sexta-feira, 6 de março de 2015

Waleska no País das Maravilhas


No dia 27 de setembro de 2011, dei a mim um grande presente o livro original de Lewis Carroll com as duas histórias “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas” & “Através do Espelho e o Que Alice Encontrou Por Lá”.

Leio e penso em Alice desde meus 15 anos, mas sempre em trechos, pedacinhos, leitura de outros críticos, remontagens... Quando comprei esse livro senti que começava a habitar o mundo onde viverei quando finalmente puder me libertar dessa forma humana para ser novamente o gato de Cheshire.



Capítulos

1-     Pela Toca do Coelho

“e de que serve um livro”, pensou Alice,
 “sem figuras nem diálogos?”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Um livro são idéias impressas em letras. Mas concordo com Alice: seria tão bom, algumas vezes, ver entre os sentimentos descritos corações para indicar amor ou nuvenzinhas cinza para indicar raiva, por exemplo.

“Como vai ser engraçado sair no meio daquela gente
que anda de cabeça para baixo!
Os antipatias, acho...?”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

A antipatia é o avesso do que se espera do comportamento humano. Nascemos para sermos irmãos, para que nos comprometêssemos uns com os outros. O estranhamento de Alice é pertinente e consciente.

“imagine fazer mesura quando se está despencando no ar!
Você acha que conseguiria?”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

A vida nos põe em xeque e nos pedem calma, entendimento, enfim. Quem consegue lucidez no meio do caos? Aqui começamos a ver Alice mergulhar em seu inconsciente.

“como não sabia responder a nenhuma das perguntas
o jeito como as fazia  não tinha muita importância.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Há momentos que precisamos de respostas as nossas questões pessoais. Mas é preciso ter consciência de que nem sempre elas são possíveis. Não é conformismo nos aquietarmos diante da ausência de resposta. E só o momento de esperar o momento em que a maturidade trará as resposta para nós.


“Havia portas ao redor do salão inteiro,
Mas estavam todas trancadas;
depois de percorrer todo um lado e voltar pelo outro,
experimentando cada porta, caminhou desolada até o meio,
pensando em como haveria de sair dali.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)


Portas são possibilidades. Se fechadas queremos abri-las. Se abertas queremos descobri-las. O homem é um ser curioso e desvendar o novo que há por trás das portas é sempre uma tentação.

“topou com uma mesinha(...)
sobre ela(...) uma minúscula chave de ouro,
e a primeira idéia de Alice foi que devia pertencer
a uma das portas do salão;
mas (...) ou as fechaduras eram grandes demais,
ou a chave era pequena demais, (...) não abria nenhuma delas.
No entanto, na segunda rodada, deu com uma cortina baixa
que não havia notado antes; atrás dela tinha uma portinha (...)
experimentou a chavezinha de ouro, que, para sua alegria, serviu!”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)


Andamos tão preocupados com o óbvio que deixamos passar os detalhes. É estranho mais é sempre no detalhe que se esconde as grandes soluções.

“Pois, vejam bem, havia acontecido tanta coisa esquisita ultimamente
que Alice tinha começado a pensar
que raríssimas coisas eram realmente impossíveis.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Quando decidimos nos permitir, nos arriscar no jogo da vida, a vida se torna um grande parque de diversões. Tal é possível, se acreditarmos nas possibilidades. Nesse trecho o inconsciente de Alice começa a se adequar aos obstáculos do consciente.

“...lera muitas historinhas (...) sobre crianças que tinham (...)
sido comidas (...) e outras coisas desagradáveis ,
tudo porque não se lembravam das regrinhas simples
que seus amigos lhe haviam ensinado...”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Arriscar-se é uma necessidade para quem quer viver. Contudo, é preciso levar a prudência como companhia.

“se você bebe muito de uma garrafa em que está escrito “veneno”,
é quase certo que vai se sentir mal,
mais cedo ou mais tarde.
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Somos responsáveis por nossos atos e eles são responsáveis por nós. O que representaremos aos que nos seguirão é fruto de nossa responsabilidade.  Para onde conduzirei os que me admiram?

“...tentou imaginar como é a chama de uma vela
depois que ela se apaga, pois não conseguia se lembrar
de jamais ter visto tal coisa.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)
~
Somos velas. Brilharemos por um tempo, seremos a luz que guia em certos momentos. Mas um dia tudo passará. Apagaremos. Acabaremos.

“Em geral dava conselhos muito bons para si mesma
(embora raramente os seguisse).”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Porque temos mania de achar que as pessoas devem seguir o que dizemos se nós mesmos não ouvimos nossos corações?

“...de uma maneira ou de outra vou conseguir chegar ao jardim;
para mim tanto faz.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Meta. É importante ter uma meta para seguir na vida. A meta, o alvo, o ponto onde queremos chegar... Uma vez que tenhamos conhecimento disso resta-nos tomar coragem de ir.

“...tinha se acostumado tanto a esperar
só coisas esquisitas acontecerem
que lhe parecia muito sem graça e  maçante
que a vida seguisse de maneira habitual.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Quem aprendeu a ir, a permitir-se depois de ter traçado a meta, verá que a vida é mais que respirar, comer, beber... Mais que planejar, caminhar... A vida é tudo isso, mas é também a coragem, a vontade, o vencer-se.

