terça-feira, 21 de outubro de 2014

A Grande Descoberta



O quadro era um tanto quanto incomodo. Uma sala quase vazia e cheirando a mofo. Ela estava sentada na poltrona próxima a janela e a luz da lua agravava ainda mais a sua palidez. Estava tão quieta que parecia não ter notado minha presença. Nem mesmo o gato que estava deitado em seu colo, se mexerá quando eu cheguei à porta. Pensei em sair dali antes de ser notado pelos dois, mas...

__ Por que sair se sua curiosidade implora para que fique?

A voz dela tinha um arrastar que causava arrepios. Eu vacilei, mas entrei lentamente. Ela continuava a olhar pela janela de sua poltrona. Tinha as pernas cobertas por uma manta e a mão fazia movimentos pelo dorso do gato como se aquilo fosse completamente involuntário a vontade dela. O bicho me encarou pela primeira vez. Seus olhos faiscavam em um tom de amarelo que inexplicavelmente me dava à sensação de que filmavam a alma. 

__ Boa noite!
__ Deve ser boa, não é?

Eu fiquei parado sem jeito e sem coragem de continuar a me aproximar. O gato ainda me observava e ela ainda não me olhara nos olhos. A situação era incomoda e eu me arrependia em silêncio de ter me aproximado daquela casa.

__ Não se sinta assim. Puxe aquele banco e sente-se. – enquanto eu me encaminhava para o banco, ela completou. – A curiosidade cobra um preço alto aos seus adeptos. O pior é que sempre pagamos. Todos nós! Até mesmo eles.

Olhei ao redor da sala a procura das outras pessoas. Não vi ninguém. Só móveis pesados e aparentemente mal cuidados dividiam a sala conosco. Notei que alguns estavam cobertos como que esperando mudança ou um fim qualquer. Finalmente sentei-me nem tão perto da mulher, mas também não tão distante. Ela continuava expectadora da rua e o gato também parecia ter se familiarizado comigo, uma vez que cochilava tranquilo no colo de sua dona.

__ Eles nos observam. Então, por favor, seja discreto e indireto. E principalmente, aja de modo natural. 

“Louca!”, pensei ao ouvi-la dizer aquilo. 

__ Não! Eu não sou louca. Só estou aqui há tanto tempo que já consigo pressenti-los. – e finalmente o rosto dela se vira para mim. Uma sensação de frio percorreu todo meu corpo e eu estremeci. Os olhos dela estavam nos meus eu poderia jurar que eram azuis. Mas não tenho ideia de como cheguei a essa conclusão com toda aquela escuridão. – Você já foi um deles. Mas deve estar por aí há muito tempo. Por isso, perdeu-se de si. Agora ficará por aqui, também. E vai caminhar pelas ruas até achar um lugar onde repousar, como eu. E verá que nada faz sentido fora daqui. Mas aqui, nesse mundo, as coisas são cada dia de um jeito e nunca sabemos como irão terminar.  – e um sorriso enigmático surgiu no canto de seus lábios no mesmo momento em que ela moveu seu corpo para frente ficando numa posição onde podia ver-me melhor. 

Era velha. Sim! Muito velha. Magra. Frágil. Pálida. Seus olhos eram claros, mas eu não posso mais afirmar se eram azuis. E a voz era marcante. Não sei defini-la exatamente. Porém, ela prendia-me na cadeira e calava minha própria voz. 

Devemos ter ficado em silêncio alguns minutos. Eu a observando e ela a mim. Ora ela sorria. Ora ficava quieta numa expressão firme. O gato parece ter se aborrecido com a situação e sentou-se a janela onde pude notar o negrume de sua pelagem. 

__ É um belo animal, não é? Veio para mim numa noite de lua cheia e ficou. Os gatos podem caminhar por entre os mundos. São almas tomadas de liberdade. E isso revolta o cão tão submisso ao seu dono. Claro que há os que não gostam do gato. Contudo, o que eles não gostam é da ideia de pertencer a um animal. Sim! Os gatos é que possuem. – e olhando-me tão profundamente ela me põe em xeque. – Importa-se de ser possuído, meu jovem?

__ Dependendo da situação...

Uma gargalhada alta e sonora ecoou na sala. Não condizia com a fragilidade aparente daquela senhora. O pior é que posso jurar que o gato participara daquela gargalhada em uníssono com ela. 

__ Você é fruto da possessão, querido. É por isso que está aqui. Junto com todos os outros. Você só existe por isso! Não se sinta menor. Também só existo por isso. E assim também é o nosso amiguinho Wade ali. Todos nós estamos aqui porque alguém lá foi possuído ou de raiva ou de amor ou de tristeza ou de alegria ou de dor... O sentimento não importa! O que importa é que nascemos desse momento. E ficamos aqui. Alguns ficam sem passado, outros sem presente. Futuro? Ah, nunca vi nenhum ter futuro. 

Ela parecia transtornada e confusa. Eu não via nexo no que ela falava. Parecia que ela delirava. Ou era eu que achava tudo aquilo ali completamente confuso. E foi aí que me dei conta de uma coisa... 

__ Como vim parar aqui? – disse em voz alta. 

E ela não me disse nada. Só continuou a olhar-me com seus olhos frios e seu sorriso misterioso. Levantei-me. Ela se recostou. Wade pulou no colo da sua dona como que para defendê-la. Passei a mão na cabeça. Percebi que não havia nada antes da minha imagem parada na porta a observar essa velha que agora me deixara tão louco quanto ela. 

__ Você não está louco! Acalme-se. 

Eu caminhava pela sala. Queria sair dali. Eu deveria ir embora. Voltar... Voltar para onde? Eu não sabia de onde tinha vindo. “O que está acontecendo?”, pensei. E meu peito apertou-se ao mesmo tempo em que meu coração acelerou. Sentia enjoo. A cabeça rodopiava. E ela paciente esperava que eu me acalmasse. 

__ A sensação do despertar é sempre essa. Mas com o tempo você se acostumará e verá as inúmeras possibilidades que há aqui. Acredite em mim. Nós estamos melhores aqui que eles do lado de lá. Aqui somos livres. 

As palavras dela chegavam aos meus ouvidos de modo profundo e complexo. Finalmente, sentei-me. Não que eu estivesse me acalmando, e sim porque as pernas fraquejaram. Tentava fixar meu pensamento em alguma lembrança anterior a minha aparição naquela porta, todavia minha cabeça era um nada absoluto. Só as últimas revelações da velha ecoavam dentro dela.

