sexta-feira, 17 de julho de 2015

Sorteio do livro O diário idiota de Rafaela.



Dia 25 de julho é o dia nacional do escritor.

O Dia do Escritor surgiu após a realização do I Festival do Escritor Brasileiro, iniciativa da UBE. O grande sucesso do evento foi primordial para que, por intermédio de um decreto governamental, a data fosse instituída com a finalidade de celebrar a importância do profissional das letras, profissão que, infelizmente, nem sempre tem sua relevância reconhecida.
O diário idiota de Rafaela, de Gabriella Lima, foi publicado em 2011 pelo Clube de Autores.

“Numa tentativa de se salvar, Rafaela Drummond começa a narrar em seu diário, suas crises emocionais ao se encontrar totalmente apaixonada pelo cara mais lindo, romântico, calmo e virtual.
Ela chega ao limiar da razão e da loucura por causa deste romance destruidor, e começa a buscar por si mesma, ou pelo que já foi um dia, as respostas para suas ansiedades”.


O escritor é uma das criaturas mais neuróticas que existem: ele não sabe viver ao vivo, ele vive através de reflexos, espelhos, imagens, palavras. O não-real, o não-palpável. Você me dizia “que diferença entre você e um livro seu”. Eu não sou o que escrevo ou sim, mas de muitos jeitos. Alguns estranhos.”

Se você quiser participar, basta seguir as etapas abaixo abaixo:
 1.       Compartilhe o nosso Clube no G+.
 2.       Curta a página do Clube no facebook.
 3.       Marque três amigos compartilhando a página do CLV.
 4.       Escreva em breve palavras... “Escritor é aquele que...”
Após ter seguido os passos automaticamente você estará participando do sorteio no dia 26 de julho de 2015, no domingo.
Mas não deixe se marcar neste link a opção "quero participar".

Boa sorte!!!

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Cotovia

— Alô, cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que saudades me deixaste?

— Andei onde deu o vento.
Onde foi meu pensamento
Em sítios, que nunca viste,
De um país que não existe . . .
Voltei, te trouxe a alegria.

— Muito contas, cotovia!
E que outras terras distantes
Visitaste? Dize ao triste.

— Líbia ardente, Cítia fria,
Europa, França, Bahia . . .

— E esqueceste Pernambuco,
Distraída?

— Voei ao Recife, no Cais
Pousei na Rua da Aurora.

— Aurora da minha vida
Que os anos não trazem mais!

— Os anos não, nem os dias,
Que isso cabe às cotovias.
Meu bico é bem pequenino
Para o bem que é deste mundo:
Se enche com uma gota de água.
Mas sei torcer o destino,
Sei no espaço de um segundo
Limpar o pesar mais fundo.
Voei ao Recife, e dos longes
Das distâncias, aonde alcança
Só a asa da cotovia, 

— Do mais remoto e perempto
Dos teus dias de criança
Te trouxe a extinta esperança,
Trouxe a perdida alegria.

Bandeira, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1990.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

O Vento Na Ilha- Releitura



Esticou os braços para fora e brincou com o vento. O carro corria a mais de cem. O céu estava azul e o mar brilhante. Mas ela pensava no vento. Sorria com a pressão que ele fazia na sua mão. "O vento é um cavalo...", recitou baixinho. Neruda entendia o vento. Ela é vento. Neruda a entenderia.

Esticou os braços para fora e ria-se toda tentando prender o vento. Sabia que era impossível. E riu de quem tentava detê-la. Sempre há frestas na parede e ela pode passar por elas. "...Ouça como ele corre", entoou sussurrante. Será que o vento está voltando para ilha, Neruda? Ela já quis ser uma ilha. Donne não deixou. Ela hoje gosta mais de Neruda que de Donne.