2-    A Lagoa de Lágrimas

“Vou estar longe demais para me incomodar com você:
Arranjem-se como puderem... Mas preciso ser gentil com eles.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Com o tempo descobrimos que cada um carrega seus próprios problemas, cada um é dono do seu próprio caminhar. Podemos participar desse caminhar, mas cada um escolhe o próprio percurso.

“Ai, ai! Como tudo está esquisito hoje! E ontem as coisas aconteciam
Exatamente como de costume. Será que fui trocada durante a noite?
Deixe-me pensar: eu era a mesma quando me levantei esta manhã?
Tenho uma ligeira lembrança de que me senti um bocadinho diferente.
Mas, se não sou a mesma, a próxima pergunta é:
‘Afinal de contas quem sou eu?’ Ah, este é o grande enigma!”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

O ser humano evolui a cada segundo ainda que não veja. A mulher que sou hoje é outra da que fui ontem. O que vivi no dia de ontem por mais banal ou profundo que seja certamente transformou-me. E quem somos nós? É uma questão realmente difícil de responder. Se nós mudamos a cada minuto quem pode realmente definir-se. Somos um amontoado de “agoras”. Cada um desses “agora” modificando e sendo modificado pelo “agora” seguinte.

“Além disso, ela é ela, e eu sou eu, é...
ai, ai, que confusão é isto tudo.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

O reconhecimento de que cada ser é único. E que cada único ser influencia o outro de alguma forma. Positiva ou negativamente. É importante selecionar com quem se anda para não se contaminar com as impossibilidades do outro.

“Não vai adiantar nada eles encostarem suas cabeças no chão e pedirem
‘Volte para cá, querida!’ Vou simplesmente olhar para cima e dizer
‘Então  quem sou eu? Primeiro me digam;
aí, se eu gostar de ser essa pessoa, eu subo;
se não, fico aqui embaixo até ser uma outra pessoa.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Ficar só e questionar-se. Admitir erros e defeitos. Tomar posses de seus acertos e virtudes. Reconhecer-se é um dever nosso! Não adianta esperar do outro. Você é o que você faz de si.

“...queria muito que encostassem a cabeça no chão!
Estou tão cansada de ficar assim sozinha aqui.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Contudo, nenhum homem é um ser isolado. Devemos ser indivíduos e não individuais. Assumir que somos únicos, mas não pensar que somos exclusivos. O meio nos afeta e nós afetamos o meio. Nem sempre é fácil identificar o que nos faz mal. E menos ainda é fácil livrar-se dessas coisas. É preciso estar atento as dependências.

“’Foi por um triz!’ disse Alice,
bastante apavorada com a mudança repentina,
mas muito satisfeita por ainda estar existindo.
‘E agora, para o jardim!’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Por mais que o novo assuste, ele é o caminho para evolução.

“’Gostaria de não ter chorado tanto!’
(...)
‘Parece que vou ser castigada por isso agora,
afogando-me nas minhas próprias lágrimas.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

O choro faz parte da evolução e mulheres tendem a externar emoções com lágrimas. Os homens, infelizmente, são educados para não fazê-lo. Mas é preciso cuidar para que a lágrima não nos impeça de continuar. Passar a vida com os olhos lacrimejantes é perder o tempo da superação.

“’Não gostar de gatos!’
gritou o camundongo com uma voz estridente, exaltada.
‘Você gostaria, se fosse eu?’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Cada indivíduo é único em suas experiências. O que é bom para mim pode não ser para o outro.

“’Vamos para a margem. Lá eu lhe contarei minha história
e você vai compreender porque odeio gatos e cachorros.’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Tomar consciência da história do outro antes de julgar-lhes as ações, aproxima-nos do outro enquanto sujeitos falhos que também somos.

3-    Uma Corrida em Comitê e uma História Comprida
“’Sou mais velho que você e devo saber mais’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

O saber nada tem a ver com a idade. O conhecimento e a experiência vêm com o viver. Estar aberto a isso é deixar a porta aberta para um leque de possibilidades e oportunidades.

“’Achando o quê?’ indagou o Pato.
‘Achando isso’, respondeu o Camundongo, bastante irritado.
‘Suponho que saiba o que ‘isso’ significa’
‘Sei muito bem o que ‘isso’ significa quando eu acho uma coisa’,
 disse o Pato. ‘Em geral é uma rã ou uma minhoca.
A questão é: o que foi que o arcebispo achou?’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

As experiências vividas podem fazer com que vivamos um eterno “achismo”. E o pior deles é o que nos faz crer que o outro SEMPRE entenderá nossos atos. Se quiser uma resposta aos seus atos, diga-os claramente. Esperar a compreensão do outro sem nada dizer pode gerar frustrações.

“...começara a correr quando bem entenderam
e pararam também quando bem entenderam,
de modo que não foi fácil saber quando a corrida havia terminado
(...)
‘A corrida terminou!’ e todos se juntaram em torno dele,
perguntando esbaforidos: ‘Mas quem ganhou?’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Cada um por si, não é o melhor caminho. Por mais que pareça estranho é a união o menor caminho entre o homem e a meta.

“Alice não tinha a menor idéia do que fazer e,
no seu desespero, enfiou a mão no bolso, tirou uma caixinha de confeitos
(...)
e distribuiu-os como prêmios. Havia exatamente um para cada um.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Sempre teremos algo para ofertar a alguém. Alguma coisa, por menor que nos pareça, pode ser algo importantíssimo no aprendizado do outro. Doar, compartilhar, essas são também atitudes evolutivas.

