão”. Não é mérito ou demérito ser deficiente, porém eles não são super-heróis. Os deficientes físicos têm limitações, mas são melhores aceitos pela sociedade, pois esses ainda têm uma “semelhança” maior com os outros. Contudo os deficientes mentais correm certos riscos que não deveriam. Uma pessoa que tem alguma deficiência mental, cuja mexe com o nível de inteligência, nível de aprendizagem, nível de socialização sofre uma série de desafios que hoje em dia a Esquerda quer pôr, dando a ilusão aos pais de crianças deficientes que vai dar certo. Não pode dar certo isso, pois crianças especiais precisam de cuidados especiais. Uma pessoa com Síndrome de Down numa sala com alunos “normais” pode sofrer por causa das outras crianças ou as crianças serem atrapalhadas por causa dela. As crianças a perturbarão, irritarão, zombarão e, mesmo com conversas e outras tentativas dos adultos, não vão parar, porque é diferente. A esquerda virá dizer: Mas as crianças devem ser educadas a não fazer. Eu sei, mas é a natureza da criança e o que vai acontecer, vão excluir a deficiente, piorando a situação, pois está verá que tem algo errado com ela e as outras pessoas não gostam dela, aí a pessoa deficiente pode começar a agir de forma violenta, depressiva, entre outras formas.

Outro ponto feio para a Esquerda é o achar-se superior. As pessoas de esquerda assumiram o seguinte discurso: “Nós sabemos, nós fazemos, quem não concorda ou é alienado ou é fascista”. Isso é um erro. Essa movimentação toda de conhecimento é falha entre eles, pois a maioria dos jovens que se dizem revolucionários não entendem os meios e fins. Muitos estão lutando porque querem acabar com o sistema, mas vivem de mamãe e papai, lutam pela legalização da maconha, porque querem passar a tarde inteira fumando na praia, estão ali porque, em algum momento, alguém pôs em suas cabecinhas de que o mundo é cruel e dá para mudar isso. Mas eles nunca leram nada. Não conhecem a crueldade de Maquiavel, a bondade de Rousseau, a separação de Montesquieu, a união de Marx, a república de Platão, a política de Aristóteles, o fato social de Durkeim, a ação social de Weber. Os jovens da esquerda, a nova esquerda está perdida em conhecimento, mas acha que sabe demais. Estão fazendo discursos sem sentido e discussões que não aguentam.


Enfim, a Esquerda precisa começar a se reavaliar, porque, se não o fizer, ela perderá força, ruirá suas bases e cairá no esquecimento. A mudança é necessária, mas nada se consegue quando algo muda de repente, o nome disso é golpe. Que a esquerda aprenda a maneirar seus exageros e controlar suas vontades, para ter um movimento mais justo e puro. Lembremos que para o dia virar noite, primeiro vem a tarde, depois o céu escurece, só então vem a lua.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Em resposta: A Sociedade e o amor Romântico. Será que estamos preparados para a vida afetiva?



“É injusto, doloroso e insuportável assistir a um amor que foi tudo se tornar nada”. (Gabriella Lima)

É Gabi, infelizmente vivemos numa sociedade em que tem lemas do tipo: - Tá ruim, larga ele(a) e corre atrás do que te faz bem!
Relacionamentos são sim vias de mão dupla e uma dose do chamado ceder. Não entrarei nos méritos religiosos da coisa até porque, nas relações cada um sabe das suas crenças e o que une duas pessoas é o amor e a vontade de permanecerem juntos. 
Felizmente , nos dias atuais , casar deixou de ser uma obrigação social e um meio de sobrevivência principalmente para as mulheres. Só que vivemos um momento em que as pessoas se tornaram donas da sua própria órbita e esquecem que pequenas atitudes, expectativas diretas e/ou indiretas magoam dia após dia. Muitas pessoas dizem que o romantismo acabou. Talvez não. Talvez esse seja o momento do clube dos corações românticos que não se entende nem na hora de escolher a pizza do fim de semana. (Piada Interna)

