quinta-feira, 23 de abril de 2015

A casa tomada

 
Gostávamos da casa porque, além de ser espaçosa e antiga (as casas antigas de hoje sucumbem às mais vantajosas liquidações dos seus materiais), guardava as lembranças de nossos bisavós, do avô paterno, de nossos pais e de toda a nossa infância.

Acostumamo-nos Irene e eu a persistir sozinhos nela, o que era uma loucura, pois nessa casa poderiam viver oito pessoas sem se estorvarem. Fazíamos a limpeza pela manhã, levantando-nos às sete horas, e, por volta das onze horas, eu deixava para Irene os últimos quartos para repassar e ia para a cozinha. O almoço era ao meio-dia, sempre pontualmente; já que nada ficava por fazer, a não ser alguns pratos sujos. Gostávamos de almoçar pensando na casa profunda e silenciosa e em como conseguíamos mantê-la limpa. Às vezes chegávamos a pensar que fora ela a que não nos deixou casar. Irene dispensou dois pretendentes sem motivos maiores, eu perdi Maria Esther pouco antes do nosso noivado. Entramos na casa dos quarenta anos com a inexpressada idéia de que o nosso simples e silencioso casamento de irmãos era uma necessária clausura da genealogia assentada por nossos bisavós na nossa casa. Ali morreríamos algum dia, preguiçosos e toscos primos ficariam com a casa e a mandariam derrubar para enriquecer com o terreno e os tijolos; ou melhor, nós mesmos a derrubaríamos com toda justiça, antes que fosse tarde demais.

Irene era uma jovem nascida para não incomodar ninguém. Fora sua atividade matinal, ela passava o resto do dia tricotando no sofá do seu quarto. Não sei por que tricotava tanto, eu penso que as mulheres tricotam quando consideram que essa tarefa é um pretexto para não fazerem nada. Irene não era assim, tricotava coisas sempre necessárias, casacos para o inverno, meias para mim, xales e coletes para ela. Às vezes tricotava um colete e depois o desfazia num instante porque alguma coisa lhe desagradava; era engraçado ver na cestinha aquele monte de lã encrespada resistindo a perder sua forma anterior. Aos sábados eu ia ao centro para comprar lã; Irene confiava no meu bom gosto, sentia prazer com as cores e jamais tive que devolver as madeixas. Eu aproveitava essas saídas para dar uma volta pelas livrarias e perguntar em vão se havia novidades de literatura francesa. Desde 1939 não chegava nada valioso na Argentina. Mas é da casa que me interessa falar, da casa e de Irene, porque eu não tenho nenhuma importância. Pergunto-me o que teria feito Irene sem o tricô. A gente pode reler um livro, mas quando um casaco está terminado não se pode repetir sem escândalo. Certo dia encontrei numa gaveta da cômoda xales brancos, verdes, lilases, cobertos de naftalina, empilhados como num armarinho; não tive coragem de lhe perguntar o que pensava fazer com eles. Não precisávamos ganhar a vida, todos os meses chegava dinheiro dos campos que ia sempre aumentando. Mas era só o tricô que distraía Irene, ela mostrava uma destreza maravilhosa e eu passava horas olhando suas mãos como puas prateadas, agulhas indo e vindo, e uma ou duas cestinhas no chão onde se agitavam constantemente os novelos. Era muito bonito.

