quarta-feira, 8 de julho de 2015

O Chato e o Quadro




Na casa do Chato havia um Quadro antigo, um rosto de uma pessoa. Um dia o Chato, ao chegar à casa, disse ao Quadro:


- Eu sou a pessoa mais inteligente de todas, sei sobre tudo e todos. – O Quadro não respondeu nada. 


No dia seguinte disse a mesma coisa: 


- Eu sou a pessoa mais inteligente de todas, sei sobre tudo e todos. – O Quadro não disse nada outra vez. 


No terceiro dia o Chato repetiu a frase e o Quadro, para não perder o hábito, não disse nada. Após uma semana com essa rotina o Chato convenceu-se de que era a pessoa mais inteligente de todas. 

No fim de semana foi convidado para ir a um bar com um colega, o Chato aceitou e foi ao encontro. Começaram então a conversar sobre política, o colega possuía uma ideia um pouco diferente da ideia do Chato, este ficou irritadíssimo, pois não entendia como alguém poderia discordar dele, logo ele que era o ser mais inteligente de todos. O colega vendo uma possível briga mudou de assunto, começaram a falar sobre futebol. O Chato mais uma vez se mostrou superior e se frustrou ao ver que o colega não compartilhava da mesma opinião. 

Numa ultima tentativa de manter a amizade o colega sugeriu que falassem de música. No meio da conversa o Chato disse uma coisa errada e o colega, sem maldade, o corrigiu. O Chato não conseguiu aceitar a derrota e começou a gritar, a tentar humilhar o colega, mas nada adiantava. O colega, por fim, o alertou:


- Quando gritamos para convencer alguém, o convencemos, apenas, de que somos idiotas. – O Chato enlouquecido de fúria virou a mesa e foi embora. 


Chegando à casa, gritou com o Quadro:


- Você! A culpa é sua! Por que não me avisou que eu não sou tão sábio? – O Quadro ignorou a pergunta assim como ignorou tudo durante uma semana inteira. Enfurecido pela loucura pegou o Quadro e o arremessou numa outra parede. Havia se convencido de que estava certo, mas nunca correu atrás de algo para realmente estar certo. 


Às vezes nos convencemos de que somos algo, mas não tentamos de fato ser algo. Às vezes acreditamos que chegamos a um estado de perfeição e que não precisamos melhorar em nada. 

Há muitas pessoas que acreditam que são melhores porque conversam com quadros, mas esquecem que nem sempre quem cala consente, às vezes é preguiça de arrumar confusão.  
(João V. Zibetti, in "O Chato e Quadro")

terça-feira, 7 de julho de 2015

Para Woo Foo!





Em tempos onde intolerância parece ser a palavra do momento, um filme que fala de aceitação. "Para Woo Foo! Obrigada por tudo Julie Newmar", é uma produção Norte Americana de 1995 que conta a história de três Drag Queens que atravessam de Nova York à Hollywood em Cadillac conversível. A história poderia ser só mais uma trama gay se eles não tivessem um pequeno problema no motor que o fizeram parar numa cidadela de interior chamada Snyderville onde a trama ganha corpo.

Uma atuação incrível de três grandes nomes do cinema: John Leguizamo de filmes como "Efeito Colateral" e "Assalto à 13ª DP"; Wesley Snipes de "Blade" e "Os Mercenários 3" e o inesquecível Patrick Swayze e "Dirty Dance" e "Ghost".

A história é gostosa, A trama é envolvente e encantadora. Um cidade inteira se rende a elegância de três extravagantes visitantes em uma hora e meia de risos e torcidas.

Para quem curte curiosidades cinematográficas, ficam essas a respeito de "Para Woo Foo!". 


1- O autógrafo de Julie


O título do filme vem de uma foto autografada por Julie Newmar vista pelo roteirista Douglas Carter Beane em um restaurante chinês localizado na Time Square, em Nova York, em meados dos anos 80.

2- Atores cotados


Mel Gibson chegou a considerar a possibilidade de interpretar Vida, personagem que ficou com Patrick Swayze.

Gary Oldman recebeu uma proposta para interpretar um dos personagens principais, mas abriu mão do papel por não querer interpretar outro personagem que usava uma pesada maquiagem, após a experiência que teve com "Drácula de Bram Stocker".