__ A liberdade que experimentamos do lado de cá é a nossa recompensa. Sinta-a. Absorva essa prazerosa sensação. – A voz rouca da velha foi ganhando força sobrenatural. O tom era quase hipnótico. - Deixe que ela entre pelos seus poros. Que percorra suas veias. Que alcance sua razão. Que envolva sua alma. – Ela fechou os punhos com tamanha força que eu pude notar suas veias da mão ressaltarem e gritou. – Liberte-se!

Algum tipo de trovão percorreu a sala. E eu notei que tudo escurecia ao meu redor. A última lembrança que tenho daquele momento era dos olhos amarelos de Wade dentro dos meus. Não sei se dormi ou desmaiei. Mas tenho certeza que foi por um longo tempo. 

                                              ...

Era tanta claridade que eu não conseguia abrir os olhos. Esforcei-me até que finalmente consegui. Fiquei um tempo ali deitado no chão sem entender onde estava. “Foi tudo um sonho!”, respirei fundo e fechei os olhos novamente. Lentamente e de olhos fechados me virei de lado. “Tudo aquilo foi um terrível pesadelo.”, conclui e sorri.

__ Seria reconfortante se fosse, não é mesmo? 

Levantei-me rapidamente e me deparei com o sorriso amarelado da velha. Agora podia vê-la nitidamente. Cabelos em coque no alto da cabeça. Pele sardenta. A mão tocou meus cabelos carinhosamente. 

__Venha comigo! – e ela passou seu braço pelo meu. E nos levou até a porta onde tudo isso começou. Eu só a acompanhava. Não tinha outra opção. Na varanda, notei um dia maravilhosamente ensolarado. Um jardim florido e muito bem cuidado era tudo o que separava a casa da rua que tinha outras casinhas simples exatamente como aquela. Em um banco, Wade espreguiçava-se gordo e lindo. 

__Vamos nos sentar ali.
__ Sim, senhora.
__ Está mais calmo? 
__ Não sei se essa é a sensação. 
__ Vai ficar em alguns minutos. Eles é que não ficarão. Mas eu os entendo. A inveja da nossa liberdade do lado de cá, os consome. Nunca terão o que temos. E mesmo que não se conformem com isso, sempre nos vigiam. Precisam alimentar-se de nós! Não nos afetam depois que chegamos aqui. Servimos de alimento para eles, de esperança, de mola de impulsão para suas vidinhas limitadas... Eles precisam de nós, mas nós independemos deles. 

__ Eu não estou entendendo nada. Me desculpe! Eu não sei nem mesmo como tudo isso começou. Estou confuso. Afinal, senhora, quem é você e quem sou eu?

Wade aproximou-se e pulou no meu colo. Assustei-me, mas acariciei o bicho que ronronou em agradecimento. 

__ Você é um de nós. – disse enfim... Wade. Sim! Wade disse-me isso. Wade, o gato negro da velha misteriosa. E uma sensação de desespero tomou-me de vez. Os dois riram e em coro disseram: vai começar tudo outra vez. 
__ O gato falou! Meu Deus! Eu morri! É isso! Estou no mundo dos mortos. Meu Deus! Como morri?
__ Você se sente morto?
__ Não!
__ Então...
__ Então, estou louco. É isso?
__ Se sente louco?
__ Não sei. Por favor, me responda.

Ela suspirou. Desses suspiros que se dá quando vamos pegar uma longa e cansativa jornada. 

__ Você nem morreu nem está louco. Pelo contrário, ontem você nasceu. Está com menos de 24 horas de vida. 
__ Como assim?
__ Ontem a noite alguém de lá foi possuído de uma vontade incontrolável de parir um ser novo. Alguém precisava expurgar alguma ideia e você nasceu dessa necessidade, dessa possessão. Você é fruto de uma ideia. Todos aqui somos. Meu nome é Amélia. Esse é o gato que nasceu de uma noite insone dela. Eu dei o nome de Wade porque significa “Andarilho”. Somos todos personagens dela. 
__ Personagens?
__ Sim! Fomos criados porque ela adora escrever. E vivemos aqui no mundo da Ficção em liberdade que nem ela nem eles têm. 
__ Quem são eles? Quem é ela?
__ Eles? Eles são os que nos imortalizam. Eles são os prisioneiros de nossa liberdade. Eles estão aqui até agora presos a nós por curiosidade de saber quem somos nós. E só se deram conta agora de que eles são os alvos dessa história. – risadas – Alguns ficarão muito bravos com ela. Mas ela é assim mesmo. Inusitada. Louca, dizem alguns. Contudo, eles voltarão de vez em quando para se alimentar de nós ou de outros. Nós os chamamos simplesmente de “Leitores”. São muitos não dá para lembrar todos os nomes. Nem mesmo ela que é do mundo de lá conhece seus nomes.
__ E afinal, quem é ela?
__ Waleska. Uma criatura taxada de louca desde menina. E no fundo, até acho que ela é. Todavia, é da loucura dela que nascemos. Esse mundo que você vê foi todo criado por ela. Esse jardim, essa rua, cada um dos moradores que aqui vivem somos todos filhos do mesmo cérebro, da mesma mente, mas não da mesma ideia. 
__ Então, eu sou só um personagem?
__ Não! Só uma personagem, não. Você é O personagem dessa viagem. E agora poderá ser o que quiser e morar onde quiser nesse nosso mundo. Eles irão embora e só ela sabe o que acontece aqui. 
__ Eu quero é comer algo porque estou com muita fome.
__ Concordo com ele, Amélia. Também, estou com fome.
__ Wade, você está sempre com fome. Vamos entrar e comer bolinhos de chuva com café. 

Eles se levantam e suas vozes vão sumindo junto com eles para dentro da casa. E quanto a você leitor, até a próxima vez. Tchau!
(Waleska Zibetti)

Sobre Produção Literária:
Deixe-me falar um pouco sobre a arte de escrever. Nunca me olhei como escritora e nem pretendo fazê-lo um dia. Olho meus escritos como uma necessidade na minha vida. E o meu processo criativo é viver, ler, pensar, ruminar e escrever.

Saio pelas ruas com olhos atentos ao detalhes, ao imperceptível a grande maioria. Permito-me atrasos se for uma prosa ou uma paisagem. Já corri muito até entender que Deus me deu pernas curtas para que andasse miúdo. Hoje, passeio pela vida. E passeando por ela vivo melhor.


