domingo, 3 de maio de 2015

Eu sei, mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Colasanti, Marina. "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

Até o próximo texto
Au Revoir!

sábado, 2 de maio de 2015

O LUTO - E.B

por Gabriella Gilmore

Ela acordou com o som de gritos de dor.
Não uma dor qualquer. Uma dor que ardia a alma.
Subiu as escadas apressada, achando que os gritos provia de alguma violência física.
Ainda desorientada com o susto daquele grito, ela entendeu que sua irmã perdia uma pessoa muito valiosa em sua vida.
Perdia uma ova.
Você não pode "perder" uma pessoa como se perde a chave de casa.
A cara da morte, como eu perguntava em um dos posts do Clube, não é bela e romântica para todo mundo.
Qual é o problema dela? Da morte? Qual é o seu problema, Sra Morte?
Na verdade, a pergunta é o inverso.
Qual é o nosso problema quanto a lidar com essa passagem?
O medo de um céu, de um inferno? O medo de não ter se despedido? O medo da pessoa ter ido embora decepcionada com você? Medo de ela ter sofrido uma dor antes de partir?
Qual é o nosso problema? Qual é o seu problema em compreender isso?
Nascemos sem saber nada. Podemos morrer ainda sem saber muita coisa. Porém, a morte, é uma certeza que qualquer ser vivo tem. ELE sabe. Por que não aceita?
Existe resposta e solução para tudo, até para a morte.
Medo de um céu e um inferno? Cuide de sua alma para que ela tenha um lugar aonde repousar.
Medo de não se despedir da pessoa querida? Cuide para que tenha todos os seus relacionamentos sadios, sem mágoas, sem decepções, para que nunca tenha o sentimento de "eu não tive a chance...".
Medo dela ter sofrido na passagem? Se você crê em um Deus bondoso, se você crê que a pessoa partindo era uma pessoa bondosa aos olhos do Pai, não se preocupe com isso. Não cabe a você.
Precisamos ter em mente que amar nunca é demais. Nunca troque o certo pelo duvidoso. O remorso é um sentimento que nos corroí aos poucos. Se você faz parte de alguém, seja realmente uma parte, e não uma metade vazia. Sim, metade vazia!
O mal do ser humano é que só sente depois que perde. Só se lembra quando não tem mais acesso. Só perdoa quando não possui mais a oportunidade de falar do perdão. Só sabe pedir. Nunca agradece.
"Então louve, simplesmente louve

Tá chorando, louve, precisando, louve
Tá sofrendo, louve, não importa, louve
Seu louvor invade o céu".

O agradecer aos céus não é uma prática somente do crente. É e deve ser uma prática do ser humano. Precisamos refletir sobre isso. Cultivar o sentimento de gratidão. Praticar o "polianismo". Chorar menos. Sorrir mais. E nunca esquecermos de que estamos aqui a passeio. Viva! Porque sobreviver cansa. Por isso VIVA!

E.B (R.I.P)

Marit Larsen - pop/folk/indie music


Dicas de músicos no #CLV
por Gabriella Gilmore



Esse post é um republicamento, porém a dica musical aqui retratada é atemporal.