3- Prêmios


GLOBO DE OURO
1996
Indicações
Melhor Ator - Comédia/Musical - Patrick Swayze
Melhor Ator Coadjuvante - John Leguizamo


segunda-feira, 6 de julho de 2015

Valsa Para Uma Menininha


Menininha do meu coração
Eu só quero você a três palmos do chão.
Menininha não cresça mais não,
Fique pequenininha na minha canção.
Senhorinha levada, batendo palminha,
Fingindo assustada do bicho-papão.

Menininha, que graça é você,
Uma coisinha assim, começando a viver.
Fique assim, meu amor, sem crescer,
Porque o mundo é ruim, é ruim, e você
Vai sofrer de repente uma desilusão
Porque a vida somente é seu bicho-papão.

Fique assim, fique assim, sempre assim
E se lembre de mim pelas coisas que eu dei.
E também não se esqueça de mim
Quando você souber, enfim,
De tudo que eu guardei.

(Toquinho / Vinícius de Moraes)

domingo, 5 de julho de 2015

O que os homens não gostam - Correio feminino (Clarice)

por Gabriella Gilmore
Recebi esses dias um vídeo com um depoimento de um pastor no qual falava sobre como a sociedade anda desmasculinizando os homens. Eles estão perdendo a virilidade, a macheza, a voz ativa. Grandes sábios do passado diziam: Seja homem! Porque você vai ser pai, vai ser rei, porque você vai ter um ofício, um papel a desempenhar. Porém, nos dias de hoje, as pessoas acham tudo muito normal.
"Homens" preferem mulheres vulgares. Gostam de namorar duas, três pessoas ao mesmo tempo. Acham babaquice abrir porta do carro, carregar sacolas da feira para elas ou pagar algum jantar romântico.
Lendo Clarice esses dias para a maratona #CorreioFeminino, uma mulher com crença sem nome, sábia, e a frente de seu tempo, escreveu um texto que será o tema de hoje.
Espero que isso possa plantar um desejo de resgate dos bons valores tanto para nós mulheres como para nossos homens.

O que os homens não gostam

Uma coisa é certa: nós, mulheres, desejamos e temos o dever de agradar aos homens. Ou, pelo menos, ao homem que amamos, não é verdade?
Se um homem elogia um penteado nosso, um vestido, um tom de esmalte, é porque esse detalhe realmente nos embelezou, pois, de uma coisa podemos ter certeza: nesse assunto, o homem é sincero, não há despeito nem "veneno" em elogio seu.
Assim sendo, a preferência masculina deve ser levada em consideração sempre que nos vestirmos e enfeitarmos. A título de curiosidade e também de orientação para algumas inexperientes, dou aqui uma pequena lista de coisas, que muitas de nós usamos ou fazemos, e que um inquérito revelou ser "aquilo que os homens detestam":
1º - vestido muito justo; 2° - pintura excessiva, principalmente nos olhos; 3° - modas sofisticadas e complicadas; 4° - saltos muito altos; 5° - batom exagerado desenhando nova boca e exótica; 6° - meias com costura torta; 7° - excesso de jóias; 8° - decote exagerado; 9° - moça desembaraçada demais; 10° - mulher sabichona.
Se vocês duvidaram dessas conclusões, façam com seus noivos, maridos e irmãos uma investigação particular. Ficarão admiradas como, nesses casos, estão de acordo todos os homens.
Vejamos: será que alguma de nós incorre em qualquer dessas "ojerizas" masculinas? Então, é tempo de corrigir-nos. Chamar a atenção não é a finalidade de uma mulher elegante e inteligente. Mas sim ser atraente e agradar aos homens. Estou certa?

sábado, 4 de julho de 2015

Na Madrugada: Arrependimentos.



O telefone toca no meio da madrugada e uma voz conhecida me pergunta:


__ Como você consegue?

Entre o sonho e uma realidade surreal tento entender a pergunta ou, pelo menos encaixa-la numa razão plausível. Mas não há nenhuma justificativa.

__ Consigo o que?
__ Consegue viver como se nada tivesse acontecido. 

Sento na cama e esfrego os olhos. Fico pensando no que exatamente aconteceu. Chego a pensar que ainda estou dormindo. 

__ Do que você está falando? Você bebeu?
__ Não. Eu acho que me perdi. Estou confuso demais. Não sei o porque de ligar para você. Eu estou ficando louco. 

Ignoro tudo dito anteriormente. 