Leio centenas de coisas e poucas me prendem. Os grandes autores me deixam frases soltas. Geralmente um livro inteiro desses caras me faz perder o tesão por eles porque são chatos. Leio os grandes como quem toma doses homeopáticas de um remédio qualquer. Sou feita de remendos literários. Um Frankenstein poético.


Depois de ingerida minha dose literária, penso, repenso, analiso, critico, discuto... Tudo comigo mesmo! "Coisa de gente aluada!", sentencia minha mãe. Eu sou aluada porque vivo por ali na lua, em Shangrilá, Oz, Xanadu, País das Maravilhas, Mundo de Sofia, Asteróide B612... Eu estou em universos longínquos e por isso mesmo tão consciente de minhas responsabilidades com esse mundo ao qual pertenço.


Então, é hora de pôr no papel tudo aquilo que ficou inquietando, tomando forma, revirando meus íntimo. A coisa volta na madrugada. Sou ruminante de ideias, de pensares. E despejo no papel minhas impressões de cenas cotidianas. Dou um título e jogo para o próximo que lerá, que pensará, que ruminará e explodirá em um ponto além do meu.

Escrever para mim é expandir-me. É o meu alongamento diário. E resumo essa arte, esse dom, da seguinte maneira: se aos lusos o navegar é preciso, aos loucos é necessário escrever.

Beijos literários a todos.

Eu, modo de usar

Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir. Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar. Acordo pela manhã com ótimo humor mas… permita que eu escove os dentes primeiro. Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza.
Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas e nem seja preconceituoso, não perca tempo, cultivando este tipo de herança de seus pais. Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude. Eu saio em conta, você não gastará muito comigo. Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa. Respeite meu choro, me deixe sozinha, só volte quando eu chamar e, não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada. (Então fique comigo quando eu chorar, combinado?).
Seja mais forte que eu e menos altruísta! Não se vista tão bem… gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço. Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado, você tem que se esfolar às vezes, mesmo na sua idade. Leia, escolha seus próprios livros, releia-os. Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos. Seja um pouco caseiro e um pouco da vida, não de boate que isto é coisa de gente triste. Não seja escravo da televisão, nem xiita contra. Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.
Me enlouqueça uma vez por mês mas, me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca… Goste de música e de sexo. Goste de um esporte não muito banal. Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa, apresentar sua família… isso a gente vê depois… se calhar… deixa eu dirigir o seu carro, que você adora. Quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulheres, tenha amigos e digam muitas bobagens juntos. Não me conte seus segredos… me faça massagem nas costas. Não fume, beba, chore, eleja algumas contravenções. Me rapte! Se nada disso funcionar… experimente me amar!

Martha Medeiros

Au Revoir
Até o Próximo Texto

domingo, 19 de outubro de 2014

Com você... Meu mundo ficaria completo

"Eu só queria te contar
Que eu fui lá fora
E vi dois sóis num dia
E a vida que ardia sem explicação..."
(O Segundo Sol, Comp.: Nando Reis)


Se hoje fosse traduzir minha semana, meu momento num álbum seria esse: Com você... Meu mundo ficaria completo.
Até a sonoridade de pronunciar o nome do CD é poética e pra quem escuta faixa a faixa entende o que significa cada canção.

Esse sem dúvida é o melhor disco de Cássia Eller e de quebra um dos mais belos da MPB.
Com Você...Meu Mundo Ficaria Completo,é o auge do sucesso da cantora no fim da década de 90 (Este álbum é de 1999). Como grande intérprete que foi, Cássia traz no disco composições de diversos gêneros e de autoria de vários grandes nomes da música brasileira como Arnaldo Antunes, Pepeu Gomes, Marisa Monte, Carlinhos Brown, Nando Reis entre tantos outros. O disco já começa com seu maior sucesso, Segundo Sol, que segundo a própria cantora, ela roubou de Nando Reis.
O disco inteiro é um convite para uma conversa bem intimista e uma passagem para a fase mais feminina deste que  é o melhor álbum da carreira brilhante, porém curta, de uma das maiores vozes que este Brasil pôde conhecer.

Quer baixar este cd?
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Até o próximo Post
Au Revoir

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

MORRO DOS VENTOS UIVANTES

RESENHA
Por Gabriella Gilmore



Morro dos ventos uivantes

Considerado um dos clássicos da literatura inglesa, Wuthering Heights (Morro dos ventos uivantes), de Emily Brontë, faz jus ao título.
Este romance é narrado por duas pessoas, o Sr. Lockwood, o futuro inquilino de Heathcliff e a ama Ellen Dean, que assume a narrativa no decorrer da trama, ao relatar ao locatário todo o drama vivido naquelas terras.
Tudo começa quando Sr. Earnshaw traz um menino de rua como “presente” para sua filha Catherine, ao voltar de sua viagem a Liverpool.
Como o senhor estava se afeiçoando mais ao seu filho adotivo do que ao seu legítimo, Hindley, isso gera um ciúme e revolta excessiva no adolescente, descontando tudo depois do falecimento dos pais.
Heathcliff e Catherine cresceram juntos, amando-se e até mesmo respeitando o temperamento difícil de ambos, afinal, Catherine era muito ativa, espontânea e dual, algo que, mais adiante, foi motivo para prejudicar a relação entre eles. Porém, Heathcliff, era mais calado, sombrio e vingativo. Aproveitou muito da confiança de seu pai, para assim fazer chantagens a Hindley. Prova disso foi o ódio que ele cultivou do irmão emprestado.
Em uma de suas andanças pelos arredores de Wuthering Heights, o casal resolve chegar próximo à casa dos Lintons. Na fuga de volta para casa, Catherine se machuca e logo é resgatada pelos empregados dos Lintons que, levando-a para casa, resolvem tratar de seu ferimento. 
Heathcliff retorna ao Morro e avisa do acontecido. 
Passam-se umas semanas, ela retorna mais polida e educada. Ali encontra seu amigo sujo e ainda mais amargurado, afinal, ela o abandonou sem mandar um recado.
Com o decorrer dos dias, Catherine foi ficando mais íntima dos irmãos Isabela e Edgar Linton e acaba aceitando o pedido de casamento do refinado rapaz.
Ao contar a novidade para sua ama, Ellen Dean, Catherine confessa seu amor eterno por Heathcliff, falando que ele é mais ela do que ela mesma, e não sabe do que é feito as almas, porém tem a convicção de que ambas são iguais. Ela se casando com Heathcliff, seria o mesmo que degradar-se, contudo se casando com Linton, esta poderia de alguma forma ajudar o pobre rapaz.
Mal sabia Catherine o caos que estava fazendo em enganar o próprio coração.
Em algumas partes da trama, você quer sufocar Catherine por não ter escutado a voz interna do coração e por ter se casado com Edgar por vaidade.
Outras vezes, você quer estrangular Heathcliff por ser tão amargo e vingativo, e por levar adiante uma vingança lenta e fria, sacrificando até mesmo a segunda geração de ambas famílias..
O interessantíssimo da história é que é quase impossível você julgar ou tentar achar um culpado por toda aquela desgraça amorosa. E ainda acredito que essa foi a grande chave para todo o sucesso da autora Emily, afinal, seus primeiros escritos foram recusados por várias editoras.
Eu ficaria aqui horas relatando os pontos marcantes, não só da história, mas também da trajetória de vida da autora, que morreu aos 30 anos, sem mesmo ter se casado, mas que conseguiu relatar um amor tão bonito, tão profundo, mesmo que reprimido.
E a mensagem que ela quer nos deixar é para que não silenciemos nossos corações, porque amor é como um sopro de vida, e só acontece uma vez. Se você finge não escutá-lo, desfalece-se aos poucos, e as conseqüências são lentas, porém, dolorosas demais.