“Depois veio a hora de comer os confeitos
isso provocou algum barulho e confusão,
com as aves grandes se queixando de que não conseguiam
sentir o gosto dos seus,
e as menores engasgando e tendo que levar palmadas nas costas.
Mas finalmente tudo terminou. ’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Nem sempre nossas experiências serão de fácil ‘digestão’. O estranhamento surge da ‘inexperiência’ do outro. É preciso ter calma e tudo se ajeita.

“Sob pretextos variados, todos se afastaram
e Alice logo se viu só.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Preserve suas experiências e só as divida quando realmente forem necessárias. Mas antes escolha bem as palavras. Algumas situações podem assustar os menos preparados.

4-    Bill Paga o Pato


“’Ora essa, Mary Ann, que está fazendo aqui?
Corra já até em casa e me traga um par de luvas e um leque!
Rápido, vá!”
 (Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Não devemos permitir que as pessoas joguem em nós suas urgências ou depositem em nós seus sonhos, frustrações ou expectativas. Somos um ponto de contato na vida do outro. Compartilhamos, mas não devemos nos colocar como referência. Isso é o mesmo que assumir a responsabilidade e o comprometimento de não errar, não falhar. Essa atitude é perigosa para quem segue e para quem pretende ser seguido.

“‘Como parece esquisito’, disse Alice consigo mesma,
‘receber incumbências de um coelho!
Logo, logo a Dinah vai estar me dando ordens! ’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Aceitar sem questionamento que os outros atuem em nossas vidas como bem entenderem, é abrir mão do discernimento e do seu direito de pensar. Ordens só são pertinentes em casos de relação trabalhista. Até a criança deve ser levada a pensar se a sua atitude é certa ou errada. Castração do pensar não é um bom caminho para educação.

“...bateu o olho numa garrafinha pousada junto do espelho.
Desta vez não havia nenhum rótulo com a palavra ‘BEBA-ME’,
 mas mesmo assim ela a desarrolhou e levou aos lábios.
‘Sei que alguma coisa interessante sempre acontece’, pensou,
‘cada vez que como ou tomo qualquer coisa;
 então vou só ver o que é que esta garrafa faz.
Espero que me faça crescer de novo,
 porque estou realmente cansada de ser esta coisinha tão pequenininha.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Tudo que absorvemos pela vida, nossa ou de outro, tudo que lemos que ouvimos que aprendemos deve ser usado na nossa evolução. Tudo é uma lição. Como disse Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”.

 “Pousou a garrafa rápido, dizendo para si:
‘É mais do que o bastante... Espero não crescer ainda mais...
Do jeito que está,  já não passo pela porta... Não devia ter bebido tanto!’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Mas é preciso ter cuidado para não somatizar os questionamentos, anseios, frustrações, desejos... do outro. É preciso não se esquecer que somos seres únicos e como tais, devemos viver nosso próprio trajeto.

“‘Agora não posso fazer mais nada,
aconteça o que acontecer:
 O que vai ser de mim? ’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Para cada ação uma reação. Para cada pergunta uma resposta. Para cada erro um preço. Tudo na vida é assim. Pensar é a maneira de pagar menos.

“‘...mas sou grande agora, acrescentou num tom pesaroso.
‘Pelo menos aqui não há mais espaço para crescer mais.’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Se a infelicidade começar a ser uma constante em sua trajetória, é chegado, então, o momento de mudar a história. Indagar-se, ir além, olhar para o que vai além da janela... Se o seu mundo está pequeno para você, amplie-o.

“‘Mas nesse caso’, pensou Alice,
‘será que nunca vou ficar mais velha do que sou agora?
Não deixa de ser um consolo... nunca ficar uma velha...
mas por outro lado... sempre ter lições para estudar!
 Oh! Eu não iria gostar disso! ’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Amadurecimento não é sinônimo de velhice. Amadurecer está intrinsecamente ligado ao ato de evoluir. E aprender faz parte desse amadurecer. Só amadurece quem está disposto a aprender.

“Alice sabia que era o Coelho à sua procura,
e tremeu até fazer a casa sacudir,
completamente esquecida de que agora era umas mil vezes maior
do que o Coelho e não tinha razão alguma para temê-lo.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Ser maior que o outro em tamanho e força, não te deixa no comando de nenhuma situação. Agora se a força vier da sabedoria, você se tornará um gigante diante de seus inimigos e não haverá guerra que você não possa vencer.

“Um enorme filhote de cachorro
olhava para ela com seus olhos redondos e graúdos,
esticando debilmente uma pata, tentando tocá-la.
‘Pobre bichinho! ’ disse Alice, com carinho,
 e fez um grande esforço para assobiar para ele;
mas o tempo todo estava se sentindo terrivelmente amedrontada
com a idéia de que ele podia estar com fome,
caso em que muito provavelmente iria comê-la,
apesar de todos os seus afagos.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Os medos, as mágoas, os sofrimentos de nossas vidas podem nos deixar receosos na hora de ofertar carinhos, amparo, amizade. É preciso entender que apesar da dor, que a fé no outro pode gerar retorno e por essa fé que devemos continuar a viver.