__ Está tudo bem aí?
__ Não. Nada está bem. Você não está aqui. Nada está no lugar. Eu achei que eu pudesse, sabe? Achei que era forte. Eu não sou! E agora está doendo! Caralho, está doendo demais. E eu não sei o que fazer ou pensar. Eu queria saber como você conseguiu mudar tudo, como você superou tudo, como você consegue ser feliz. Eu acho que ainda amo você.

As informações saíram de enxorada. Parecia que ele precisava vomitar aquelas emoções  que, provavelmente, lhe embrulhavam o estômago.  Eu entendia aquilo muito bem e fiquei em silêncio deixando que ele aliviasse aqueles sentimentos. E o silêncio se estendeu mesmo depois do desabafo.

__ Fala algo. Pelo amor de Deus! Me diz qualquer coisa. Você sempre sabe o que falar. Me ajuda!
__ Eu nunca mais estarei aí. Então, reorganize o espaço que deixei. Plante uma samambaia e coloque no meu lugar. Se você não é forte como pensava, não posso fazer nada por você. Eu estou na posição contrária. Eu sou forte, mas não sabia disso. E não sinto nem pena do seu desabafo. Eu não sinto nada. Pense em fazer algo que lhe preencha o tempo e a vida. Outras mulheres como você fazia antes quando eu ficava esperando por você. Eu consegui ir adiante porque fui eu quem apanhei, chorei, esperei... Você foi eficiente em me ensinar a ser só. Aprendi. E quanto ao amor... Bom, eu sei que não te amo mais. Dei a outra pessoa o meu amor. 

Houve um silêncio pesado.

__ Quem é ele?
__ Ela?
__ O que?
__ Dei o meu amor a uma mulher, querido.
__ PORRA!
__ Dei o meu amor a mulher que ficou comigo quando você se foi. Dei o meu amor para mim. 

Mais um pouco de silêncio. 

__ Você é foda! Será que um dia...?
__ Nunca!
__ Tchau!
__ Até. 
(Waleska Zibetti, in "Na Madrugada: Arrependimentos")

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Na Estação



Ele estava lá como sempre esperando um trem, um trem que nunca passava, se passava não pegava.  Ele já era velho, sempre de pernas cruzadas, com roupas pretas, sempre lendo o jornal, sempre consultando seu relógio de bolso.

      Um dia chegou um trem e desse trem saiu um jovem, nessa hora o homem se endireitou. O garoto sentou no mesmo banco que o velho. Disfarçadamente o velho puxou conversa com o garoto. O garoto, que já não era tão moço, devia ter uns 29 ou 30 anos, mesmo assim o velho o chamou.

- Ei rapaz! – o garoto não percebeu que o velho o estava chamando, se percebeu não deu atenção.  O velho se calou.

Pouco tempo depois o garoto começou a olhar assustado para todos os lados. Não havia ninguém, não havia relógio e o pior não havia trem. Espantado o garoto se dirigiu ao velho.

- Ei senhor!  - o velho virou a cabeça calmamente. – O senhor teria horas, para me informar?

- Sim. – pegou seu relógio e olhou. – São 12h45min, por quê?
- Ah, estou preocupado.

- Preocupado? Com sua esposa?

- Não. Estou com medo de ficar atrasado.

- Atrasado? Para que?

- Meu trabalho. - O velho ficou pensativo.

- Então tá indo trabalhar, né? De quê?

- Sou empresário. Não posso me atrasar.

- A única pessoa que não pode se atrasar é a morte.

- Como?

- Por que tanta presa se a vida é bela e o tempo é curto?

- Ora, preciso ganhar dinheiro.

- Somente isso?

- Sim.

- E o resto?

- Que resto?

- A amizade, o amor, a diversão, a felicidade.

- Não preciso, sou feliz com o que tenho.

- Quando você ficar velho e o dinheiro ser uma coisa que já está sem utilidade, pois já tem tudo, o que você vai fazer?

- Vou descansar. – O garoto parecia orgulhoso.

- Sozinho? Meu filho, já faz três semanas que eu estou esperando por você aqui. Vim para te dizer que você não vai poder ficar sozinho tanto tempo. Saia um pouco mais, brinque um pouco mais, ame um pouco mais, viva mais.

- Mas eu vivo. E vivo bem com meu dinheiro e minha casa.

- Mas não tem ninguém para compartilhar, não tem um amigo para chamar, não tem uma vida que possa se orgulhar. O mundo é uma grande torre de relógio. Cada pessoa funciona como uma engrenagem, todas tem que estar ligadas para que o mundo funcione direito.