Nascida na cidade de Lorenskog, Noruega, a pequena Marit Elizabeth Larsen, começou cedo a mostrar talento pela musica. Aos cinco já cantava em festivais locais, mas também não era de se estranhar. Seu pai toca violoncelo na orquestra filarmônica de Oslo e sua mãe é pianista, confirmando ai, que sua musicalidade é genética.
Aos 13 ela já estava gravando músicas pela Atlantic Records, juntamente com sua amiga Marion Raven, formando assim a famosa dupla norueguesa M2M. Viajaram o mundo todo divulgando o primeiro álbum Shade of purple. Com o sucesso deste, gravaram o segundo, The big room, mas com poucas vendagens, a gravadora cancelou o contrato, oferecendo em seguida 1 milhão para Marion gravar um cd solo.
Aos 18 anos, quando isso aconteceu, Marit aproveitou para estudar,  viver uma vida menos agitada e cheia de amigos, já que na época da banda, ela quase não tinha tempo para tal.
Muitos, inclusive eu, achamos que ela havia abandonado a musica, e muito deve ter passado pela cabeça dos fans, de que talvez, Marit não fizesse sucesso sozinha, pois para muitos, ela sempre foi apenas a violonista e “back vocal” da dupla. Para ser mais clara, podemos dar como exemplo a nossa ex-dupla Sandy e Jr. Preciso dizer mais?
Mas quem disse que peixe vive fora d’agua? O seu silêncio valeu a pena, pois ela pode fazer uma "big reflexion" sobre tudo. Sobre a carreira, a musica, sobre escrever e o porquê dessa arte. Se ela a fazia por impulso, para agradar as pessoas, ou se era por que amava o trabalho.
E a prova de toda sua introspecção, podemos ver o seu primeiro álbum independente chamado Under the surface lançado em 2006, com mais de 50 mil copias só na Noruega, rendendo assim seu primeiro disco de platina.
A repercussão foi muito boa, pois ela voltou madura, com mais musicalidade e independência. Gosta de criar musicas sem regras e seu estilo seria Folk? Country? Um pop acústico! Sem rótulos.
Com uma voz doce e envergonhada, Marit não cansa de sorrir. Você pode sentir sua humildade e encanto em seus vídeos amadores e rodou bastante divulgando um de seus singles chamado If a song could get me you.
Já ouviu bandolin? banjo? Ela não exita  em acrescentar sonoridade diferentes em suas canções. E se você gosta do belo, não deixe de ouvir Marit Larsen.

O público norueguês exalta Marit Larsen ao chamá-la de "A princesa do pop Nórdico" num artigo publicado no último dia 14/10/2008.

"Somos, provavelmente, dos muitos que tinham grandes expectativas sobre o sucessor do álbum debut solo de Marit Larsen "Under the surface" (2006). Portanto, é um prazer constatar que ela matém com "The Chase" o direito à primeira princesa no trono pop nórdico."

No mesmo artigo, surgem elogios à sua música como "cativante", "inteligente", "direto" e "Doce-amargo", e as compara ao ABBA e Dolly Parton, mas frizando bem a originalidade na criação das músicas dela.

A sugestão de música é o hit de seu quarto álbum.
"I don't want to talk about it".



sexta-feira, 1 de maio de 2015

Para Sempre



__ Interessante! - Assim ele me definiu no fim da noite quando eu e a taça de vinho repousávamos em silêncio do lado oposto da mesa e dos pensamentos dele.  Eu o observava talvez buscando algum tipo de definição para ele, também. E de repente notei que tinha olhar reticente. - Está tentando entender o "interessante"? 

__ Não! Estou tentando uma palavra para você. 

__ Achou alguma?

__ Austero. - E ele franziu a testa, não sei se ele buscava uma explicação ou se não achou pertinente a definição dada. Depois recostou-se na parede com olhar perdido. E houve alguns minutos silenciosos. Depois ele olhou-me tão diretamente nos olhos que eu não pude desviá-los. Eu deveria dizer algo ou talvez ele. 

__ Austero igual a chato? 

__ Austero igual diferente de mim.

__ Fala porque sorrio pouco?

__ Falo pela loucura. 

__ Você sabe que de louca, você nada tem. É a pessoa mais coerente e consciente que conheço. Só que sem carregar o peso dessa coerência nos ombros. E isso a deixa leve e ainda mais interessante. Mas por que "sóbrio"?

__ Porque você, em todo o tempo manteve-se centrado quando seus gestos indicavam descompasso. Porque você não perdeu a linha em nenhum momento, mesmo quando seus olhos faiscaram de ódio. Você vai ao extremo e antes que o ultrapasse, volta uma espécie de equilíbrio confortável. - E novamente ele recostou a cabeça e perdeu-se em pensamentos. 

__ Você passou esse tempo todo me analisando, enquanto eu achava que você nem me ouvia. Você é realmente muito interessante. - E voltando novamente seus olhos para os meus. - Você será para sempre minha. 

__ Para sempre não existe! E eu não sou de ninguém!

__ Para sempre existe sim. Você só não precisa estar fisicamente nele. E você é minha. Porque sou dono de meus pensamentos e eu vou levar você dentro deles. - Ele havia me silenciado. Eu que sempre tenho resposta para tudo, nada pude dizer. Então, ele se levantou sorrindo. Estendeu a mão para mim. De pé diante um do outro sem nada dizer. Eu não conseguia pensar em nada coerente. Ele me sorri. E eu nem sei se sorri de volta. - Vem comigo!