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O Mundo de Todos Nós



“O mundo pode ser um palco.
 Mas o elenco é um horror.”
 (Jostein Gaarder, in “O Mundo de Sofia”)


Há alguém olhando por nós ou estamos sozinhos? O que acontece quando tudo acaba? Qual é o seu papel no mundo? Penso que Jostein Gaarder quis bem mais que falar de filosofia em sua obra. Penso que ele quis nos tirar de um lugar cômodo e seguro onde pensamos estar, para fazer com que nós nos movimentemos em dúvidas inquietantes. Quem ousaria pensar e ir até a ponta do pêlo do coelho branco anteriormente? Poucos!

Li  “O Mundo de Sofia” aos trinta anos. Um momento de despertar em minha vida. Tinha recém tido meu segundo filho e meses que eu morava numa nova cidade onde não conhecia ninguém. Foi fácil manter-me mergulhada nesse universo de pensamentos insanos proposto pelo escritor. E a medida que eu mergulhava nele, eu me trazia a tona.

Não é fácil a leitura desse livro. E se você tiver preguiça de pensar, ele pode tornar-se enfadonho. São muitas informações sobre linhas filosóficas misturadas a trajetória de uma adolescente curiosa. A escolha de uma heroína não torna o livro mais leve. Em minha opinião, o autor foi inteligentíssimo na escolha adolescente. Adolescentes são curiosos e não temem experimentar-se e ousar. E é através desses olhos adolescentes e curiosos que ultrapassamos o portal para dentro de nós e algumas de nossas dúvidas primordiais.

Há alguém olhando por nós ou estamos sozinhos? Quando posso olhar as estrelas a noite, me pego a perguntar em qual delas Deus mora. E rio sozinha pensando de onde tiro essas bobagens.  Talvez Deus não exista. Talvez nenhum desses avatares supremos exista. Mas me conforta imaginar que há além do limites que minha compreensão alcança alguém que me cuide, que me protege do mundo, que me orienta nos momentos de dúvida e que vibra nos meus momentos de chegada. Se Ele não existe, ao menos, Ele me conforta na ideia de que está lá em alguma estrela me amando incondicionalmente e torcendo por mim.

O que acontece quando tudo acaba? Imagino que um dia eu amanhecerei a esquina de uma rua longa onde casinhas simples de cores claras e sem cercas estarão começando seu dia. Cheiros bons de café e bolo quente estarão cobrindo a rua onde eu caminharei levando apenas uma mochila nas costas carregada de pequenas coisas como sonhos, sentimentos bons, pensamentos... Até que em uma das casas da varanda meu pai me sorrirá e me abraçará dizendo “Bem vinda!”. E haverá tanto amor e carinho nessa recepção que pouco me importará porque estou ali. E tudo que se passou de tristeza e dor, morrerá naquele abraço. E eu terei renascido para uma nova história num mundo aonde só vão os que não tiverem medo desse aqui.

Qual é o seu papel no mundo? Meu papel é o de aprendiz. Esse mundo que estamos é o mundo do servir, da doação, da superação. E aprendemos ao servir sobre a humildade e sobre a ingratidão, sobre o desprezo e sobre a gratidão. Doando-se aprendemos sobre o amor e ódio, sobre o ter e a falta, sobre humilhação e engrandecimento. E nos momentos de superação aprendemos sobre força, união, coragem, amor e fé. Foi servindo que aprendi o valor de um “obrigado” e foi sendo servida que aprendi como é bom poder contar com alguém. Vou me doando que aprendi a não me queixar da vida e foi recebendo que aprendi o real valor de um abraço na hora da dor. Foi erguendo alguém da queda que entendi porque Deus me fez essa fortaleza que aparentemente sou e onde muitos se apoiam. E foi caindo que aprendi que Deus está lá nas estrelas, mas quando preciso, Ele vem correndo me aparar aqui na terra. E o meu papel no mundo é aprender como me humanizar todos os dias para continuar a ser merecedora desse acolhimento divino. 

Quem ousaria pensar e ir até a ponta do pêlo do coelho branco anteriormente? Não eu! Mas graças a esse livro e tantos outros, eu cheguei lá. E de lá não quero mais sair. Hoje caminho pelas pontas dos pêlos em busca de algo ainda além. Porque sei que há alguém além. Sempre há para quem se dispões a ir além.


Até a próxima leitura. 


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Eu tenho medo de fracassar...