Esticou os braços para fora com a ponta dos dedos tocava o vento como quem fazia cachos nos cabelos do homem amado. E o vento passava a mais de cem. O mar estava calmo brincando com o céu azul. "Quer me levar: escuta", pensou. O vento é um mensageiro impaciente, não é Neruda? Ele traz mensagens de além mar, além ilha, além vida... Nem sempre é possível entendê-lo. Ainda bem! O vento traz cheiro de saudade e sempre que ela o entende acaba triste e com alguma canção de Billie Holiday na cabeça.

Enfim, colocou os braços para dentro. E notou como o braço estava gelado e o corpo todo se arrepiou. "Me esconde em teus braços", lembrou. O vento está morando nos braços dela. Escondido para se livrar da obrigação de levar saudades por aí. E ela acaricia o braço acalmando o vento. Recosta a cabeça e olha o mar passando a mais de cem.

É sempre tarde quando tudo acontece... E já era tarde. E já acontecia. "com tua boca em minha boca", falou alto causando espanto. Sorriu. "...debaixo teus grandes olhos", continuou. Ela não estava tão ali. E ria. "por somente esta noite", respirou. Porque tudo que ela sabe que tem é uma noite. Ela o beijou e sussurrou ao seu ouvido: "descansarei, amor meu".
(Waleska Zibetti, in "O Vento Na Ilha- Releitura")

terça-feira, 14 de julho de 2015

A cartomante não muda o futuro - Correio feminino (Clarice)

por Gabriella Gilmore


Também gosto de astrologia, cartomancia, ciências ocultas. Mas ainda não vi nada disso mudar meu futuro. Parece que só a gente mesmo é que pode fazer o dia de amanhã.
Mas antes a pergunta que se impõe é esta: que é mesmo que você quer? Saber a resposta é indispensável.
Talvez você descubra que há duas ou três coisas que você põe acima de tudo no mundo. Saber disso é um passo importante que você terá dado. E o que precisaria você fazer para conseguir o que quer? Algum sacrifício, isso é quase certo.
E é quase certo que, se você quer mesmo o que quer, o sacrifício vale a pena. Tudo isso tem que se passar entre você - e você mesma. A cartomante não ajuda.
Porém, se você pegou o hábito de pessimismo, é ruim. Atrapalha muito, atrapalha de fato. O dia de amanhã fica logo com ar de chuva que vem. E seu raciocínio de pessimista funciona mais ou menos assim: se não houve nuvem de chuva no céu, você ai mesmo é que se preocupa - pois que coisa estranha é essa, amanhã vai chover e hoje nem tem nuvem no céu? Mau sinal, mau sinal.
Estou brincando, é claro, mas o que quero dizer é que o pessimista está sempre arranjando um jeito de acomodar as coisas ao seu pessimismo.
O ideal é ser como uma senhora que conheço. Ela me disse - e não dizia apenas por dizer, pensava mesmo assim, sentia mesmo assim -  ela me disse: quem já sofreu realmente não sofre mais por bobagens.
Bem sei que certas dores ficam doendo, a pessoa se torna toda "nevrálgica", e o que nem devia incomodar passa a perturbar. Mas é ai que entra uma conversa entre você - e você mesma. Ou entre você e uma pessoa que entenda das coisas do mundo. A conversa terá como finalidade descobrir o que é que ainda está doendo. Conversa para pôr os pontos nos "iii". Nem sempre é fácil. Às veze, a gente não sabe onde estão os "iii", às vezes não sabe que pontos colocar em qual "i". Mas também nisso a cartomante não resolve. É uma pena, você mesma terá que tomar conta do assunto. Com minha ajuda, se quiser.

(Quem me dera se Clarice ainda estivesse viva, não é mesmo?)

segunda-feira, 13 de julho de 2015

O Show Tem Que Continuar




O ator estava sozinho no palco, sentado com suas longas pernas penduradas para fora do palco. Pensava seriamente, há muito tempo que as luzes se apagaram. Pensava que depois de tanto tempo longe da platéia, longe dos textos, longe da loucura, como iria voltar assim do nada.