“‘...Tinha quase me esquecido de que preciso crescer de novo!
Deixe-me ver... como posso conseguir  isso?
Suponho que teria que comer ou beber uma coisa ou outra;
mas a grande questão é: o quê?’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Escolher o que deve alimentar a nossa evolução é responsabilidade nossa. A vida não ensina. Simplesmente ela nos convida a viver. O que eu quero para mim? É a primeira pergunta a se fazer. Onde posso encontrar? É a segunda. Quem pode realmente me ajudar? É a última. Ninguém disse que é fácil. Só sabemos que é necessário.

“Havia perto dela um cogumelo grande, quase da sua altura;
depois de olhar embaixo dele, e dos dois lados, e atrás,
ocorreu-lhe que não seria má idéia espiar o que havia em cima dele.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)


Uma possibilidade só deve ser descartada quando está completamente esgotada.  E é nosso dever manter os olhos bem abertos as possibilidades que virão dessa primeira como a nova cabeça de uma Hidra. Na vida as coisas são assim: uma coisa brota de dentro da outra.

5-    Conselho de uma Lagarta

“‘Quem é você? ’ perguntou a Lagarta.
(...)
Alice respondeu meio encabulada:
‘Eu... eu mal sei, Sir, neste exato momento...
pelo menos sei quem eu era quando me levantei esta manhã,
mas acho que já passei por várias mudanças desde então.’
‘Que quer dizer com isso?’ esbravejou a Lagarta. ‘Explique-se!’
‘Receio não poder me explicar’, respondeu Alice,
‘porque não sou eu mesma, entende?’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

A única certeza sobre nós está no que fomos até o momento em que nos indagamos. No momento seguinte ainda que não tenha se movido uma folha, seremos alguém novo ou renovado pela consciência que nos traz a pergunta: Quem é você?
“‘Acho que primeiro você deveria me dizer quem é.’
‘Por quê?’ indagou a Lagarta.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Se não sabemos nos definir no sentido lato, porque sempre achamos que os outros podem? Não somos isto ou aquilo – Adoro isso! – somos amontoados de coisas – Essa idéia me fascina! – e os outros também são – Graças a Deus! – e eles carregam em si até mesmo um pedaço de nós. Incrível, não é?

“‘Oito centímetros é uma altura tão insignificante para se ter.
‘Pois é uma altura muito boa!’ disse a Lagarta encolerizada,
empinando-se enquanto falava
(tinha exatamente oito centímetros de altura).”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Cada um sabe o que esperar. Os ambiciosos querem sempre mais e assim estão sempre em busca de tudo que possa lhes ajudar na evolução. E isso é uma constante. Afinal, cada vez que nos aproximamos de uma verdade, uma nova aparece. Ou seja, a evolução é um espiral de crescer constante para os ambiciosos de si. Já os conformados tendem a estacionar. E se limitam ao que são achando trabalhoso demais ir além do ponto cômodo que se encontram.

“‘Como gostaria que as criaturas não se ofendessem tão facilmente! ’
‘Com o tempo você se acostuma’, disse a Lagarta. ”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Com o tempo entendemos que apesar da sinceridade ser o melhor caminho no trato com o outro; ela incomoda. Então, torna-se fundamental achar um ponto de equilíbrio entre o que deve ser dito e o modo de fazê-lo.

“‘E agora, qual é qual?’ perguntou-se,
e mordiscou uma ponta do pedaço da mão direita
para experimentar o efeito:
num instante sentiu uma pancada violenta sob o queixo:
ele batera no seu pé!”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Equilibrar-se é o passo mais difícil do evoluir! E essa busca é um trabalho constante.

“‘Cobra! ’ arrulhou a Pomba.
‘Não sou cobra!’ disse Alice, indignada. “Deixe-me em paz! ’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Evoluir é mudar tudo. É saber que mudança causa estranhamento no meio em que se vive.

“‘Ora essa! Você é o quê?’ perguntou a Pomba.
‘Aposto que está tentando inventar alguma coisa!’
‘Eu... eu sou uma menininha’, respondeu Alice
(...)
‘Realmente uma história muito plausível!’
disse a Pomba num tom do mais profundo desprezo.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

As pessoas carregam certezas e algumas se encerram dentro delas como se estas fossem verdades absolutas. Essas verdades acabam limitando-as em sua evolução. Nenhum passo além do estado de conforto em que se encontram. Não adianta argumentação para essas pessoas. Depois de algo enquadrado em A ou B, nada mudará suas opiniões.

“...chegou de repente a um lugar aberto,
com uma casinha de cercas de um metro e vinte centímetros de altura.
 ‘Seja lá quem more aqui”, pensou Alice,
‘não convém me aproximar dele com este tamanho;
que susto iriam levar! ’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Ao estabelecermos relações com alguém é preciso entender antes as experiências e opiniões dos outros. Levar em conta que cada ser é único e respeitar esse ser em todos os níveis. Não adianta tentar fazer valer a nossa vontade! O ideal para uma boa relação é que haja respeito de ambas as partes à individualidade do outro.

6-    Porco e Pimenta

“‘Como faço para entrar? ’  Alice perguntou de novo, mais alto.
‘Mas, afinal, você deve entrar?’ disse o Lacaio. ‘Esta á a primeira pergunta. ’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

As vezes queremos coisas que ou não estamos prontos para ter ou não somos merecedores. É muito comum também não estarmos preparados para receber o que pedimos. Pensar antes de pedir, pedir somente quando estivermos certo dos nossos desejos, desejar só o que realmente é importante. Importar-se somente com o que possa nos fazer felizes.