Já tive medo também. Medo do encontro comigo, receio do encontro com o outro. Um pavor de perder o que conquistei - e o que deixei a vida me ensinar. Um medo, forte, de não me reconhecer, de pedaços meus fugirem (para nunca mais voltarem). Bate uma aflição: e o meu espaço, e eu, e nós, e o que eu queria para a minha vida?
(Clarissa Corrêa)



O homem nunca pode parar de sonhar; o sonho é o alimento da alma, como a comida é o alimento do corpo. Muitas vezes, em nossa existência, vemos nossos sonhos desfeitos e nossos desejos frustrados, mas é preciso continuar sonhando, senão nossa alma morre.
O Bom Combate é aquele que é travado porque o nosso coração pede.
O Bom Combate é aquele que é travado em nome de nossos sonhos. Quando eles explodem em nós com todo o seu vigor - na juventude - nós temos muita coragem, mas ainda não aprendemos a lutar.
Depois de muito esforço, terminamos aprendendo a lutar, e então já não temos a mesma coragem para combater. Por causa disto, nos voltamos contra nós e combatemos a nós mesmos, e passamos a ser nosso pior inimigo. Dizemos que nossos sonhos eram infantis, difíceis de realizar, ou fruto de nosso desconhecimento das realidades da vida. Matamos nossos sonhos porque temos medo de combater o Bom Combate.
O primeiro sintoma de que estamos matando nossos sonhos é a falta de tempo.
As pessoas mais ocupadas que conheci na minha vida sempre tinham tempo para tudo. As que nada faziam estavam sempre cansadas, não davam conta do pouco trabalho que precisavam realizar, e se queixavam de que o dia era curto demais: na verdade, elas tinham medo de combater o Bom Combate.
O segundo sintoma da morte de nossos sonhos são nossas certezas.
Porque não queremos aceitar a vida como uma grande aventura a ser vivida, passamos a nos julgar sábios, justos e corretos no pouco que pedimos da existência.
Finalmente, o terceiro sintoma da morte de nossos sonhos é a Paz. 
A vida passa a ser uma tarde de Domingo, sem nos pedir grandes coisas, e sem exigir mais do que queremos dar. Achamos então que estamos maduros, deixamos de lado as fantasias da infância, e conseguimos nossa realização pessoal e profissional. Mas na verdade, no íntimo de nosso coração, sabemos que o que aconteceu foi que renunciamos à luta por nossos sonhos, a combater o Bom Combate.
Quando renunciamos aos nossos sonhos e encontramos a paz, temos um pequeno período de tranquilidade. Mas os sonhos mortos começam a apodrecer dentro de nós, e infestar todo o ambiente em que vivemos.
Começamos a nos tornar cruéis com aqueles que nos cercam, e finalmente passamos a dirigir esta crueldade contra nós mesmos. Surgem as doenças e as psicoses. O que queríamos evitar no combate - a decepção e a derrota - passa a ser o único legado de nossa covardia. E um belo dia, os sonhos mortos e apodrecidos tornam o ar difícil de respirar e passamos a desejar a morte, que nos livra de nossas certezas, de nossas ocupações, e daquela terrível paz das tardes de domingo.”

Só uma coisa torna um sonho impossível: o medo de fracassar.


Até o próximo texto
Au Revoir

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Somos, Seríamos e Seremos todas Sofias!

O homem deveria aceitar o seu destino. Nada acontece por acaso, diziam os estóicos. Tudo acontece porque tem de acontecer e de nada adianta alguém lamentar a sorte quando o destino bate à sua porta.
Também as coisas felizes da vida devem ser aceitas pelo homem com grande tranquilidade.
Ainda hoje falamos de uma 'tranquilidade estóica' quando queremos nos referir a uma pessoa que não se deixa inflamar por seus sentimentos.
(Jostein Gaarder - O mundo de Sofia)
Quem é você? De onde vem o mundo? 
Quem em algum momento da vida não se fez essas perguntas?
Este livro para mim chegou em um momento oportuno: 15 anos. Talvez uma das fases da vida em que mais nos questionamos e a mente pulsa por respostas. Este ainda conseguiu me auxiliar na disciplina de filosofia da Escola e conseguiu introduzir um pouco dos pensadores e filósofos pré-socráticos aos contemporâneos desde Aristóteles, Santo Agostinho, Descartes, Kant, Marx e até Darwin! 
O livro começa quando Sofia Amundsen, em vias de completar 15 anos, recebe pelo correio cartas endereçadas a ela com perguntas muito estranhas, mas, que são comuns nesta tenra idade. "Sua Felicidade" então começa quando ela recebe através de cartas anônimas um misterioso curso de filosofia. Junto com isso, ela também recebe cartões postais destinados a uma menina chamada Hilde Knag, que Sofia não tem a mínima ideia de quem seja.

Se o cérebro humano fosse tão simples ao ponto de podermos entendê-lo, nós seríamos tão idiotas que não conseguiríamos entendê-lo.

Afinal de contas o que seria a filosofia? É uma pergunta interessante. Não observamos quase ninguém perguntar, por exemplo, o que é matemática ou física? Mas se acha natural perguntar: o que é Filosofia?
A grande sacada do livro O Mundo de Sofia foi ter percebido que não se pode introduzir e divulgar a filosofia através dos textos especializados dos próprios filósofos: seria o mesmo do que tentar ensinar geometria através dos textos de Euclides, música através das partituras de Beethoven, ou física através dos textos de Copérnico. Os filósofos, assim como os músicos ou os cientistas, produzem obras cujo destinatário são os outros profissionais e não aos adolescentes.

"Duas coisas me enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e frequentemente o pensamento delas se ocupa: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim".

O autor conseguiu introduzir didaticamente para cabecinhas compreendidas entre 15 e 20 anos de idade uma leitura e estudos filosóficos e é aconselhável também para todos aqueles que querem conhecer um pouco mais desse universo incrível.Quem sabe, um dia Gaarder não lance seu romance da contra-história da filosofia e fale dos Utilitaristas, Materialistas, Libertinos, Nietzschianos, entre outros.

“[...] um coelho branco é tirado de dentro de uma cartola. E porque se trata de um coelho muito grande, este truque leva bilhões de anos para acontecer. Todas as crianças nascem bem na ponta dos finos pelos do coelho. Por isso, elas conseguem se encantar com a impossibilidade do número de mágica a que assistem. Mas conforme vão envelhecendo, elas vã se arrastando cada vez mais para o interior da pelagem do coelho. E ficam por lá. Lá embaixo é tão confortável que não ousam mais subir até a ponta dos finos pelos lá em cima. Só os filósofos têm ousadia para se lançar nessa jornada rumo aos limites da linguagem e da existência. Alguns deles não chegam a concluí-la, mas outros se agarram com força aos pelos do coelho e berram para as pessoas que estão lá embaixo, no conforto da pelagem, enchendo a barriga de comida e bebida.
– Senhoras e senhores – gritam eles -, estamos flutuando no espaço
Mas nenhuma das pessoas lá debaixo se interessa pela gritaria dos filósofos
– Deus do céu! Que caras mais barulhentos! – elas dizem.
E continuam a conversar: será que você poderia me passar a manteiga? Qual a cotação das ações de hoje? Qual o preço do tomate? Você ouviu dizer que a Lady Di está grávida de novo?” p. 31

Até o próximo texto
Au Revoir

sábado, 11 de outubro de 2014

Pequena Sempre. Princesa às vezes.