Mas voltando ao que interessa, e mesmo nos dias de hoje , embora existam ainda casamentos dos mais diversos tipos (civil, religioso ou até o populacho juntar as escovas de dentes) as pessoas casam por que acreditam, se relacionam por que acreditam que ali há uma "coisa" maravilhosa. Mas por faltar o diálogo, os medos são crescentes (Prazer, senhora medo ambulante - do abandono, da rejeição e do descarte!), algumas prioridades são denominadas maiores do que estar ali, maiores do que resolver uma rusga, um incômodo, maiores do que virar pro outro lado e dormir deixando situações cotidianas sem ser resolvidas e pasmem mesmo que você durma no dia seguinte a situação parece maior do que o dia anterior.

Outro dia li uma matéria que falava justamente sobre o que sabemos sobre o amor. Ela citou algo que me fez pensar e trazer um flashback a minha pequena cabecinha: "No dia a dia muita gente desiste da vida por pequenas dificuldades. As pessoas não têm muita paciência, não gostam de ouvir, não tem tempo pra se dedicar. Me refiro, principalmente, aos relacionamentos amorosos. A impressão é a de que sabemos tudo sobre o amor, mas na hora de praticar falta um "plus". E isso é o grande diferencial em romances duradouros."
Lendo isso só fez confirmar a minha tosca teoria de que amor é capaz de transformar, superar, suportar, perdoar, cativar e manter vivo. Ora, ora, ora, relacionamento e casamento é rotina ; é partilha ; é comunhão de problemas , obrigações chatas, fazer a social quando se quer ficar enfurnado em um canto qualquer , crises existenciais ; grana curta e neuroses de todos os tipos. Estamos desapontando e sendo desapontados constantemente. Estamos sempre fazendo uma burrada por insegurança. Nem sempre ouvimos a resposta que gostaríamos ou recebemos aquele mega elogio por um novo corte de cabelo. Mas no fim das contas se dialogamos tudo vale a pena. 

Se desistirmos de cada compromisso por motivos banais ou até mesmo idiotas, provavelmente , nunca conseguiremos construir uma relação duradoura. Amar vai muito além da emoção. Amor é compaixão. Amar vai muito além da paixão. Amor é comunhão. Amar vai muito além do momento, do aqui agora; amor é construção. 
Ai pergunto a você através desse título "Será que estamos preparados para a vida afetiva?" 
 

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A Catástrofe Esquizóide da Vida Pós-Moderna


Num mundo de rótulos
Quem você é?
Quem sou eu?
É comum parar procurar-se
no espelho do quarto
no reflexo dos carros
nos rostos que passam

Mascarados...
Tudo é máscara!

Professora pela manhã
Mãe à tarde
E a noite... 
A noite tudo é escuro
buraco profundo
oculto da vida
O cu do mundo

O íntimo...

Ninguém gravado na lembrança
nos ouvidos
nos sonhos

hetero
útero
homo
estéril

Bi...

bilateral
bilíngue
bifocal
bifurcada
bivolt

E surge a cada minuto 
um novo rótulo
ou um novo eu?

novo nome...

Ana Carolina
Maria Joaquina
Pedro Paulo
João

Ninguém fica...
Escoam pela fresta da porta

Vadios
santos
loucos
escrotos
nesses rótulos quem é você?

Quem sou eu?

Me procuro no olhar do outro
da outra
que não vejo 
que não me vê
que me suporta

que me devora...
a carne
a palavra
a ideia

Ninguém é o que diz
ninguém diz quem é
qual rótulo é o seu?

Qual rótulo você me deu?...
(Waleska Zibetti,in "A Catástrofe Esquizóide da Vida Pós-Moderna")

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Optei por não ter filhos - E agora?


por Gabriella Gilmore




Bom dia pessoal do #CLV!
Hoje vou escrever novamente sobre a imposição da sociedade sobre nós mulheres quanto ao casamento e afins.
Quem ainda não leu o texto “Solteiras sim, por que não?” E “A sociedade e o amor romântico” está esperando o quê? Um tema puxa o outro.
Volto a afirmar que não sou perita no assunto, apenas exponho minha opinião.