Na porta de entrada outro homem entrou e se se encostou à porta, usava uma roupa cinza e negra. Tinha o rosto magro e com ar sacana. Não disse nada e ficou encarando o ator. O ator fez uma leve referencia e a pessoa se aproximou, com um sorriso sarcástico no rosto. O ator se levantou e se lembrou de seus velhos tempos.

- Muito bem. Ainda esta em forma. – O homem tinha a voz calma e perversa. – Você quer voltar, né? Por quê?

- Por nada mais que o gosto de estar no palco. – Disse o ator e sozinho começo a dançar. De tango a valsa. O homem deu de ombros. O ator parou e observou todo o teatro, grandes momentos ali. Morou quase a vida inteira ali dentro e agora, estava tanto tempo afastado, não conhecia mais nada, uma lágrima de tristeza caiu de seus olhos. O homem sorriu piedosamente e se retirou, agora era só ator e teatro.

Ele desceu do palco e andou entre as cadeiras, lembrando cada momento que passara ali sentado. Algo gritava dentro dele: “Esta chegando a hora”. Ele queria voltar a atuar, mas também queria, nem ele sabia o porquê, morrer. Já estava tanto tempo afastado. Subiu de novo ao palco, olhou para as cadeiras, fez uma breve reverencia e interpretou seu ultimo ato, uma cena entre ele e ele mesmo. Lutas, canções e amores perdidos, no final se jogou no chão. “É o fim” pensou e fechou os olhos.

De repente reabriu os olhos, o homem de roupa cinza e negra estava lá se aproximando.

- Pode voltar! Já decidi. – Disse o ator para o homem.

- Como? Por quê? – Retrucou o homem um pouco confuso.

- Não foi dessa vez que me levou.

- Vamos logo, afinal ninguém te verá, de certo terei de te buscar mais tarde...

- Ai! Me buscará mais tarde. Não agora, não hoje. – O ator olhou para as cadeiras de novo, agora com um ar soberano e triunfante.

- Sim, sim, belo discurso. Agora vamos, afinal para que continuar vivo? – O homem estendeu a mão esquelética e sorriu.

- É verdade, meu querido e adorável Ceifador Sinistro. – Olhou uma ultima vez para o homem, que agora segurava um cajado, suas roupas se transformaram em um capuz negro e depois voltou a olhar para as cadeiras vazias, recitando e interpretando um magistral texto.

“Espaços vazios, pelo o que estamos vivendo?
Lugares abandonados;
Eu acho que já sabemos o resultado;
De novo e de novo, alguém sabe o que nós estamos procurando?
Outro herói, outro crime impensável;
Atrás da cortina, na pantomima;
Segure a linha, alguém quer segurar um pouco mais?
O show deve continuar...”

- Bravo. Acaba de me convencer, primeira vez que, em todos esses anos de trabalho, eu vejo Queen ser recitado como poema. – O Ceifado colocou as mãos nas costas do homem e completou. – Boa sorte, meu caro. – O ator assentiu e o Ceifador sumiu andando em direção à porta. Com um leve sorriso o próprio ator comentou.

- Eu só posso estar ficando doido.

Alguns meses se passaram e o ator olhou de novo paras as cadeiras, agora infinitamente cheias todos o aplaudiam, muitos de pé, outros gritando e assoviando e um de roupa cinza e negra com um sorriso sarcástico. Nos últimos segundos, chegou à frente do palco e com toda a força do pulmão terminou sua mais notável peça:

- O show tem que continuar! – E todo o teatro o seguiu formando um coro estupendo e brilhante. – O Show Tem Que Continuar!

(João V. Zibetti, in “O Show Tem Que Continuar”)

domingo, 12 de julho de 2015

A uma senhora que me pediu versos

 

Pensa em ti mesma, acharás
Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
Doçura e paz.

Se já dei flores um dia,
Quando rapaz,
As que ora dou têm assaz
Melancolia.

Uma só das horas tuas
Valem um mês
Das almas já ressequidas.

Os sóis e as luas
Creio bem que Deus os fez
Para outras vidas.