“Quando o mistério
é impressionante demais
a gente não ouça desobedecer”
(Antoine de Saint-Exupéry, in “O Pequeno Príncipe”)

Quando vi “O Pequeno Príncipe” pela primeira vez, eu era ainda muito pequena para entender o gigantismo daquela obra. Contudo, lembro-me que sentada no colo de meu pai, chorei inconformada porque o piloto fora descuidado permitindo assim que o principezinho fosse se encontrar com a serpente. E o meu pai dizia “Um dia você irá entender”.

Ao longo de minha vida, li centenas de vezes esse livro. E a cada vez que relia, entrava em um dos personagens. Todas as vezes que leio, é como livro novo. Um novo ponto me chama atenção. Um novo personagem sou eu. Como se o livro se reescrevesse toda vez que o fecho.

“Quando a gente anda sempre para a frente,
não se pode mesmo ir longe...”
(Antoine de Saint-Exupéry, in “O Pequeno Príncipe”)


O principezinho me ensinou que na vida é preciso desviar o caminho, perder-se por aí no inimaginável para se testar, se explorar. Quando não estamos no caminho que esperam de nós, damo-nos a chance de ficar só, de repensarmo-nos e reinventarmo-nos. Estar só por caminhos inesperados, é a chance para o autoconhecimento. E posso, afirmar-lhes queridos, nada é mais incrível que poder se conhecer profundamente. Conhecer-se é respeitar-se!  E quando nos respeitamos, entendemos a grandeza que há no respeito pelo outro. Porque passamos a nos ver como um universo de sentimentos e emoções vivas; e se assim somos, o outro também será. Somos nesse mundo uma imensidão de universos que se unem, se chocam, se expelem... Dentro da proteção de um universo maior que nos aproxima e iguala em importância. Complexo? Sim! Mas não inadmissível.

“É triste esquecer um amigo”
(Antoine de Saint-Exupéry, in “O Pequeno Príncipe”)

Nesses meus momentos comigo, penso muito em quantos me perderam e que perdi. Algumas pessoas, eu realmente gostaria de reencontrar. Fico pensando se essa pessoa pensa o mesmo sobre mim. Deve ser bom quando menos se espera abrir a caixa do correio e encontrar um cartão dizendo “Lembrei de você!” depois de longos anos de silêncio. Mas eu já mudei tanto de endereço que sei que esse cartão nunca chegará. E isso me lembra que o tempo passa e que mudamos. É preciso aprender a não perder pessoas por aí!

Já reparou que a velhice é solitária? Mesmo para os que são avós de dezenas de neto, há um não sei que de saudade em seus olhos. E em algum momento eles se sentam olhando para além de si e provavelmente procuram pessoas dentro deles, rostos e histórias que se perderam deles. É, por isso, que precisamos ser pacientes com os velhos. Quanto mais velho mais foram esquecidos e mais esqueceram.  E quanto não deve ter de saudade neles. Saudades de setenta, oitenta anos doendo em seus peitos. Pense nas suas saudades e multiplique pelos anos seus pais e avós. Consegue sentir a carência deles agora?

“Há milhões e milhões de anos que as flores produzem espinhos.
Há milhões e milhões de anos que, apesar disso, os carneiros as comem.
E não será importante procurar saber por que elas perdem tanto tempo
produzindo espinhos inúteis? Não terá importância
a guerra dos carneiros e das flores?”
(Antoine de Saint-Exupéry, in “O Pequeno Príncipe”)

Por que persistimos em velhos erros? Por que insistimos em reabrir feridas? Já pensou nisso? “Nunca mais caio nessa!”, repetimos para pouco tempo depois sermos levados aos mesmos erros como se um vício nos tomasse e nos arrastasse por ele. Cansei de esmurrar as paredes, sabe? Hoje vejo que é preciso errar para evoluir. E que a tentativa em velhas causas é a crença de que um dia tudo muda. E essa crença é fundamental para que não desistamos de nós, do outro, da vida, da fé, do amor... Errar é a certeza de que não ficamos indiferentes as nossas necessidades; a certeza de que tentamos, de que nos superamos... Errar é evoluir. Evoluir é ampliar-se tirando os olhos de si para ganhar o mundo. Estamos de passagem aqui rumo a um lugar maior para onde só irão os que entenderem esse processo evolutivo doloroso, às vezes, mas necessário.

“Não soube compreender coisa alguma!
Deveria tê-la julgado por seus atos, não pelas palavras.
Ela exalava perfume e me alegrava...
Não podia jamais tê-la abandonado.
Deveria ter percebido sua ternura
por trás daquelas tolas mentiras.
As flores são tão contraditórias!
Mas eu era jovem demais para amá-la.”
(Antoine de Saint-Exupéry, in “O Pequeno Príncipe”)

Essa é uma das partes que mais releio no livro. Onde mais choro. Sou dessas pessoas que a maioria não entende e que por não entender rotula ou abandona. Tenho em meu coração sentimentos inexplorados e sufocados. De todos eles, o que mais lateja é o amor. Queria muito ser amada! Mas sou a rosa que o príncipe não viu até ser tarde demais. Sou a rosa que vaidosa esconde a carência de amor. A rosa que orgulhosa não diz “Fica!” preferindo sustentar o olhar e a voz forte no “Adeus!”.

Quantas vezes o orgulho matou você? Quantas vezes a vaidade sabotou sua felicidade? Despercebidos, deixamos sentimentos tão mesquinhos detonarem com jardins de sentimentos lindos que levamos anos para cultivar. Ah, como somos ignorantes em relação ao amor! Ainda estamos nas cavernas escuras no que diz respeito a doar. Somos sempre rosas abandonadas ou príncipes abandonadores. Procurando além o que na maior parte das vezes está tão ao alcance de nossas mãos. Por quê? Você sabe o porquê disso? Sabe por que nos esquecemos de dizer “eu te amo” ao longo dos anos ou porque nos esquecemos de dizer “você é especial” para alguém que admiramos? Pois é! A maioria de nós é eternamente jovem demais para amar.

As pessoas grandes
são muito esquisitas”
(Antoine de Saint-Exupéry, in “O Pequeno Príncipe”)


Quando eu tinha dez queria ter quinze. Quando fiz quinze queria ter dezoito. E quando fiz dezoito desejei nunca envelhecer. E não envelheci!