Sou uma pessoa muito observadora, às vezes chego a ser invasiva quando estou tendo algum papo sério com alguém. Acontece que não consigo falar apenas sobre coisas fúteis, como shampoos, homens bonitos e o sapato novo que alguém comprou. Por que vocês sabem como são as mulheres. Só sabem falar do outro. AFF!
Eu gosto de falar de mim e de ouvir o que o outro quer falar sobre ele mesmo. Papo flui, papo rende. Você não faz fofocas e ainda se torna uma pessoa mais agradável.
Anyways...
Tenho algumas amigas casadas, algumas até com mais de 10 anos. Apesar de não terem filhos, algumas ainda estão curtindo a “lua de mel”, outras se preparando espiritualmente e financeiramente para ter um bebê e outras simplesmente optaram por não serem mães. Você vê algum problema nisso? Eu não. Porém a sociedade podre sim.
Eu sou tão crítica que chego a ser nojenta até comigo mesma, e ontem eu falava algo sobre isso com meu diretor (relacionado à sociedade) que ele me jogou uma bomba no colo: A sociedade somos nós.
Voltando ao assunto ter filhos ou não, primeiramente preciso que entendam que o corpo é seu, somente seu, e que essa decisão só cabe a você e ao seu marido. O resto pode explodir. Desde que começamos a namorar somos bombardeados com preceitos. O pior é quando nos sentimos mal com alguns deles. Já presenciei muito casamento ter sido concretizado apenas porque o casal passava dos “45654637” anos de namoro. Já vi casamento acontecer porque arrumaram filhos “antes da hora”. Já vi casamento montado por mães ambiciosas que praticamente venderam suas filhas. E por ai vai... Casamento assim dá certo?
Se nós somos a sociedade, porque nos sujeitamos a coisas tão calculadas e frias assim?
Se por acaso você continua se sentindo inferior só porque se casou e não teve filhos e formação acadêmica como suas amigas, sente-se no sofá e vá comer fandangos assistindo filmes censurados com o esposo sem medo de ser feliz.
Suas amigas tiveram escolhas assim como você teve as suas então pare de choramingar.
Já parou para pensar que sossego deve ser você poder sair com o maridão sempre que quiser sem se preocupar em deixar o filhote com alguém? Ou poder dormir tranquilamente sem se preocupar em alimentar o bebê no meio da madrugada? Sem esquecer de que filhos roubarão noites de sono por toda a vida, hein? E o melhor, ser tia é muuuito mais legal que ter a preocupação de ser mãe. Você sempre será a boazinha, nunca a vilã! Rs.
Não estou fazendo apologia para as mulheres não serem mães, só quero que entendam que há tempo para tudo. Há todo tipo de casal, com filhos ou não. Felizes ou não.

O importante é você estar bem resolvida nas suas escolhas, e se por ventura há algo que lhe incomode, não deixe para resolver amanhã. O ser humano tem mania de sofrer por antecipação. Nunca se esqueça de que o futuro não nos pertence. Viva o agora. Contemple sua relação hoje, o amanhã será consequência.

domingo, 2 de agosto de 2015

A maior dor humana

Que imensas agonias se formaram
sob os olhos de Deus! Sinistra hora
em que o homem surgiu! Que negra aurora,
que amargas condições o escravizaram!

As mãos, que um filho amado amortalharam,
erguidas buscam Deus. A Fé implora...
E o céu, que respondeu? As mãos baixaram
para abraçar a filha morta agora.

Depois um pai em trevas vai sonhando,
e apalpa as sombras deles onde os viu
nascer, florir, morrer! Desastre infando!

Ao teu abismo, pai, não vão confortos...
És coração que a dor empederniu,
sepulcro vivo de dois filhos mortos. 

(Camilo Castelo Branco)

sábado, 1 de agosto de 2015

O Príncipe: Nicolau Maquiavel




O livro de Maquiavel O Príncipe é a maior de todas as obras políticas. Maquiavel trata nesse livro de como chegar ao poder e (o mais importante) como manter-se nele.