Assis, Machado. Poesias Completas, Rio de Janeiro: Garnier, 1901.

sábado, 11 de julho de 2015

Minha Machadinha



Esse texto se refere a música portuguesa Minha Machadinha. Não há nada de real nele, é simplesmente obra da minha imaginação louca.

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Numa estranha tarde cheia de nuvens no céu, algumas crianças estavam sentadas na calçada conversando, quando de repente um casal saiu correndo de um prédio e gritos encheram a rua. Seguindo o casal, veio um homem com uma machadinha na mão. Ele a erguia e a balançava no ar, atrás dele vinha uma pequena multidão que corria para tentar impedi-lo de chegar à rua, de chegar ao casal. 
  O casal estava assustadíssimo. O homem com a machadinha na mão louco e enfurecido. A multidão atordoada com a velocidade de fatos. E as crianças assistiam com certo interesse. O homem com a machadinha na mão começou a gritar:
- Por que você fez isso comigo? Por que você me traiu?
- Calma, não é o que você pensou... – a mulher respondeu - Vamos conversar...
- Não quero calma, quero o motivo...
- Pense um pouco, não vai resol... – o rapaz ao lado da mulher tentou argumentar, mas o outro ameaçou. 
- Fica fora disso, desgraçado... FICA FORA DISSO! – mais uma vez ele sacudiu a arma no ar fazendo medo em todos.
- Amor, calma... Vamos conversar...
- Por quê? Por quê? Por que ele te pôs a mão. – O homem com a machadinha começou a chorar. 
- Calma, pois eu sou sua...
- Eu também sou teu... 
- Solta essa arma... – O homem largou a machadinha, quase no mesmo instante dois rapazes da multidão pularam nele. O rapaz ao lado da mulher segurou-a e saiu correndo. Ou pelo menos tentou.
O marido se soltou dos dois rapazes, pegou a machadinha no chão e a arremessou contra o rapaz que fugia com sua esposa. A machadinha pegou no meio das costas dele. O homem foi até eles correndo e, antes que pudessem impedi-lo, decapitou a mulher. Todos com medo se afastaram um passo. O homem, perdido na sua loucura, pegou a arma e atingiu a própria cabeça. 
A multidão foi se desfazendo, a polícia chegou e levou os corpos e as crianças cantavam sombriamente no canto da rua:

“Ha ha ha puxa a machadinha
Ha ha ha puxa a machadinha
Quem te pôs a mão, sabendo que és minha? 
Quem te pôs a mão, sabendo que és minha?
Ha ha ha sabendo que és minha
Ha ha ha eu também sou tua
Puxa a machadinha no meio da rua
Puxa a machadinha no meio da rua”

(João V. Zibetti, in "Minha Machadinha") 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Amanhecer em Marrocos




"... A Cada instante de nossas vidas 

temos um pé no conto de fadas 
e o outro no abismo"
(Paulo Coelho)

Mais uma vez visitante de mim no dia que já quase amanhecia notei, há alguns quarteirões de certo passado, um sonho esquecido. Ao ver-me passear por ali, apesar de fraco e empoeirado me acenou. Aproximei-me mais para poder sonhar melhor e o sonho-menino abriu-me um sorriso de covinhas. Estava sentindo-se revigorado. Levantou-se do canto, estendeu suas mãos para mim e convidou-me a passear pelas ruas de céu alaranjado. 

Caminhamos lado a lado e eu pensava em como somos capazes de esquecer sonhos sem ao menos tentarmos traze-los a realidade. Ele estava tão orgulhoso de se sentir lembrado que apertava minha mão com suas mãos gordinhas e suspirava.  E me dei conta de que ele falava. 

Me contava sobre lugares mágicos e cores brilhantes combinadas sem frescuras. Falou-me de tardes com chá e de músicas inspiradas nos som das coisas. Relatou-me de construções românticas e paisagens místicas. Homens escondidos em véus e mulheres de olhares marcantes e de repente eu estava caminhando com meu sonho pelas ruas de Marrocos. 

