terça-feira, 13 de janeiro de 2015

"AS PESSOAS" - Crônica



AS PESSOAS

Uma crônica de Gabriella Gilmore

5:45 A.M

Ela não sabe ao certo se realmente receberá visita no final daquele domingo.
Catarina abre os olhos e vê que a luz da sua secretária eletrônica estava piscando. Ela tem uma nova mensagem.
Estica a mão direita para alcançar o botão play.
Beep! Você tem uma nova mensagem.
“Bom dia dorminhoca. Se quiser mesmo assistir filme comigo no final da tarde, me fale o melhor horário para eu ir até sua casa.” Beep!
Catarina ficou olhando para o teto. Logo os olhos se fecharam. Enquanto algumas pessoas não dormem, ela voltou a dormir.
As horas pareciam intermináveis. Se ela pudesse, acordaria só no final da sua vida, para um último suspiro. “Oh, como viver tem me doído à alma!”
Aos olhos dos outros, sua vida era perfeita.
Já havia conquistado quase tudo em tão pouco tempo.
Tinha uma carreira de sucesso. Era inteligente, bonita, da fala correta. Tinha seu próprio apartamento, seu carro e seus bichos. Visitava todo dia sua mãe. Era amada, idolatrada, e invejada. Entretanto, quem se importava? Talvez nem ela mesma dava conta do curto conto de fadas em que vivia.
“Posso dizer o horário. Preciso de ânimo para levantar dessa cama.” Já era quase a hora do almoço. “Nem tomei o café. Quem adiantou o relógio?”
Já era 11:45 A.M.
Virou o corpo para a direita. Soltou um gemido e apertou novamente o botão play da secretária.
Beep! Você não tem nenhuma mensagem.
“Ela não vem!”
Pegou o celular para digitar um torpedo.
“Se importa da gente remarcar o filme para outro dia? Acordei mentalmente indisposta para fazer um social.”
A resposta só foi chegar duas horas depois.
Sua amiga já estava em outro compromisso. Para algumas pessoas as horas passam.
Cacá olha para o teto. Ele tem sido sua distração há meses.
O telefone toca.
Ela dá um sorriso e um suspiro. Mas era a portaria tentando testar o interfone do apartamento. Seu humor volta à cor amarela.
Depois de 40 minutos, ela se arrasta para o banheiro.
Olha-se no espelho, encarando as olheiras de tanto dormir.
Lava o rosto. O seca lentamente na sua toalha de 200 fios 100% algodão. Encara-se novamente.
Dá leve batidinhas nas bochechas na esperança de ver sangue correr naquele local.
Dá um sorriso forçado, mostrando os dentes perfeitos.
Depois de escova-los, resolve tomar uma ducha quente para ver se relaxava a falsa tensão.
Enquanto isso, ela pensava. Pensava de novo, e de novo. Passam-se as horas, e nada acontece.
Ela esperava por uma visita que ela mesma desmarcou.
Insatisfeita.
Depois do banho tomado, ela se senta em frente ao computador.
Pensa em escrever, mas àquelas horas não a permite digitar se quer um pensamento. Eles eram rápidos demais. Vagos demais.
Desliga o aparelho.
Decide fazer um leite quente com canela.
Ao sentar em frente à TV, ela percebe que não tem hábitos de assisti-la.
Termina calmamente seu leite, e volta para a cama.
As horas não passavam.
Infindáveis. Fadigosas.
Ela olha para sua estante de livros e pega um exemplar de provérbios.
“Não quero ser rude, mas preciso te lembrar de que amanhã é segunda-feira. Carpe diem. Boa leitura.”
Era um recado antigo que estava escrito na página branca do título. 
Pegou a chaves do carro, e foi visitar as pessoas.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Sobre o "Amor Natural" e outras sensações

"Os movimentos vivos no pretérito
enroscam-se nos fios que me falam
de perdidos arquejos renascentes
em beijos que da boca deslizavam
para o abismo de flores e resinas.

Vou beijando a memória desses beijos."
[1]


Erótico, pornográfico e nunca vulgar!
Talvez essa seja a definição desse livro até pouco tempo desconhecido pra mim. E a cada poema a imaginação ia dando comandos a todos os sentidos. Um choque para os desavisados, um deleite para os amantes e um rubor para quem se descobre lendo esses poemas.