Como não me lembrar da distribuição da casa! A sala de jantar, lima sala com gobelins, a biblioteca e três quartos grandes ficavam na parte mais afastada, a que dá para a rua Rodríguez Pena. Somente um corredor com sua maciça porta de mogno isolava essa parte da ala dianteira onde havia um banheiro, a cozinha, nossos quartos e o salão central, com o qual se comunicavam os quartos e o corredor. Entrava-se na casa por um corredor de azulejos de Maiorca, e a porta cancela ficava na entrada do salão. De forma que as pessoas entravam pelo corredor, abriam a cancela e passavam para o salão; havia aos lados as portas dos nossos quartos, e na frente o corredor que levava para a parte mais afastada; avançando pelo corredor atravessava-se a porta de mogno e um pouco mais além começava o outro lado da casa, também se podia girar à esquerda justamente antes da porta e seguir pelo corredor mais estreito que levava para a cozinha e para o banheiro. Quando a porta estava aberta, as pessoas percebiam que a casa era muito grande; porque, do contrário, dava a impressão de ser um apartamento dos que agora estão construindo, mal dá para mexer-se; Irene e eu vivíamos sempre nessa parte da casa, quase nunca chegávamos além da porta de mogno, a não ser para fazer a limpeza, pois é incrível como se junta pó nos móveis. Buenos Aires pode ser uma cidade limpa; mas isso é graças aos seus habitantes e não a outra coisa. Há poeira demais no ar, mal sopra uma brisa e já se apalpa o pó nos mármores dos consoles e entre os losangos das toalhas de macramê; dá trabalho tirá-lo bem com o espanador, ele voa e fica suspenso no ar um momento e depois se deposita novamente nos móveis e nos pianos.

Lembrarei sempre com toda a clareza porque foi muito simples e sem circunstâncias inúteis. Irene estava tricotando no seu quarto, por volta das oito da noite, e de repente tive a idéia de colocar no fogo a chaleira para o chimarrão. Andei pelo corredor até ficar de frente à porta de mogno entreaberta, e fazia a curva que levava para a cozinha quando ouvi alguma coisa na sala de jantar ou na biblioteca. O som chegava impreciso e surdo, como uma cadeira caindo no tapete ou um abafado sussurro de conversa. Também o ouvi, ao mesmo tempo ou um segundo depois, no fundo do corredor que levava daqueles quartos até a porta. Joguei-me contra a parede antes que fosse tarde demais, fechei-a de um golpe, apoiando meu corpo; felizmente a chave estava colocada do nosso lado e também passei o grande fecho para mais segurança.

Entrei na cozinha, esquentei a chaleira e, quando voltei com a bandeja do chimarrão, falei para Irene:

— Tive que fechar a porta do corredor. Tomaram a parte dos fundos.

Ela deixou cair o tricô e olhou para mim com seus graves e cansados olhos.

— Tem certeza?

Assenti.

— Então — falou pegando as agulhas — teremos que viver deste lado.

Eu preparava o chimarrão com muito cuidado, mas ela demorou um instante para retornar à sua tarefa. Lembro-me de que ela estava tricotando um colete cinza; eu gostava desse colete.

Os primeiros dias pareceram-nos penosos, porque ambos havíamos deixado na parte tomada muitas coisas de que gostávamos. Meus livros de literatura francesa, por exemplo, estavam todos na biblioteca. Irene pensou numa garrafa de Hesperidina de muitos anos. Freqüentemente (mas isso aconteceu somente nos primeiros dias) fechávamos alguma gaveta das cômodas e nos olhávamos com tristeza.

— Não está aqui.

E era mais uma coisa que tínhamos perdido do outro lado da casa.

Porém também tivemos algumas vantagens. A limpeza simplificou-se tanto que, embora levantássemos bem mais tarde, às nove e meia por exemplo, antes das onze horas já estávamos de braços cruzados. Irene foi se acostumando a ir junto comigo à cozinha para me ajudar a preparar o almoço. Depois de pensar muito, decidimos isto: enquanto eu preparava o almoço, Irene cozinharia os pratos para comermos frios à noite. Ficamos felizes, pois era sempre incômodo ter que abandonar os quartos à tardinha para cozinhar. Agora bastava pôr a mesa no quarto de Irene e as travessas de comida fria.

Irene estava contente porque sobrava mais tempo para tricotar. Eu andava um pouco perdido por causa dos livros, mas, para não afligir minha irmã, resolvi rever a coleção de selos do papai, e isso me serviu para matar o tempo. Divertia-nos muito, cada um com suas coisas, quase sempre juntos no quarto de Irene que era o mais confortável. Às vezes Irene falava:

— Olha esse ponto que acabei de inventar. Parece um desenho de um trevo?

Um instante depois era eu que colocava na frente dos seus olhos um quadradinho de papel para que olhasse o mérito de algum selo de Eupen e Malmédy. Estávamos muito bem, e pouco a pouco começamos a não pensar. Pode-se viver sem pensar.