O menino apressava-se entre as lojas escolhendo sedas e tapetes, cheirando e experimentando especiarias, barganhando jóias e artigos decorativos. E o céu já era azul e o mar movia suave suas águas aos nossos pés quando novamente me dei conta de que minha realidade é centenas de quilômetros dos homens sérios de Marrocos.

O menino estava vibrante porque eu me lembrara e me disponibilizara por ele. E me abraçou docemente agradecido por estar ali, apesar da hora, do tempo, da realidade, do risco... E sorrindo em covinhas correu para mar dizendo que voltaria para Marrocos. E que esperaria lá que num outro amanhecer eu o encontrasse nas ruas do mercado, vestida de sedas coloridas que relembrassem um céu de amanhecer alaranjado, cheirando a pimenta-rosa e falando de mistérios escondidos na fumaça de narguilé. Da areia acenei as gargalhadas para o sonho-menino vendo-o sumir no mar, enquanto um sol de amarelo-lúcido me abraçou convidando-me a mais um dia entre o sonho e a realidade.
(Waleska Zibetti, in "Amanhecer em Marrocos")


quinta-feira, 9 de julho de 2015

XXX

 
Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.
Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.
E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;
E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.

Bilac, Olavo. Antologia Poética - Porto Alegre, RS: L&PM, 2012. p. 45

quarta-feira, 8 de julho de 2015

O Chato e o Quadro




Na casa do Chato havia um Quadro antigo, um rosto de uma pessoa. Um dia o Chato, ao chegar à casa, disse ao Quadro:


- Eu sou a pessoa mais inteligente de todas, sei sobre tudo e todos. – O Quadro não respondeu nada. 


No dia seguinte disse a mesma coisa: 


- Eu sou a pessoa mais inteligente de todas, sei sobre tudo e todos. – O Quadro não disse nada outra vez. 


No terceiro dia o Chato repetiu a frase e o Quadro, para não perder o hábito, não disse nada. Após uma semana com essa rotina o Chato convenceu-se de que era a pessoa mais inteligente de todas. 

No fim de semana foi convidado para ir a um bar com um colega, o Chato aceitou e foi ao encontro. Começaram então a conversar sobre política, o colega possuía uma ideia um pouco diferente da ideia do Chato, este ficou irritadíssimo, pois não entendia como alguém poderia discordar dele, logo ele que era o ser mais inteligente de todos. O colega vendo uma possível briga mudou de assunto, começaram a falar sobre futebol. O Chato mais uma vez se mostrou superior e se frustrou ao ver que o colega não compartilhava da mesma opinião. 

Numa ultima tentativa de manter a amizade o colega sugeriu que falassem de música. No meio da conversa o Chato disse uma coisa errada e o colega, sem maldade, o corrigiu. O Chato não conseguiu aceitar a derrota e começou a gritar, a tentar humilhar o colega, mas nada adiantava. O colega, por fim, o alertou:


- Quando gritamos para convencer alguém, o convencemos, apenas, de que somos idiotas. – O Chato enlouquecido de fúria virou a mesa e foi embora. 


Chegando à casa, gritou com o Quadro:


- Você! A culpa é sua! Por que não me avisou que eu não sou tão sábio? – O Quadro ignorou a pergunta assim como ignorou tudo durante uma semana inteira. Enfurecido pela loucura pegou o Quadro e o arremessou numa outra parede. Havia se convencido de que estava certo, mas nunca correu atrás de algo para realmente estar certo. 


Às vezes nos convencemos de que somos algo, mas não tentamos de fato ser algo. Às vezes acreditamos que chegamos a um estado de perfeição e que não precisamos melhorar em nada. 

Há muitas pessoas que acreditam que são melhores porque conversam com quadros, mas esquecem que nem sempre quem cala consente, às vezes é preguiça de arrumar confusão.  
(João V. Zibetti, in "O Chato e Quadro")