"O que se passa na cama
é segredo de quem ama."
[2]

E nas cucas de quem se destina a ser livre o que se passa?O que mais houvesse para haver na cama entre casais diversos, está descrito lá. Mas e os tímidos? (Olha eu aqui!!!)
Como foi dito por Mário de Andrade, "Faz todo o sentido, mesmo sendo culpa dessa bendita timidez". 
E a reação foi: Como assim, o Drummond?  
Nesse caso a frase "sabe de nada, inocente", se encaixa perfeitamente. 
Pronto! O lado carnal e humano do Drummond estava descoberto. 
Através de 40 poemas póstumos (O engraçado é que esses poemas foram guardados por anos e só foram publicados 5 anos após a sua morte) você descobre um lado seu até então desconhecido. E como um outro velhinho e dessa vez safado "assumido", o Bukowski já poetizou:

"há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te."
[3]

Em pleno Século XXI a nossa sociedade ainda é muito repressora ao falar de sexo. Existe uma falsa liberdade e muita hipocrisia reinante: sexo é sempre caricaturizado perdendo-se muita qualidade com tal postura. Para os curiosos recomendo a leitura, para os apaixonados uma pimentinha, para os que tem feitiche um convite. 

Decifre e chega de porquês na história. Vai logo sua alma libertina!







Au Revoir
Até o próximo texto  


[1]Andrade, Carlos Drummond. O amor natural. 1ª Edição. São Paulo: Companhia das Letras. 2013. Página: 48.
[2]__________________________. O amor natural. 1ª Edição. São Paulo: Companhia das Letras. 2013. Página: 16.
[3]Bukowski. Charles. O Pássaro Azul. O Leitor Cabuloso. Disponível em: http://leitorcabuloso.com.br/2013/07/sexo-alcool-e-poesia-o-lirismo-maldito-de-charles-bukowski-o-velho-safado/ . Acessado em 10/1/2015.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Enquanto Isso...



Enquanto ele caminhava pela rua pensava na infância agora tão distante. Era tempo de carrinho de rolimã e pipa com rabiola de jornal. Sua mãe era pobre demais e hoje ele tem coisas que nunca poderia imaginar naquela época. Tomava suco da fruta da época... Riu lembrando-se que na sua infância cada fruto tinha seu tempo e tudo estava ali descendo os seis degraus que separavam a casa do quintal. Ele tinha um cão de nome Corisco. E então se riu a valer sozinho caminhando pela rua. Corisco era nome de cavalo e de corisco seu cão não tinha nada: era magro, pulguento e vermelho de terra.  “Um dia bate um vento e leva esse bicho” – repetia sua mãe enquanto escolhia feijão para o almoço. E ele fechou os olhos por um segundo para sentir o cheiro. Ele só não sabia qual cheiro procurava se o da mãe, o da comida na lenha ou o da infância. E lá vai ele rua abaixo...

Ela estava indo pela rua como sempre fazia organizando em seus pensamentos a sua agenda apertadíssima. Enquanto caminhava apressada pela rua em seus saltos, ela revirava coisas na bolsa. Ela sempre procura na bolsa alguma coisa. Nunca entendeu que o que ela procura não está na bolsa. O que ela procura está nos olhos de alguém que ela nunca verá porque tem os olhos preso no fundo preto da bolsa lotada de coisas vazias. Ela tem que ir ao banco pagar a conta que vence hoje e ao dentista as quinze depois de passar na lotérica e fazer uma fezinha. À noite ela vai chegar a casa e preparar o jantar (macarrão que é mais rápido porque hoje a novela vai ser boa e ela não pode perder). No fim da noite ela abraçará o travesseiro pensando em coisas que fará amanhã enquanto revirará pela rua a sua bolsa de inutilidades. E lá vai ela rua acima...

Ele passa por ela e perde seus pensamentos felizes olhando curioso para a mulher linda que se esconde na bolsa. Ela nem ouve quando ele sorri e lhe diz bom dia porque ela sabe que estava ali, em algum lugar, o endereço da agência. E lá vai ele rua abaixo. E lá vai ela rua acima.
(Waleska Zibetti, in "Enquanto Isso")

sábado, 10 de janeiro de 2015

Keith Urban - Country music



Bom dia pessoal!!
Sabadão chegou e estou trazendo uma dica de música hoje.
Eu já venho escutando as músicas de Keith desde do ano passado. Ano numa vibe super country, o que acho razoavelmente bom. rs.
Quando eu começo a gostar mesmo de algum grupo, eu acabo mergulhando em sua história da carreira. Antes de ontem assisti um documentário deste cantor no BIO, e venho hoje dividir algumas informações que achei interessante dividir com vocês.