__ Para onde? - E de repente senti-me tão pequena e débil por ter dito aquilo.

__ Ser para sempre num momento de nós dois. 

Sorri. E entendi. E em algum momento de uma noite. Um para sempre se repete numa cama de motel.  
(Waleska Zibetti, in "Para Sempre")

quinta-feira, 30 de abril de 2015

O Fabuloso destino de Amelie Poulain


Toda a narrativa é permeada por uma lógica do absurdo. Absurdo que serve nunca para causar estranhamento, pensamento crítico, mas apenas para entreter o espectador com nonsenses inócuos. A história da menina tímida que vive isolada pelos pais é salpicada de pequenas imagens que buscam apenas um desenfreado esvaziamento dos sentimentos. Alienado da vida cotidiana, o filme se mostra como a tentativa (infelizmente, alcançada) de transformar todos os eventos em uma ferramenta narrativa para fazer rir, para fazer gracinhas de forma açucarada. Uma espécie de Poliana pós-moderna, a menina tem uma grande bondade no coração e resolve se dedicar à ajudar os outros em suas vidas, nas dificuldades alheias que ela identifica.
Sinopse: Após deixar a vida de subúrbio que levava com a família, a inocente Amélie muda-se para o bairro parisiense de Montmartre, onde começa a trabalhar como garçonete. Certo dia encontra uma caixa escondida no banheiro de sua casa e, pensando que pertencesse ao antigo morador, decide procurá-lo ­ e é assim que encontra Dominique (Maurice Bénichou). Ao ver que ele chora de alegria ao reaver o seu objeto, a moça fica impressionada e adquire uma nova visão do mundo. Então, a partir de pequenos gestos, ela passa a ajudar as pessoas que a rodeiam, vendo nisto um novo sentido para sua existência. Contudo, ainda sente falta de um grande amor.
É preciso sempre acreditar e se dar a chance de viver um novo, e quem sabe, verdadeiro amor.
 
Opinião: Aquele amor dos nossos avós...
Hoje em dia é raridade encontrar isso, pois as pessoas aprenderam a substituir as coisas quebradas, as relações frustadas por outras, assim sem ao menos parar e tentar consertar, acertar os erros e tentar novamente. 

Quando percebemos que há uma total indiferença pela Persona de quem se vê – o que vale é sua aparência física, a queda absurda, hilária... Filmes como A Poulain contribuem para que a imagem do cinema cada vez mais perca sua força, criando espectadores totalmente anestesiados. Todo o sofrimento sofrido pelas personagens são motivo de ironia rala que vende as boas intenções e o olhar cool descolado com que Amélie observa o mundo – fazendo o mundo, manipulando-o como bem quer. A aura de boa menina de Amélie é extrapolada em todas as cenas e defendida pela narrativa: seus atos bondosos têm bons resultados!
Os pequenos prazeres diários. Talvez a vida seja composta 20% de grandes momentos e 80% de rotina. As grandes viagens, os aumentos de salário, os nascimentos de filhos e os dias de casamento são o tempero da existência – o refrigerante de domingo numa vida de arroz e feijão. Mas arroz com feijão não pode ser bom?
Sempre achei que as pessoas que viviam mais tempo eram as que cultivavam pequenos prazeres nos jardins de suas vidas. Pessoas que envelheciam sem que sua única diversão fosse a televisão ou as visitas de sua família.
Acho que essa filosofia do prazer no cotidiano nos permite uma existência feliz mesmo que não tenhamos condições de vivenciar o fantástico. Podemos, como ensina a teoria do flow de Mihaly, procura criar o fantástico dentro de nós e das atividades que amamos.