- Não preciso de ninguém. Sou bom do jeito que sou.

- Você precisa se desprender do seu trabalho. Escute a floresta, veja o mar, cante para o pôr do sol, saia com os amigos, viva para sua namorada. – Uma moça nova entrou na estação. Usando roupas vermelhas se sentou em um banco separado. O silencio dominou a estação.  A menina toda hora lançava olhares meigos para o rapaz, que nem dava atenção. O velho perdeu a paciência e cutucou o rapaz.

-Anda. Você precisa, um dia quando for velho só terá seus netos.

-Como eu...

- Seja você mesmo.  – O rapaz se aproximou e conversaram.  As horas se passaram e o garoto perdeu o seu trem, queria continuar aquela conversa. No alto do final da tarde, um beijo saiu. O velho olhou para eles e depois para a colina de onde o trem vinha. Seu trem chegava à estação.

Quando o trem chegou ele foi até ele, era um trem com somente um vagão.  O trem saiu da estação e o velho se pendurou no ferro para dar “adeus”.
- Adeus Mario, Adeus Joana. – O garoto e a moça se assustaram como ele sabia o nome deles?

- Espera se sabe quem nós somos. Quem é você?

- A única pessoa que não pode se atrasar. Eu sou a Morte.   – Sua mão ganhou virou um esqueleto assim como seu rosto, ele sacudia a mão em um profundo “adeus”.  – Au revoir, meu amigo, viva mais essa sua única vida. Não espere eu voltar para lamentar, faça.  O trem sumiu a fazer a primeira curva, dali em diante Mario aprendeu uma lição.

“...O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído...”
(João V. Zibetti, in “Na Estação”)

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Memórias de uma Gueixa

Sinopse: "Memórias de uma Gueixa" é um romance fascinante, para ser lido de várias maneiras: como um mergulho na tradicional cultura japonesa, ou um romance sobre a sexualidade, e ainda, como uma descrição minuciosa da alma de uma mulher já apresentada por um homem. Seu relato tem início numa vila pobre de pescadores, em 1929, onde a menina de nove anos é tirada de casa e vendida como escrava. Pouco a pouco, vamos acompanhar sua transformação pelas artes da dança e da música, do vestuário e da maquilagem; e a educação para detalhes como a maneira de servir saquê revelando apenas um ponto do lado interno do pulso - armas e mais armas para as batalhas pela atenção dos homens. Mas a Segunda Guerra Mundial força o fechamento das casas de gueixas e Sayuri vê-se forçada a se reinventar em outros termos, em outras paisagens.

Este romance que gerou um dos filmes mais enigmáticos e lindos que já assisti. Neste romance, a história de Chiyo Sakamoto é revelada. Nunca antes a vida particular de uma gueixa fora contada, exceto quando Sayuri decidiu já se fazer chegada a hora. Com a mãe doente e o pai idoso o bastante para não dedicar o restante da vida a mais ninguém, a pequena japonesa, juntamente com a irmã mais velha, Satsu, não teria vez de sobreviver à própria mercê.
 
"O meu pai costumava dizer que a minha irmã era como uma árvore, que se agarra firmemente à terra com as suas raízes. Eu era como a água, que percorre o seu caminho sem que nada a detenha. Se encontrar um obstáculo, desvia-se até poder avançar novamente." (Chiyo Sakamoto)
 
Em Memórias de uma Gueixa, o autor, apresenta-nos a beleza da cultura japonesa em uma trama de sensualidade e audácia. A pequena menina  torna-se uma grande mulher, e neste enredo nos perdemos entre intrigas e desafios, reencontrando-nos apenas na força de Chiyo, que, após ser vendida ao  Okiya Nitta, teve de sufocar-se por inteiro para, aos poucos, fazer nascer seu novo eu: a gueixa Sayuri Nitta. 
 