Keith Urban é da Nova Zelândia criado na Austrália. Começou a tocar violão desde moleque, e quando adolescente já tocava em festivais e já tinha um desejo: Se mudar para Nashville nos States e tentar viver do estilo musical que tanto gostava: o country.
Suas bases musicais também tem muito do rock. Podemos ver isso em arranjos virtuosos ao assistir suas apresentações ao vivo, que confesso serem até melhor do que as de disco.
Ao se mudar para os States, naquela cidade pequena, ele foi encontrando uma série de problemas, e um deles era adaptação e preconceito. Como concorrer com os melhores do country music do mundo? (Quem conhece Nashville aqui gente?)
Lá ele conheceu o vício em drogas, o que acabava sendo um "refúgio" para si. E algumas vezes se internava em Rehabs.
Após dez anos de muita divulgação das suas músicas, tanto como projeto solo e participando de bandas de rock, Keith finalmente conseguiu alavancar a sua carreira em The Ranch, em 1999. E ai ninguém conseguiu segura-lo.
Em meados de 2004, ele conheceu a atriz Nicole Kidman, e em um breve relacionamento eles se casaram.
Seis meses após o casamento, diante de uma decisão muito importante na sua vida em plena ascensão, Keith decidiu se internar por um tempo maior, a sair em tour com um de seus albuns que sem dúvida dos produtores seria um novo marco em sua história como músico. 
Como o apoio da esposa e dos amigos e continuou firme sobre aquela importante decisão que poderia ou não prejudicar sua carreira.
Escolha sábia esta, que fez com que eu esteja agora escrevendo algo sobre este cantor/compositor de tamanho talento e sobriedade. 

Espero que gostem do som deste rapaz.
Cheers!!!

Vou te complicar

Vou te complicar. No próximo abraço, pequena, vou te apertar mais que o costume e vou fazer tua boca encostar meu pescoço. Ali, duvido que teus lábios resistam à tentação que a eles se oferece. Do beijo premeditado, vou dizer alguma coisa no seu ouvido que vai ecoar pela sua cabeça e descer, lentamente, como uma mão atrevida passeando pela barriga até o pé. E depois eu troco de lado, sussurro outro segredo pra compensar o peso. Cada orelha leva uma mordida, uma confidência e um arrepio.
Vou dificultar as coisas pra ti, moça bonita. Assim que te pousar – no próximo abraço vou arrancar seus pés do chão – vou encarar seus olhinhos que já terão se aberto depois daquilo. Cronometrando os segundos em que mantemos contato, num passe de mágica vou sumir com o mundo ao redor. Não importa em que condições climáticas ou emocionais nos encontremos, só restará eu e você no ilusionismo da atração. Aos poucos, num redemoinho, tudo volta ao lugar. Meus braços, relaxando, começam a soltar o seu corpo.

Vou te decifrar mais a cada instante. Com medo que eu te descubra e te apresente a cura (apesar de não existir mal nenhum), você vai ensaiar um passo pra longe, uma repulsão instintiva de quem se sente caçado. Tua mãos, entretanto, ainda comigo em contato, vai ser puxada de volta num leve gesto de quem não quer te deixar ir embora. Agora de costas, ou meio de lado, meio torta, vai evitar me olhar. Nessa hora eu não prometo estar sem sorrir, menina. E quem foi que disse que eu deixaria tua presença feminina, que me desperta e contamina meu ar com um essência tão boa, rapidamente se afastar.

Vou te quebrar. Talvez você não entenda de onde surge a vontade onde só existia medo. Espera o pior de mim, e é bom mesmo que fique esperando. É que mudou alguma coisa, não em mim, mas em nós. E seria tão melhor se tivesse ficado como estava, né? Não. Seríamos cada metade da história vagando por aí, pequena, sem ao menos ter o vislumbre de imaginar para onde escoa esse sentimento.