Meu invólucro está velho, já até meio cansado, mas minha alma permanece intacta com dezoito anos. Sonhadora, libertária, esperançosa, imaginativa... Todos os dias acordo e olho o mundo com olhos de explorador. Há dias que vou aos castelos resgatar pessoas de masmorras, em outros caço dragões, há dias de romances em mundo desconhecidos e dias espartanos. Choro e sofro como qualquer um. Todavia, a vida é inexplicavelmente mágica a meu ver hoje. E assim, sou inexplicavelmente feliz.


“Os vaidosos só ouvem os elogios”
(Antoine de Saint-Exupéry, in “O Pequeno Príncipe”)

A passagem do príncipe pelo planeta do vaidoso, do bêbado, do empresário, do acendedor e o geógrafo; pode parecer tola, mas são alfinetadas nos adultos. Tão afiadas alfinetadas que, geralmente, os adultos não as citam em seus trechinhos. E tem muitas coisas bacanas por lá, tais como:

“__ Mas só tu moras no teu planeta!
__ Dá-me esse prazer. Admira-me assim mesmo!
__ Eu te admiro – disse o principezinho, dando de ombros. – Mas de que serve isso?”


“__ Por que bebes? – perguntou-lhe o pequeno príncipe.
__ Para esquecer – respondeu o beberrão.
__ Esquecer o que? – indagou o principezinho, que já começava a sentir pena dele.
__ Esquecer que eu tenho vergonha. – confessou o bêbado baixando a cabeça.
__ Vergonha de que? – perguntou o príncipe, que deseja socorrê-lo.
__ Vergonha de beber! – concluiu o beberrão, encerrando-se definitivamente no seu silêncio.”

“__ Como pode a gente possuir estrelas?
__ De quem são elas? – respondeu, exaltado, o empresário.
__ Eu não sei. De ninguém.
__ Logo, são minhas, porque pensei nisso primeiro.”

“__ Bom dia. Por que acabas de apagar teu lampião?
__ É o regulamento – respondeu o acendedor. – Bom dia.
__ Qual é o regulamento?
__ É apagar o meu lampião. Boa noite.
E tornou a acender.
__ Mas acabas de acendê-lo de novo?
__ É o regulamento – respondeu o acendedor.
__ Eu não compreendo – disse o príncipe.
__ Não é para compreender – disse o acendedor. – Regulamento é regulamento. Bom dia.”


“__ O seu planeta é bonito. Há oceanos nele?
__ Não sei te dizer – disse o geógrafo.
__ Ah! (O principezinho estava decepcionado.)E montanhas?
__ Não sei te dizer – disse o geógrafo pela terceira vez.
__ Mas o senhor é geógrafo.
__ É verdade – disse o geógrafo – Mas não sou explorador. Faltam-me exploradores!”

Esses encontros são partes onde o autor mais espeta os defeitos típicos dos adultos: o “eu me amo”, os “fins justificam os meios”; o “eu tenho dinheiro, logo posso tudo”, o “siga as regras sem questionar” e o “cada macaco no seu galho”. Eu particularmente acho incrível. Natural já que não sou adulta! Lembra-se? Ainda tenho dezoito. E ainda me pego a pensar, como o principezinho, que “as pessoas grandes são mesmo extraordinárias”.

“__ Onde estão os homens? - tornou a perguntar o principezinho.
__ A gente se sente um pouco sozinho no deserto?
__Entre os homens a gente também se sente só
- disse a serpente. ”
(Antoine de Saint-Exupéry, in “O Pequeno Príncipe”)


A solidão é o mal do mundo moderno. Conheço Paris, mas não conheço meu vizinho. Leio “The New York Times”, mas não sei o que se passa no meu bairro. O mundo ampliou-se, mas estreitou as nossas relações com ele. Temos meios de comunicação que nos aproximam do mundo todo, mas não nos falamos mais à mesa de jantar. Isso é esquisito, não é? Eu não sei nada de você que, através dessa leitura, me conhece um pouco. E você está lendo isso porque esse blog me conecta com você que não sei quem é e que está não sei onde, mas que de algum modo agora estamos juntos. E você me dirá que livros fazem isso e são seculares. Sim! Mas eu nunca escrevi um livro. Logo, poderia ser só um rascunho qualquer num fundo de gaveta. Você nunca me conheceria, entende? Nunca leria meu pensamento. Veja que louco! Estamos nos falando, mas eu não estou aí e você não está aqui. Só que eu já pressinto você e você já sente a mim. A-rá! Somos dois loucos!!!

“__ Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde,
Desde às três eu começarei a ser feliz.”
(Antoine de Saint-Exupéry, in “O Pequeno Príncipe”)

A parte da raposa é a parte mais lírica de todo o livro, em minha opinião. Por volta dos trinta, penso que todos somos raposas no trigal. Mesmo que estejamos no melhor dos relacionamentos, na casa dos trinta uma lacuna se abre em nós e um abismo a nos observar encantador e enigmático. Esse abismo nos convida para um mergulho as cegas para dentro dele. Começamos a questionar tudo: amigos, parentes, posturas, escolhas, amores... Tudo precisa ser revisto. E então, nos sentamos no trigal com olhos esperançosos a espera de alguém que deverá chegar e nos alegrar. O que demoramos  a descobrir - e alguns nunca descobrem – é que esse ser tão esperado somos nós mesmos.

Passamos a vida toda encontrando pessoas todos os dias. Pessoas passam por nós como se nossas vidas fossem passarelas. Mas raramente temos tempo para nós. E vamos tornando tão carentes que um dia essa carência vira abismo e nos deparamos com uma realidade onde tanto temos e tudo nos falta. Partimos, as vezes, para vícios ainda piores: traição, auto-destruição, vícios químicos... Quando toda a cura para a lacuna aberta está no simples fechar de olhos e mergulho em si.

Somos como os oceanos. Já reparou? Conhecemos da lua, os astros, história de bilhões de anos atrás, e inúmeros textos literários e seus autores, mas não nos conhecemos. Ainda não podemos definir ao certo quais monstros se escondem dentro de nós. E a pergunta “Quem é você?” é respondida de maneira socialmente agradável, mas nem um pouco verossímil.

“As estrelas são belas
por causa de uma flor
que não se pode ver...”
(Antoine de Saint-Exupéry, in “O Pequeno Príncipe”)

Qual a sua razão de sorrir? Qual a sua razão para continuar? O príncipe tinha a rosa. Eu tenho a poesia. O que você tem?