(Quando Irene sonhava em voz alta eu perdia o sono. Nunca pude me acostumar a essa voz de estátua ou papagaio, voz que vem dos sonhos e não da garganta. Irene falava que meus sonhos consistiam em grandes sacudidas que às vezes faziam cair o cobertor ao chão. Nossos quartos tinham o salão no meio, mas à noite ouvia-se qualquer coisa na casa. Ouvíamos nossa respiração, a tosse, pressentíamos os gestos que aproximavam a mão do interruptor da lâmpada, as mútuas e freqüentes insônias.

Fora isso tudo estava calado na casa. Durante o dia eram os rumores domésticos, o roçar metálico das agulhas de tricô, um rangido ao passar as folhas do álbum filatélico. A porta de mogno, creio já tê-lo dito, era maciça. Na cozinha e no banheiro, que ficavam encostados na parte tomada, falávamos em voz mais alta ou Irene cantava canções de ninar. Numa cozinha há bastante barulho da louça e vidros para que outros sons irrompam nela. Muito poucas vezes permitia-se o silêncio, mas, quando voltávamos para os quartos e para o salão, a casa ficava calada e com pouca luz, até pisávamos devagar para não incomodar-nos. Creio que era por isso que, à noite, quando Irene começava a sonhar em voz alta, eu ficava logo sem sono.)

É quase repetir a mesma coisa menos as conseqüências. Pela noite sinto sede, e antes de ir para a cama eu disse a Irene que ia até a cozinha pegar um copo d'água. Da porta do quarto (ela tricotava) ouvi barulho na cozinha ou talvez no banheiro, porque a curva do corredor abafava o som. Chamou a atenção de Irene minha maneira brusca de deter-me, e veio ao meu lado sem falar nada. Ficamos ouvindo os ruídos, sentindo claramente que eram deste lado da porta de mogno, na cozinha e no banheiro, ou no corredor mesmo onde começava a curva, quase ao nosso lado.

Sequer nos olhamos. Apertei o braço de Irene e a fiz correr comigo até a porta cancela, sem olhar para trás. Os ruídos se ouviam cada vez mais fortes, porém surdos, nas nossas costas. Fechei de um golpe a cancela e ficamos no corredor. Agora não se ouvia nada.

— Tomaram esta parte — falou Irene. O tricô pendia das suas mãos e os fios chegavam até a cancela e se perdiam embaixo da porta. Quando viu que os novelos tinham ficado do outro lado, soltou o tricô sem olhar para ele.

— Você teve tempo para pegar alguma coisa? — perguntei-lhe inutilmente.

— Não, nada.

Estávamos com a roupa do corpo. Lembrei-me dos quinze mil pesos no armário do quarto. Agora já era tarde.

Como ainda ficara com o relógio de pulso, vi que eram onze da noite. Enlacei com meu braço a cintura de Irene (acho que ela estava chorando) e saímos assim à rua. Antes de partir senti pena, fechei bem a porta da entrada e joguei a chave no ralo da calçada. Não fosse algum pobre-diabo ter a idéia de roubar e entrar na casa, a essa hora e com a casa tomada.
 
Julio Cortázar.
 
Ramal, Alicia (organização e tradução). Contos Latino-Americanos Eternos, Bom Texto Editora, Rio de Janeiro — 2005, pág. 09.
 
Até o Próximo Texto
Au Revoir. 

quarta-feira, 22 de abril de 2015

PONTE PARA A CIDADANIA



A arte como ponte – Cidadania

Texto publicado primeiramente em 2008 por Gabriella Gilmore.