"A dor é uma coisa muito esquisita; ficamos desamparados diante dela. É como uma janela que simplesmente se abre conforme seu próprio capricho. O aposento fica frio, e nada podemos fazer senão tremer. Mas abre-se menos cada vez, e menos ainda. E um dia nos espantamos porque ela se foi." (Chiyo Sakamoto)
 
 
A palavra “gueixa” significa “artista”, logo, o treinamento árduo de uma aprendiz é composto desde a dança até o doce ato de servir chá. Ao ouvir que gueixas divertem homens, pode pecar quem as imagine como prostitutas. A bem da verdade, uma gueixa só vem a ter relação sexual com o seu Danna, que é o homem que se dispõe a sustentá-la pelo resto da vida. Para os demais homens, elas não passam de musas de inspiração, beldades sedutoras, companhias para casas de chá e festas.
É um dos filmes e livros que vale a pena descobrir pela maneira com que foi posto e a veracidade de todas as ações e momentos retratados pelos ares misteriosos do oriente.
 
Segue trailer
 
Até o Proximo texto
Au Revoir
 

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Discrição - Correio feminino (Clarice)


por Gabriella Gilmore
Neste mês vamos estrear com alguns textos de Clarice Lispector na época em que ela escrevia para jornais.
Teremos várias dicas de beleza interior, pensamentos, humor, vindo de uma grande pessoa no qual nós do #CLV admiramos muito.
Fique ligado!!
E o convite ainda está no facebook para escritores que desejam ter seus textos publicados no Clube.
Estamos te esperando.


DISCRIÇÃO

Você naturalmente sabe que chamar a atenção não é de bom-tom e dá sempre uma impressão muito má da mulher. Seja pela roupa escandalosa, pelo penteado exótico, pelo andar, pelos modos, pela risada grosseira, seja, enfim, de que maneira for a mulher que chama a atenção sobre a sua pessoa o único troféu que merece é o da vulgaridade. A mulher elegante é discreta. Sua superioridade está nos detalhes cuidados na harmonia das cores, no bom gosto dos acessórios. Se ela é também bonita, a beleza é por si um ponto de atração para os olhos, sem precisar ser ostentada.
Os homens, geralmente muito discretos, detestam as mulheres que se destacam demais, onde quer que apareçam. Não apenas pela sua própria maneira de ser, mas também por uma questão de vaidade masculina, já que não lhes é agradável ficar ofuscados ou relegados a um plano inferior.
A mulher inteligente procura, portanto, a discrição como regra básica de toda a sua vida. Discrição no vestir-se, no maquilar-se, nos gestos, na voz e até mesmo nas opiniões.
Seja discreta, e veja como os que a cercam tomarão a iniciativa de colocá-la em lugar de destaque, desde que você possua qualidades para isso.

terça-feira, 30 de junho de 2015

A boa vista



Era uma tarde triste, mas límpida e suave...
Eu — pálido poeta — seguia triste e grave
A estrada, que conduz ao campo solitário,
Como um filho, que volta ao paternal sacrário,


E ao longe abandonando o múrmur da cidade
— Som vago, que gagueja em meio à imensidade,—
No drama do crepúsculo eu escutava atento
A surdina da tarde ao sol, que morre lento.


A poeira da estrada meu passo levantava,
Porém minh'alma ardente no céu azul marchava
E os astros sacudia no vôo violento
— Poeira, que dormia no chão do firmamento.


A pávida andorinha, que o vendaval fustiga,
Procura os coruchéus da catedral antiga.
Eu — andorinha entregue aos vendavais do inverno,
Ia seguindo triste p'ra o velho lar paterno.


Como a águia, que do ninho talhado no rochedo
Ergue o pescoço calvo por cima do fraguedo,
— (Pra ver no céu a nuvem, que espuma o firmamento,
E o mar, — corcel que espuma ao látego do vento... )
 
Longe o feudal castelo levanta a antiga torre,
Que aos raios do poente brilhante sol escorre!
Ei-lo soberbo e calmo o abutre de granito
Mergulhando o pescoço no seio do infinito,


E lá de cima olhando com seus clarões vermelhos
Os tetos, que a seus pés parecem de joelhos! ...


Não! Minha velha torre! Oh! atalaia antiga,
Tu olhas esperando alguma face amiga,
E perguntas talvez ao vento, que em ti chora:
"Por que não volta mais o meu senhor d'outrora?
Por que não vem sentar-se no banco do terreiro
Ouvir das criancinhas o riso feiticeiro,
E pensando no lar, na ciência, nos pobres
Abrigar nesta sombra seus pensamentos nobres?


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Onde estão as crianças — grupo alegre e risonho
— Que escondiam-se atrás do cipreste tristonho ...


Ou que enforcaram rindo um feio Pulchinello,
Enquanto a doce Mãe, que é toda amor, desvelo
Ralha com um rir divino o grupo folgazão,
Que vem correndo alegre beijar-lhe a branca mão?..."