O Príncipe é escrito para Lorenzo Médici, o Magnífico, que na época era o líder (“governador”) da província de Florença. Maquiavel possuía certo fascínio pela família Médici então, em seu exílio, escreve o livro e dedica a Lorenzo. Contudo, o líder de Florença ignora a obra. Mas a grande motivação do livro era a Unificação da Itália. Maquiavel pretendia ver a Itália como um Estado-Nacional. Ele acreditava que o Estado unificado se torna mais forte e ele estava certo.

O livro segue seus capítulos servindo-se como um manual. Como a Bíblia é para o povo um manual de conduta moral, O Príncipe é um manual da vida política. Maquiavel cria com este livro a Política Realista, que se opõe a Política de Platão.

Platão acreditava num mundo de homens bons onde esses mesmos homens fariam a política sem interesses próprios, visando sempre o interesse coletivo. Maquiavel mostra que os homens (pelo menos no sentido político) têm instintos maus, não só aqueles que governam como também é mau o povo.  A Política Realista vai muito mais à essência humana. Os homens buscam sempre ganhar. Vemos um exemplo nos tempos atuais. Quando um amigo nosso diz, mesmo que brincando, que vai candidatar-se a um cargo político a primeira coisa que dizemos é “não se esqueça de mim”. Maquiavel, então, mostra o quão somos corruptíveis a ponto de nos aliarmos a qualquer um que nos beneficie.

O texto refere-se ao mundo medieval. Refere-se às guerras, às tomadas de poder brutais, às nações e castelos etc. Contudo, mesmo com esses aspectos, o livro continua extremamente atual. Um livro que serve para quem quer subir na vida como um líder ou como um general. Que mostra pontos fortes e fracos em defesas e ataques. Mostra como se manter no poder de uma forma medieval, porém eficaz, inteligente e utilizada até hoje.

Direi aqui sobre algumas ideias que o livro apresenta. O livro é composto além de tudo por exemplos que Maquiavel usa para ilustrar e mostrar como seu ponto de vista é o mais correto (sejam exemplos de sucesso ou de profunda derrota). Com o tempo a leitura do livro nos leva a entender como as coisas funcionam nas “mentes poderosas” e ganhamos uma nova ideia de como agir em nossas vidas mesmo sem pertencer à política.

Uma dessas ideias é a de sempre se manter junto de seus aliados (amigos). Maquiavel diz que devemos defender nossos amigos, pois quando precisarmos eles farão o mesmo por nós. Mesmo ele dizendo isso para sinalizar que um governante deve contar com seus aliados, há também uma forma mais social envolvida.

Outra ideia é que de todos os males que deve ser causado a uma pessoa devem ser causados de uma só vez, e as coisas boas devem ser aos poucos. Assim a pessoas se esquecerá o que foi feito de mal, pois sempre será recompensado com algo bom. É, amigos, algo como “Entregue suas empresas estatais e forneça-os um novo sistema monetário...” ou “Acabe com o PIB nacional e dê-lhes uma esmola mensal”. Lembraram de algo? Contudo, o autor alerta que um líder, caso faça coisas que o povo não concorde. cairá e o povo tem o poder de escolher um novo líder.

Continuando. Maquiavel é bastante claro quando diz que um líder deve ser temido ao invés de amado. A questão é simples. Um líder amado, por mais que tenha o gosto de seu povo, caso ele caia os servos não se verão obrigados a ajudá-lo a se reerguer, pois sempre fora um líder bom e amável, não oferecendo temor ao povo. Já aquele que é temido se cair, seu povo se verá obrigado a ajudá-lo ao retorno ao poder, pois este se sozinho conseguir voltar se vingará do povo com castigos, prisões e torturas. Contudo o líder deve ser sábio e não apenas digno de temor, pois caso chegue algum estrangeiro que queira seu posto e agrade mais o povo, o povo tirará o líder de seu posto.