Trailer:
 
 
E aí, pronto para criar um pequeno espaço para a felicidade na sua vida?
Assistam e me contem depois!
Até o próximo texto
Au Revoir

terça-feira, 28 de abril de 2015

A PROTAGONISTA

por Gabriella Gilmore


Numa sexta qualquer, resolvi pegar um ônibus e ir visitar alguns amigos na cidade de Poços de Caldas.
Encontrei sentada num banco, uma senhora dos cabelos brancos, da pele alva, olhando a plataforma 22.
Não sei porquê, mas me bateu uma imensa vontade de sentar-me ao seu lado e puxar papo.
Ali, eu descobri que fazia 34 anos que ela ia àquela rodoviária toda sexta-feira às 17hrs para esperar pelo único amor que ela teve na vida.
Perguntei se ela tinha filhos, marido, e ela balançou a cabeça afirmando.
A protagonista tinha quatro filhos e seis netos. O esposo morrera há cinco anos.
Eu não entendi.
Perguntei a ela quem seria a tal pessoa de 34 anos atrás que fez com que ela viesse religiosamente todos os dias para a rodoviária a espera de um encontro.
_ Ela se chamava Bel. Há 34 anos, eu combinei com essa amiga que tanto amei, de nos encontrarmos aqui.
Ela abaixou a cabeça com os olhos brilhando.
_ Mas... Eu indaguei baixinho.
_ Naquele tempo combinamos de ficarmos o final de semana juntas. Comprei algumas coisas que eu sabia que ela gostava, enchi a geladeira com coisas que eu não importava só para agradá-la, e dois dias antes, recebi um telefonema dizendo...
_ Ela morreu! Falei arregalando os olhos.
_ Não.
_ Mas o quê que aconteceu?
_ O destino nos separou numa forma injusta. Nunca consegui aceitar isso e desde aquele dia eu venho fazendo tudo que fiz naquela semana, na esperança de ...
Ela se levantou ansiosa e lenta, quando me perguntou:
_ Como se chama?
_ Isadora Martinez. E a senhora?
Ela subitamente se voltou para mim, me encarando nos olhos e perguntou:
_ Martinez de onde, minha filha?
_ Poços de Caldas.
A velha fraquejou, titubeando.
Levantei-me para segurá-la.
_ Isabel Martinez. Sussurrou a protagonista. Minha amiga de Poços.
Senti-me tonta ao escutar aquilo, porque seria coincidência demais aquela Isabel ser a minha mãe.
Abracei a protagonista, e disse:
_ Estou aqui. Vou te levar para casa.
Só assim, aquela senhora mudou sua trajetória triste. Só assim, ela percebeu que as histórias por algum motivo não se cruzaram.
Talvez nunca entendamos o motivo. As respostas nunca seriam o bastante.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Em Vermelho



Ela pintou a boca de vermelho e ficou quase imóvel esperando ele chegar e buscar. As horas passaram e ela ainda esperava por ele. A noite chegou e ela cansou de esperar. Fez um envelope de guardanapo branco e guardou dentro o beijo vermelho que ele não veio buscar. Dobrou com cuidado, lacrou com uma lágrima e foi dormir.
(Waleska Zibetti,  in "Em Vermelho")

domingo, 26 de abril de 2015

A Face da Morte - Texto Resposta a Gabriela Gilmore



Todos os dias menos um dia
Uma linha em direção ao inevitável
Milhões de células mortas maculam meu chão
Sou eu me despedindo
A morte chegará um dia no portão
Beijará minha boca apaixonada
Espero que seja numa tarde de verão
Quem vai chorar?

Todos os dias mais um dia
Uma ida para o desconhecido
Milhões de horas se passando
Enquanto gravo alguns instantes
A morte se sentará um dia em minha sala
E se servirá de meu pavor numa taça de cristal
Espero estar ouvindo blues
Quem vai se importar?

Todo o dia um dia final
Uma despedida das certezas e das vontades
Milhões de planos pelo chão
E pouca vontade de realizá-los
A morte me aninhará em seus braços
Conforto para meu desespero
Espero estar distraída
Quem notará a ausência?

Todo dia é inevitável o desconhecido
Uma despedida de milhões de células
Enquanto gravo meus planos no chão
Sou eu em alguns instantes
E a morte no portão
Minha boca apaixonada em minha sala
Conforto de tarde de verão
Ouvindo blues distraída

Quem se comoverá?
(Waleska Zibetti)

sábado, 25 de abril de 2015

A CARA DA MORTE


O post de hoje conta com um conto de João Zibetti, que também é leitor do #CLV

"Jão", como costumo chamá-lo, de vez em quando  me manda link de textos que ele escreve. Algumas semanas atrás quando li o conto que vou citar no final do post, eu logo pensei: "JÃO! Vou escrever algo falando de morte, queria publicar seu texto". E aqui estamos nós.
Espero que gostem do post de hoje.