Ser cidadão é mais do que saber sobre as leis e deveres, é faze-la cumprir, é ter mente idealista; aquele que se incomoda com o jeito de como anda a situação e que não se cala, age.
O problema da sociedade é que ela se acomodou. Se liga mais no resultado do que no processo de como foi feito a ação. Se tornou covarde e prefere morrer calada em meio a hipocrisia do que viver pregando uma ideia que para uns é utopia. Somos responsáveis por todas as nossas ações e ela reflete numa  distancia quilométrica, porém preferimos nos fazer de cegos.
Humanidade esta, que se importa mais em levar cientistas para marte, gastando bilhões, do que ajudar as pessoas que já nem tem mais lugar aonde morar, que vive da sorte. porque esperanças não há. (José Saramago)
Pensamos que com o avanço da ciência e tecnologia tudo iria melhorar. Mas o poder nas mãos de pessoas egoístas é assassinato. 
Criança sem infância sadia que já não solta pipa na rua ao sol. Adolescentes que preferem dialogar com a fria tela do computador e jovens se matando por uma alegria artificial.
Podemos reverter este quadro sim, usando a arte como ponte, levando cores, harmonia, ritmo, letras às crianças, pois elas são a nossa esperança.
Descobrir a qualidade perdida daquele jovem sem ânimo e fazer com que ele esqueça seus defeitos e possa ouvir suas virtudes, mesmo que seja uma só. Esta é a luz que brilha em meus olhos e que há de reluzir no mundo, muito antes que marte.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Lembranças Viventes


Vez por outra meus olhos passeiam pelo seu quarto e vejo minhas roupas cansadas do dia descansando ao chão...
 Elas parecem tão em paz mesmo amontoadas as pressas com o desespero de ir para onde estão... 
Mas como... 
Ei... 
Sou organizado... cada coisa no seu lugar. 
Foi assim que aprendi... 
Me indago elas estão desorganizadas?
 Não encontro respostas simples só sentimento que mesmo no caus da pressa em se despir elas e eu encontramos paz. 
No mesmo instante no calor do seu quarto você me aquecendo me indaga esta com calor? 
Quer que eu me afaste... 
Indignado digo este seu calor me aquece a alma.
Boba...
 
Até o próximo texto
Au Revoir

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Um Lugar


Está sempre lá, sabe? 

Sempre pronto para um abraço na minha chegada. 
Sempre sorrindo. Um lugar onde a segurança habita. 
É em mim que ele habita. Me reside para que eu resista. 
Me acolhe para que eu não fuja. 
Alguns o notam no meu sorriso, no meu olhar. 
Alguns só o sentem em meus ensaios. 
Mas ele está aqui. Para mim. Por mim. Me esperando.
E me abraça amorosamente para que eu entenda.
Me preenche para que eu não me esvazie por aí.
Meu universo interior. Cheios de cores e flores.
Minha vida borboleta. Minha lua de poesia.
Onde posso ser mais eu.
Onde minha loucura não incomoda.
Onde posso ser a criança e me esquecer da mulher.
Meu mundo particular onde sou Dorothy, Alice, Sophia, Beatriz.
Meu lugar do Oeste, Eastwick, Blair.
Está sempre lá, sabe?
Sempre pronto para minha chegada.
Sempre feliz por me ver. Segurança que me habita.
Lugar onde sou feliz!
(Waleska Zibetti, in "Um Lugar")

domingo, 19 de abril de 2015

Esquizofrenia: PERCEPÇÃO E REALIDADE.


por Gabriella Gilmore


Em uma de minhas pesquisas, descobri este médico e autor no qual me apaixonei. Gostaria de dividir este achado com vocês.



Hoje nosso post é uma sugestão de pesquisa sobre esquizofrenia e psiquiatria, tendo como mentor o Dr. Ronald Laing.



O psiquiatra escocês Ronald David Laing (1927 – 1989) foi um dos pensadores mais influentes e controversos da década de 1960.
Ele questionava a ortodoxia, defendendo que as percepções das pessoas consideradas mentalmente doentes são tão válidas em suas próprias condições quanto aquelas nos indivíduos “normais”. Laing ressaltava que quase qualquer comportamento poderia ser interpretado como um sintoma de esquizofrenia, possibilitando aos psiquiatras classificar clinicamente aqueles que simplesmente se recusavam a se adequar às expectativas da família e da sociedade. Na opinião de Laing, a esquizofrenia era uma forma de vivenciar o mundo, não uma doença; a “enfermidade” mental na verdade poderia ser uma jornada existencial – uma cura para a angústia originada na infância e na família.