Darei dois exemplos que vão muito mais para o nosso cotidiano. O primeiro é de uma classe de escola, cuja possui um líder. Caso ele seja um líder omisso, que não se atente para os pedidos dos colegas alguém irá derrubá-lo, usando os outros alunos para se voltarem contra ele. O segundo exemplo é mais relacionado à política. Um partido chega ao poder, prometendo mil vantagens e melhorias ao povo, com o tempo no poder esse partido começa a cair em desgraça e surge então o estrangeiro (outro partido), este começa a levantar a voz do povo começa a infernizar o partido mandante. Com o tempo o estrangeiro consegue apoio o suficiente para tirar o príncipe (primeiro partido) do poder.

Outro aspecto do livro deu ao mundo uma frase que ficou marcante: Os fins justificam os meios. Vale ressaltar que Maquiavel nunca disse essa frase, ela foi atribuída a ele por causa de seu pensamento. De fato para Maquiavel não importa como chegar, tem que chegar. Para chegar ao poder vale tudo (matar, torturar, mentir, roubar etc.) e isso é mais uma verdade. Todos os que querem ter algum tipo de poder na vida utilizam, em algum momento, de algum artifício cruel e terrível, seja pagar para nos elegerem, seja explorar a fé alheia, seja como for, aquele que está interessado em chegar ao poder fará de tudo para chegar nele.

Ele trabalha muito, também, a questão da virtú e fortuna. Explicar-lhes-ei os dois termos. Primeiro o mais simples: fortuna. Neste caso fortuna não se refere a dinheiro, refere-se a sorte em italiano.

Virtú é um termo mais ligado a filosofia. Seria algo como virtude, mas não só isso. A virtú nesse caso é a astúcia, inteligência, percepção do momento, capacidade de domínio dos anseios populares e da nobreza. A virtú é a capacidade suprema de Líder como tal. Além de tudo virtú é a honra do príncipe.

Para Maquiavel o líder nato não deve contar sempre com a fortuna e sim com sua virtú. O motivo é claro e simples: Não se pode domar a sorte, ninguém faz isso, já a virtú pode ser aperfeiçoada. O príncipe (líder) que se apóia firme e somente à fortuna cairá de forma tão forte que não haverá chances de retornar ao poder. Uma dica que o próprio Maquiavel dá aos futuros líderes é de que a base de um príncipe é o seu povo, pois o povo tem a capacidade de ajudá-lo a cair ou a se levantar.

Um líder deve sempre estar atento às confusões. Um bom líder não pode, em hipótese alguma, deixar surgir em seu reino a desordem nem evitar guerras, muito menos deixar surgir desordens para evitar guerras. Porque quanto mais se adia uma guerra mais perdida ela se torna para quem a adiou.

Nem sempre conseguimos aquilo que queremos (principalmente sucessores), por isso Maquiavel dá outra dica. Se não podemos fazer que alguém que queremos entre no poder, então eliminemos quem não queremos. Destruamos aqueles que não achamos dignos de nos dar continuidade. Este é uma das mais importantes e geniais dicas de Maquiavel.

Aliados são bons, mas depende de quem eles são (ou pensam que são). Aliar-se a figurões, magnatas, detentores de capital, pessoas que em algum momento já tiveram poder não é uma boa ideia, pois estes acreditarão que são iguais a você e quererão dividir o poder. A não ser que tenhamos a frieza de nos livrar daqueles que já não nos servem mais, não é bom manter-se com ele. Não é bom nem aliar-se a eles.

A obra se estende de forma divina e magistral ensinando a todos que quiserem como se faz para governar. Ensinando-nos a sermos verdadeiros imperadores. Digo-lhes também que Napoleão foi um dos seguidores de Maquiavel. Como achavam que Napoleão foi o general que foi? Convido a todos para lerem O Príncipe. Convido a todos a se tornarem Líderes perfeitos.

“É necessário ser príncipe para conhecer perfeitamente a natureza do povo, e pertencer ao povo para conhecer a natureza dos príncipes.”

(Nicolau Maquiavel, O Príncipe)

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Paulo Leminski, in “Quarenta Clics em Curitiba”, 1976.