Lacombe, Gustavo. "Vou te complicar". Textos, Idéias e Poesias. Disponível em: http://gustavolacombe.com.br/2013/11/14/vou-te-complicar/. Acesso em: 09/01/2015.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Talvez - Pablo Neruda


Talvez não ser, é ser sem que tu sejas,

sem que vás cortando o meio dia com uma flor azul,

sem que caminhes mais tarde pela névoa e pelos tijolos,

sem essa luz que levas na mão que, talvez, outros não verão dourada,

que talvez ninguém soube que crescia como a origem vermelha da rosa, sem que sejas, enfim, sem que viesses brusca,

incitante conhecer a minha vida, rajada de roseira, trigo do vento, 

E desde então, sou porque tu és 

E desde então és sou e somos... 

E por amor Serei... Serás... Seremos...

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Adeus ano velho. (Frases)

Música do dia na versão de Dixie Chicks.

You can't hurry love

Para sonhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre. (Carlos Drummond de Andrade)
· Jamais haverá ano novo se você continuar a cometer os erros dos anos velhos. Pense nisso. Feliz Ano Novo! 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

UMA LIÇÃO: aprendendo a doar sorrisos.



“Às vezes me perco no mundo das palavras escritas. Embaralha-me a mente quando preciso falar e não consigo, por isso sigo escrevendo sentimentos...” – G.L

Há alguns dias tenho travado uma batalha espiritual com uma colega de trabalho.
Tentando entender o porquê de sua braveza comigo, nunca deixei de pedir a Deus sabedoria para lidar com as suas emoções.
Confesso que tenho minhas dificuldades de adaptação em todo início de trabalho novo. Como sou um pouco expansiva, eu me seguro para não forçar a barra demais no tanto que sou legal. (É o que dizem por ai). Portanto eu acabo me fechando, por timidez e o fato de eu ser um tanto desengonçada.
Ontem à noite pedi minha mãe orientação a respeito dessa situação e ela pediu para que eu tivesse mais paciência e amor.
Hoje quando cheguei ao trabalho à primeira coisa que eu pedi aos céus foi sabedoria e inteligência para tratar de frente esse mal entendido.
Pensei em comprar-lhe um doce para adoçar seu coração aparentemente amargo, e pedi desculpas por algo que não fiz, foi quando ela entrou na sala.
Aproveitei para desabafar.
Meus olhos encheram d’água, quando eu perguntava o motivo de tanta rispidez comigo.
Em nossa curta e simples conversa ela me disse que pelo fato de eu não sorrir ou não cumprimentar os colegas ao chegar fez com que construíssemos este muro.
Foi ai que percebi a tamanha importância que tem o dizer saudações e o sorriso brilhante.

Hoje tive mais uma lição, pois eu não sabia que as pessoas se importavam com isso, afinal, quem sou eu aqui na empresa? Com tão curto tempo de trabalho? E farei uma promessa em ser menos introspectiva, e dar sorrisos a pessoas que tanto precisam. E relembrando uma frase “Não repare quando eu te negar um sorriso porque naquele momento será o dia em que eu mais precisarei do seu”.


Obrigada 2014, pela redescoberta de mim mesma!

"I got the eye of the tiger, a fighter, dancing through the fire
'cause I am a champion and you're gonna hear me roar
Louder, louder than a lion
'cause I am a champion and you're gonna hear me roar..."
(Tradução: Eu tenho o olho do tigre, de uma lutadora dançando no fogo
Porque sou uma campeã e você vai me ouvir rugir
Mais alto, mais alto do que um leão
Porque sou uma campeã e você vai me ouvir rugir..."
Katy Perry - Roar)

Se alguém a um ano atrás alguém me contasse tudo que estou fazendo agora, eu não acreditaria. Se alguém me contasse como seria 2014, eu teria morrido de rir e dito “ok, conta a próxima”, porque pareceria a piada mais mentirosa de todas. De vez em quando ainda parece que vou acordar e tudo vai ter sido um sonho, e eu preciso me convencer todo dia de que a minha vida realmente deu esse pequeno giro de 360°em vários aspectos.


Essa pequena parte da minha vida eu chamo de amizade!

Quem não gostaria de uma oportunidade de abrir uma porta e reescrever a história por um caminho novo? Assim são os amigos... Acho fascinante conhecer coisas especiais em cada pessoa! 
Por isso é tão bom conhecer pessoas novas. Entrar em contato com os outros é uma forma de encontrar não só uma nova pessoa lá fora, mas também dentro de si. Não só é um jeito de se deparar com aquilo que permanece adormecido como é uma excelente oportunidade de se construir de uma maneira diferente. Assim é com as garotas do C.L.V., é com o grupo do Encontros da minha casa, "La Confrarie" do curso de Francês, as pessoas da nova unidade para onde me transferi , além daqueles já existentes cada um do seu modo e do seu jeito direta e indiretamente colocou suas sementes e estamos colhendo bons frutos!