Nascido em Glasgow em 1927, o próprio Laing teve uma criação familiar turbulenta. Após completar sua residência médica em 1958, trabalhou em uma unidade psiquiátrica do exército britânico. Seu livro, SANIDADE, LOUCURA E A FAMÍLIA (1964), em que defendia que a esquizofrenia poderia ser causada por um colapso na comunicação familiar, consolidou sua reputação internacional. Laing continuou seu notável trabalho clínico durante a década de 70. Posteriormente, seu prestigio intelectual ficou comprometido devido ao seu fascínio pelo misticismo, o que fez com que acabasse perdendo sua licença para exercer a medicina na Grã-Bretanha.

sábado, 18 de abril de 2015

O Sorriso de Monalisa

"Minha professora, Katherine Watson, vivia segundo suas convicções e não as comprometeria nem pela Wellesley. Dedico este meu último editorial a uma mulher extraordinária que nos serviu de exemplo e nos incentivou a ver o mundo com novos olhos. Quando lerem este, ela estará a caminho da Europa onde sei que derrubará novas barreiras e semeará novas ideias. Ela foi taxada de fracassada por partir transviada sem rumo, mas nem todas que se desviam carecem de rumo, especialmente quem procura a verdade além da tradição, além da definição, além da imagem. Eu nunca a esquecerei." (Betty Warren)
 
 
Katharine Watson (Julia Roberts) é uma recém graduada professora que consegue emprego no conceituado colégio Wellesley, para lecionar aulas de História da Arte, o ano era 1953. 
Incomodada com o conservadorismo da sociedade e do próprio colégio em que trabalha, Katharine decide lutar contra estas normas e acaba inspirando suas alunas a enfrentarem os desafios da vida.
Essa mesma professora que no começo do filme tinha uma aula completamente preparada, viu-se obrigada a mudar seu método, pois ela havia sido desafiada pelas alunas.
Então ela começa a utilizar a abordagem de ensino socio cultural, onde ela queria criar sujeitos pensantes, críticos, criativos, e com isso ela mostrou outra realidade para as alunas, porque na verdade a escola mostrava que as alunas teriam que ser excelentes esposas (como a sociedade queria que elas fossem), e apenas isso, e para ser excelentes esposas elas não poderiam pensar; já a Katherine mostrou que elas poderiam ser excelentes esposas, mas que poderiam também ter uma carreira, viver em sociedade e lutar pelo que elas queriam.
Se nós analisarmos friamente e trazer este tema pra contemporaneidade, é uma "batalha" das mulheres do Século XX e primeiros 15 anos do século XXI.
 
As mulheres no decorrer dos anos vem conquistando seu espaço na sociedade.
Quebrando barreiras e preconceitos, atngindo seu alvo com êxito.
A liberdade de expressão.
Nas décadas de 50 e 60 elas tinham que ser submissas aos homens que representava a figura de chefe da casa, e detinha todo o controle financeiro, e nunca poderia ser desafiado ou desacatado.
Naquela época a mulher padrão, perfeita para a sociedade era a "rainha do lar
",prendada, boa esposa que cuidava dos filhos e da aparência, tudo em prol do casamento.
Discutimos esse papel em textos anteriores quando lemos A mulher de 30 anos do Balzac um dos precurssores do feminismo ao mostrar Julia, a infeliz heroína, às voltas com problemas fundamentais da vida amorosa e sentimental das mulheres e com o fracasso do casamento, ante a uma sociedade extremamente machista.
 
"Vim à Wellesley porque queria mudar o mundo, mas mudar pelos outros... é mentir para si." (Katherine Watson)
 
Aqui está o trailler:

O interessante é que o filme tenta passar que não basta apenas reproduzirmos o conhecimento, mas sim, tornemos produtores de nós mesmos e sejamos capazes de desenvolver o senso crítico em qualquer momento sem abdicar dos nossos sonhos.

Até o próximo texto
Au Revoir

sexta-feira, 17 de abril de 2015

As Vantagens de Ser Invisível - Stephen Chbosky




As Vantagens de Ser Invisível
(Stephen Chbosky)

“Eu me sinto infinito”
(Stephen Chbosky, in “As Vantagens de Ser Invisível”)

Comecei a leitura desse livro porque havia me encantado com o filme. E sem a menor preocupação me deixei levar com Charlie vivenciando com carinho cada ponto de contato de nossas adolescências. E essa frase chamou minha atenção de modo especial.