“‘Se cada um cuidasse da própria vida’,
 disse a Duquesa num resmungo rouco,
 ‘o mundo giraria bem mais depressa. ’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

As pessoas se escondem no defeito do outro para criar em si uma falsa idéia de perfeição. Olhar-se, descobrir-se, é parte da evolução. Não devemos nos esquecer de que todo ser humano é falho. E nós, fazemos parte dessa humanidade falha.

“‘Se tivesse crescido’, disse ela para si mesma,
‘teria sido uma criança horrorosa;
mas como porco é bem jeitozinho, eu acho. ’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Cada um é como é. E se nos aceitarmos dessa forma inevitável e intransferível de ser, passaremos aos outros nossa essência e toda beleza que há nela.

“‘Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui? ’
‘Depende bastante de para onde quer ir’, respondeu o Gato.
‘Não me importa muito para onde’, disse Alice.
‘Então não importa que caminho tome’, disse o Gato. ”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

O nosso caminho é feito por nós. Mas antes devemos escolher, qual será esse caminho. Ir por ir é passar em vão pela vida. É preciso ter uma meta e tentar alcançá-la da melhor maneira possível. Sem atalhos. Na vida é melhor evitá-los e caminhar pela estrada certa, atento ao redor é evoluir.

“‘Mas não quero me meter com gente louca’, Alice observou.
‘Oh! É inevitável’, disse o Gato; ‘somos todos loucos aqui.
 Eu sou louco. Você é louca.’
‘Como sabe que sou louca?’ perguntou Alice.
‘Só pode ser’, respondeu o Gato,
‘ou não teria vindo parar aqui. ’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

As pessoas não estão preparadas para aqueles que querem viver para si e procurando no outro só um ponto para a própria evolução. Essas pessoas que não têm medo de viver, eles chamam de loucas. Mas desconhecem que a verdadeira loucura está em abster-se do próprio “eu” para moldar-se ao “eu” do outro.

7-     Um Chá Maluco


 “‘Então deveria dizer o que pensa”, a Lebre de Março continuou.
‘Eu digo’, Alice respondeu apressadamente;
 ‘pelo menos... pelo menos eu penso o que digo...
é a mesma coisa, não?’
‘Nem de longe a mesma!’ disse o Chapeleiro.
“seria como dizer que ‘vejo o que como’
é a mesma coisa que ‘como o que vejo’!”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)
 
Pensar antes de falar é filtrar a ideia, o conceito. É evitar ferir. Mas ao mesmo tempo é camuflar a sinceridade das impressões com máscaras de civilidade. Esse comportamento pode cair na hipocrisia ou falsidade; dependendo de como fazemos uso dele.

“‘Se você conhecesse o Tempo tão bem quanto eu’,
disse o Chapeleiro, ‘falaria dele com mais respeito.’
‘Não sei o que quer dizer’, disse Alice.
‘Claro que não!’ desdenhou o Chapeleiro, jogando a cabeça trás.
‘Atrevo-me a dizer que você nunca chegou a falar com o Tempo!’
‘Talvez não’, respondeu Alice, cautelosa,
‘mas sei que tenho de bater o tempo quando estudo música.’
‘Ah! Isso explica tudo’, disse o Chapeleiro.
‘Ele não suporta apanhar. Mas, se você e ele vivessem em boa paz,
ele faria praticamente tudo o que você quisesse com o relógio.
Por exemplo, suponha que fossem nove horas da manhã,
hora de estudas as lições; bastaria um cochicho para o Tempo,
e o relógio giraria num piscar de olhos! Uma e meia, hora do almoço!’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Queremos tudo ao mesmo ao nosso tempo. É uma pena porque cada um de nós na própria urgência, vamos sofrendo com as coisas que não chegam. O tempo independe de nós. Somos nós que devemos nos adaptar a ele.

“‘Mas o que acontece quando chegam de novo ao começo? ’
 Alice se aventurou a perguntar.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

No começo? Recomece! A vida é isso: ciclos que se iniciam e fecham. Tudo com certo tom de rotina e nada velho ao mesmo tempo. Um dia com dias passados dentro. Mas com possibilidades mil por fora.

“‘... é muito fácil tomar mais do que nada. ’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Quando nos pré-disponibilizamos para as oportunidades há sempre algo que pode ser acrescido em nossas vidas. E quando estamos prontos para absorver a vida o nada é impossível.

8-    O Campo de Croqué da Rainha

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9-    A História da Tartaruga Falsa


“‘Você está pensando em alguma coisa, minha cara,
 e isso a faz esquecer de falar.’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Ninguém saberá de você, se você se esconde em pensamentos. É preciso se expor as vezes, para que o outro nos encontre. E, até mesmo, se encontre. Nossos pensamentos e indagações podem ser o ponto de partida para a solução das indagações do outro e vice e versa. Só a comunicação traz resoluções para as dúvidas.

“Disse a Duquesa. ‘Tudo tem uma moral,
 é questão de saber encontrá-la’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Preciso aprender a enxergar o propósito de tudo. Nenhuma experiência pode passar sem ser pensada e repensada para se tirar o melhor proveito.

 “‘Oh, é o amor, é o amor que faz o mundo girar’.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

O amor torna tudo mais suportável e compreensível. Penso que o amor é o remédio que cura a alma.