Tudo que nos motiva é intrínseco, pessoal e particular. Há em todos nós buscas que ninguém entende. E sabe o que penso? De alguma maneira as minhas buscas serão importantes para você. E as suas serão para mim. Você não me conhece, mas está aqui a um longo tempo me lendo, se envolvendo em meus sentimentos e impressões. Quantas vezes você já me contestou e quantas vezes você concordou comigo? Se meus pensamentos não trouxessem nada para você, você já teria partido. Então, meu dom de escrever, de me expressar por palavras é importante para você que talvez não tivesse parado para pensar no que leu aqui ou simplesmente, não teria conseguido dizer com palavras embora os sentimentos se equiparem.

As estrelas são bonitas para mim, não por uma rosa que não vejo, mas porque elas me dão a esperança de que há em algum lugar alguém olhando para elas e pensando em mim também. Alguém que não posso mais ver, mas sei que me espera. Então, por que as estrelas são bonitas para você? Talvez essa noite você as olhe e pense: são bonitas porque a li.

“__As pessoas veem estrelas de maneiras diferentes.
[...] Tu, porém, terás estrelas como ninguém nunca as teve...
__ Que queres dizer?
__Quando olhares o céu a noite, eu estarei habitando uma delas,
E de lá estarei rindo; então será, para ti, como se toras as estrelas rissem!
De forma, tu, e somente tu, terás estrelas que sabem rir!”
(Antoine de Saint-Exupéry, in “O Pequeno Príncipe”)

Desde a primeira vez que vi “O Pequeno Príncipe” e chorei no colo do meu pai, muitas coisas aconteceram. Eu cresci, mudei, sofri, venci, perdi, vibrei... Li e reli essa história tantas vezes que quase sei de cór. E quando chego ao final ainda choro, mesmo que hoje não tenho mais um colo para amparar minha indignação. Mas a frase de meu pai “Um dia você irá entender”, tem todo sentido do mundo. As vezes, para sobreviver nessa vida tão exaustiva e exigente é preciso ter coragem de morrer.  Então, quando eu atinjo o ponto mais extremo de mim, pego coragem e me atiro no abismo. Mergulho para a morte daquela fase e ressurjo em algum outro lugar renovada. Então, fico em paz nas minhas noites deitada ouvindo no ar som bom da risada de meu pai sorrindo para mim das estrelas lá no céu.


Até o próximo livro! 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Por Aquilo que me Cativa!

"As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu porém, terás estrelas como ninguém... Quero dizer: quando olhares o céu de noite, (porque habitarei uma delas e estarei rindo), então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem sorrir! Assim, tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e estarei lá). Terás vontade de rir comigo. E abrirá, às vezes, a janela à toa, por gosto... e teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!"

(Le Petit Prince - Antoine de Saint-Exupery)



E pegando carona nesse fim de semana do Dia das Crianças resolvi revisitar umas lembranças literárias!E talvez a melhor delas seja em desenho seja em livro é essa magnífica obra prima de Exupéry O Pequeno Príncipe (Le Petit Prince , 1943).E para muitos era difícil imaginar que um livro assim pudesse ter sido escrito por um homem como ele em um período tão tenebroso para o mundo inteiro (Segunda Guerra mundial 1939-1945).

Hoje pergunto a você adulto, de cabeça pronta, bem sucedido e bem resolvido se a sua criança de ontem teria orgulho do que você é hoje! Quem teria coragem de me responder tal pergunta?

Pois é talvez o esquecimento da criança que nós fomos um dia nos tornou adultos incapazes de compreender os pequeninos. Pegando esse gancho, o autor se transforma em narrador das aventuras desse menininho que descobre o mundo fora da sua luazinha.

O principezinho havia deixado seu pequeno planeta, onde vivia apenas com uma rosa vaidosa e orgulhosa e em suas andanças pela Galáxia, conheceu uma série de personagens inusitados – talvez não tão inusitados para as crianças!


"Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que fez tua rosa tão importante."

Imagine-se após um acidente aéreo sozinho em pleno deserto por dias... 
Com um passado misterioso esse mesmo homem solitário (imaginário) encontra um menino também perdido em meio às areias escaldantes.
No entanto, o calor, a sede, a fome e todas as demais agruras humanas não parecem afligir o jovenzinho. Ignorando a anormalidade da situação os dois começam a conversar e o pequeno príncipe revela que, na verdade, vinha de um planeta muito pequenino e muito distante do nosso, em busca de aventuras e amizades.

" Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"


Não difere muito do que nós fazemos conosco em nossa vida: estamos sempre a procura do porque na vida, em busca de amigos, de crescimento, de dinheiro e esquecemos dos nosso valores principais de menino. Hoje muitas pessoas não entendem o alarde do livro e em torno dessa história mas, se você revisitar sua memória da mais tenra idade verá quanta coisa fez sentido.


“Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração.
O essencial é invisível aos olhos.”


Hoje eu poderia afirmar que o homem jamais encontrou de fato um "pequeno príncipe" e o deserto em questão era seu próprio coração.
O adulto perdido em si encontrou simbolicamente sua criança interior para lidar com problemas que o tornavam um homem solitário e perdido, que não permitia que as pessoas ao seu redor se aproximassem dele sentimentalmente.
Com sua criança interior ele aprende a se deixar cativar pelas coisas simples, a se deixar tocar pelas coisas belas da vida olhando para o que realmente importa: o que vive nos detalhes de cada um de nós e nos detalhes do outro. E principalmente a presentear aqueles que você diz amar com o mais precioso tesouro que você pode dar a alguém: seu tempo e seus sentimentos.


“Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde,
desde às três eu começarei a ser feliz!”

Para mim todas as vezes que senti e sinto o vento das mudanças na minha vida, seja elas uma mudança de comportamento, seja uma data como essa que se aproxima ou até mesmo as experiências ruins vejo que me fecho no mundinho que é meu. Mas e o que eu perdi com tudo isso, a oportunidade de ser feliz no dia de hoje.
Esse livro é recheado de pequenas lições e muita vida através das ilustrações se eu fosse contar mais um pouco vou acabar desmotivando a leitura de vocês, portanto, LEIAAAAM e desfrutem dessa pequena jóia.
E é melhor que cada um se deixe tocar e enxergar seus pequenos príncipes e princesas.

- Só as crianças sabem o que procuram, disse o principezinho. Perdem tempo com uma boneca de pano, e a boneca se torna muito importante, e choram quando a gente toma...
- Elas são felizes... disse o guarda-chaves.



Au Revoir ma Chérs 
Até o próximo texto!

Bonne journée des enfants ;)