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É nisto que tu cismas, ó torre abandonada,
Vendo deserto o parque e solitária a estrada.
No entanto eu — estrangeiro, que tu já não conheces —
No limiar de joelhos só tenho pranto e preces.


Oh! deixem-me chorar!...Meu lar... meu doce ninho!
Abre a vetusta grade ao filho teu mesquinho!
Passado — mar imenso!... inunda-me em fragrância!
Eu não quero lauréis, quero as rosas da infância.


Ai! Minha triste fronte, aonde as multidões
Lançaram misturadas glórias e maldições...
Acalenta em teu seio, ó solidão sagrada!
Deixa est'alma chorar em teu ombro encostada!


Meu lar está deserto... Um velho cão de guarda
Veio saltando a custo roçar-me a testa parda,
 
Lamber-me após os dedos, porém a sós consigo
Rusgando com o direito, que tem um velho amigo...
Como tudo mudou-se! ... O jardim 'stá inculto
As roseiras morreram do vento ao rijo insulto...
A erva inunda a terra; o musgo trepa os muros
A urtiga silvestre enrola em nós impuros
Uma estátua caída, em cuja mão nevada
A aranha estende ao sol a teia delicada! ...
Mergulho os pés nas plantas selvagens, espalmadas,


As borboletas fogem-me em lúcidas manadas ...
E ouvindo-me as passadas tristonhas, taciturnas,
Os grilos, que cantavam, calaram-se nas furnas ...


Oh! jardim solitário! Relíquia do passado!
Minh'alma, como tu, é um parque arruinado!
Morreram-me no seio as rosas em fragrância,
Veste o pesar os muros dos meus vergéis da infância,
A estátua do talento, que pura em mim s'erguia,
Jaz hoje — e nela a turba enlaça uma ironia!...
Ao menos como tu, lá d'alma num recanto
Da casta poesia ainda escuto o canto,
— Voz do céu, que consola, se o mundo nos insulta,
E na gruta do seio murmura um tremo oculta.


Entremos! ... Quantos ecos na vasta escadaria,
Nos longos corredores respondem-me à porfia! ...


Oh! casa de meus pais! ... A um crânio já vazio,
Que o hóspede largando deixou calado e frio,
Compara-te o estrangeiro — caminhando indiscreto
Nestes salões imensos, que abriga o vasto teto.


Mas eu no teu vazio — vejo uma multidão
Fala-me o teu silêncio — ouço-te a solidão! ...
Povoam-se estas salas...


E eu vejo lentamente
No solo resvalarem falando tenuemente
Dest'alma e deste seio as sombras venerandas
Fantasmas adorados — visões sutis e brandas...
Aqui... além... mais longe... por onde eu movo o passo,
Como aves, que espantadas arrojam-se ao espaço,
Saudades e lembranças s'erguendo — bando alado —
Roçam por mim as asas voando pra o passado. 

Alves, Castro. Espumas Flutuantes. L&PM Pocket. 1997, 144p.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Para Todos



Lá está ela com seus olhos presos no mar. Olhos vazios a encarar o mar calmo. E Chronos, por piedade, recorta o tempo para prendê-la em algum pensamento feliz. Já faz tanto tempo que ela não vinha... Hélio aproxima-se tentando devolver um pouco de calor ao seu olhar frio. Onde parou o sorriso que a acompanhava nesses momentos junto ao mar? Poseidon proibiu os serenos de cantar. O silêncio da mulher há de ser respeitado, pois é silêncio de dor. E o mar muda de cor e ela nem percebe. Calíope beija o rosto da amiga na tentativa desesperada de acordá-la. E Érato beija-lhe a boca. Contudo, seus olhos estão pousados em algum tipo de mistério particular e logo tudo se cobre de negro. Selene toma lentamente seu lugar no céu. E finalmente ela respira mais fundo buscando forças. Encara o céu. Selene sorri argêntea e solidária. Conhece bem os conflitos da mulher, ela própria é mulher também. "Não há paz na noite que se inicia", anunciam as ondinas ao tocarem a areia. "Mas quem precisa de paz?", responde Éolo da beira do cais. E Psiquê abraça a mulher a fazendo caminhar sem que a rua a perceba. Porque ninguém consegue entender que as Erínias, apesar de tudo, também são capazes de amar.
(Waleska Zibetti, in "Para Todos")