Filosofias e religiões diferentes nos oferecem ideias distintas sobre a morte e suas dimensões espiritual e pessoal. Na era moderna, embora a medicina tenha critérios precisos para determinar quando a morte ocorreu, os médicos ainda debatem sobre o significado exato do que é morrer.

A MORTE EM OUTRAS CULTURAS

Embora sejamos acostumados a pensar na morte como uma clara fronteira, essa linha divisória pode variar surpreendentemente entre as diferentes sociedades. Em algumas culturas, acredita-se que os cadáveres mantenham um princípio vital muito depois de os médicos ocidentais declararem a morte.
Os tibetanos têm a tradição de entoar o Livro Tibetano dos Mortos durante 49 dias após a morte de uma pessoa – eles acreditam que é esse o período entre a morte e o renascimento através da reencarnação. Eles entoam cânticos para o corpo e o espírito durante uma semana depois que o indivíduo pára de respirar, e continuam a fazer o mesmo diante de uma imagem do morto depois que o corpo é enterrado.
Na crença islâmica, a morte é considerada a separação entre a alma e o corpo; e como a alma habita todas as partes do corpo, uma pessoa pode estar “viva” mesmo após a morte cerebral ter sido diagnosticada.
Retrocedendo na história até a época de Cristo, o povo judeu acreditava que a alma permanecia no corpo até o terceiro dia após a morte (contando o dia da morte como o primeiro - daí advém o significado da ressurreição de Jesus “no terceiro dia”: se acontecesse antes, ele não teria sido considerado verdadeiramente morto.
Muitas sociedades depositam fé na presença contínua dos mortos como membros da ordem social, com direitos e obrigações. Já outras culturas tratam alguns dos vivos como se estivessem mortos – por exemplo, se sofrem de determinada doença ou ignoram um tabu social importante. Sem dúvida, a morte tem uma dimensão social como médica – você está morto quando sua sociedade assim o considera.


Créditos: Reader’s digest (Maximize o potencial do seu cérebro)


                 Ultima Carta de Um Vilão
por João Zibetti

"Talvez até a morte tenha seu lado bom, um lado simpático... Mas eu não.
Desde que me entendo por gente, sonho em ter o mundo em minhas mãos. Em mandar e desmandar. Em criar e destruir todos os que se opõem a mim. Desde pequeno sonho com a glória de ser chamado de tirano, de monstro, de cruel. Tudo isso porque sempre me vi melhor que os outros seres humanos. Todos são idiotas demais, nada mais justo que eu os governe. Mas eles não sabem escolher o que é melhor para eles.
Desde que me entendo por ser vivo, eu não temo a morte. Gosto dela. Eu a acho divertida, sarcástica e irônica. Talvez porque eu nunca tenha morrido. Porém não entendo porque as pessoas a temem tanto. Acostumei-me a ela desde o momento que jurei guerra contra todos os prepotentes imbecis que se auto proclamam “heróis”, mandei vários de presente para ela.
De tanto viver ao seu lado não percebi que ela se aproximara demais, e agora estou aqui de frente para esse espelho, preso em meu próprio quarto. 
Atrás da porta me espera um maldito moleque... Um maldito herói. Como odeio “heroizinhos”. Seres patéticos. Odeio heróis. Odeio com todas as minhas forças... Que já não são muitas...
No espelho vejo meu sorriso, que na minha infância era considerado um sorriso de loucura, mas eu sempre o achei tão atraente! Assim como meus olhos. Enquanto eu amo meus olhos, as pessoas o temem. O temem como temem a Morte. Vêem uma crueldade insana nos meus olhos e sorriso. Acho que é por isso que os amo tanto.
Ouvi um barulho na porta. Quero ter certeza de que tudo que fiz foi certo. Foi... Pelo menos para mim. Consegui tudo o que sempre quis: poder, estátuas em minha honra, o temor de todos, mandei para os anjos algumas pessoas mais cedo. Não me arrependo de nada.
Mas depois de um tempo fica tudo muito chato. Nem matar nem torturar me trazem a alegria de antes. Acho que esse deve ser o problema da imortalidade. Veria tudo acontecer milhares de vezes e sempre saberia onde acertar. Seria um inferno!
De novo o “herói” tenta abrir a porta. Meu sorriso está ainda mais louco. Acho que sei o porquê... Minha velha amiga, a Morte, está se aproximando e eu sei que ela vem me buscar. No espelho o meu rosto já está cansado, eu já estou velho demais para essas brincadeirinhas de criança.
Durante anos cacei esses infelizes que se dizem heróis, agora eu já não aguento nem lutar contra um. Devo estar louco, devo estar problemático, devo matá-lo agora... Ou morrer tentando.
Ouço meu ultimo trovão, a magnífica obra da natureza.
Quero que se lembrem que eu não me arrependo de nada. Quero que saibam que odeio heróis. Quero morrer e ser lembrado como um louco tirano que foi recebido com um trono no inferno.
Até a morte tem seu lado piedoso, um lado humano... Mas eu nunca.”
Ele pegou a espada no canto e com os pés abriu a porta do quarto pulando em seu inimigo com a espada em punho. Ele não esperava a cavalaria que vinha atrás do herói. Foi derrotado antes de conseguir o triunfo de seu ultimo ato. Os soldados depois da batalha olharam para a cidade em chamas.
O “monstro” podia ter morrido, mas seu sorriso e seus olhos refletiam o orgulho do dever cumprido.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Homem Passarinho