“Uma vida é curta
para  mais de um sonho”
(Paulo Leminski, in “Quarenta Clics em Curitiba”)

A vida é curta para pôr tudo em prática. Todas essas vontades que nos surgem a cada amanhecer. Mas se a vida é curta, porque desperdiçamos tanto com raiva, orgulho, ciúmes...? A vida é curta e sonhar é bom. E toda vez que eu sonho a vida se estreita, mas nem me dou conta porque sonhar me alonga, me amplia. Sinto que vou além da vida.

“Fechamos o corpo 
como quem fecha um livro 
por já sabê-lo de cor.”
(Paulo Leminski, in “Quarenta Clics em Curitiba”)

Conheço meu corpo, mas não minha alma. Estou pronta para me despedir do meu corpo e atingir o infinito que minha alma pode alcançar. O corpo é passageiro, a alma eterna. O desapego do corpo pela alma, para mim, é a aproximação com o divino.

“Só mesmo um velho 
para descobrir, 
detrás de uma pedra, 
toda a primavera.”
(Paulo Leminski, in “Quarenta Clics em Curitiba”)

Os olhos experientes tiram das adversidades, os mais profundos ensinamentos, as mais raras belezas. Os olhos experientes encaram a chegada do amanhã com mais paixão, porque aprenderam que cada amanhecer é único e uma nova oportunidade. Uma bênção de Deus. 

“Hesitei horas 
antes de matar o bicho. 
Afinal, 
era um bicho como eu, 
com direitos, 
com deveres. 
E, sobretudo, 
incapaz de matar um bicho, 
como eu.”
(Paulo Leminski, in “Quarenta Clics em Curitiba”)

Ah, se todos em posição privilegiada entendessem que os menos privilegiados são criaturas de Deus. E que, por tanto, deveriam ter ao menos o direito ao mesmo respeito. Somos todos iguais aos olhos de Deus. E não é esse o olhar mais importante?

“os dentes afiados da vida
preferem a carne
na mais tenra infância
quando
as mordidas doem mais
e deixam cicatrizes indeléveis
quando 
o sabor da carne
ainda não foi estragado
pela salmora do dia a dia”
(Paulo Leminski, in “Quarenta Clics em Curitiba”)

Hoje avalio bem as escolhas antes de fazê-las. Aprendi que a vida é uma tutora exigente. Se errar a lição, o castigo pode durar uma vida inteira.

“O olho da rua vê
o que não vê o seu.
Você, vendo os outros, 
pensa que sou eu?
Ou tudo que teu olho vê
você pensa que é você?”
(Paulo Leminski, in “Quarenta Clics em Curitiba”)

Estamos sempre pondo no outro a culpa dos nossos desencontros e desgostos. Hoje entendo que o que me incomoda no outro, muitas vezes, é o pedaço que há nele que o iguala a mim.

“Depois de hoje
a vida não vai mais ser a mesma
a menos que eu insista em me enganar
aliás
depois de ontem
também foi assim
anteontem
antes
amanhã!
(Paulo Leminski, in “Quarenta Clics em Curitiba”)

Quanto foi que o tempo voltou atrás? Tudo muda a todo o momento. Sou agora uma mulher completamente estranha para a mulher que era a um ano atrás. É emocional, psicológico, intrínseco. Como tudo passou tão rápido e eu não vi?

“quem é vivo
aparece sempre
no momento errado
para dizer presente
onde não foi chamado”
(Paulo Leminski, in “Quarenta Clics em Curitiba”)

Acho que o máximo da elegância é marcar data e hora para chegar. E nunca atrasar ou adiantar. Atrasar quebra a expectativa. Adiantar estrada a organização das boas vindas. 

“Achar
a por ta que esqueceram de fechar.
O beco com saída.
A porta sem chave.
A vida.”
(Paulo Leminski, in “Quarenta Clics em Curitiba”)

Nada me incomoda mais que uma chave sem porta. Olho para ela como quem encara a velha solitária sentada na praça esquecida de tudo. Talvez o que realmente me incomode são as velhas na praça. Penso nelas como se reflexo do meu futuro. Só que com um pouco menos de rock and roll.
(Waleska Zibetti)