Disposição e cuidado quebram bloqueios muito facilmente.  

Esse foi um ano que chamaria de revelador...
Eu escrevo algumas coisas e dou conselhos e continuo seguindo adiante, mas no geral não sou de me abrir. Estou escrevendo isso tudo agora porque fui tomada por uma vontade enorme de compartilhar plena e completamente o que estou sentindo esse fim de ano!
A verdade é que nem nos mesmos, nos conhecemos, por isso, às vezes nos surpreendemos. 
Surpreendemos com a nossa capacidade de reconhecer as mudanças que precisamos fazer conosco e mais ainda com os resultados. Muitas vezes parece que o mundo enjoou de girar tranquilamente e resolveu dar uma sacudida pra bagunçar tudo. E, como sempre, só lamentar não resolve nada. Uma hora ou outra precisamos ser maduros o suficiente para aceitar que somos capazes de pelo menos tentar organizar essa bagunça, e acreditem, quanto mais rápido melhor.
Vamos ser sinceros, não existe vida sem mudanças. Para vida é a segunda certeza que temos depois da grande viagem! Eu tinha o péssimo defeito de passar por cima dos meus sentimentos para agradar as pessoas. Acho que isso é reflexo da minha carência excessiva. Um mania de perfeição,um medo exacerbado de ser rejeitada. Ah é muita paranoia!!!!!
Bom mas quem não tem as suas que atire o primeiro "comentário" dando o contra.
Esse processo de auto conhecimento não é nada fácil, tem sido doloroso perceber certas coisas, minha fraquezas, meus medos...porém estou ficando fortalecida.


"Tente o novo todo dia,
o novo lado, o novo método, o novo
sabor, o novo jeito, o novo prazer, o
novo amor, a nova vida.
Tente."

"Eu quero viver, e não apenas existir. ♥" 
Essa é uma pequena grande parte da minha vida que eu chamaria de redescoberta do amor! E precisa de explicação e resposta para aquilo que não se consegue explicar? E eu acordava todos os dias querendo ter a certeza de que não estou sonhando. "Um dia de cada vez", "Carpe Diem", "Paciência" coisas que aprendemos com o tempo. Mas aprendemos que somos apaixonáveis, somos sempre capazes de amar muitas e muitas vezes. Afinal de contas, nós somos o "Amor".
Estou preparada e apesar disso, sem pressa… depois do muito que já esperei, nenhuma demora me fará desertar.


"Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver."
(Dalai Lama)
 
O futuro é uma incógnita, e eu já nem quero saber do que vem em 2015 ou em qualquer um dos meus próximos anos. Quero saber do hoje, e o agora é continuar me esforçando e trabalhando e correndo atrás. Pra você que pensa que a vida não tem sentido, ou que a mudança é impensável, ou se sente tão sem esperanças e perspectiva que nem sabe por onde começar, pare, esvazie-se e respire. Respire fundo e enxergue o que existe de bom ao seu redor. Parece impossível sair do fundo do poço, mas você ainda vê a luz se olhar pra cima. O que parece um problema a princípio pode ser exatamente o necessário pra que lá na frente tudo fique melhor. Então não desista. 
Eu agradeço imensamente a todos que passaram pelo meu caminho, e especialmente os que permanecem nele. O paraíso não vale nada sem amor, como diz a música, e existindo paraíso quero todos vocês lá comigo.
 
Feliz mudanças novas, feliz tempos novos!

Au Revoir
Até o próximo texto

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Coração - Caio Fernando Abreu

Na terra do coração passei o dia pensando - coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só com-cor, ação - repetido, invertido - ação, cor - sem sentido - couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:
Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.
Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.

Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.
Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.
Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.
Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.
Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.
Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pôs. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.
Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.
Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco. 
Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.

Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: "Im too pure for you or anyone". Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas. 
Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.
Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.
Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro. 
Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.
Meu coração é uma planta carnívora morta de fome.
Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos - ai de mim! ai, ai de mim!
Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também.

Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso. Acesa, aceso - vasto, vivo: meu coração teu.