Algumas vezes também me sinto assim: infinita. E tudo que se refere ao tempo perde o sentido porque sinto que estou além dele. É o que chamo de felicidade: pequenos pedaços de vida onde o tempo não importa, pois ele se eterniza em algum som, cor, cheiro, lugar ou alguém. E sempre que volto lá, sou infinita.

Como Charlie, tudo que quero é alguém que me olhe como gente. O que tiver de vir depois deverá ficar no depois. Mas hoje as pessoas não estão dispostas a esses olhares. Tudo pára no superficial. E de superficial estou cheia. Então, entendi os choros e confusões de ideia de Charlie como se fossem meus.

Meu conceito de viver bem está no simples. Quero pouco para dizer que estou feliz. Mas ainda assim acho que sentirei que terá alguma coisa faltando. Logo eu nunca serei cem por cento feliz ou triste. No máximo noventa e oito disso ou daquilo. O que não é ruim. A ausência de algo gera busca e a busca me motiva. Acho que é disso que adolescente que me habita se alimenta. E eu preciso muito dessa adolescente para suportar a mulher.

Embarcar no universo de Charlie me fez revirar antigos momentos e por várias vezes fechei o livro e os olhos para sonhar e revisitar velhos rostos ao som de algum rock dos anos oitenta – som de minha adolescência. E acho que nesse sentido o livro cumpriu seu papel.

Fui uma adolescente invisível e sou uma adulta invisível. Ao ver o que eu estava lendo meu analista me disse “Combina com você e sua voz afinada. É o que REALMENTE quer ser?”. Eu queria uma resposta impactante, mas só baixei a cabeça e fiquei em silêncio. E ele continuou: “Não é bom ser invisível. Não há vantagens nisso. O mundo espera por você. O mundo merece você como parte dele”. Eu queria dizer a ele que não sei ser parte do mundo. Que gosto do conforto que a marginalidade me traz. Estou numa zona segura onde só entra quem eu permito. Mas o jeito como ele colocou-me fez pensar se é mesmo uma zona de segurança, se estou mesmo confortável a margem dos outros, se não sofro mais assim. E Bill, professor de Charlie, diz que temos que deveríamos tomar parte. Eu deveria tomar parte... Talvez eu não tenha mais tempo para encontrar uma Sam ou um Patrick. E nunca me senti tão invisível como agora.

Mas a adolescente também tem canções. E eu as escuto centenas de vezes. E não fico tão sozinha. E tenho livros com quem converso. E tenho você que está lendo. Sou invisível, mas existo. E estou num túnel de braços abertos ouvindo Pink Floyd e me sentindo infinita dentro de meus pensamentos cuidadosamente selecionados para esse momento que só existe em meu pensamento.


O fato é que o livro é melhor que o filme. E a trilha proposta é incrível. E que a minha adolescente chorou e riu, apaixonou-se e enfureceu-se com Charlie e seus amigos. Experimente ser invisível também. Há vantagens, eu concluo, então. Vantagens que meu analista não entenderia, mas que eu entendo. E a adolescente sorri e segue a rua com seu jeans largo e ideias malucas, enquanto a mulher suspira parada de braços cruzados olhando o tempo, esperando a hora ou algo além. 
(Waleska Zibetti)

quinta-feira, 16 de abril de 2015

AO MEU PAI NO MEU ANIVERSÁRIO

por Gabriella Gilmore

Escrevi essa carta no meu aniversário em 2009.
Até hoje a sua mensagem me arranca lágrimas. Talvez seja porque a situação continua a mesma, ou até pior.
Hoje gosto bem menos desta data do que ano passado, ano retrasado...