“‘Seja o que você parece ser’
‘Nunca imagine que você mesma não é outra coisa
senão o que poderia parecer a outros do que
o que você fosse ou poderia ter sido não fosse
 senão o que você tivesse sido teria parecido a eles
ser de outra maneira’.”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Alguém sempre nos esboça dentro de experiências próprias ou situações. Seremos para aqueles essa figura esboçada independente do que fizermos dali em diante. Tentar mudar propositadamente nossa imagem para ser mais ou melhor para alguém pode ser um desgaste enorme e inútil para nós mesmos. Somos o que somos. E só temos que ser melhores por nós.

 “‘Tenho o direito de pensar’”
(Lewis Carroll, in “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas”)

Pensar, sim. Falar é que deve ser estudado, analisado, avaliado... Somos donos de nossos pensamentos e escravos de nossas palavras.

10- A Quadrilha da Lagosta


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11- Quem Roubou as Tortas?



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12- O Depoimento de Alice
“Por fim, imaginou como seria essa mesma irmãzinha
quando, no futuro, fosse uma mulher adulta;
[...]
... e como iria sofrer com todas as mágoas simples dessas crianças,
e encontrar prazer em todas as alegrias simples delas,
lembrando sua própria vida de criança,
e os dias felizes de verão.”

A mulher e a criança estarão sempre unidas, independente do que vier no futuro. A criança é o refúgio da mulher diante da dura realidade do mundo adulto. O lugar para onde voltar quando o sentido de viver se esgota. A criança é a fonte de energia da mulher que num mundo imaginário e particular pode crer e viver feliz.


Até breve! ♥

(Waleska Zibetti, in "Waleska no País das Maravilhas")

quinta-feira, 5 de março de 2015

A CURA PELA FALA




Boa tarde pessoal!
A partir de hoje o Clube incluirá alguns textos informativos sobre fatos da mente, do cérebro, curiosidades, psicologia em geral,  tudo para levar aos nossos leitores conhecimento.
Leio, logo sou livre. #CLV




FREUD E A MENTE INCONSCIENTE
Freud não inventou a ideia da mente inconsciente, mas deu-lhe mais solidez e chamou atenção para ela. Seu trabalho teve um impacto profundo na sociedade e sem dúvida alguma, garantiu-lhe o status de gigante intelectual do século XX.

A CURA PELA FALA
Talvez a mais importante das afirmações de Freud tenha sido a de que tudo que pensamos, dizemos ou fazemos é impulsionado pelo inconsciente – nada acontece por acaso. A psicanálise é a terapia que ajuda a revelar as causas ocultas de nossos pensamentos e comportamentos conscientes, e assim nos permite lidar com os problemas associados ao recalque. Seu objetivo – de acordo com Freud – é fazer o inconsciente se tornar consciente. Por exemplo, quando Anna O. Resgatou a lembrança reprimida de um cão bebendo em um copo, desbloqueou sua própria resistência a beber.
Inicialmente, Freud usou a hipnose para examinar o material inconsciente de seus pacientes, mas abandonou-a gradualmente porque achava que essa técnica era incapaz de penetrar nos aspectos mais profundos do problema – os sexuais. Preferiu a técnica da livre associação, em que o paciente se deitava em uma posição relaxada em seu famoso divã e dizia o que lhe viesse à mente. Freud então analisava o que o paciente havia lembrado – dando especial atenção aos símbolos e aos fragmentos de sonhos, que eram segundo ele “a majestosa estrada para o inconsciente”. O analista – e apenas o analista – poderia, assim, determinar que acontecimentos no passado do paciente houvessem causado seu sofrimento atual.




Créditos: Reader’s digest (Maximize o potencial do seu cérebro)

quarta-feira, 4 de março de 2015

O Corvo


Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais." 
Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará jamais.
E o rumor triste, vago, brando,
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto e: "Com efeito
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."
Minha alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós - ou senhor ou senhora -
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse: a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.
Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta:
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.
Entro co'a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais tarde; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma coisa que sussurra. Abramos.
Ela, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso.
Obra do vento e nada mais."
Abro a janela e, de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre Corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto
Movendo no ar as suas negras alas.
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.
Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo - o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "Ó tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais:
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o Corvo disse: "Nunca mais."
Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Coisa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta,
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é o seu nome: "Nunca mais."
No entanto, o Corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o Corvo disse: "Nunca mais."
Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: "Nunca mais."
Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao Corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera.
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais."
Assim, posto, devaneando,
Meditando, conjecturando,
Não lhe falava mais; mas se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava,
Conjecturando fui, tranqüilo, a gosto,
Com a cabeça no macio encosto,
Onde os raios da lâmpada caiam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.
Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso.
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o Corvo disse: "Nunca mais."
"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: "Existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o Corvo disse: "Nunca mais."
"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No Éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais.
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."
"Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa!, clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fica no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua,
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o Corvo disse: "Nunca mais."
E o Corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!


(trad. Machado de Assis - 1883)
Poe, Edgar Allan. O Corvo. Editora Lorimer Graham. 1845.

terça-feira, 3 de março de 2015

Fina Flor de Dendê


Sou valente, sou da guerra

Grito, falo alto, berro, quebro coreto

Sou rebelde, atuleimada, retada

Se tou errada, peço desculpa

Se tou certa, passo por cima.

Sou assim e disso não me envergonho.

Tá comigo, tá com Deus

Não deixo na mão quem gosta de mim.