Ele era um homem que não gostava de pessoas. Isolava-se dentro de sua casa, de seu jardim, tudo solitariamente cinza. Observava os movimentos da rua, mas não tinha a menor vontade de juntar-se a ele. Preferia o silêncio de sua sala sem televisão e com centenas de livros. Todos antigos, cheirando a bolor, amarelo-cansaço como ele próprio diante da vida.

A única coisa que o fazia sorrir era observar os pássaros que passavam sobre sua casa, que pousavam nos fios da rua ou temporariamente no chão do quintal. Ao notar a aproximação ele colocava-se tão imóvel que parecia não respirar. Era preciso que os pássaros não se assustassem, não o percebessem, não fugissem dele... Enquanto estavam por perto seus anos voavam para longe e ele era menino a jogar milhos aos pombos ao lado de seu pai. Menino correndo em piruetas no meio dos pombos a sorrir em liberdade. Menino-pombo, menino-voador, menino-passarinho...

Certo dia ele amanheceu em sua escrivaninha de madeira escura-pensamentos e decidiu sair para passear. Vestiu-se de preto-seriedade e perfumou-se de almíscar. Andou pelas ruas que ainda dormia olhando as casas de sua vizinhança. Nas árvores pardais comentavam o estranho passeio do velho. E ele olhava para as copas das árvores esforçando-se para sorrir. “Eu posso me mover, amiguinhos, mas não lhes farei mal algum”, assoviava. 

Caminhou até chegar a pracinha que amanhecia dourada de felicidade. E sentou-se no banco para observar os primeiros pombos chegarem ao local. Enfiou a mão no bolso e tirou um saco de saudade e começou a atirar aos pombos. Os grãos escorregavam em volta dele e ele observava seus amigos se aproximarem arrulhando “obrigados”. Ele sorria feliz. 

Encostou-se no banco de braços abertos olhando o céu. Revoadas de andorinhas passaram em arruaça tremenda. Nuvens brancas começaram a tomar forma do rosto do velho pai. E o pai sorriu para ele como fazia ao vê-lo no meio dos pombos quando ele ainda era um menino. E ele gargalhou sonhos que ecoaram na praça dos pombos. O sol atingiu-lhe o rosto envelhecido turvando a visão. 

Pássaros de todas as cores e tamanhos se aproximaram dele fazendo gracinhas a sua frente. Queriam agradar-lhe. Queriam fazê-lo sorrir. Eram pássaros de todas as espécies vindos não se sabe de onde a brincar com o menino passarinho na manhã de paz. Até que ele se levantou correndo entre os pássaros, rodopiando-passarinho, menino de asas... E os pássaros iam lado a lado acompanhando o amigo em seu voo despedida pelo céu azul-liberdade. 
(Waleska Zibetti, in "Homem Passarinho")