Agora são exatamente 8:54 am.
Acho que foi numa manhã do dia 16 de abril que nasci. Portanto, hoje seria meu aniversário.
Eu deitei ontem oca, sem sentir muita coisa, para não dizer NADA. 
Despedi-me de meu Coração, pedindo para que ele fosse o primeiro a me desejar Feliz Aniversário e ele me despertou a meia noite.
Fiquei contente e depois, outros queridos foram se lembrando de mim.
Recebi uma ligação de longa distancia e pedi a esta pessoa que comemorasse por mim e acredito que ela tenha o feito, afinal, ela estava no barzinho tomando cachacinha com carne. Delicia!
Adormeci.
As sete, meu Coração me desperta. 
Eu sorri.
Arrumei-me e fui trabalhar.
Toda hora havia gente me perguntando:
_ Vai ter alguma comemoração?
Eu depressiva, respondia: Não!
Na verdade nunca liguei para essas coisas.
Como pode ver Pai, sou um brinquedo baratíssimo. Acho que nunca te pedi muito, nunca te fiz passar vergonha e tento fazer o que posso para que o Senhor tenha orgulho de mim, mas nem isso você parece se importar.
Estou chorando agora sabia? De novo, para dizer a verdade.
Não é sensacionalismo ou dramaticidade não. Infelizmente sou artista e nós somos muito emotivos, com uma sensibilidade mais aguçada do que uma pessoa comum.
Quando avistei o Senhor lá na esquina, não pensei em nada, a não ser te pedir calada, um abraço, mesmo sabendo que você não se lembraria dessa data, mas isso não me deixou triste em vê-lo.
Convidei-te para sentar, te ofereci um café na qual você recusou e fomos conversar. Mesmo tendo pouco assunto para falar, porque você sempre na defensiva, acha que eu iria pedir-te dinheiro. Maldito dinheiro esse que me faz chorar.
Perguntei-te se tinha lido meu e-mail falando da universidade e você disse que não. Mesmo eu não acreditando, resolvi falar pessoalmente, te pedindo ajuda para eu ser alguém.
Você com suas infinitas questões capitalistas e um tanto cético, conseguiu arrancar-me lágrimas de soluçar.
Pai, o Senhor conseguiu estragar meu dia. Desculpe-me a sinceridade.
Sabe, engraçado como eu tenho acreditado em mim, por ver em meus amigos e até desconhecidos, o valor que eles dão para as coisas que faço e que falo. Se você pelo ao menos não tivesse esse poder de nos fazer quebrantar, você poderia ver a pessoa incrível que sou. Sim, eu sou legal!
Hoje estou fazendo 24 anos e nada tenho, nada sou, talvez continue sendo NADA o resto da vida, mas desculpe-me, não darei este gostinho para o Senhor.
Uma vez falei para um primo que tenho apoio de amigos e simpatizantes, mas como santo de casa não faz milagres, não tenho muito apoio familiar. Quase ninguém acredita em mim ou me dá créditos, e talvez seja isso que me faz levantar todo dia, ao final de uma depressão, porque eu acredito em mim e isso me tem bastado.
Te falei que cada centavos que gastastes comigo foi saudavelmente usufruído e valorizado. Como o Senhor mesmo disse, eu levei a serio as aulas de inglês (muito obrigada por ter pago os 5 anos de curso), as aulas de violão, que hoje já até toco outros instrumentos, obrigada pelo teto em que vivo e pela feira do dia-a-dia.
Eu só queria uma ajudinha para entrar na faculdade e me manter lá, porque realmente não consigo ainda arcar com todas as despesas, mas não; o Senhor tinha que jogar na minha cara que as coisas são difíceis mesmo, que gastar três anos de dinheiro para depois ganhar só 800 reais dando aulas não valeria a pena. 
De novo a questão do dinheiro. Mas acontece PAI (as lagrimas estão secando agora e já sinto raiva) que nós com diploma de faculdade já fica complicado, quem dirá sem?!
Teria sido muito mais simples se o Senhor tivesse falado que não tinha condições para me ajudar, que amigavelmente eu entenderia. Sou compreensiva por demais Pai, acredite. Mas NÃO! Você só me passou a impressão de que não mereço ajuda tua, porque tudo que faço não iria te trazer dinheiro de volta, e talvez não vá. Mas tudo que eu queria mesmo, era apenas que o Senhor sentisse orgulho de mim...