Se me tratar bem, com dengo e manjar

Terá uma amiga pra toda vida

Agora se vier com meia-banda, meia-boca, meia-palavra

Jogo bem longe, com golpe de pernada ou braçada

Capoeira e foice

Mas antes fosse meu inimigo declarado

Porque comer no meu prato e fazer escárnio

É coisa de tinhoso.

A quem chega entrego o manual

Faça assim que dá certo

Faça assado que é de bom grado.

segunda-feira, 2 de março de 2015

O Impossível



Mas primeiro prova da terra. 
Depois, voa.
Não aprendeste com Ícaro?
[Caio F. Abreu]


__ Deixa eu voltar? - ele pergunta e ela morde o lábio para que a resposta não fuja no impulso. Em silêncio se pergunta quando foi que ele estivera fora da vida dela. - Sinto sua falta. - E ela o olha relembrando quantas vezes ela também sentiu a falta de conversar bobagens com ele; e quantas vezes ele a deixou sozinha ignorando a falta que ele fazia na vida dela.

__ Como vão as coisas? - Perguntou para quebrar o gelo. Querendo ignorar o paradoxo de emoções que sentia. Apertando os dedos da mão para evitar o abraço. E falando qualquer coisa sem sentido para evitar o beijo. Ela não podia deixar mais nem um passo. As dores que ele causava ao se aproximar eram muito maiores que os prazeres. Isso ela sabia bem. 

__ Está tudo bem. E você? 

__ Tudo igual. - "Até o amor que tenho por você", completou em silêncio. Ela não entendi como podia sentir algo ainda. Não era normal. Talvez de tanto que lhe disseram que ela era louca, ela tenha mesmo se tornado. 

__ Você sumiu. 

__ Trabalho. - Ela aprendeu que no trabalho ele não existe. E ela trabalhava até o corpo entrar em câimbras de cansaço. Não se permitia pensar a não ser em todas as coisas que tinha agendada para fazer. Cinco minutos ociosos, eram cinco minutos dedicados a ele. A impossibilidade que aqueles sentimentos representavam. Não era orgulho era medo. Medo da solidão que vinha com ele. Medo das mentiras. Medo de ficar sempre a margem da vida dele. 

__ Olha o que o médico disse.

__ Eu sei. Mas eu preciso... - "preciso me ocupar e não pensar em você", disse só para si. Ela precisava se proteger daquele vício de amá-lo. 

__ Aparece mais vezes. 

__ Sempre que der. - "Mesmo que você não me veja", desviou os olhos.

Como é possível se amar o impossível? Ela carregará a dúvida para sempre. Se ao menos fosse possível por uma única vez, talvez o encanto acabasse e tudo viraria só mais uma dessas histórias que se ouve por aí. E ele viraria mais um. Mas quem pode ter a certeza disso, não é? Algumas coisas ninguém explica. Ele é assim na vida dela. E ela vai continuar tentando não pensar. Quem sabe um dia de tanto não alimentar o pensamento; o pensamento morre? É a esperança dela. 
(Waleska Zibetti, in "O Impossível")

domingo, 1 de março de 2015

Bem Vindo a Nárnia, Parte I

"Homens como eu, conhecedores da sabedoria oculta, não estão presos a essas regras vulgares... do mesmo modo como estamos distanciados dos prazeres vulgares. Nosso destino, meu filho, é solitário, mas está acima de tudo." - Tio André
(C.S. Lewis, As Crônicas de Nárnia, Livro I  -  O Sobrinho do Mago.)

As Crônicas de Nárnia são constituídas por:
Vol. I – O Sobrinho do Mago
Vol. II – O Leão, o Feiticeiro e o Guarda-Roupa
Vol. III – O Cavalo e seu Menino
Vol. IV – Príncipe Caspian
Vol. V – A Viagem do Peregrino da Alvorada
Vol. VI – A Cadeira de Prata
Vol. VII– A Última Batalha


Numa série com 8 livros eis que começamos com o Sobrinho do Mago e entramos no mundo de Digory, Polly e Tio André. Numa Londres em que o Sherlock vivia e que um certo vovô vivia, conhecemos a história de duas que acabaram virando amigos pelo acaso!
E a aventura começa quando Digory e Polly vão parar no gabinete secreto do excêntrico tio André. Ludibriada por ele, Polly toca o anel mágico e desaparece. Digory, aterrorizado, decide partir imediatamente em busca da amiga no Outro Mundo. Lá ele encontra Polly e, juntos, ouvem Aslam cantar sua canção ao criar o mundo encantado de Nárnia, repleto de sol, árvores, flores, relva e animais.
Aslam, um leão muito fiel e sábio de Nárnia, vendo que em seu mundo não há ninguém, cria todos os animais, mas não qualquer animal, animais falantes e elege Helena e Franco como rei e rainha de Nárnia e entrega a Digory e Polly um fruto que pode curar qualquer pessoa.
Assim, eles voltam para casa e Digory e Polly resolvem enterrar o fruto e os anéis mágicos no quintal do menino para que ninguém os encontre.
No final, muito tempo depois, Digory faz um guarda-roupa com a árvore do fruto plantado, e, mesmo que este seja o fim desta história, é o começo de muitas outras. Bom para quem conheceu Nárnia através das suas criações Hollywoodianas (não foi o meu caso, preferi ler os livros primeiro por achar que teria algo a ser descoberto antes do filme), não imagina que exista um universo de outras histórias envolvendo a Mágica terrinha de sonhos e muitos mistérios.
A escrita é bem simples por um ser um livro infanto-juvenil e com certeza prende o leitor do princípio ao fim! Ela é bem pequena, mas pra mim ela é essencial para o resto da história já que nela conhecemos personagens e elementos que estarão nas futuras crônicas. Então foi bacana ler antes de ver qualquer um dos 3 filmes.
O modo como o narrador conversa com o leitor durante uma explicação ou descrição de coisas que talvez pudessem ser difíceis de serem imaginadas faz com que realmente o leitor queira continuar a leitura!


"Não é possível imaginar bosque mais calmo. Não havia pássaros, nem insetos, nem bichos, nem vento. Quase se podia sentir as árvores crescendo. O lago de onde acabara de sair não era o único. Eram muitos, todos bem próximos uns dos outros. Tinha-se a impressão de ouvir as árvores bebendo água com suas raízes. Mais tarde, sempre que tentava descrever esse bosque, Digory dizia: “Era um lugar rico: rico como um panetone."
(C.S. Lewis, As Crônicas de Nárnia, Livro I  -  O Sobrinho do Mago. - Capítulo: O Bosque entre dois mundos)

É bem notável a essência bíblica durante a história desde a criação do mundo de Nárnia até a escolha de um casal de cada espécie animal para receberem o “dom” da fala. É bem mais notável no livro do que nos filmes que Aslam é realmente “Deus”… Pelo menos o Deus de Nárnia.
E ah!
Os Frutos que comentamos a alguns parágrafos acima?
Bom Digory conseguiu com um deles fazer dessa primeira história ter um final feliz (a sua mãe, muito doente, ficou curada).
E o miolo desse fruto?  
Digory plantou o miolo do fruto no seu quintal, que transformou-se numa linda árvore. Ela não deu frutos mágicos, mas possuía magia. Quando Digory era um homem de meia-idade, já proprietário de uma mansão no campo, uma grande tempestade derrubou a árvore.

“Como não lhe agradasse a ideia de cortá-la e aproveitar a lenha na lareira, o professor utilizou parte da madeira para fazer um guarda-roupa, que foi levado para casa de campo.”
E adivinhem só que guarda-roupa era esse?

Bom, é impossível conter-se diante de uma história tão bacana, mas ainda tenho mais 7 livros então de volta as leituras.

Até o próximo texto,
Au Revoir

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Descrença


Acordei assim

Desacreditada

Descrente no amor

Sem fé no ser humano

Como isso aconteceu?

Procurei por toda parte

Nas lembranças, nas gavetas da memória, dos cheiros

A caixa dos amores está vazia, entreaberta

Foi-se embora.

Preciso encontrar, não posso sair assim na rua

Ele adornava o meu rosto, afinava a minha voz

Agora sou um ser amorfo, sem feitio

Um ser meio humano meio besta fera

Preciso encontrar o Amor, a Ternura, a Ingenuidade

Para encarar a Vida sem titubear

Tenho que voltar a ser criança.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

CONTATO EXTRATERRESTRE



Por Gabriella Gilmore

Especulações à parte.

Adoro assistir o canal History, e tenho acompanhado várias matérias sobre Extraterrestres e suas pistas no decorrer dos anos, mas nada me convence sobre essa “estranha” existência.
Para mim, tudo isso é criação da mente fabulosa do governo Norte Americano.
Talvez eu não tenha argumentos perfeitos para defender a minha descrença, mas tenho perguntas, como por exemplo: Por que essas pesquisas não são feitas pelos Asiáticos também? Acho os Japoneses, Chineses, super iluminados e sábios, por que então nunca li nenhuma pesquisa sobre isto vindo deles?
Por que essas matérias e estudos são em sua maioria feitas pelos Americanos? Por conta da Nasa?
Por que que ETs e aparições só aparecem, na “grande maioria”, na América Latina? A maior parte das testemunhas dos documentários é do Chile, México, Bolívia, Brasil...
O que o governo Americano ganha por sustentar essa ideia por tantos anos? Eu ainda não sei, mas tenho uma leve desconfiança sobre o motivo.
Para mim, os asiáticos estão preocupados mais com a busca a iluminação do que ficar comprando essa ideia manipuladora que só traz discórdia.
O tema é explorado pelos USA porque as intenções maquiavélicas são deles e a favor deles, e a Nasa é muito mais misteriosa do que podemos imaginar. É a Hollywood da ciência.
Os Latinos Americanos são manipuláveis por conta da religiosidade, o que os tornam vulneráveis e medrosos. Quando eles “testemunharam” que viram luzes, vultos, naves, ou algo do tipo, seja no céu ou na terra, a única coisa que me vem à cabeça é: produção “hollywoodiana”. Já reparei que os documentários no History te jogam o tema em seu colo, mas no final eles não dão um veredicto. Deixam a dúvida. Qual o intuito? Confundir a sociedade?! E essas coisas que as pessoas veem por ai? Eu não acho que seja ilusão não. Pode ser real sim, mas eu acho que pode ser “nave” do governo Americano, e afins, tudo para que essa mentira seja comprada da melhor forma possível.
Para sustentar uma história tão poderosa dessas, a pessoa tem que ser mestre nas produções, em histórias e em engano, e para mim os USA são os melhores na sétima arte, e enquanto eles continuam nessas especulações engraçadas, eu prefiro continuar com minhas teorias sem base, mas são minhas, e sem influências...

P-S -  Ainda há coisas que deixo só para mim para evitar “morte matada”.